Cassiel conecta o passado e o futuro em ON, primeiro som do seu universo

O disco de estreia do MC pernambucano conta a sua história de vida abordando diferentes momentos da bass music e referências da música brasileira

Cassiel conecta o passado e o futuro em ON, primeiro som do seu universo
Foto: JPEGO

Há praticamente duas semanas, em 20 de maio, Cassiel, MC nascido em Pesqueira/PE e residente em São Caetano/SP, lançou ON, seu álbum de estreia, pelo selo e coletivo RAGGACLUBBERZ, que representa e movimenta a nova geração do grime em São Paulo.

Com produções de Mr. Zambi, Korsain, JZZY, Nezq, Susto!, Boss Mischief, Sucateiro, FUNGI e Matesu – este último também responsável pela mix e master do projeto – e participações de Jimmy Luv, Rob Malako e Mug3n, ON é o primeiro som do universo de Cassiel – uma narrativa autobiográfica, guiada pela bass music, que procura conectar ancestralidade e vanguarda por meio de mantras, personagens, histórias e cenários.

Capa de ON, por Mozzyv

O disco explora as diferentes faces da cena de música eletrônica underground  – misturando gêneros como drum ‘n bass, dancehall, UK garage e grime com influências locais e ritmos tradicionais do Brasil.

O projeto nasceu como dois EPs independentes – um primeiro mais focado em drum ‘n bass, dancehall e o começo da trajetória do Cassiel, juntamente com o Korsain, e outro mais puxado para o grime e o momento atual da bass music. Entre HD corrompidos, diferentes versões das músicas e um longo período de tempo atravessado, os dois projetos se juntaram, funcionando como a parte A e B do disco que chegou nas plataformas.

Cassiel tem uma profunda conexão com as tradições familiares e regionais que construíram a sua identidade. A primeira parte do disco, que foca no início da sua relação com a música, é composta por faixas que acenam e conectam com esse passado e ancestralidade. 

Todo o período antes da sua vinda para São Paulo, ainda em Pernambuco, é explorado em “CAIPORA”, faixa que abre os caminhos, definida por ele mesmo como um 'ragga-coco-embolada' e repleta dessas referências e símbolo – já partindo do nome, que faz referência ao bloco de frevo Os Caiporas, criado em 1962 pelo movimento operário de Pesqueira e que fez parte da infância de Cassiel.

Visualizer de "CAIPORA", por JPEGO e Crizan Leone

“É o ‘lá’ ainda vindo para 'cá’. É essa parada do retirante – eu saindo da minha terra natal, indo buscar novas oportunidades numa cidade grande, só eu e a minha mãe. É um Cassiel pré-São Paulo. Ali eu tô resgatando vários signos e símbolos, figuras da minha infância. Na hora que eu falo que ‘eu vim lá de pesqueira’, eu entono todas as paradas – cada barra, eu falo de cada bagulho da minha terra.

"É que eu vim lá de Pesqueira, terra das mulher rendeira, dos rock, da bagaceira, frevo rasgando ladeira; Tem Cambinda e Zé Pereira, cantador de meio de feira, toré que sobe poeira, Xukuru, jurema preta." – Cassiel em "CAIPORA", prod. Mr. Zambi

A referência do flow é a música 'Papagaio do Futuro', do Alceu Valença, e eu também faço uma referência à música tema do bloco do meu tio, que tem uma música que fala: 'Lira da Tarde, sobe e desce ladeira, agita toda a pesqueira'. Eu peguei a referência da métrica, de um frevo. Esse ‘Cassiel da infância’ cresce com essa visão de muita arte. O meu tio tocava violão em casa – Alceu Valença, Raul Seixas e Lulu Santos –, e o meu primo, que cantou por mais de 30 anos no Lira da Tarde, cantava frevo, Paulo Diniz, Emílio Santiago, Benito de Paula – e os irmãos do meu avô também são grandes fomentadores da cultura local.

O meu tio Chiquinho Amaral criou o Lira da Tarde, em 1934, bloco de frevo que é patrimônio imaterial da minha cidade, e tem também o Cambinda Velha – criado por Pedro Lopes, sogro do meu tio avô Aprígio Amaral, mas ele foi que tocou o projeto e cuidou por bastante tempo – que é mais antigo, de 1909, e que hoje em dia é tocado pelo meu primo, Rosano Amaral.

Meu avô é o único que não tem bloco – ele era bandolinista, tocava choro, seresta, e tocou com Nelson Gonçalves nos anos 90. Se o Chico Science é a minha influência na música, na forma de resgatar da onde a gente veio e botar para falar com o mundo, o meu avô é a influência de casa, a visceral, ancestral. ‘O passado tá presente no futuro’. Eu sou a continuação do que ele fez, daquela sementinha que ele plantou”, conta o artista.

Toda essa primeira parte do disco segue apresentando esses personagens, que são representações de Cassiel em diferentes momentos da sua trajetória. Em cima de batidas que se conectam e, ao mesmo tempo, rompem com a tradição da bass music, o MC relembra as histórias e vivências na capital paulista, com letras cheias de referências da literatura, do skate, do punk, do rap, do hardcore e das diversas culturas de rua. Entre elas, o sound system.

"O sound system foi o bagulho que norteou a minha visão artística – foi a grande parada que veio para mim. O punk e o skate foram as minhas molas propulsoras para fazer música, e foi através deles que eu comecei a pesquisar música – aí vem Black Sabbath, Dead Kennedys, Bad Religion, Bad Brains, Stooges, New York Dolls, Johnny Thunder, todas essas refs de rock da minha adolescência – e quando eu conheço o dub, o bagulho quebra tudo. É quando eu volto e falo: 'agora eu entendi o Bad Brains'. 

Eu já conhecia muito reggae, da minha adolescência lá em Pesqueira – Edson Gomes, Sine Calmon, esse reggae brasileiro – mas quando eu caio no sound system, eu entendo a parada política. 'Reggae também é que nem o punk, que nem o rap', eles se comunicam, falam a mesma linguagem. Eu colo no Reunion of Dub em 2014 e foi a partir desse rolê que eu entendi, que eu falei: 'eu quero fazer isso, eu quero cantar'. Foi quando eu vi Monkey Jhayam, Red Lion, Screechy Dan, Mungo's Hi Fi, Quilombo Hi Fi, Junior Dread, Marina Peralta – esse bagulho me pegou muito. Eu vi MC cantando no reggae, e falei: 'mano, eu acho que é esse bagulho que eu vou fazer'.

Depois que eu fiz HIGH TECH LOW LIFE, com o Yescal, eu me reconectei com o sound system, porque eu tava meio longe na época. Eu me conecto de novo, e aí vem Riko Dan, Flowdan, Killa P, Logan, Jamakabi, Meridian Dan – todos esses MCs que cantam patois no grime. Aí foi o grande insight, que eu enxerguei o grime como uma extensão do que eu já fazia'", explica ele.

Cassiel na última edição da UDUB 420, que comemorou 15 anos no Vale do Anhagabaú em maio deste ano

ON chega para contar a história de Cassiel, com faixas que investigam memória, origem e identidade coletiva através do som como força espiritual, do corpo como portal e do ritmo como tecnologia ancestral, como ele conta: "é um Om moderno, né? Eu pego algo do passado e modernizo. É a mesma parada do mantra, mas conectado, online. Ambos são uma busca por conexões – o online é uma conexão para fora, uma conexão digital, essa parada de estar conectado com o mundo, e o mantra é consciência, respiração, quietude, meditação, uma conexão consigo mesmo.

É o primeiro som do meu universo. Nele, eu trago mantras. Eu comecei a entender e falei: 'esses bagulhos que eu canto são tipo uns mantras – dale pra não tomale'.

Toda busca por conexão nasce da mesma necessidade humana – de viver em sintonia com algo maior. Eu quis trazer essa parada de estar buscando esse equilíbrio – de estar conectado comigo, ao mesmo tempo que eu quero estar conectado com o universo. É aquela conexão do corpo elétrico e a alma acústica que a Fernanda Porto fala. 

O disco traz essa fusão – ele conversa muito com referências da minha ancestralidade e com a vanguarda, porque eu vejo o grime e a bass music nesse lugar de vanguarda.”

Trabalhando nessa fusão, Cassiel se junta à Jimmy Luv na terceira faixa, "RUDEBOYZ (BOOM BYE BYE)", uma homenagem à tradição da bass music nacional em cima de um drum 'n bass rollers produzido pelo JZZY. "Já sou eu conhecendo a parada de querer me expressar no rap, no sound system – já fala muito de um Cassiel dos 20 anos. E o refrão é a interpolação de uma música do Jimmy Luv, ‘Fya Bun Fya’. Eu era maior fã dele, sou até hoje", conta o MC, que ressalta a importância dessa colaboração e da presença do JZZY na produção da faixa e no desenvolvimento do disco.

A reta final de ON funciona como uma celebração da cena de grime brasileiro e do momento atual dos RAGGACLUBBERZ no cenário eletrônico nacional. A colaboração com o lendário produtor Boss Mischief em "NEM VEM QUE NÃO TEM", nasceu no CARNAGRIME do ano passado – festa anual que acontece no CR1A_011 – e é mais um marco de colaborações da nossa cena com os ingleses.

O refix de "Parklife" do Blur resgatou a vontade antiga do MC de misturar o rap com o rock, presente desde a adolescência por influências de Beastie Boys e Rage Against The Machine: "eu sempre tive essa parada de querer fazer rap com rock. Era minha ideia desde a adolescência, e com o bagulho do Boss Mischief, tô realizando o sonho do Cassiel de 16 anos."

As faixas produzidas pelo Sucateiro refletem ainda mais esse momento, imortalizando barras que já rolam nos sets de grime há muito tempo. "ESTILO LIVRE" nasceu, como o nome sugere, como um freestyle, e coleciona referências do universo dos dois nas rimas – fazendo um aceno à faixa de mesmo nome do SpeedFreaks – que se imortalizam em cima de "Strabic Anthem", instrumental lançado originalmente no Santa Sucata Vol.1.

Fechando o projeto, um grime de pista com as fortes participações do Mug3n e do Rob Malako, e um remix de "Dale" do Fungi que puxa uma sonoridade bastante inédita na cena nacional. Os visuais, que ficaram na conta do JPEGO e do Crizan Leone, ajudam a ampliar e aprofundar esse universo, imortalizando o momento atual do grime no Brasil.

ON chega com um peso coletivo, representando todo mundo que acompanha e faz parte desses universos. É um marco do grime e da bass music brasileira, ao mesmo tempo que resgata e se conecta com a tradição musical ancestral e com a própria história da música brasileira. Como diria Cassiel: "off na net, nas ruas ON; mundo do grime.com; nós é bom mas não é bombom; sistema bom é sistema de som."

O disco já está disponível nas plataformas. Ouça e acompanhe o trabalho de Cassiel e dos RAGGACLUBBERZ nas plataformas.

"Se o estilo não é livre, você não vive, você vegeta"


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