Como o underground BR ajudou Anitta a se reconectar consigo mesma em ‘EQUILIBRIVM II’
Dos visuais à produção musical, Anitta colabora com diferentes artistas da cena independente brasileira; conversamos com alguns dos envolvidos no projeto
Anitta lançou na última quinta-feira (23) o lado B de 'EQUILIBRIVM', disco em que a maior artista pop do Brasil mostra seu processo de conexão espiritual – e nele conta com a ajuda de nomes da cena underground brasileira.
Conversamos com alguns dos artistas independentes que estão no projeto: Letícia Fialho, KBrum, Pedro Lucas e Enzo Dicarlo para entender como essa parceria aconteceu e o que ela revela sobre esse momento da carreira da cantora.
A volta para casa
Após uma jornada intensa visando o mercado internacional, Anitta viveu um hiato de dois anos sem gravar álbuns em estúdio (a artista nega que o projeto ‘Ensaios da Anitta’ seja um álbum). Em Funk Generation (2024) ela já demonstrava um desejo de voltar para casa, mas tanto a produção musical quanto as letras são estrangeiras – o resultado foi um disco com bons hits, mas um olhar pouco autêntico sobre a cultura brasileira.
O retorno de Anitta às origens se dá justamente nessa pausa, mesma época em que ela passou a professar mais explicitamente sua fé no candomblé e a participar de retiros espirituais com outras celebridades. É desse mergulho na espiritualidade que nascem EQUILIBRIVM I e II.
Se na primeira parte do lançamento Anitta colaborou com nomes populares como Shakira, Marina Sena, Liniker e Luedji Luna, mas ainda assim abriu portas para outros em ascensão – caso de Melly, Os Garotin e KING Saints –, em 'EQUILIBRIVM II' a cantora presta ainda mais atenção na cena underground.
Nidia Aranha, diretora criativa natural da Baixada Fluminense, é talvez o elo principal desse encontro. Com uma pesquisa extensa sobre a cultura brasileira, ela contou à Billboard Brasil que o álbum com Anitta foi criado pensando em valorizar a construção identitária do país, sobretudo suas variadas expressões da cultura afro-brasileira e dos povos originários.

Isso fica explícito no universo visual, nas composições, na produção das músicas e até mesmo na escolha dos artistas envolvidos. Das 17 novas faixas, a maior parte conta com artistas independentes de diferentes territórios sonoros, geográficos e formas de existir no mundo.
De Jamaicaxias para o mundo

KBrum, MC de Duque de Caxias (RJ), destaca-se como a voz masculina do dancehall “Sal Grosso”. Com produção musical assinada por Maffalda, Pedro Lucas e Enzo Dicarlo, os artistas contam que Nidia abraçou rapidamente as propostas sonoras apresentadas por eles, demonstrando um desejo de trazer novas propostas ao público mainstream.
“Ela estava dando uma ideia de botar uma voz nova nessa faixa. E aí a primeira pessoa que tanto eu quanto o Enzo pensamos foi o KBrum, porque acho que a gente tá muito conectado musicalmente até entre os parceiros que a gente trabalha, por mais que a gente não tinha feito nenhum trampo junto”, conta Pedro Lucas, que, junto com o Enzo, está envolvido nas produções mais recentes de Marina Sena, Bia Soull e agora Anitta.
A música surgiu a partir de um beat criado pelo produtor Maffalda – faixa cotada para estar na primeira parte do projeto e que foi repaginada para entrar na parte dois com um groove mais brasileiro e elementos percussivos. Segundo Enzo, “a espinha dorsal desse beat era 100% uma parada que ele tinha levantado, inclusive aquele break do final, que é a parte que está viralizada agora, [...] o arranjo e a ideia de como a música se constrói, estava tudo ali”.
Da esquerda para a direita: Pedro Lucas, Maffalda e Enzo Dicarlo (Fotos: Reprodução/@enzo_dicarlo)
Para KBrum, que é cofundador do Jamaicaxias – coletivo que movimenta a cena soundsystem na Baixada Fluminense --, participar desse projeto representa a vitória de uma geração do underground que luta para fazer música por amor à arte, indo na contramão do que o mercado impõe e, no fim, ditando as tendências que o mainstream acaba adotando.
A oportunidade simboliza o fortalecimento de movimentos locais como o dele, onde há uma cultura de cooperação mútua entre os artistas. KBrum, Enzo e Pedro apontam que estar nesse espaço serve para abrir portas para que outras pessoas da cena entendam que também é possível 'chegar lá'.
“Isso faz parte da nossa vida, tá ligado? A Anitta é só um exponencial – fora da curva, é lógico – mas que a gente já tá fazendo isso aqui todo dia”, completa o MC.
A voz que impactou Anitta e dividiu faixa com Bethânia
Letícia Fialho é outra artista do cenário independente que Anitta e Nidia convidaram para o segundo volume de 'EQUILIBRIVM'. A princípio, entraria como compositora de três faixas do álbum: "Contemplação", "Tudo Isso" e "Ogum Me Rodeia" , mas chamou atenção pelos vocais e acabou chamada para interpretar a última faixa ao lado de Maria Bethânia.

Vinda de uma família negra, de avós tecelã e sapateiro, pais professores, e tendo ela própria enfrentado rotinas exaustivas de trabalho e ônibus lotados por muitos anos, Letícia conecta essa realidade à fé brasileira na faixa que define como uma "canção-oração".
Brasiliense filha de crias suburbanos de Bangu, na cidade do Rio de Janeiro, ela cresceu convivendo com símbolos de São Jorge — santo popularmente sincretizado com Ogum como forma de resistência afro-brasileira. Seu irmão, conta ela, nasceu no dia do orixá (23 de abril), enquanto ela é de Oxóssi, irmão espiritual desse guia.
Para a artista, ser chamada como compositora em um projeto desse tamanho tem o peso de reconhecer um ofício que, segundo ela, costuma receber menos atenção do que o de intérprete. "É muito difícil ser cantora, mas ser compositora é mais difícil ainda. Muito especial ver um processo com essa magnitude, contemplando compositoras e reconhecendo que essas artistas carregam saberes preciosos", diz.
Letícia também destaca a pluralidade de nomes reunidos por Anitta no disco. Ela concorda com Pedro, Enzo e KBrum ao dizer que esse é um reconhecimento do valor de cenas diversas que sustentam a produção musical brasileira há gerações.
"A gente está falando de uma artista que pode convidar qualquer artista no planeta para fazer um feat. E aí ela me chama, ela chama Katú Mirim, ela chama KBrum, ela chama Bro MC's, ela chama KING [Saints] [...] entendendo também o valor de uma cena que é o braço cotidiano do que se entende como música brasileira hoje. É parte, porque [a música brasileira] é muito plural, né? Chama a atenção para várias cenas que estão acontecendo vivas." – Letícia Fialho
Dividir para multiplicar
A reconexão com o Brasil, narrada por Anitta em ‘EQUILIBRIVM II‘, passa de uma escolha estética quando ela se manifesta, na prática, em quem a cantora decidiu colocar ao seu lado para construir o disco.
Cada um desses artistas carrega, à sua maneira, uma relação profunda com a cultura brasileira e sua ancestralidade, seja pelo dancehall caxiense, a mistura entre a macumba e batidas eletrônicas ou a fé que atravessa gerações de uma família suburbana que existe em qualquer canto do país.
Sonoramente, há momentos em que essa autenticidade aparece com menos força – em algumas faixas do disco como "Azul" e "Respira", o conceito construído se dilui. Mas Anitta volta verdadeiramente para casa quando entende que, para se reconectar, precisa dividir com quem ajuda a construir essa cultura diariamente.