Black Roma Sangue é o comentário de Bruno Kroz sobre Salvador

O EP é um lançamento da Banidos e apresenta uma nova cara para o som do rapper

Black Roma Sangue é o comentário de Bruno Kroz sobre Salvador
Detalhe da capa assinada por Hebert Amorim

Ontem, 14 de agosto, Bruno Kroz lançou seu mais novo EP, Black Roma Sangue, pelo selo Banidos, de Duque de Caxias. O MC de Salvador é destaque na cena de grime brasileira, com uma caminhada atravessada por trabalhos como Ameaça Detectada – lançado em 2021 pela Leigo Records –, Lili Mixtape, Insônia Kurt e Jamais Compare, além de projetos como a 4° SUJO, PANKADA! e BalaHype.

Com rimas e produções do próprio Kroz, além de dois beats construídos por Taleko e ANTCONSTANTINO, o lançamento apresenta a sonoridade que será explorada nos próximos passos da sua carreira, refletindo sobre a sua vivência nas favelas de Salvador.

Em 2021, Kroz roubou a atenção da cena de grime com o lançamento de Ameaça Detectada, projeto da Leigo Records que se consolidou como um dos mais originais e importantes para a construção estética do gênero em nosso país. Nos anos seguintes, manteve a sua caminhada independente, movimentando o grime na sua região e expandindo a sua musicalidade em projetos originais, sempre entregando produções precisas e uma lírica afiada.

Agora, em 2026, a estrutura da Banidos permitiu um mergulho profundo na sua identidade artística – que além do grime, vem muito do rap – fortemente marcada por um olhar para a sua relação com Salvador e como ela compõe a sua forma de se relacionar com o mundo. O título do EP procura tensionar a questão da violência na capital baiana, também conhecida como a Roma Negra, preparando o terreno para o álbum, que está em construção e vai se aprofundar ainda mais em "como a violência influencia o nosso modo de pensar – seja pro mal ou pro bem", explica o MC.

"Quem gosta do meu jeito de rimar, do jeito Ameaça Detectada de rimar, vai gostar desse último. Porque isso é a minha identidade de MC – eu rimo assim, independente do estilo de beat que eu pule. Sempre vai ter esse meu jeito grime de rimar, porque eu sou um MC de grime. Mas eu também tô imprimindo as minhas referências de rap, porque eu vim do rap.

Cada ano que passa, eu tô conseguindo mesclar isso de uma forma mais original. Que não fique nem 100% rap, nem 100% grime – que fique um modo Bruno Kroz. Que você vai ouvir e já vai saber que sou eu rimando, não qualquer outro tipo de cópia, de tendência, de MC de Londres ou dos Estados Unidos."
Foto por @wanscheeffer

A influência do rap dos anos 90, que foi decisiva para o surgimento do próprio grime em Londres no começo dos anos 2000, chegou em Kroz muito antes da pesquisa de grime. A relação com o gênero londrino já se deu à partir do nível técnico, de lírica, e menos por uma familiaridade com a música eletrônica experimental – e as referências de grime que aparecem no seu som são aquelas que mais conversam com a escola do trap e do boombap.

"Eu sempre gostei de rap rápido. Cresci ouvindo Bone Thugs-n-Harmony, Twista, por causa de meus tios, meus pais. Os rappers de flow acentuado sempre me cativaram mais do que os quadrados, independente do gênero. Eu já conhecia Skepta, Stormzy, sem saber que era grime. Mas quando eu conheci Wiley, Chip, Ghetts, esses caras sim entraram na minha mente.

As minhas referências sempre foram voltadas mais pro nível técnico de escrita do que pro refrão, que é um bagulho que o público de grime gosta muito. Quando eu converso com a maioria da galera do grime, pelas viagens e sets que eu faço Brasil afora, a galera conhece muito de música eletrônica, tem muita base de dubstep, de UK garage. E eu cheguei no grime sem nada dessa base. O que me aproximou da música eletrônica, e me fez gostar dela, foi a semelhança do grime com o rap."

No pós-pandemia, a cena de grime ainda se restringia praticamente ao eixo RJ-SP, com o grande holofote do gênero sendo o Brasil Grime Show. Kroz, que já tava lançando grime desde o começo de 2020, percebeu que conseguiria apresentar algo novo para a cena, e chegou chutando o balde.

"Quando eu conheci o grime aqui no Brasil, ele tinha uma identidade muito carioca ou paulista. Ninguém rimava desse jeito. Eu tinha a certeza que eu poderia trazer algo de original, que nunca tinha sido feito antes."
Capa de Black Roma Sangue, por Hebert Amorim

A capa do EP é assinada por Hebert Amorim, e faz referência à pintura Die Schachspieler (Xeque-mate), pintada em 1831 pelo artista alemão Friedrich Moritz August Retzsch. Trabalhando em cima da ideia da Roma Negra, a intenção foi criar um diálogo entre o clássico e o contemporâneo, trazendo a simbologia da obra original para o contexto social e político daqui.

"O diabo tá jogando com xadrez com o cara, confiante, como se tudo fosse dar certo. Ele tá ganhando, mas ainda não acabou pro outro, que mesmo preocupado, ainda tá focado no jogo. De fundo ele botou uma favela de Salvador. É uma forma de simbolizar a dualidade que a gente, como cria de favela de Salvador, enfrenta todo dia", explica Kroz.

"Já faz uns anos que Salvador tá entre as 10 cidades mais perigosas do Brasil. A gente vive esse jogo de xadrez contra o mau, todo dia – pra tentar não perder a cabeça, não ficar de exemplo. Agora, como eu já tenho minha identidade como MC, eu posso explorar mais coisas nas minhas letras. Expor as minhas visões sociais, políticas, o que eu acho sobre o mundo.

Não faz sentido estar em ascensão como artista vindo de uma cidade que tá tendo uma decadência política e não falar nada sobre isso. Seria um absurdo."
Contracapa de Black Roma Sangue, por Hebert Amorim

Apresentando uma sonoridade nova, moldada por todos esses processos, Black Roma Sangue é um dos lançamentos mais originais da cena atual, tanto no universo do rap como do grime. O grime é um gênero abstrato por natureza, e não depende de convenções sonoras definidas e limitantes. Nessa identidade em formação, projetos como este são decisivos para ampliar os caminhos e as possibilidades de relação com os mais diferentes ritmos e influências sem abrir mão da originalidade.

"O EP vai sair com essa atitude 100% grime, com o meu modo de fazer grime. Mas para além de grime, de rap, de trap, o EP é eu como MC. Quem gosta do meu jeito de rimar, quem gosta de Bruno Kroz como MC, como rapper, vai gostar desse trabalho.

A minha expectativa é, cada vez mais, me consolidar como artista independente. Eu tenho as minhas ambições pessoais – trabalhar cada vez mais, entregar mais qualidade musical, fazer sempre o que eu quero fazer, sem ficar amarrado em tendência, em números. Trabalhar cada vez mais meus irmãos da 4° SUJO, trabalhar o lado artístico dos irmãos."

Ouça Black Roma Sangue, já disponível nas plataformas digitais


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