Os caminhos de Armando

Dióspiros, Enigma, KAiSE12 e WARMANDO: os processos por trás de cada uma das personas do produtor

Os caminhos de Armando

Em abril do ano passado, Armando Dario, produtor musical paulistano radicado em Duque de Caxias, lançou Heurística Mixtape, projeto instrumental que explora a multiplicidade e possibilidades da música eletrônica.

O produtor é um dos mais importantes nomes da cena de grime nacional, com produções que foram essenciais para a construção da identidade sonora dela. Desde o seu primeiro disco instrumental, Enigma Entertainment Enterprise, de 2020, o produtor, que hoje faz parte da Leigo Records, esteve envolvido em diversos projetos e colaborações com os principais nomes do cenário.

Desdobrando sua identidade artística em diferentes projetos, Armando chega em "Dióspiros", que engloba todos os aprendizados e experimentações desde sua inserção no meio artístico em 2020. Dessa maneira, Enigma se soma às personas KAiSE12 e WARMANDO, como artistas desse projeto maior, que representa o momento atual do produtor.

Enquanto Dióspiros, assina a direção musical de Raggaleluia!, próximo álbum de KBrum que será lançado ainda neste ano. Pensando em tudo isso, trocamos uma ideia para saber o que está por trás de todos esses processos e o que isso significa para o futuro.


Do último ano para cá, você passou a soltar músicas com outros vulgos e descentralizou as suas produções da persona Enigma. Como esses projetos se relacionam e porque criar cada um deles? Essa vontade de separar e ordenar as coisas vem de um certo perfeccionismo?

Cara, ao longo dos anos, eu fui projetando diversos aspectos do meu eu lírico em novos cenários, percebi que eu tinha outras coisas a dizer, e que haviam outras pessoas dispostas a ouvir.

Muito disso parte de uma questão didática. O estopim pra esse movimento foi quando toquei no programa do Pininga na Veneno, Passos Estintos, em novembro de 2021. Ali eu já tinha entendido que Enigma era um recorte X da minha vida, e que operava dentro de um certo limite.

Mesmo havendo intersecções entre públicos de grime com noise/techno, eu vi que precisava de outra alcunha pra me comunicar plenamente, foi mais uma questão de organização do que perfeccionismo.

De forma direta: Dióspiros sou eu, Armando, e meu selo também; Enigma é meu artista de grime; KAiSE12 é meu artista de techno/IDM e WARMANDO sou eu enquanto DJ, produzindo edits e discotecando.

Esse processo de desambiguação foi muito natural, eu via que tinham certas sonoridades que não dava pra eu abordar em sets pra um público de rap, por exemplo, e via que cada vez mais meu som vinha ficando mais pesado, seja produzindo ou pesquisando, daí eu só facilitei minha vida e separei tudo. 

Enigma foi quando eu comecei a entender que o meu trabalho era bom, KAiSE12 quando eu comecei a refinar minhas habilidades, WARMANDO quando eu tentei ser mais didático e Dióspiros é o Todo. Cada um é um atributo, né? Como se fossem "Inteligência", "Vitalidade" e "Força", por exemplo, é assim que eu visualizo a parada.

Enquanto Enigma, você soltou alguns projetos que foram importantes para a construção da sonoridade do grime brasileiro. O que está por trás de projetos como o Enigma Entertainment Enterprise e o mais recente Heurística Mixtape?

As duas obras são "diários". E3 (Enigma Entertainment Enterprise) são os beats que eu produzi no começo da pandemia, ao longo de uns 2 meses, é uma parada mais inocente e despretensiosa, ainda tava tentando firmar meu nome na cena.

Eu comecei postando os meus beats no SoundCloud porque eu não sabia usar nenhuma plataforma de venda de beats, mas com isso, entendi que não precisava de uma validação, através da voz de alguém na minha música, e que dava pra me desenvolver independente disso. 

Heurística já é mais extensa. Ambas têm um espectro bem abrangente, mas a Mixtape é bem mais madura, eu exploro mais sonoridades e tento quebrar cada vez mais o limite do que dá pra gente fazer dentro desse rolê. Ela é fruto de toda essa trajetória que conversamos, não é atoa que foi nela que eu mostrei meu rosto, depois de 5 anos interagindo com o mundo só dos olhos pra cima. É muito louco, porque eu tinha até esquecido que eu cobria minha cara, e isso era um negócio muito ruim pra mim.

O nome deriva do álbum da Joni Mitchell, Hejira, o mesmo que fiz a releitura na capa. Eu queria alguma coisa que também começasse com 'He' pra dar a mesma sensação, aí eu fui atrás dessas palavras. Hejira significa êxodo – é minha saída da crisálida, e também meu processo de mudança de estado, a mixtape saiu logo que mudei pra Caxias –, Heurística são as perguntas que aprendi a me fazer, e algumas das respostas.

A arte, ao longo de todos esses anos, me ajudou a entender a minha pessoa de diversas formas. É impressionante o quanto criar e conhecer outras pessoas foi um bagulho que reprogramou meu cérebro e fez eu me sentir melhor.

Você também está trabalhando no próximo álbum do KBrum, na posição de diretor musical, e que vai ser o primeiro projeto assinando como Dióspiros. O que marca esse seu momento atual?

Eu acho que a profissionalização é a melhor forma de descrever isso. A trajetória toda, até chegar aqui, foi eu desenvolvendo habilidades individuais ao longo do tempo. Com Dióspiros, aprendi muito sobre composição e os fundamentos da música, foi a etapa final da minha cadeia de produção, visto que, na mixagem e masterização, alcancei uma qualidade ótima no ano de 2025 – e acho que são todas essas facetas de um produtor musical.

Eu bato muito nessa tecla com meus amigos. Se capacitar serve tanto pra abrir portas, pra você conseguir sobreviver com a sua arte, quanto facilita seu processo enquanto artista mesmo. Se você depende de muita gente pra conseguir soltar um som, a parada demora muito mais tempo pra ir pra rua.

Lógico que pela falta de estrutura, nós sempre tivemos que trocar favores ou ter esse escambo com muitas pessoas pra poder desenvolver muitas obras – mas eu acho que cabe, num momento, a gente desenvolver todos esses processos. Hoje, consigo vender serviços tanto de criação de identidade, quanto masterização – o alfa e o ômega, por assim dizer, e é o que paga minhas contas.

Hoje, eu tenho uma cópia original do Ableton, isso também fala muita coisa – desenvolver o processo até o ponto da ferramenta principal do meu ganha-pão não ser uma ferramenta que eu tô pirateando é um marco pra mim. A profissionalização é também por estar lidando com "peixes grandes" atualmente. Toda reunião que eu faço com o Diogo, com o KBrum, o horizonte é sempre um bagulho muito maior do que qualquer coisa que lidamos até então.

A gente quer ir pra essa direção de fazer mais pessoas se identificarem e entenderem a nossa música – com a didática, a pluralidade –, e nisso é necessária a profissionalização, ainda mais considerando que o que fazemos já é bem maluco.

Porque é a teoria musical, a mixagem, a composição, a técnica do arranjo, é muita parada acontecendo. E que não depende só de você saber um instrumento, saber ler uma partitura. Eu acho que esse processo é muito importante – primeiro porque facilita pra vender o meu trampo, pra vender a minha marca num lugar só. É uma simplificação que otimiza tudo.

Você fala da otimização, que é essencial na perspectiva profissional. Mas quando o trabalho é tão ligado com a vida pessoal, sobra tempo para abstrair, sem estar sempre preocupado com produtividade, otimização, e conseguir se relacionar com o ócio?

Aí entra a questão da compartimentalização – eu consigo ir da razão pra emoção muito rápido. Isso é um mecanismo que aprendi depois do meu diagnóstico de TOC, e de anos trabalhando em cozinhas extremamente exigentes. Se você não aprende a parar, alguma força externa te para. Tem que aprender a reduzir a marcha pra não enfiar a cara no muro.

Mas também, eu ainda sou muito intenso, e mesmo reduzindo o ritmo, meu cérebro tá sempre a milhão. Só que aprendi a canalizar todo esse fluxo de pensamento pra me expressar, fazendo trocadilhos, escrevendo, ou percebendo os detalhes que geralmente a gente deixa passar no dia-a-dia.

Eu tive que fazer muitos sacrifícios individuais, de coisas que eu não tinha necessidade na minha vida. Acho que eu me desapeguei de muita coisa e encontrei o equilíbrio de como ter mais emoção nas paradas – eu era muito racional, o tempo todo, e comecei a aprender a me permitir –, e acho que agora eu tô numa posição muito boa pra começar a minha vida, mesmo.

Uma máxima que eu tenho é que o grime brasileiro foi uma catapulta pra vida. Foi um guia pra mim, me apresentou muita gente, muitos sentimentos, muitas formas novas de pensar – a gente sempre acaba caindo nesse bagulho do grime ser um sentimento.

No Brasil, o grime não é um lugar, não é um rótulo musical – mas sim, uma série de relações interpessoais. Todo mundo que eventualmente vai parar no grime, percebe que é como se fosse a Alice caindo na toca do coelho.

É muito doido, porque não é sobre música esse processo todo. O Freddie Mercury falava muito sobre isso, o lance dos outcasts, das pessoas que tendem a ficar isoladas, os banidos, os exilados. 

E acho que isso aperta um calo muito grande nos caras da cena lá no Reino Unido, visto que muitos gringos tentam descaracterizar o que a gente faz, que é a mesma cultura que eles, só que eles tentam colocar essas especificidades, pra não olhar e falar: "tal qual o futebol, criamos o grime, mas os brasileiros que deram o nome à parada".

Mas também, a cena lá é vulgarmente cisnormativa, o comportamento reacionário lá fora é a régua, tanto na criação, quanto no social. É bem difícil pra eles visualizarem que somos vanguarda pra além de batidas em 140.


Acompanhe o trabalho de Dióspiros, Enigma, KAiSE12 e WARMANDO nas plataformas de música.


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