Outras Ondas, Mesmas Cores, por Clara Ribeiro

Mixtape da cantora e compositora explora house, city pop, UK garage e grime em uma construção extremamente íntima e coletiva

Outras Ondas, Mesmas Cores, por Clara Ribeiro
Fotos por @wanscheeffer

Na última sexta-feira, 25/09, Clara Ribeiro lançou seu mais novo projeto – Outras Ondas, Mesmas Cores –, abrangendo diferentes gêneros da música eletrônica de pista e expandindo a sua escrita íntima, atravessada por afeto, desejo e ancestralidade, que já aparecia nos projetos anteriores.

Contando com participações de Lettié, Ciana, JOCA, Maui e MASKOTTE e produções de Holandês, Drei, GregoOnDeBeat, FLOWERTHINGS, Jovelli, Crosstalk, CL FEZ O BEAT, GONDIM, Jacquelone, DJ CARLOZS e Taleko – que também assinou a produção do projeto com WARMANDO –, a mixtape de oito faixas é resultado de uma construção extremamente coletiva, e reflexo de uma cena em formação e em constante rompimento com as expectativas da indústria musical.

Com uma trajetória atravessada por influências de gêneros como MPB, samba, reggae, R&B, neo soul e sonoridades afrodiaspóricas, Clara bate de frente com as expectativas colocadas tanto em cima de artistas da música eletrônica como de cantores da música brasileira.

No final do ano passado, lançou Desabafos, com Chediak, EP que resgata a tradição do drum 'n bass brasileiro, que falamos por aqui na ISMO. Com uma sonoridade que nunca para no mesmo lugar, sempre se propondo a explorar novas ondas, a artista se destaca como uma das principais vozes do underground carioca. Trocamos uma ideia com ela para saber o que está por trás desse projeto que chegou agora pela Deck.

Capa de Outras Ondas, Mesmas Cores, por @bruno_____queiroz

Por que Outras Ondas, Mesmas Cores? O que aparece de diferente nesse novo projeto, e também de parecido, pensando nos seus trabalhos anteriores? O que inspira a sua composição e como ela se mistura com essas sonoridades eletrônicas?

Outras Ondas porque é outro tipo de música eletrônica, gêneros que eu não tinha explorado ainda, mas as Mesmas Cores porque ainda sou eu, ainda é o meu jeito de cantar, de colocar a minha arte no mundo.

São histórias de vida, coisas que aconteceram comigo. “Não lembro o seu nome” é uma história de um relacionamento muito curto, mas muito intenso, que eu vivi – a gente terminou e o garoto nem me deu uma satisfação, só acabou. Depois, quando eu comecei a ser a Clara Ribeiro, a ter um destaque, ele começou a mandar mensagens pra minhas amigas, tipo: “nossa, a Clara tá tudo, não sei o quê.” Eu lembrei desse episódio e escrevi.

E tem músicas que são coisas que eu imagino. Às vezes eu posso ver um filme que vai me inspirar a fazer uma música maneira, histórias de amigos – são as vivências, coisas que eu me inspiro.

Eu faço música eletrônica desde 2023 – tem Arrepio, com o Chediak, que é um UK garage. Eu vim estudando a música eletrônica ao longo desses três anos, e quando eu decidi fazer a mixtape, foi uma coisa muito orgânica, muito natural. Eu fiz Desabafos com o Chediak – um EP totalmente de drum 'n bass – e começaram a chegar uns beats legais.

Eu já tava com muita vontade de fazer um grime, por ter começado a estudar a Kelela, que trazia uma coisa muito melódica em cima de uns beats muito frenéticos – e eu falei: "cara, combina muito comigo". Então comecei a estudar e me juntei com pessoas maravilhosas desse meio, que me ajudaram a entender tudo isso. É um projeto importante que pode me trazer essa visibilidade, como artista da cena da música eletrônica do Rio.

Essa mixtape é totalmente música eletrônica, de diferentes tipos. Eu queria me aventurar no grime, como eu falei, mas também no city pop, house, UK garage. Quando a gente para pra entender a música eletrônica, é muito fácil e divertido – ela encaixa de um jeito com a nossa voz, com o nosso jeito melódico de cantar, e eu acho incrível essa junção. Pra mim, faz muito sentido. A gente tem o Maui fazendo isso, e ele me falou que tá muito feliz com essa faixa.

A gente tá trabalhando desde 2021 pra fazer esse bagulho acontecer, fazer isso virar – essa junção da música eletrônica com o nosso jeito brasileiro de cantar. É um processo muito gostoso.

Dois anos atrás, Um Vírus Romântico Vol.3, projeto organizado pela Akai, já dava um gostinho do que se transformaria essa relação da Clara com a música eletrônica

O rolê de grime tem uma expectativa muito forte em cima de um jeito específico de rimar, essencialmente guiada pela postura e pela masculinidade. Como você chega nesse contexto, cantando, e se relaciona com essas expectativas e pressões da cena?

Quando o ANTCONSTANTINO me introduziu nesse mundo dos sets de grime, onde tava todo mundo rimando o tempo todo, ele falou: "chega lá". Eu falei: "vou rimar", e ele respondeu: "não quero que você rime – seja você, chega com a sua voz". Ele me mostrou um DJ set da Kelela e eu comecei a entender que eu tinha que ser exatamente como eu era, dentro desse mundo, que fica legal, gostoso de ouvir. Me influenciou muito pra poder desbravar outros tipos de gênero dentro da música eletrônica, que é muito ampla.

Eu apanhei um pouco, no início, pra entender. A galera dos grime sets têm um jeito muito diferente de se colocar, e é muito esperado que a gente se coloque de uma forma. Mas eu acho muito maneiro fazer do jeito que eu faço, que o Maui, que a Amanda Sarmento fazem. Eu acho muito foda o que a gente tá construindo.

A gente tem o jungle, o city pop – o Djavan é um cara da MPB que fazia city pop lindamente nos anos 80 –, é nossa referência, é o que a gente escuta. É Brasil, também. O grime me abriu a mente pra entrar nesse mundo, e aí foi quando eu comecei a pesquisar mais.

Sinto que a mixtape continua trilhando o caminho criado em Desabafos, com o seu jeito de processar esses sentimentos e relações – mas se diferencia pela construção coletiva. O que muda na sua música quando ela atravessa essas outras vivências?

É sobre criar conexões, mesmo – esperar que o outro se conecte com o que eu escrevo, o que eu falo. Às vezes, uma mina da zona norte do Rio de Janeiro, pretinha, vai ouvir o que eu tô falando e vai falar: "caralho, isso faz sentido". Quando eu me proponho a me conectar com alguma história e colocar isso no papel, e aí colocar isso na minha voz pro mundo, à partir do momento que o outro se conecta comigo, as coisas fazem sentido.

Fazer música é sobre isso – se conectar com o outro. Conectar emoções, sentimentos e sensações.

Eu acho que toda música que tem uma participação ficou muito a cara do artista que tá comigo. A Lettié é uma das compositoras mais fortes que a gente tem na cena underground, e ela também tá começando, mas já vem de muito tempo. Quando ela trouxe essa letra pra mim, e eu coloquei o meu toque, foi muito importante. Ela é o “Porto Seguro”, né? Eu amo a voz da Ciana – é uma voz linda, bizarra, um grave que te abraça. Ela também é DJ, também já cantou com outras meninas – e ela é de uma casa de Ballroom. E o house tem muito essa cultura. “Mar Azul” combina com ela e comigo.

O Maui, a gente se conhece desde 2021. Antes de Rubi ser lançado, eu tava lá com ele, e a gente fazia parte dessa cena, do UK garage que ele gostava muito de fazer. O JOCA veio numa rima meio cafajeste, eu acho isso muito foda. Eu era fã dele na época da faculdade, e hoje somos amigos, parceiros, e fazemos música juntos. O MASKOTTE, pra mim, é um dos maiores do grime – eu acho ele talentoso demais. 

São pessoas que eu admiro, que eu acho que fazem a diferença na cena, e que eu quis juntar pra somar comigo nesse projeto, que é um projeto coletivo, que a gente fez junto. Porque tudo que a gente faz com leveza, amor e parceria, funciona. Foi muito importante trazer especificamente essas pessoas.

Contracapa de Outras Ondas, Mesmas Cores, por @bruno_____queiroz

Quando você entendeu que a mixtape teria essa identidade sonora, explorando a música eletrônica com profundidade? O seu público abraça bem essas sonoridades – ou existe uma certa expectativa por um R&B tradicional?

Depois de Desabafos, eu sabia que queria continuar fazendo música eletrônica, pelo menos por agora – não acho que o meu álbum vai ser nessa pegada. A gente foi pensando e funcionou, tudo se interligou. Eu já queria cortar o cabelo, tava maturando essa ideia, e acho que tudo tá interligado. O corte de cabelo foi uma renovação pro que veio agora e alguma coisa vai acontecer pra eu me conectar com o que vai vir pro álbum.

Eu não me prendo muito aos gêneros – eu fiz "Fuga" com o Africanoise, que é totalmente diferente do que eu fiz agora. Tudo tá em conexão, porque eu tô muito presente comigo mesma, e com o que eu quero passar pras pessoas que se conectam comigo.

O clipe de "Lágrimas", parte de Desabafos, saiu pouco antes da mixtape e ajuda a interligar esses dois momentos

O R&B é muito amplo, então tem uma galera que têm uma tendência a ouvir artistas mais pela batida. Não sei se a galera do R&B me escuta, mas eu também ainda não sei sobre a galera da música eletrônica. O público da SPEEDTEST, não sei se todo mundo me escuta por ser Clara Ribeiro – talvez alguém vai me escutar porque eu tenho contato com o Chediak. E isso é uma coisa importante também, porque às vezes as pessoas vêm me elogiar trazendo um artista masculino em cima. Eu ainda tô entendendo o meu público, sabe?

Às vezes as pessoas me perguntam: "ah, você é artista? O que você canta?" – e eu nunca sei o que responder. Eu não canto só música eletrônica – minha voz é R&B, MPB. Será que meu jeito de cantar é totalmente MPB? Será que é música eletrônica? É um pouco confuso, mas eu acho que as pessoas certas vão me encontrando e eu vou encontrando elas, como público.

Acho que é isso. A gente tava falando do Maui e acho que ele é um bom exemplo. Ele cresceu na igreja, estuda o gospel, tem um jeito gospel de cantar – ele canta R&B, canta pop, mas tem essa influência do gospel. Eu tenho influência na MPB porque foi o que eu consumi durante a minha vida, o samba que meu pai ouvia, a minha mãe. Acho que é muita influência do que você consumiu durante seu crescimento, durante sua trajetória de vida.

Por fim, como é revisitar os processos de Outras Ondas, Mesmas Cores, agora que o disco já está no mundo? O que está por trás dessas escolhas, tanto na sonoridade, como na parte visual?

A gente começou a fazer a mixtape em abril, então foi bem rápido. A ideia se formou antes de virem os beats, porque a gente já queria lançar um projeto maior. As pessoas foram mandando, e eu falei pro Diogo: "acho que a gente pode misturar tudo e fazer uma mixtape com vários tipos de música eletrônica". Foi uma construção que se formou primeiro na nossa cabeça e aí a gente foi atrás.

No processo de mix e master, é o Chediak. Não preciso nem falar que eu amo trabalhar com ele – acho que ele abrilhanta tudo que ele toca. Ele entende tudo que a minha voz quer passar e consegue fazer tudo do jeito perfeito. Eu gosto muito da parte visual. Em todos os projetos que eu faço, eu acho importante – porque me conecta, também, com o meu público. Quando eu escutei esse projeto pela primeira vez, eu imaginei coisas muito futurísticas, espaciais, estrelas, e eu quis trazer essa identidade.

É um alívio, de verdade. Foi um projeto muito leve e gostoso de fazer, apesar de todos os contratempos. Foi fácil, foi coletivo. Eu já recebi muitas mensagens legais de pessoas que eu gosto, que eu admiro – isso pra mim já vale tudo. E tô muito ansiosa pra cantar essas músicas no Rock the Mountain. Tô muito ansiosa pra esse show.

Eu tô num momento onde eu consigo olhar pra Clara de 2023 e a de hoje e ver a diferença, ver o meu crescimento – e eu espero crescer ainda mais. Espero entregar muitos trabalhos, pras pessoas ouvirem, se identificarem, se conectarem. Tô muito feliz com esse projeto, de verdade. É lindo ver um uma projeto seu na pista.

Outras Ondas, Mesmas Cores, já está disponível nas plataformas digitais


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