Artwo coloca a sua voz no foco da conversa da música eletrônica

O artista brasileiro que teve a sua voz usada no novo disco do Skrillex constrói um trabalho marcado pela versatilidade e originalidade

Artwo coloca a sua voz no foco da conversa da música eletrônica

Já imaginou um dia acordar e descobrir que a sua voz foi usada no novo álbum de um dos maiores artistas de música eletrônica do mundo? Foi isso que aconteceu com Artwo, artista, produtor e MC de música eletrônica que teve a sua voz usada na faixa "Tranki", parte de SOMA, novo disco do Skrillex lançado no começo do mês passado.

O produtor estadunidense, já conhecido pelo seu interesse e pesquisa da música eletrônica underground brasileira, encontrou o loop produzido por Artwo dentro um sample pack, disponível no Splice, organizado pelo coletivo Humildes, com curadoria de umru, lançado no final de 2024.

"No funk, tem o beat Rugal, e eu sempre falava do 'beat vogal', fazendo esse trocadilho. Um dia, eu pensei: 'pô, vou fazer um beat que seja, de fato, apenas vogais' – surgiu essa ideia, eu fiz esse loop, ele entrou na coletânea de samples do coletivo e foi isso", explica Artwo, que precisou mudar o seu planejamento anual para aproveitar o timing e antecipou o lançamento de COBRA, um dubstep em colaboração com Haiik e KARAN!.

"Na hora que rolou, eu fiquei em choque completo – fiquei ouvindo a música um monte de vezes sem acreditar. Eu acho que a maioria das pessoas da cena eletrônica tem essa memória afetiva com o Skrillex, que era o que eu ouvia quando eu tinha 10 anos de idade. Até agora não caiu a ficha, ainda parece que é alucinação."

A surpresa chega como uma grande realização pessoal para Artwo, que acredita que o acontecimento, embora inusitado, seja extremamente motivado pelo momento de extrema relevância cultural que o Brasil vive no mundo: "De 2020 para cá, eu acho que o Brasil tem sido o protagonista do mundo, conquistado cada vez mais esse espaço.

Eu sinto que os próprios americanos estão olhando cada vez mais para fora – e a gente tá olhando cada vez mais para si e para outros lugares que não sejam os Estados Unidos. Até porque o Brasil é rico em diversas maneiras, são muitas possibilidades sonoras – e é música eletrônica para caralho que a gente faz aqui."

Stills do clipe de COBRA

Artwo, que faz parte da nova geração do grime nacional, além de passear por diversas outras vertentes da música underground, começou na música por acidente. Da vontade de ser youtuber, passou a editar vídeos no computador e acabou, num certo momento, instalando o FL Studio. Antes, já tocava violão e tirava um som com os amigos, mas foi produzindo beats de funk para o SoundCloud que encontrou o seu caminho. Ainda na escola, decidiu se arriscar a cantar e lançou as suas primeiras faixas de R&B.

Rapidamente, o foco se virou para o grime. "Eu sempre chapei nesse estilo de rima diferente, e vi, no grime, um respiro do que eu queria que o rap fosse", explica Artwo, que, mesmo acompanhando e curtindo o movimento, sempre achou as músicas do cenário do rap um pouco parecidas. "Eu quis voltar a fazer os beats de eletrônica que eu sempre gostei, só que agora eu já tava posicionado como um artista que canta. E aí eu pensei: 'se eu fizer os beats de eletrônica aqui, eu vou ter que dar um jeito de cantar neles, ou vou ter que arranjar alguém que cante'", acrescenta ele, que após procurar algumas pessoas, acabou decidindo se arriscar e começar a construção da sua carreira como MC.

Com família cearense, Artwo sempre teve dificuldade de se encontrar em São José dos Campos, cidade onde cresceu e vive até hoje. "Para ser sincero, eu não gosto de São José, até porque eu já passei por uns episódios de xenofobia aqui. Pros paulistas, eu sou muito cearense, e pros cearenses, eu sou muito paulista", conta o artista, que encontrou na cena de grime a validação e admiração que procurava.

"Foi essa doideira, de ver a minha arte num lugar diferente. Eu vejo que o grime tem essa parada de união, de existir um senso de comunidade muito grande – a nível nacional, tá ligado? Todo mundo se conhece, curte o trampo um do outro e tá sempre apoiando."

A sonoridade de Artwo é marcada por uma versatilidade e criatividade que reorganizam as mais diversas referências em faixas intensas, voltadas para a pista, mas que abordam temas reflexivos e sentimentais, e colocam a subjetividade do MC em foco. Influências de gqom, drum n' bass, grime, UK garage, dub e kuduro se misturam com estudos de expressão vocal e da métrica do grime, na criação de uma identidade única e sem medo de experimentar.

"Eu acho que o melhor momento histórico pra gente fazer isso é hoje. Tá todo mundo cansado do que tá acontecendo no mainstream. Eu vejo várias coisas novas surgindo e isso tá demonstrando que, cada vez mais, as pessoas estão abertas a ouvir coisas diferentes. Eu espero conseguir fazer com que todas as coisas se conectem de uma forma coesa, através da minha voz sendo o fio condutor de todas elas. A minha missão também é entrar nas pistas cantando", conta o artista.

A própria cena do grime tem esse processo como elemento definidor da sua dinâmica. Fortemente influenciado pela experimentação de MC's como Flirta D, Flowdan e AJ Tracey, que trabalham com muita liberdade vocal – e trazem para a pista, das mais diversas maneiras, as suas identidades – Artwo enxerga, nessa indefinição, um espaço de liberdade: "O grime dá uma liberdade vocal muito grande. Eu posso fazer uma letra rimando num registro médio, num registro grave, num registro agudo, no que eu quiser fazer, e as pessoas que são do grime vão ouvir de braços abertos.

Agora, eu me sinto num lugar mais confortável para explorar coisas novas. A minha ideia – e eu não sei como isso é aplicável de verdade – é construir um público que gosta de mim, e não exatamente do gênero que eu tô fazendo. Transitar em várias paradas e soar coeso."

Artwo demonstra uma preocupação em se manter ativo nas redes sociais – e o faz sempre de maneira criativa, mesmo que a sua vontade maior fosse só fazer suas músicas e não ter que aparecer. O foco agora é aproveitar essa onda de gente nova chegando e entregar uma constância de lançamentos. "A minha vontade é manter um ritmo de trampo, sempre lançar as faixas com uns visuais bonitos – e principalmente agora, que esse público novo chegou, fazer com que ele se interesse pelo que eu tô fazendo.

O meu maior desejo era ser aqueles artistas que não mostra o rosto, não fala nada – e por muito tempo eu fiz isso, só que chega uma hora que a água bate na bunda. Hoje em dia, eu acho que consigo canalizar todas as coisas com muito mais clareza. Eu aprendi muito sobre não deixar a peteca cair – entender o que eu devia, ou não, devia ter feito", explica ele.

Mesmo sendo uma missão bastante difícil, o seu objetivo na música é criar uma sonoridade muito mais por meio da textura do som e da identidade de produção do que por um gênero específico. Por enquanto, o plano está dando certo. "Eu não me vejo com números astronômicos – mas se eu conseguir manter essa frequência e esse ritmo de crescimento que eu tô tendo nos últimos dias, até o fim do ano, eu vou ficar bem feliz.

Eu ainda não organizei tudo porque toda a minha estratégia mudou. Mas ainda tem alguns singles para serem lançados, algumas coisas na bala, e a minha ideia é ir lançando essas paradas – mantendo a peteca no alto."

Siga e acompanhe o trabalho de Artwo nas suas redes sociais e nas plataformas de streaming.

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