Raggaleluia: o milagre de se tornar uma pessoa melhor

O primeiro disco de estúdio de KBrum, que chega na próxima sexta-feira pela Deck, revisita a sua trajetória num passeio profundo pela música afrodiaspórica

Raggaleluia: o milagre de se tornar uma pessoa melhor
Capa de Raggaleluia, por Rafael Símba

Na próxima sexta-feira, 09/10, KBrum lança o seu primeiro disco de estúdio – Raggaleluia, um passeio pela música afrodiaspórica que revisita, com profundidade e intimidade, a trajetória do MC caxiense na cultura soundsystem e na indústria musical. Nesse novo universo sonoro, as batidas eletrônicas e o flow intenso se chocam com texturas mais orgânicas, instrumentos variados e referências de ritmos e levadas de todo o mundo e diversas regiões do Brasil.

Uma virada de chave na caminhada de KBrum, que se apresenta mais vulnerável e maduro no disco produzido junto com WARMANDO, CARLO e Africanoise, numa imersão de mais de 100 diárias no estúdio Iglu. Com um time pesado de músicos, e participações de Gugs, Bruno Kroz, MASKOTTE, Maui, Ludom e Clara Ribeiro, o álbum foi construído a partir da busca por novas maneiras de inovar na sua arte – assim como fez com o grime e o drill há mais de seis anos.

Partindo do reggae como ponto norteador – e entendendo essa potência afrodiaspórica como um milagre que a música fez com o próprio KBrum e com a sociedade num todo –, o disco atravessa interpretações de ritmos como dub, dancehall, grime, jungle, bouyon e afrobeat, intensamente recheadas de fragmentos de ritmos regionais da nossa música popular. Essa sonoridade mais orgânica, popular, centrada na sobreposição, se encontra com um discurso que atravessa espiritualidade, identidade e pertencimento – tensionando a relação entre música, fé e território.

Clipe de "Deus Me Livre", colaboração com Gugs que foi o segundo single do projeto

Integrando a Leigo Records e o Jamaicaxias, o artista vem de uma trajetória longa na cultura soundsystem, e começou trabalhando com o cruzamento entre drill, grime, dancehall e dub nos EPs VAPO (2019) e Sabe Quem Tá de Volta? (2021), que tinham uma identidade sonora muito mais eletrônica. Puro Suco (2024) já apresentava uma sonoridade mais voltada para o dancehall e o dub, subvertendo um pouco mais essas batidas e se aproximando dessa tradição caribenha.

Raggaleluia nasce da relação de KBrum com a Baixada Fluminense, parte indissociável da sua identidade. O seu contato com a música se deu, primeiramente, através dos instrumentos, com banda, igreja e uma família de músicos. Dentro da cultura soundsystem, começou a rimar e se entender como MC e participante ativo desse movimento. O disco chega como uma celebração à essa trajetória, unindo todas essas vertentes musicais que partem da cultura jamaicana – não só no aspecto musical, mas também de comportamento, gastronomia, do jeito de se relacionar com as pessoas –, ao mesmo tempo em que celebra o sincretismo religioso do Rio de Janeiro.

Um processo de pegar esses ritmos de fora e ir quebrando eles, substituindo os seus elementos e subvertendo as suas estruturas. Numa construção extremamente coletiva, de muito aprendizado, se formou um disco que procura conversar com qualquer um que venha da periferia, que more em uma região afastada do centro – mostrando que as coisas podem ser diferentes, acreditando no melhor das pessoas e que é possível fazer o que você realmente acredita.

Conversei com KBrum há alguns meses, quando o disco ainda não estava pronto, e na época, ele falou da importância da passagem de tempo nos processos. Algumas semanas atrás, conversamos de novo, num papo sobre maturidade, sonoridade popular e/ou pop, música afrodiaspórica, VANGUARDAH, sobreposição e muita fé. Enquanto o disco não chega, segue o papo na íntegra.


Na primeira conversa que a gente teve, o disco ainda não estava pronto, mas você comentou que ele seria uma celebração da sua trajetória, passando pelas várias vertentes da música e cultura afrodiaspórica. Na época, você ainda não tinha decidido o nome, mas já vinha chamando de Raggaleluia, uma expressão que você criou. Como foi o processo de lá até aqui, o que mudou e o que permanece norteando o projeto?

É um disco que reúne a trajetória da minha vida, musicalmente. Experienciando outras coisas – a vida de ser pai, de ser artista independente da Baixada Fluminense. O Jamaicaxias nasceu, a Leigo nasceu. Tudo isso permeia esse lugar artístico de experienciar a vida – e o disco é uma forma de eu expressar todas essas nuances que me construíram e ajudaram a consolidar a minha caminhada. 

Graças a Deus, o disco seguiu o mesmo caminho e continua trazendo essa parte da minha trajetória. O nome ficou esse mesmo – Raggaleluia. Era uma expressão que eu tinha achado para definir esse momento da minha vida. Eu sou captado pela cultura soundsystem, pela música reggae, pela cultura dancehall, o grime e toda essa diáspora – então eu fiz uma composição que traduzia tudo isso, e só aceitei. Eu já sabia que seria isso, mas eu tinha que aceitar. 

Esse processo de aceitação entra no desenvolvimento do disco, das outras coisas que a gente fez de janeiro até agora. Eu tive uma ótima assessoria musical com os meninos na produção – o WARMANDO fazendo a direção musical, produzindo, o Africanoise e o CARLO. O disco foi todo produzido no Iglu, aqui em Botafogo, e a gente teve bastante liberdade e imersão musical. A gente tava se reunindo duas, três vezes na semana – chegava meio-dia e saía às dez, às vezes meia-noite. 

Eu tive uma experiência que eu não tive em nenhum outro processo criativo. Os outros EPs que eu lancei eram feitos à distância – o beatmaker manda o beat, você escreve uma barra, daqui a três meses você marca uma sessão, grava só aquela música. Um trabalho bem de formiguinha, mesmo, do cenário underground – que eu gosto de trabalhar, mas eu experimentei algo diferente com essa imersão. Como eu queria trazer toda essa musicalidade que permeia a minha vida, estar dentro do estúdio me permitiu sair um pouco do óbvio, porque me encontrei com uma outra musicalidade – a regional, nacional, brasileira. 

Mesclar esse som diaspórico, importado – que eu já fiz em VAPO, Sabe Quem Tá de Volta? e Puro Suco, e que é óbvio para o meu público e para mim também –, com um ijexá, um baião, um pagodão, um samba reggae, um rock. Que são músicas que me moldaram – Zeca Pagodinho, Jorge Ben Jor, Jorge Aragão, Maria Bethânia. Essa musicalidade também fez parte da minha construção, e eu consegui trazer isso para o disco – com a ajuda do CARLO, que é multi instrumentista e produtor, e trouxe uma vibe de cordas, pianos e teclados, de coisas que a gente encontra na nossa música pop brasileira, regional. O Africanoise também, que é de família baiana, de Salvador, tem toda essa experimentação. Os tios dele são fundadores do Olodum, então ele tem essa trajetória musical – mas ele é do Rio de Janeiro, então tem toda essa experiência com a nossa música eletrônica, com o funk. Isso ajudou a moldar o disco, junto das ideias, com o conceito que eu já tinha. E tô muito satisfeito com o resultado, muito mesmo.

Eu lembro que, na época, você se referiu à essa mistura como uma forma de alcançar uma sonoridade mais pop, que também passava por texturas mais orgânicas. Como foi explorar isso na produção, olhando para essas sonoridades e camadas exploradas nos projetos anteriores?

É muito interessante você falar sobre isso. Eu falei que eu queria um disco mais pop, e depois eu cheguei na conclusão de que eu queria um disco com essa sonoridade um pouco mais popular, mesmo – fora dos nichos underground, da nossa bolha. Eu amo o que eu faço – grime, dancehall, afrobeat, jungle, drum 'n bass –, mas eu gosto de estar num domingo com a minha família e ouvir Zeca Pagodinho.

Ver como aquilo atravessa o meu tio careta, conservador, e bate em mim, que me vejo como mais progressista. Atinge a minha avó, a minha tia, o meu filho de 14 anos – que há pouco tempo descobriu o Tim Maia. O cara fez um som lá em 1979, e como é que meu filho, da geração TikTok, tá aprendendo a apreciar? É um outro tipo de música. Não que ele não ouça o trap, o boombap, mas essas músicas atravessam gerações.

Eu sempre quis estar nesse lugar, também – e eu acho que o grime e o dancehall conseguem atravessar essa barreira, como o funk é hoje. Quando eu dizia do pop, eu dizia desse lugar do popular, do comum – no disco, eu consegui acessar esse lugar. Em contrapartida, eu acessei um lugar muito pop, mesmo, por fazer uma música com a Anitta, que eu nunca achei que eu fosse.

Fotos por Wander Scheeffër

Eu queria trazer essa sonoridade mais orgânica, ao mesmo tempo que deixar o disco, de uma certa forma, eletrônico – de entender a música eletrônica por outros olhares, outros prismas, também. Nesses últimos meses, eu tive contato com a rapaziada que produz singeli, um ritmo lá do Congo. Eu tava com o DJ Travella no estúdio, e percebi que a música dos caras é eletrônica, pique rave, mas com sonoridade de tambor – é percussivo!

O disco tem muita coisa eletrônica, ao mesmo tempo que orgânica. Não que a gente não use sintetizador, o Splice, as ferramentas e as tecnologias acessíveis. Mas na hora de procurar a textura do som, o timbre da corda, o arranjo vocal, a gente procurou esse ambiente mais orgânico, mais natural – que é muito comum na nossa sonoridade brasileira, no samba, no funk, no pagodão.

A gente faz esses sons de pista, mas com essa camada orgânica, que é a cara da gente – povo preto, afro diaspórico, brasileiro, que mistura povos indígenas com descendentes africanos. Não tem jeito, a sonoridade vai ser essa.

Esse resgate dos ritmos regionais funciona na construção de uma sonoridade verdadeiramente original e que conversa com o contexto daqui.

Eu acho isso muito importante, porque a gente acaba tendo uma tendência de importar muita coisa, e esquece que os ritmos e a música são muito maiores que isso. No Maranhão, chegavam ondas de rádio e uns marinheiros que traziam uns discos – e lá, hoje é tudo reggae. Criou-se um formato deles de fazer essa parada. E eu tenho prestado mais atenção nisso nos últimos tempos.

Olha o compasso do xote e do reggae – é a mesma coisa. Se botar um triângulo no meio do qualquer faixa do Bob Marley, vira um xote. Assim como o dancehall, tanto no comportamento como no movimento de composição, de flow, é muito similar ao funk – como o grime, também, eles estão compartilhando as mesmas características. E acho que essas músicas regionais acabam sendo invisibilizadas, principalmente pela galera mais nova.

Eu sou um pouquinho mais velho, já passei dos 30, então é mais fácil eu ter mais ouvido para isso. Acho que é algo importante a se debater, a estar em discussão – como a música brasileira regional tem muita coisa a acrescentar para a nossa produção. Do que a gente quer fazer com o dancehall brasileiro, com o grime brasileiro, com qualquer estilo, mas com a nossa característica.

Eu acho que a música afrodiaspórica – com essa ideia de soundsystem, música de paredão, música periférica urbana –, ao mesmo tempo que ela é eletrônica, que seria distante de algo orgânico, ela consegue conectar as pessoas de uma maneira tão fácil que se torna orgânico. O paredão de funk e o cavaco conectam as pessoas da mesma forma.

Isso me remete à VANGUARDAH, primeiro disco de VANDAL, lançado há pouco tempo e que explora uma forma de se relacionar com a música parecida com a de Raggaleluia. Vocês dois ocupam um lugar próximo na cronologia do grime nacional, e fazem um movimento parecido, de olhar para essas referências internas e locais, com maturidade, em um mesmo momento. Como você se relaciona com as influências desses ritmos que vêm de fora e trabalha em cima deles para a construção de algo que não procura emular a sonoridade dos caras?

Eu e VANDAL, a gente não troca muita ideia. Eu nem sabia que ele tava fazendo um disco assim, fiquei sabendo quando já tava para lançar. Ele começou a divulgar o material e eu comecei a ver similaridades, pelo menos no conceito, e achei muito foda. O que acontece comigo, e com ele, é o que você já resumiu. A gente conseguiu encontrar uma maturidade musical, de experiência – não que as outras pessoas sejam imaturas, mas é sobre conhecer a si mesmo. É sobre a maturidade do seu autoconhecimento, não sobre a música ou o ambiente. Vou falar por mim, não sei se isso aconteceu com o VANDAL também, mas acredito que o trabalho reflita isso. 

A gente vai se encontrando e se reconhecendo como artista, sem precisar, necessariamente, emular ou criar uma identidade que não seja autêntica. Uma das coisas do VANDAL que eu gosto muito, que a gente sempre preza, é a originalidade – lá atrás, era ser autêntico, trazer o novo, mexer numa área que ninguém mexia. E a gente tá sempre buscando inovar. Não buscando ser o primeiro, com esse pioneirismo, mas fazer algo diferente, buscar outras ondas. A gente acessou isso e agora é reconstruir – qual o resultado de todas essas coisas que a gente lançou? Todos os grimes e os traps que o VANDAL lançou, todos os grimes e dancehalls que eu lancei – como isso se transforma na nossa própria arte?

Eu acho que a gente conseguiu identificar isso na nossa existência como artista e consegue traduzir isso de uma maneira bem simples – sem ter medo de misturar, de trazer essa identidade mais popular. De falar sobre a fé, que é essa coisa que move a gente – não só no espirituoso, na religião, mas na fé de acreditar nessa doideira que a gente tá fazendo.

VANGUARDAH e Raggaleluia, para mim, são nomes que representam isso – a gente permanece aqui, acreditando nessa porra. O milagre é só da gente estar fazendo, já é um bagulho totalmente contra qualquer estatística. A gente não tem patrocínio, não tem apoio, não tem alguém financiando – um pai, uma mãe, um peixe da indústria.

A gente tá fazendo isso na raça, com os amigos, com a família, com os fãs, com a rede de apoio, pessoas como você, tudo isso que faz acontecer. Esse momento que a gente vive é um pouco da maturidade, de entender que a gente tá sempre inovando, de uma maneira geral. E como que a gente vai fazer isso agora? Como é que a gente vai fazer isso de novo? É fazer de novo, mas fazer diferente.

Mais cedo neste ano, também rolou "Sal Grosso", colaboração com Anitta no último disco dela. Como foi participar desse som e o que esse reconhecimento representa na sua trajetória com a cultura soundsystem no Brasil?

Foi esse lance do validador externo, e é muito importante, não tem jeito. A gente se dá suporte aqui, mas também tá em busca desse lugar de validação. Não que isso justifique o que a gente faça, mas é importante trazer esse reconhecimento, essa legitimação – esse trabalho meio que traduz isso. Eu sinto que eu mereço. Então, abracei quando o convite veio, e falei: "é isso". Foi tudo muito rápido, meteórico, mas foi louco.

Eu fiquei muito satisfeito e casou muito com o momento – com o que eu já tava fazendo no disco, e com o que ela veio a fazer no disco dela, de estar reinventando essa persona artística, com uma sonoridade, uma linguagem e uma musicalidade totalmente diferentes, se colocando para um lugar além de onde a imagem dela foi vinculada durante toda essa trajetória de sucesso. Me senti muito confortável, mesmo fazendo algo muito pop.

Acho que tá dentro desse lugar de amadurecimento artístico – seja de quem tá lá na ponta do pop ou nós que estamos aqui, segurando a base do underground –, de olhar a trajetória e precisar comunicar isso. E isso acaba sendo espirituoso. Isso, por si só, é o maior resultado de fé que existe. Quando o artista pinta uma tela, tira uma foto, faz um filme, canta, escreve, ele não tá falando só de si, mas de tudo que envolve ele – e isso envolve outras pessoas.

Contar sua história é a coisa mais genuína e mais divina que pode existir. Muitos não têm esse privilégio, são reduzidos a números. Eu acredito que a gente funciona como porta-voz de muitas pessoas que se identificam, que também se colocam nesse lugar.

Como você enxerga esse movimento da diáspora e como ele ressoa em você? O que conecta todas essas manifestações culturais, de resistência, políticas – ainda que tão geograficamente tão distantes?

É inexplicável – quase espiritual, mágico. Eu acho que são vários fatores, e o fato de combinar todos esses fatores já é algo transcendental – alguma força do universo tá agrupando isso para que tenha esse sentimento único em qualquer lugar. A gente aqui com o funk, lá no Maranhão com o reggae. Aí você vai para Jamaica, é o soundsystem; nos Estados Unidos, o hip hop; Londres, o grime; África, o afrobeat – mas tudo com o mesmo groove. É a herança da mãe África.

Por isso eu falo muito sobre a diáspora. Acho que o que conecta as pessoas é o sentimento que se coloca ao fazer aquela aquele som, aquele canto, aquele grito social – que é a expressão, seja como grime, como hip hop, como funk, é igual. São povos marginalizados, periféricos, estigmatizados, então é um grito comum – como um grito de socorro que vai por vários lugares do mundo, e todo mundo vai entender que é um chamado. É uma parte mais de filosofia mesmo, de viagem. Não tem como, acontece porque esse timbre aqui é o mesmo.

Essa identificação é isso – nós somos todos seres humanos vindos do mesmo lugar. Estamos passíveis às mesmas dores, às mesmas realidades. E a música, a arte, o que mais é, senão a expressão da vida? Ela vai comunicar com as pessoas, com aquele grupo, com aquela sociedade que faz parte daquela essência.

Hoje, a automação das coisas, da nossa comunicação – por exemplo, a velocidade com que você faz uma música, posta e ela viraliza e chega numa porrada de lugar no mundo simultaneamente –, cria uma percepção de que isso começou agora. A gente tem mais vias hoje, as coisas estão chegando mais rápido, claro – mas se você voltar 30 anos atrás, acho que seria a mesma coisa. Os caras fazendo reggae, jungle lá, e os caras fazendo samba aqui.

A gente falou no começo como o trabalho é muito sobre a sua caminhada. De que maneiras ela, e todas essas ideias que a gente trocou, aparecem ao longo do disco?

São muitos anos de vivência nesse universo da cultura sound system – da minha pesquisa pessoal, do que eu consumo de arte, de leitura, de filmes, vídeos, documentários. Onde eu vivo, no meu bairro familiar, com os meus amigos, do que eu construí com o Jamaicaxias. Acaba sendo um resultado de toda essa caminhada.

A coisa mais importante do Raggaleluia é a ideia de sobreposição. O próprio nome é uma sobreposição de duas palavras com significados distintos. O que é profano? E o que é sagrado? Será que misturar as coisas é profanar elas? Será que achar caminhos comuns em situações distintas também pode ser visto como algo importante, sagrado, nas nossas vidas? Eu acredito que sim.

“Pussy” é um bouyon, um ritmo afroindígena nascido na Dominica – um país de colônia francesa, que viveu todas aquelas mazelas do período da escravidão, do tráfico negreiro –, que é resultado cultural da manifestação daquelas pessoas. Bouyon nada mais é do que funk, pagodão. São as nossas experiências em comum com o povo caribenho, aqui no Brasil preto, litorâneo, que tem esse contato com o mar e com a natureza – ao mesmo tempo que toda a trajetória de sofrimento e alienação da população.

São várias camadas que são sobrepostas, várias faixas caem nesse lugar. Na identidade visual, eu busquei fazer uma outra sobreposição. Eu trago o símbolo de Salomão, da posição de diamante, que representa o sagrado. Os rastas fazem essa simbolização representando o sagrado, a origem da vida – o útero, a mulher, onde começa o divino, onde toda a vida é trazida. Ao mesmo tempo, eu inverti a bandeira do Brasil, que também faz o símbolo do diamante. Em vez de Ordem e progresso, a gente precisa mais dessa sobreposição das coisas. Ordem e progresso é muito retilíneo para mim.

A gente não tem que ordenar – estamos mais na ideia de desordenar. O progresso vai vir na mistura, na sobreposição das ideias, de sonoridades, da fé, do artístico, do pop.

Uma sobreposição também de encontros. Nas últimas semanas, vocês organizaram uma série de audições revelando faixas e elementos do projeto. Qual a importância dessa troca com o público e quem esteve envolvido no processo e o quanto ela se manifesta, também, no som?

Eu percebi que o disco estava pronto na audição. Acho que eu marquei a primeira data de audição para isso. Eu não queria fazer uma audição "só porque o disco vai sair amanhã” – eu queria ouvir o meu disco com outras pessoas, e ver o que as pessoas podiam perceber que eu não percebi.

Eu tô nessa vibe de levar o disco para outros lugares. Tu vai ouvir no fone, no carro, no busão, no transporte público e na balada. Eu ouço as mesmas músicas com energias diferentes em todos esses lugares. O objetivo de fazer a audição era trazer um pouco dessa percepção para nós mesmos que fizemos, que trabalhamos no disco, e principalmente para quem estava acompanhando o processo criativo. Cada audição a gente trouxe uma novidade, uma experiência diferente e sobrepondo coisas do disco. Fazer as audições tem sido interessante para perceber como as pessoas recebem a música, porque ninguém tá sendo influenciado por imagem, por nenhuma estética – é só a parte sonora.

O disco, quando realmente nasce, é igual um filho. Você vai lá, faz o teste de gravidez, depois você faz um ultrassom, vê o coraçãozinho. Depois você já tá vendo o pezinho, a mão. O disco tá assim, rolando os ultrassons, já tem foto, já dá para ver mexendo, se é gordinho, se é grande ou pequeno. Quando nascer já tem nome, já tem tudo, já tem toda uma expectativa sobre a criança.

Raggaleluia, num todo, é sobre isso. Eu espero traduzir isso de uma forma palatável para as pessoas, que elas comecem a ouvir o disco e entendam as nuances musicais e os arranjos. Tem uma faixa que se chama “Lewis Hamilton", com participação do MASKOTTE. A ideia foi fazer um jungle – e eu sempre achei que se o jungle fosse feito no Brasil, no Rio de Janeiro, ele seria feito com a viola do Jorge Ben. Eu amo essa levada. A gente jogou aquilo ali, misturou e funcionou para caralho. A gente acessou um outro lugar – eu mostrei isso pro Marcelinho da Lua e ele ficou maravilhado. Ele falou: "vocês estão resgatando o que eu, o Patife e o Marky fizemos lá atrás". Os caras criaram o drum 'n bossa, que é sobreposição. Mostraram que dá para fazer as duas coisas terem uma identidade única, nossa, e que todo mundo vai cantar. Gera uma identificação, que é esse lance do popular – todo mundo vai se sentir cativado e colocado naquele lugar sonoro. 

Tem uma faixa que contém elementos de grime, com o Bruno Kroz, chamada “El Patron". Já teve essa parada de sobreposição do grime – com o Brime, com o Atabagrime –, mas eu queria algo mais aqui. Na época, eu tava ouvindo muito um disco da Beth Carvalho que eu tenho aqui e do nada entrou uma virada de bateria que eu falei: "mano, isso é grime para caralho!”. “Original BXD” tem muito dessa musicalidade que o Rappa fazia – uma banda que fez muito a minha cabeça no início da adolescência. O Marcelo Falcão já era o gênio da sobreposição, de entender o dub de uma maneira diferente, totalmente nacional, brasileira. Essa faixa é um lugar de sobreposição, mas é um resgate de quem já fazia isso, dentro de uma nova leitura. Em “Fora da Lei” eu misturo shatta com cumbia – sempre tentando misturar essas diásporas e ver onde elas se interseccionam. 

É um grande caldeirão, uma grande sobreposição e é um milagre ter dado certo – Raggaleluia!

Raggaleluia chega essa sexta-feira nas plataformas. Por enquanto, o documentário do projeto ajuda a entrar de cabeça nesse universo


ISMO
Cultura em movimento

Assine nossa newsletter e receba
as últimas notícias em 1ª mão!

Assine agora