Matheus Coringa e a resistência coletiva contra a Babilônia
Babylon By Nós é o novo EP do rapper, construído em colaboração com Digmanybeats e lançado pela Sujoground
Uma semana atrás, Matheus Coringa e Digmanybeats lançaram Babylon By Nós, EP colaborativo de cinco faixas que conta com participações de Bella V, Marci VSR, Ravi Lobo, ALFÃO, IKU THE KID e YUNG EXU. O trabalho chega pela Sujoground, selo fundado por Coringa que tem, nos últimos anos, incentivado e contribuído para o fortalecimento do rap underground no Brasil, com uma visão original e descentralizada do eixo.
Falando sobre temas como deslocamento, sobrevivência, espiritualidade, violência e ambição, Matheus Coringa – rapper, produtor e compositor nascido em Salvador e criado entre Manaus e o Rio de Janeiro, e que hoje vive em Santo André (SP) – explora de maneira profunda a sua história, relação com o território e os processos que o trouxeram até aqui.
A parceria com Digmanybeats – beatmaker na ativa desde 1995 – surgiu casualmente e se desenvolveu de maneira natural, com instrumentais orgânicos e que aproximam o espiritual do físico, servindo de base para essas diversas vozes e territórios. Aproximando gerações e artistas em diferentes momentos de carreira, Coringa propõe uma construção coletiva, que reivindica a sua autonomia e bate de frente com os números e imposições do mainstream. Babylon By Nós referencia Babylon By Gus, de Black Alien, mas muda o foco de quem se relaciona com essa Babilônia – além da força coletiva, o título também faz uso dos nós como entrelaçamentos de experiências, que apertam, prendem e conectam.
Troquei uma ideia com o Coringa para entender mais sobre esse projeto – que não olha para a Babilônia como um sistema externo, mas sim, como algo que é reforçado e construído pelas próprias pessoas que vivem dentro dela –, se é possível lidar com as contradições de estar inserido nesse sistema e contribuindo para a sua construção, sobre o trabalho na Sujoground e sobre o momento da cena do rap.

Por que a pista tá tão salgada?
Cada vez mais, a gente tá numa era da atenção – seja ela afetiva, cibernética, familiar. Os artistas são criadores de conteúdo, a gente tem que primeiro pensar em como a gente vai vender ou proliferar a nossa arte. Eu tô cuidando muito da minha espiritualidade, e acaba que a pista fica muito salgada, em termos do que eu eu vou buscar desse cenário – do que eu me identifico, onde eu me encontro, e tem a questão das redes sociais também.
A pista tá salgada em termos de relação – é uma era em que as pessoas não sabem direito porquê elas se amam. A gente vive a era do antropocentrismo, é o ser humano como centro do universo. Se eu sou o centro do universo, e eu sou falho pra caralho – todo mundo ao meu redor tem as suas falhas –, é banho de sal, realmente. Se cuidar, cuidar do seu quadrado.
"A Pista tá Salgada" é a única música individual, e eu acho que é onde entrelaça essa questão da Babilônia, de São Paulo – de vários tipos de artistas falando sobre a mesma vivência, a mesma sociedade. E ao mesmo tempo, a gente não marginalizar a sociedade que a gente mesmo criou, porque é uma criação conjunta. É a imagética da Babilônia, que a gente cria e ao mesmo tempo reclama, admira – a gente quer estar aqui, correndo atrás das nossas metas.
Eu não vou me basear no que tá pegando socialmente ou coletivamente pra definir o meu pessoal – seja ele artístico, espiritual ou profissional. Vou seguir o que eu acredito, o que eu acho que a gente tem que se guiar, saca? Tem muita coisa que tem que ser unificada mesmo, mas tem muita coisa que vira placebo, sem sal.

É um trampo em que você fala bastante da cena, da sua caminhada e, principalmente, da sua relação com a cidade de São Paulo. Por onde você passou até chegar aqui?
Eu nasci em Salvador – minha mãe Manauara e meu pai baiano. Minha mãe me teve muito nova, com 19 anos, foi pra Manaus, e me deixou com a minha família de criação. Fui criado lá até os 10 anos – baiano, porém manauara. Só que o tio da minha mãe tinha uma esposa com a família toda da Baixada do Rio, e eu tive essa vivência de família com o pessoal do Rio de Janeiro. Com 10 anos, eu fui morar em São João de Meriti, depois fui pra Pavuna – indo e voltando de Manaus.
Eu tinha começado a fazer uma faculdade de comunicação social, lá em Manaus, mas eu queria focar mais no rap. Em 2016, eu vim pela primeira vez pra São Paulo, porque eu conhecia o Sérgio Estranho, e é uma história de amor e ódio muito louca. Depois dos 10 anos, eu nunca parei num colégio, então eu sempre me adaptei aos lugares. Todo ano eu mudava de colégio, de bairro, então eu sempre tive que ser meio cigano – e pra mim, São Paulo centraliza esse pensamento.
São Paulo é como se fosse o Batman do meu Coringa – eu amo e odeio ao mesmo tempo. Eu quero matar, mas ao mesmo tempo eu quero proteger, tá ligado? Porque eu sei o quanto essa visão gigantesca, bizarra, caótica de São Paulo enriquece a minha arte.
Os meus antepassados fizeram a mesma coisa que eu tô fazendo agora, é amor e ódio. Eu sinto uma necessidade muito grande de estar perto da natureza, do mato, dos rios, da praia. Mas isso me mostra a realidade do sistema que a gente vive – eu gosto de ver a realidade crua das paradas. E São Paulo é esse encontro de diferentes indivíduos que formam um coletivo muito louco e muito maior do que qualquer pensamento filosófico que a gente tem sobre a existência paulistana, porque é muito grande, muito amplo.
A primeira faixa é a única sem participações – que aparecem com força no projeto e descentralizadas da capital paulista. Qual é a importância dessas colaborações e dessa construção coletiva?
O Digmanybeats me convidou pra participar do álbum dele, e eu escrevi um som que eu curti pra caralho. A gente trocou umas ideias e eu curti muito os beats, porque ele faz tudo na SP, então tem essa textura, essa atmosfera. E eu gosto muito de trabalhar colaborativamente – com produtor, feat – eu gosto de chamar gente, de Norte à Sul, Leste à Oeste, que possa agregar nesse sentimento.
"A Pista tá Salgada" é o momento que eu tô agora, me entendendo como indivíduo nesse cenário coletivo, nessa era dos amores líquidos. É todo esse sentimento – a Babilônia, que é São Paulo. Foi esse pensamento individual, mas ainda sim, que a gente tem os nossos. Babylon By Nós – quem constrói essa atmosfera, e essa sociedade, somos nós.

A Bella V, por exemplo, é lá do Amapá. Ela saiu de lá e veio pra São Paulo, atrás do sonho dela, e ela é muito nova. Por isso que, na minha letra, eu falo 10 anos atrás, que foi quando eu vim pra São Paulo – eu me vejo tipo muito nas escolhas dela, nas decisões, na vida cigana. O Marci VSR foi um mano que eu fiz amizade há uns 10 anos. Ele é de São José, e foi ele que fez a logo da Sujoground – tem toda uma questão de trajetória e carreira.
Depois disso passa por Ravi Lobo e ALFÃO. O primeiro grupo de rap baiano que eu escutei foi Nova Era, e o ALFÃO, pra mim, é um dos novos nomes, desde o Underismo, que mais traz autenticidade e originalidade pro rap baiano e nacional. E depois eu fui pra IKU THE KID & YUNG EXU, que são dois moleques muito loucos do underground, sujeira. O EXU é da Baixada Santista e o IKU da Baixada Fluminense, e foi esse bagulho de botar uma geração nova também. A gente se une todos pelo mesmo eixo, que é a arte, que é viver nessa Babilônia. E é coletivo, né?
O projeto é mais um lançamento seu dentro do catálogo da Sujoground. Como tem sido a construção desse projeto e como surgiu essa vontade?
A Sujoground é o projeto da minha vida. É o que eu acredito, o que o hip hop me ensinou. Um espaço coletivo – lógico, entendendo também as estruturas que hoje formam um selo. Entendendo que, infelizmente, com a estrutura que a gente tem, sem apoio, não vai conseguir encabeçar 100, 200 pessoas, que é o que a gente queria.
Ela nasceu com o pensamento de ser um ecossistema – não ser só um coletivo, e não ser um selo com nomes fechados. O grime tem o Brasil Grime Show, o Grimelismo, o RAGGACLUBBERZ, tem vários. O trap tem o The Box. O rap orgânico, o Rap Box. E o boombap e o drumless, quando é que aparece? Eu falei: "a Sujoground vai ser esse espaço". Lo-fi também, beats – o bagulho voltado pro rap underground, mesmo. Odeio essas nomenclaturas – alternativo, abstract, tá ligado?
Eu sempre trabalhei com muita gente, tenho lançamento com todas as partes do Brasil. Pra mim, colaborar é um bagulho. Tem pesquisa, tem gente da hora pra você fazer som. É só você pesquisar, entender como funciona, não acreditar no pensamento neoliberal – de se fechar na tua bolha, pegar aqueles teus três amigos que você conhece e não agregar nada na cena.
Eu vou na contramão disso. A gente sabe fazer dinheiro – bora dividir esse pão aqui? E se a gente comer um pouquinho mais? Se a gente trabalhar sem fome, será que a gente faz mais? Eu acho que a gente faz mais e assim vai, entendendo o básico.
A Sujoground cresceu nesse contexto da "volta do boombap". Como você enxerga o espaço do boombap e do drumless no mercado da música e como você se relaciona com essas discussões da cena?
Eu tenho um som, "A Volta dos Que Nunca Foram", que eu falava exatamente sobre a volta do boombap, em 2019. É muito louco ver que a gente precisa de alguém puxando o movimento. O Febre90s, por exemplo, tá alavancando a força do boombap underground. Abre esse espaço, e agora a gente tá conseguindo fazer alguns números relevantes, pra consolidar, de fato, essa volta. Artistas antigos, que não se adaptaram tanto em outros gêneros, puxando essa mesma nomenclatura, fazendo alusão a alguma coisa. Eu acho que o boombap, a rima em si, a poesia, ela sempre vai voltar pra base.
Muita gente falava do trap, que o trap tava em baixa, e é uma cena que também se diversifica pra caralho. É isso que eu acho louco – esse entendimento de que o bagulho sempre vai continuar. Tá tendo esses números, ao mesmo tempo que o underground – que é nós, a sujeira, a zona abissal do fundo do mar. E são vários monstros bizarros, um lutando pra ter mais espaço que o outro. Se você não agregar nada coletivamente, você vai ser só mais um, fazendo teu bagulho dentro do quarto e só isso, acabou. É muito louca essa dualidade.
Eu fico até me questionando, sobre esse bagulho do mainstream de estar fazendo álbum conceitual, postando que tá fazendo uma música com sample de fulano de tal. Tem esse desdobramento agora, por profundidade, depois de anos de superficialidade. Acho muito louco, mas é necessário também – ciclos.
Isso tem muito a ver com o EP, também – as participações são todas do underground, de fora do eixo, de diferentes cenas. É a importância de trazer essas figuras nos projetos.
Total. E esquecer essa ideia numérica, tá ligado? A Anitta chamou o KBrum pra fazer um som, e ele amassou. A Bia Soull, underground pra caralho – eu chamo ela de Under Diva Pop – me chamou do nada no boombap. Então, a gente não tem que apelar pelo impulso numérico, que é o Spotify, o Instagram, o TikTok. Tem gente que tem 100.000 seguidores que, se andar no shopping, é uma pessoa normal e ninguém sabe quem é. A pessoa tá ali na bolha dela, no algoritmo – na internet morta.
Eu acho que a gente tem que escutar os bagulhos, se aproximar, se identificar, falar com as pessoas de fato. Conhecer, ter esse manejo com as pessoas. Senão, a gente vai virar todos Smith, os bots, mesmo, da Matrix. Acho muito louco esses momentos onde a indústria não pode fazer nada e ela só abaixa a cabeça. É que nem o trampo da Griselda lá fora – demorou muito tempo, mas hoje em dia é consolidado. Eu imagino essa mesma visão com a Sujo – de ter esse espaço e respeito sem se abaixar pro cenário midstream, mainstream ou o que quer que seja.

E como equilibrar isso tudo – o trampo de A&R, de rapper, de produtor – sem perder a cabeça e render para a indústria?
Tiveram diversos momentos em que a cabeça deu uma pifada. Eu foco na parte de label, deixo de lado o meu eu artístico. Porque é isso – pra lidar com artista, sendo artista, tem que ter um psicológico bem forte, e um diálogo bem direto. Às vezes, ser direto não é a melhor comunicação, então a gente precisa ficar um pouco recluso pra voltar e recomeçar.
Eu fiquei muito sobrecarregado no começo da Sujo, com muito lançamento – porque eu queria abraçar o mundo, mesmo, lançava muita coisa. Mas eu não trocaria nada, não faria nada diferente – eu só entendo que não tem como fazer esse fluxo de lançamentos. A gente não é um selo tradicional. Eu vejo como um selo atmosférico de rap underground. Tem o cast principal, a curadoria, e a gente sempre tá aberto a escutar novas paradas.
Depois de muito tempo adentrando em várias cenas, vasculhando tantos bagulhos e andando tanto na rua – tenho som com os manos do plug, do grime, do trap –, teve uma hora que eu virei tiozão, em termos de sair, mesmo. Eu já tô numa outra geração do rap. Eu voltei a cuidar do corpo, da mente e do espírito – voltei com a minha cabeça de jiu-jitsu todos os dias, tomo o meu remedinho também, porque é um corre do caralho. É gente cobrando o tempo todo.
Se eu tô escutando os meus guias, meus orixás, eles me mostram com clareza os caminhos que é pra eu seguir – perante a minha existência no Brasil, onde eu nasci e onde o meu pé tá cravado. Eu junto esses pontos, pra poder ter um equilíbrio mental e não ter que fazer parte do todo – e também não surtar sozinho, tendo que fazer mil coisas.
O meu sonho, mesmo, é uma casa na Bahia, que eu tenha tudo lá – e só vir pra São Paulo e pro Rio quando eu precisar muito. Por mais que eu goste de dar rolê, eu não me identifico mais tanto. Os rolês de grime é o que eu mais gosto – porque ainda é subversivo, é intimista, não é um bagulho performático. A gente tem que ter esse equilíbrio. Eu gosto muito de Santo André porque tira um pouco essa parada de São Paulo. É um pouquinho mais suave, em termos da urbanização massiva.
Ouça Babylon By Nós, já disponível nas plataformas digitais