DJ Patife e a música que o mantém vivo

O Patife foi um dos arquitetos daquilo que a gente conhece como Drum’n’Bass Brasileiro, sendo protagonista e linha de frente do movimento que misturou eletrônico com MPB

DJ Patife e a música que o mantém vivo

Quando a gente começa a ligar os pontos do movimento do Drum’n’Bass Brasileiro, que foi forte no final dos anos 90 e começo dos 2000 no Brasil, a gente sempre chega em nomes que aparecem em diversas conversas. Aqui na ISMO, a gente fez uma série de papos sobre o assunto, com pessoas importantíssimas do movimento, e se não todos, mas quase todos os papos falam sobre o DJ Patife. 

Wagner Ribeiro de Souza, o Patife, nascido em 1976, viu de perto o nascimento da cultura hip hop no Brasil na adolescência, colando nos rolês da São Bento e, mais tarde, viria se tornar um dos DJs mais reconhecidos da história da música eletrônica no mundo todo. De participar de equipes de som a tocar em mais de 100 países, o Patife sempre manteve um mesmo sentimento: o amor pela música. 

A série de artigos e entrevistas da ISMO sobre o Drum’n’Bass Brasileiro ganha um capítulo importante: uma entrevista inédita com o Patife, conversando sobre o que foi o movimento sob sua ótica e suas experiências. Leia agora na íntegra abaixo.

Fotos: acervo DJ Patife


Antes do Drum’n’Bass, existiu o rap na sua vida... 

Se o Drum’n’Bass é o meu universo, o rap é a genética, o ancestral, de onde eu venho. O rap e o movimento hip hop ajudaram a moldar a minha personalidade. Naquele período de 12, 13 anos, eu estava perdido, tentando lidar com o divórcio dos meus pais, ainda que a relação era saudável. Tinha a minha bronquite, minha asma… Me julgavam bastante, eu era o “catarrento”, mas aquilo me machucava porque eu não podia controlar, sabe?

Quando eu chegava no metrô São Bento, com aquela roda de break rodando, ali eu não tinha falta de ar. Ali todo mundo me abraçava para me trazer informação, era legal comigo, aquilo era meu templo, meu refúgio. Nas lojas de disco eu me encontrei, gostava do rolê, as piadas, as tirações de onda… No rap foi onde aprendi sobre James Brown, Parliament, sound system, caixas de som, a hora das lentas, o samba rock. 

Foi no rap que aprendi sobre escravidão, racismo, Malcolm X. Comecei a moldar a minha personalidade a partir do rap. Com 14 anos, o movimento me mostrou o mundo como era. 

Patife usando uma camiseta homenageando DJs importantíssimos do Brasa

Quando e como você conheceu o Drum’n’Bass?

As batidas mais aceleradas, diferente do que tinha no fim dos anos 80, a primeira vez que ouvi uma batida acima de 150 bpm foi numa balada chamada Contramão, na Zona Leste de São Paulo, onde o DJ residente era o Ricardo Guedes, o nosso pai (risos). Lá ele tocou o Rebel MC com o Tenor Fly, o The Wickedest Sound. 

Aquilo pirou a minha cabeça, “que negócio rápido é esse?” (risos). Depois ouvi o Prodigy, que era mais rápido ainda. Mas Drum’n’Bass mesmo foi em 94, quando o Marky trabalhava em uma loja de disco, perto da Praça da Sé, na Rua José Bonifácio, em uma galeria pequenininha – eu era cliente dele e um dia cheguei e ele falou “escuta isso, é o som que está dominando a Inglaterra”. Era o The Dark Stranger, do Bookie Times Tribe, remix do Origin Unknown. 

Eu fiquei de boca aberta e aí começou a loucura ali, o amor à primeira vista. Um casamento perfeito, vim do rap, hip hop, adorava ragga, dancehall, então foi ali que tudo começou. 

Eu já ouvi você comentando que não era tão fã do techno Eurodance. 

Cara, eu não tinha nada a ver com a dance music, Deus me livre (risos). 

Você se encontrou no Drum’n’Bass então?

Foi exatamente isso, essa história do hardcore, jungle, Drum’n’Bass, foi uma coisa que eu me senti em casa. Não encontro uma palavra que expresse esse sentimento, era algo que tinha a ver comigo. Era algo novo, bebia na fonte de tudo aquilo que eu gostava, do reggae, dub, ragga… Foi chocante. 

E agora os mestres do Drum'n'Bass

E como que conhecendo esse Drum’n’Bass vindo da Inglaterra surgiu a ideia de misturar com as músicas brasileiras? 

No meu caso, especificamente, foi algo muito natural e de fato, sem nenhum plano. Não teve um planejamento, até porque eu nunca tive muita afinidade com estúdio. Me chamam de produtor musical, tenho disco, mas o que me move de fato é a pista de dança, é estar ali mexendo com a emoção das pessoas.

A história do estúdio foi muito da inspiração e da insistência das pessoas que estavam comigo, como o Thibo, o Xerxes, o Ramilson, que ficavam falando de produzir – eles tinham essa visão já na metade dos anos 80! Nisso, antes mesmo de produzir, eu ia nos estúdios deles e a gente ficava criando em cima das ideias, tudo que criei até os anos 2000 era co-produzido por eles. 

O Sambassim, os primeiros remixes do Max [de Castro], aquilo se formava na minha cabeça, aí já comecei a trabalhar com produção. Foi natural, dando ouvido para esses mestres e, de repente, comecei a pegar gosto e estudar bastante. Em 2003 eu comecei a estudar áudio e acústica, passei uns 4 anos no IAV na Vila Mariana, fazendo cursos diversos, mas ainda sem viver direto no estúdio, era algo mais pessoal. 

Você comentou desses seus mestres e conversando sobre o Drum’n’Bass, sempre ouço bastante sobre o Xerxes e o MadZoo. Qual foi a importância deles nesse processo todo? 

Ao meu ver, foi vital, talvez se eles não tivessem existido, a gente não conheceria o Drum’n’Bass Brasileiro como a gente conhece hoje. Eram eles que tinham o conhecimento de produção e a visão – e aí que mora o segredo de tudo. Eles tinham a visão do quanto era importante produzir. Eles quebraram muitas barreiras, porque tinha muito preconceito com a produção feita no Brasil, isso de maneira geral. Por exemplo, era difícil tocar rap nacional nas festas de black – os DJs só tocavam Racionais! Na música eletrônica foi pior porque se levou muito tempo pra entender como se operava as máquinas, as sobreposições… 

O Xerxes e o Mad viviam, dormiam e acordavam em cima do equipamento e de manuais – e vamos lembrar que nos anos 90 não tinha internet, não tinham chats nem tutoriais, então era o mínimo de inglês, comendo os tutoriais com farinha! O Xerxes, por exemplo, era um dos únicos que sabia mexer no Roland Sampler S 760, ele trabalhava numa empresa que tinha relação com a marca e ele era o professor Pardal daquilo (risos). O Mad era nos Akai. 

Patife e Mad Zoo

Pode ser que sem eles a gente teria produção brasileira? Pode ser! Mas a maneira como eles respiravam e viviam aquilo, tão intrinsecamente com a gente, é o diferencial dos dois no movimento. O que eu sei de produção, meus primeiros passos, a construção de tudo, é mérito desses dois. 

Nessa época tinha que fazer sucesso lá fora pra fazer sucesso dentro do Brasil? 

Na minha percepção, acho que o reconhecimento brasileiro só veio da forma que veio porque fomos reconhecidos fora do país. Mas a gente só teve o reconhecimento fora porque a gente já tinha feito um trabalho interno! Quando o Brian [Gee] vem pro Brasil a primeira vez, se ele chegasse e não tivesse um cenário formado, ele não ia engajar da forma como foi. Já haviam milhares de pessoas na Zona Leste dançando música underground, haviam grupos sólidos na metade dos anos 80 dançando com o Marquinho MS, com o Mau Mau, com outros… A música underground da noite em São Paulo já estava sendo construída muito antes de eu chegar, tanto que eu vou beber na fonte desses caras, como o Renato Lopes, Marquinhos, essa turma toda. E até antes, com o EBM, com o gótico, a coisa industrial…

A benção do brasileiro foi nos dada depois da benção inglesa, isso não dá pra esconder. Mas a benção inglesa veio do trabalho de base já feita aqui no Brasil anos antes de eu bater na porta deles. 

Agosto de 1997. Me conta um pouco da ida para Londres no fim dos anos 90 pra mostrar as músicas de vocês? Como foi essa parada de juntar uma grana e ir levar os discos pros caras ouvirem? 

Isso veio de um episódio de devaneio meu, aquela coisa de pés no céu e nada na terra (risos). A vontade de ir pra Londres já existia há muito tempo. Aí conhecemos o Adrian Harley, que estava estudando ciências sociais, estava sempre no Rio de Janeiro e em São Paulo. 

Um dia ele estava por aqui e foi dar um rolê no Centro e foi na loja que o Ramilson trabalhava, a Disco Mania. 

Ele curtia Jungle, né?

Sim, totalmente! Na loja ele pergunta se tinha Jungle, não tinha, mas o Ramilson levou ele pro Marquinho, que trabalhava no Updance Music. Na hora o Marky me liga no trampo e me fala pra ir lá conhecer ele. Nessa mesma noite o William Santos estava fazendo uma festa perto do shopping Interlagos, ele começa a tocar hardcore jungle, joga o microfone na mão do Adrian, ele começa a rimar e a gente fica maluco (risos). 

Acabou essa noite, fomos pra minha casa e ficamos até umas 4 da manhã bombardeando o Adrian de pergunta. Era tudo o que eu precisava: o contato! A gente ficou trocando carta, que demorava meses pra chegar e voltar com resposta (risos). Um dia eu perguntei o que ele achava da ideia da gente ir pra lá e ele se amarrou. Peguei as páginas amarelas, procurei uma agência de viagem e fiz uma reserva pra mim e pro Marky! Uma semana antes da data marcada, 18 de agosto de 1997, eu ainda estava pensando como ia pagar e o Marky já estava com a dele paga. Eu estava trabalhando na Dubside Music, e chega o Ricardo Coppini, eu estava cabisbaixo porque achava que não ia conseguir ir. Ele falou “espera aí que a gente resolve isso!”, aí ele ligou para um primo que tinha uma agência de turismo em São Bernardo do Campo, parcelamos em 18x e fomos. 

Patife turistando em Londres em 97

A ideia era passear, ir de turista. Em 98 que foi quando eu fui atrás de usar o nome das festas da Movement, fomos lá pra pedir autorização! O Adrian fez a ponte com os caras, demos a sorte do Edo atender o telefone e ele já falava um espanhol OK, iria entender um pouco - só que não (risos). Fiquei duas horas no telefone com ele, gastei a conta de telefone mais cara da história, mas no fim deu certo, fomos lá pessoalmente, juntamos o material, filmei uma matinê na Arena, financiei de novo uma viagem com o Coppini, e cheguei lá com compilações minha e do Marky, alguns recortes de jornal, a gente no Free Jazz junto do Goldie e a galera do MetalHeadz. 

Cheguei no escritório da V Recordings para conhecer o Bryan Gee, a hora que ele coloca o VHS, já quis vir pro Brasil imediatamente! Depois disso, parecia que a gente se conhecia há anos, foi uma sincronia e uma sinergia incríveis. 

Aí a galera ficou na expectativa de saber como eu voltaria de lá e quando o Edo vem para o Brasil, a gente faz uma festa pra ele ver, isso foi em setembro de 1998. Em novembro, o Marky já estava tocando no Lov.e, chamamos o Bryan para vir tocar e o resto é história. 

Oliver, Patife e Edo

Você comentar do Lov.e me fez lembrar da Sound Factory. Sound Factory, Julião, Marco, Oswaldo, Yes, Du… Me fala um pouco sobre o papel da Sound na música eletrônica de SP. 

Antes de tudo acontecer na Vila Madalena, do Lov.e, daquilo que aconteceu nos Jardins, paralelamente ao que estava acontecendo com o Mau Mau, Renato Lopes, Alluere, Nation… A Sound Factory já estava trazendo Little Louie Vega e Erick Morillo, em 93 e 94! 

Para mim, DJ Pati, a Sound Factory até hoje não foi reconhecida, condecorada e premiada como ela merecia. Ela não só muda musicalmente o conceito de dance music da periferia – veja, até tinham casas que recebiam 3, 4 mil pessoas, mas tocavam o que a gente chamava de house music "baba", não tocava o house como ele era, o techno como era, eles tocavam o pop. Quem constrói o som para a grande massa da periferia, não só musicalmente, ela também foi importante no desabrochar da mudança de personalidade de muitas pessoas, de comportamento humano, mesmo. Ali as pessoas passaram a ser o que elas queriam, se vestir como queriam… A Sound Factory influencia até na moda! Moda, música, comportamento, resolvia crises de identidade… Fico até arrepiado quando falo de lá.

E de novo a gente fala no MadZoo! Toda aquela plástica de programa de rádio, abertura da Sound, a voz do Julião, tudo saía das mãos desses caras. Quando eu digo que são mestres não é puxando saco, é reconhecendo a pancada que eles deram em mim, de mostrar um universo novo que eu ainda não tinha descoberto. 

Existe um Patife antes e depois da Sound Factory. Antes de ir lá, eu não tinha visto nada igual. Eu tinha 17, 18 anos, por aí, a cabeça explodiu! Aquela abertura da Sound Factory me levava para um lugar inimaginável. Era muito incrível. 

Ao meu ver, era muito mágico e especial porque todo mundo ali estava pela música e para a música. Não tinha essa de ver o que estavam fazendo, telefone na mão nem existia! Nem encontro palavras para expressar o que sentia ali, mesmo não frequentando tanto tempo, porque logo depois comecei a tocar no Arena. Já fui depois tocar lá como DJ convidado, mas muita coisa já tinha mudado. 

São Paulo era a meca do ritmo no Brasil. Me fala um pouco sobre essa parada de ter rolês diferentes do mesmo som em São Paulo, tinha um lado mais playboy e um lado mais periférico. Rolava um preconceito? Tinha até o termo “cyber manos”, me conta um pouco dessas diferenças de público. 

Posso estar equivocado, mas acho que isso foi só no começo. Quando tinha a página da Erica Palomino, acho que era Noite Ilustrada, era uma referência, trazia uma série de coisas de moda, comportamento, ela falava sobre a noite. Foi lá que apareceu esse termo e não acho que era pejorativo, era a ótica pela qual ela via, era uma maneira de classificar, isso é normal no mundo, certo? 

A coisa começou a ficar um pouco estranha quando os cyber manos iam para o Mercado Mundo Mix e outros eventos e não eram bem vindos. Depois teve toda a treta com os carecas, com os punks, que queriam bater na galera, então tinha que sair determinada hora ou desmontar dentro do clube pra ir embora… Todas as eras que tem movimentos musicais e comportamentais tem grupos que eram marginalizados – tudo o que é novo existe resistência e medo da grande massa, a novidade é estranha.

Tocando na Parada da Paz, no meio do Centro de São Paulo

Alguns momentos foi bem chatos e tristes, por exemplo tocar na Parada da Paz e ver a pista se esvaziando porque tinha treta com punk, careca ou algo do tipo. Tinha também o outro lado que existia xenofobia, misoginia, homofobia… É um capítulo um tanto triste na nossa história. 

Enquanto DJ você sentia uma diferença de público tocando nos Jardins e na periferia? 

No início, 96 ou 97, a turma de poder aquisitivo maior nem sabia dançar direito. Quando os manos apareciam e mostravam o swing, devagarinho a coisa começa a mudar! 98 eu acho que foi o início da mistura e depois fica mais homogêneo e a galera não se estranha tanto. Mas esse é o ângulo que vejo, até porque a galera de maior poder aquisitivo tira a camisa de botão e começa a se vestir mais despojado na virada do século (risos). 

Aí também começam vários artistas frequentarem, atrizes, cantores de grandes bandas, por exemplo você ia na quinta feira do Lov.e estava o Marcelo D2! Ficou uma coisa mais homogênea, mais saudável. 

A Lov.e começou a ter noites diferentes, de rap, pancadão com o Marlboro… E a tecnologia, a internet, começou a espalhar a informação e tudo mudou muito rápido! 

Vamos falar dela então, qual foi a importância da Lov.e?

É sobre exatamente isso que estamos falando, o lugar que conseguiu fazer o mix entre a quebrada e a riqueza, dos boys com os manos, acho que ninguém fez isso tão bem quanto a Lov.e. 

Obviamente também o investimento que eles tinham de trazer mais atrações, a plástica de sair de uma coisa mais sofisticada com grandes iluminações, para um lugar de um globo espelhado, iluminação lo-fi, 5h da manhã oferecer um café da manhã daquele… Eu nunca tinha visto isso em lugar nenhum! 

Começou com uma ideia de fazer uma noite de jazz no começo da semana, depois foi ganhando noites, como a do Drum’n’Bass na quinta feira. 

Como a Sound Factory, é difícil encontrar palavras que expressam a importância. Acho que a Lov.e dizia para o Brasil como devia ser feito. O Angelo e a Flavia olham para o início do anos 90, refletem sobre tudo o que já fizeram e fizeram uma casa clara, não tanto inferninho (risos). O Lov.e era colorido, aberto, claro, e tinha todas as tribos. A casa foi um marco, o segundo ou terceiro grande salto da história clubber do Brasil. 

Qual você acha que é o primeiro salto?

Começa com eles também, a turma do Renato Lopes, MauMau, Marquinhos MS, no Madame Satã, Allure, Columbia, Clube Base, aquilo tudo foi a semente. 

Agora falando um pouco mais sobre produção, e a Trama e a Sambaloco? O que foi esse rolê?

No meu caso, que ainda não tinha registro fonográfico, a Trama e a Sambaloco foram a mãe, pai, avô, avó, foram tudo! Foi a primeira vez que me senti sendo tratado como artista, foi quando começamos a planejar, entender direitos autorais, começar a trabalhar com músicos de estúdio… Foi tudo. 

Eu conheço o Bruno E. na volta de Londres com a permissão para fazer a Movement, e o Mad Zoo (de novo ele, olha aí) me apresenta para o Bruno e ele acha muito legal a conexão e já me fala do selo e da gravadora, que era ideia da Elis Regina já décadas antes e o filho dela ia colocar o bloco na rua. 

Logo depois eu já estava lá dentro planejando, criando, gravando… Um dia o João Marcello Bôscoli foi ver eu e o Marky tocar e falou da fusão que eu fazia com o jazz e música brasileira e me perguntou se eu não tinha interesse de fazer uma compilação daquilo - foi onde nasceu o Sounds of Drum’n’Bass, que dizem que não existe filho preferido, mas esse é o meu (risos).

Sabia que eu vejo um defeito nesse disco? Eu teria um cuidado com o pitch, acho que tem músicas que estão rápidas demais, para o meu ouvido hoje! Eu tinha meus 20 e poucos anos, estava na ânsia, mas mudaria isso hoje.

Esse disco chega na Fernanda Porto, ela vai me ouvir tocar no SESC, ela me dá uma demo de um disco que ela estava produzindo… Eu não tinha tido muitas experiências de estúdio, antes do Sambassim eu tinha feito o “Pra você lembrar”, do Max de Castro, que tinha sido lançada no Brazil EP da V-Recordings. 

Ela me passou um tempo me ligando, acho que ela achou até que eu tinha desistido (risos). Depois de uns meses, coloquei o CD dela e escutei “esse samba é o groove da vez, com guitarra e Drum’n’Bass” e pensei “uau, ela está falando de Drum’n’Bass!”. Eu lembro, era a faixa 4, um maracatu com BPM lá em cima - ela tocou tudo sozinha, os arranjos, as letras, as composições. A Fernanda é simplesmente incrível, ela é assustadora, é genial, ela é foda! E para ser mais foda ainda, ela tem um coração enorme, uma serenidade, ela é demais. Eu não sei o que o universo viu em mim de colocar no meu caminho uma pessoa de tamanha grandeza. Eu só agradeço o universo por colocar pessoas tão incríveis no meu caminho.

Aí ouvi a música, deixei no repeat duas horas e fui montando a construção do remix na minha cabeça. Aquele pandeiro do começo, o “samba”, o baixo de 808… Montei aquilo na minha cabeça! À noite eu liguei e perguntei se podia fazer uma canção, mas com um pouco de receio porque, com muito respeito, fiquei pensando se podia tocar a música dela, mas do meu jeito. 

Na nossa conversa, acho que ela entendeu que era pra eu fazer um remix, para me pegar para fazer essa versão, mas eu expliquei que não era isso, eu queria fazer uma versão pra eu tocar, porque tinha achado a música incrível, sem custo, sem nada envolvido. Aí ela me manda: “você conhece o Xerxes? Ele que tem a minha música aberta, as vozes, ele está me ajudando”. E eu já o conhecia, ele morava na Vila Alpina! Liguei para ele na hora e ele perguntou se eu ia usar o vocal e eu falei “é aí que mora tudo!”. 

Cheguei no Xerxes, peguei uns beats e breaks e 4h da manhã, aquilo que pipocou na minha cabeça, estava pronto, do jeito que você e todo mundo conhece. O Xerxes me ajudou no S760 a fazer, naquele computador que quase faliu a Apple, o Performer (risos). Nunca é sobre equipamento, é sobre a intenção! 

Aconteceu esse remix. E depois, como foi a repercussão e o sucesso dele?

O remix aconteceu de um sábado para domingo. Na quinta feira, estou incumbido de tocar no Lov.e porque o Marky estava fora e eu que cobria ele. Depois de 1h tocando, quis testar para ver como estava soando. Fiquei pensando se tocava mesmo ou não, até que resolvi colocar. Quando eu saco um CD, os intelectuais do Drum’n’Bass já criaram aquela nuvem de “não pode tocar CD!” (risos). A música que eu estava tocando estava acabando e eu pensei “é agora”. A hora que acabou o disco, o “samba” da introdução veio certinha! 

Durante uns 15 segundos as pessoas não sabiam se dançavam, se tentavam entender a música… Mas muito rápido a mulherada começou a vir pra frente e começaram a rebolar, sambando, daqui a pouco vejo as mãos vindo para dar rewind, a galera me puxando, uns estranhando, outros curtindo… Dei o rewind e as pessoas escutaram no início. Na minha frente e ao redor, só vejo mulheres rebolando, galera sorrindo, feliz… Resumindo, tocou por 20 minutos! Acabava e a galera pedia pra tocar de volta.

Passado umas semanas, o Marky volta e a gente vai pra Inglaterra. Quando a gente toca no Reading Festival da Virgin, eu deixo a Sambassim por último. Toquei, saí do palco e vem um cara magrelo de cabelo chanel e queria o meu CD. Falei pra ele que só tinha aquela cópia, mas que no outro dia iria estar fazendo meu dubplate em outro lugar, para ele ir lá. 

Estava eu no Music House e aparece alguém procurando o “Pataife”. Me aparece um motoboy, dizendo que era portador da Island Records, a gravadora que lançou Bob Marley. Aquele cara era o Ross Allen, a mesma turma do Giles Peterson, do Patrick Ford, e ele tinha um programa na BBC… O motoboy pega o CD da minha mão, vai pra Island Records, o Ross tinha um programa e ele começou e terminou aquela edição com a Sambassim. O Giles estava escutando o programa e no dia seguinte foi no escritório do meu manager, pedindo a música! 

No domingo seguinte, o programa do Giles, que era o único transmitido no mundo todo, o Worldwide One, ele começa e termina o programa com a Sambassim, rasgando elogios, do tipo “o Drum’n’Bass recebeu o que precisava, a música brasileira!”. 

Na boa, em três meses minha vida mudou de cabeça pra baixo, isso só com ondas do rádio, não tinha internet! Depois disso, vários DJs queriam uma cópia pra tocar. O Sambassim nasce fora do cenário do Drum’n’Bass, o começo da música é muito mais forte na Inglaterra do que no Brasil. Quando começa o burburinho, a galera de São Paulo começa a querer, mas antes tinha uma super resistência. A produção nacional mesmo tocou muito pouco, só os DJs de Drum’n’Bass que era mais flexíveis - o núcleo hardcore de Drum’n’Bass por aqui não era muito aberto a som com vocal, não. Eles curtiam mais as coisas produzidas, sintetizadas, mas assim com letra e vocal como a gente estava fazendo, era difícil. 

Patife no Skol Beats (foto: Fábio Mergulhão)

Foi tudo bem rápido, desde fazer sucesso até também a pararem de tocar. O ápice e a queda parecem ter acontecido bem rápido, foi assim mesmo? 

Foram três ou quatro nomes que vestiram a camisa na época. É impossível um exército de um homem só. Na mesma velocidade que subiu, sumiu (risos). Poderíamos ter criado um movimento, que acho que agora pode acontecer, com uma geração nova fazendo virar um movimento, mesmo. 

O Sambassim foi o seu hit máximo? 

Eu acho que o que perdura até hoje e falando da nova geração, que está descobrindo agora, é a música que me levou pro mundo e que está ligada à minha imagem enquanto DJ. Mas Só tinha de ser com você também é um marco. Ela não toca tanto, mas mexe com as emoções de muita gente, pessoas que lembram de pais ouvindo, ela traz novas pessoas para a música eletrônica. Ela foi trilha sonora da novela Anjo caiu do céu, a música como protagonista, quando ela ia pra balada, então essa música tocou bastante. 

Esse “casamento” com a Fernanda Porto veio sem planejamento, foi muito natural. Foi um pouco difícil eu lidar com a demanda, as gravadores e selos queriam outros “Sambassim” e essa pressão mexe com a minha criação – você me pressionou, eu não crio. Muito dos altos e baixos vem disso, da pressão, dos contratos para fazer disco etc. No início foi tudo natural, depois virou obrigação – o que faz total parte do crescimento enquanto artista, entender negócios e tudo mais. Isso foi um erro meu, misturava amizade, brothagem, negócios… Claro que não ia dar bom no fim das contas. 

Hoje com mais maturidade, com muito mais certeza do que quero pra minha vida, já faço as coisas com muito mais clareza. 

O gênero foi gigante no começo dos anos 2000, mas parece que teve uma queda brusca de popularidade pouco tempo depois. Como você vê isso? Parece que em 2005 já não era tão mais forte quanto uns anos antes. 

Eu tive a sorte e a benção, inclusive até hoje, de sempre ter gente querendo a minha proposta, então não afetou a minha agenda. Em 2006 eu tive um problema de saúde sério, tive que sair de cena um pouco… Mas fora isso, sempre toquei bastante. 

Eu quero estar onde querem que eu esteja. Não gosto dessa ideia de ir na onda de outro promoter, sei que são negócios, mas quero estar onde querem que eu esteja. 

A queda da popularidade do gênero não me afetou tanto, até porque eu toco em diversas festas, como de reggae, world music, música brasileira… Toco em festas de moda, em eventos corporativos.

As mudanças radicais acontecem durante a COVID pra mim, foi ali que tudo foi por água abaixo. Mas ao mesmo tempo, de fazer as lives na COVID, veio gente nova curtir meu som e novos DJs produzindo com a gente como referência. 

Hoje é um momento de reconstrução e ser referência é algo muito legal. 

Falando de internet, lives e afins, você tem um rolê de falar de som no seu trampo de motorista. Eu sempre assisto, até porque você fala de som com muita alegria e propriedade. Nisso eu vejo que você fala de Drum’n’Bass até hoje! Como é sua relação com o gênero? 

Eu tenho um relacionamento com o Drum’n’Bass nas entranhas até hoje! Agora pouco eu estava arrancando mato ali fora e estava cantarolando a música do Jhonny L. O Drum’n’Bass me levou pro mundo, 106 países tocando essa música! 

Em 2002 tipo criança em uma loja de discos em Tóquio

Claro que tiveram coisas que me fizeram mal, mas até hoje não consigo virar as costas pra essas coisas negativas. Sempre busquei o entendimento de tudo, sei que muita gente não é maldosa de propósito… Por mais dores que o Drum’n’Bass me trouxe, é sobre essa dualidade do universo, alegria e tristeza, dor e riso. 

A minha relação com o DB é divina, é transcendental, é espiritual. No Drum’n’Bass brasileiro eu ajudei a abrir o buraco, coloquei ferro, coloquei as colunas e ajudei a fazer a fundação, ajudei a construir junto de tantos outros. E eu ainda moro nessa casa que ajudei a construir! 

Olha que louco, esse lance do motorista nasceu anos antes de eu ser DJ. Até ir para a Inglaterra com 19 anos, meu discurso era ser motorista de ônibus de viagem, trabalhar na Itapemirim, fazer a rota Rio-São Paulo, morar no Rio de Janeiro e ter dois filhos! Era isso que eu imaginava na infância e adolescência (risos). 

Quando vem a COVID, fico sem grana, sem trampo, meu filho veio com essa ideia e fui pesquisar e comecei a fazer o corre pra ter esse trampo. A minha primeira carga foi pra onde? Levar morango para a Inglaterra! Era o universo falando “você vai alimentar sua criança interior, mas você não vai esquecer de onde você veio”. 

Levou dois dias para chegar na Inglaterra e eu estava no céu! Esse motorista do vídeo acima, não sou eu, é o menino que pensou em tudo aquilo até ali. E olha outra coisa engraçada disso tudo, outro dia estava pensando no meu pai e comecei a ouvir músicas que eu botava pra ele quando a gente era criança. Dirigindo o caminhão e colocando essas músicas, pensei que meu pai foi meu primeiro clubber, ele foi a primeira pessoa que eu fui colocando música. 

A música mexe comigo de maneira tão profunda que todo o sentimento de saudade ou tristeza se torna um abraço. A música é foda, curou várias coisas em mim, ela me transporta para momentos, a música é a melhor medicina. 

Patife e Quincy Jones

A música te mantém vivo?

Com certeza. Se chegar o momento que a música não mexer comigo, aí é hora de ir embora. 


Leia também:

O Drumagick continua acreditando no eletrônico
Se o house é uma família, Ricardo Guedes é um dos pais
Fernanda Porto e Sambassim são sinônimos de Drum’n’Bass Brasileiro
A DNBB e seu amor eterno pelo Drum'n'Bass
Ramilson Maia foi um dos primeiros a misturar eletrônica com brasilidades
Bruno E., Sambaloco e os agentes do Drum'n'Bass no Brasil
O Drum’n’Bass brasileiro nos anos 2000 foi uma loucura


ISMO
Cultura em movimento

Assine nossa newsletter e receba
as últimas notícias em 1ª mão!

Assine agora