‘O underground é a inspiração do pop’: o erotismo sonoro experimental de Bia Soull
Em entrevista à ISMO, a artista fala sobre referências, repercussão de ‘Pornografia Auditiva’ após um mês de estreia e novo single que será lançado pela Podpah Records
No dia 9 de maio de 2026, a cantora e compositora Bia Soull teve sua conta do Instagram suspensa. Motivo? Uma série de denúncias ao perfil após a Folha de S.Paulo publicar uma entrevista com a artista sobre o seu primeiro disco, “Pornografia Auditiva”, lançado em 16 de abril de 2026.
“Por mais que [o veículo] nos deu esse espaço – e ele sempre dá espaço para causas político-sociais –, ainda assim é um espaço conservador, é um jornal, né? Sei lá, deu 18 horas que eu compartilhei, comentei lá e aí os meus fãs começaram a discutir com a galera, tá ligado? E aí a minha minha rede social caiu”, conta a artista em entrevista à ISMO.
Natural do Paraná, com 24 anos de idade, Bia Soull faz parte de uma atual geração de rappers e MCs femininas do Brasil que buscam cantar sobre sexo sem pudor ou culpa, como Ebony, NandaTsunami, LARINHX e Vita. Antes delas, mulheres de outras gerações da cultura funk abriram o caminho com músicas que abordam a temática a partir de uma perspectiva feminina – sobretudo pessoal —, agregando experiências distintas.

Bia, que se define como "artista da putaria", aponta MC Carol de Niterói como uma grande referência na arte de narrar o sexo de forma política: "Eu gosto muito de fazer storytelling, e acho que foi uma coisa que explodiu a minha cabeça quando eu escutei pela primeira vez. Acho que ela não consegue nem conceber a ideia da grandiosidade que ela tem, ainda mais na época em que ela estava fazendo isso. Porque ela também trazia questões políticas, né?"
Em músicas como “Meu Namorado É Maior Otário” (2012), MC Carol subverte os papéis tradicionais de gênero. ‘Meu namorado é maior otário / Ele lava minhas calcinhas / Se ele fica cheio de marra eu mando ele pra cozinha’. Em “Vou Largar de Barriga” (2011), parceria com MC Parafuso, a funkeira denuncia o abandono durante a gravidez e o não pagamento de pensão. ‘Te meto atrás das grades, eu destruo sua vida / Se largar de barriga, se largar de barriga / Eu vou na Maria da Penha, vou no batalhão / Não adianta tu fugir, tu vai pagar pensão’.
Olhando para a trajetória de Carol e de outras MCs, Bia Soull diz que hoje o cenário está mais aberto para mulheres que cantam sobre putaria: “Eu sinto que agora a gente consegue ter um espaço maior para fazer isso de uma forma mais estruturada. As coisas eram feitas antes de um jeito underground, tipo, que não conseguia chegar num público que merecia escutar isso, sabe? Os artistas não conseguiam chegar nesse lugar. E agora eu sinto que isso está mudando comigo, com a Vita, com a Katy da Voz e as Abusadas, com outras artistas que que estão falando sobre sexo e trazendo questões políticas.”
E apesar desses avanços, parece que ouvir uma mulher falar sobre o que gosta ou desgosta – seja no sexo ou nas próprias escolhas de vida – ainda é incômodo. "Pornografia Auditiva" é um dos álbuns mais provocativos de 2026, trazendo histórias imaginativas que nos guiam por um universo erótico sob uma produção assinada por diferentes artistas do underground que transitam sem medo do boogie ao funk, passando pelo boom bap e experimentando com batidas eletrônicas.


Fotos: Ernando Prado / @juniureal
A entrevista com a Folha apresentou o trabalho de Bia para um público mais amplo, o que fez que ele chegasse também aos mais conservadores, mas a cantora não parece se preocupar com isso:
"Eu acho que esses movimentos conservadores sempre existiram, né? E é uma coisa que é quase hereditária. São famílias conservadoras que têm filhos conservadores, que vão ter filhos conservadores — essas coisas são repassadas. Mas, paralelo a isso, sempre houve e sempre haverá resistência.
Eu sinto que o meu público é uma resistência: pessoas que estão dispostas a falar sobre sexo, a escutar sobre sexo e se sentir acolhidas, não se sentir envergonhadas de estar escutando isso, se sentir representadas por isso — porque o desejo é uma coisa super humana. – Bia Soull
Então, eu sinto que, por mais que esses movimentos existam e eu nunca vá agradá-los, a minha intenção é justamente desagradá-los. Eu quero agradar o meu público e representar pessoas que precisam dessa representatividade", declara.
O sexo como fio condutor
Em sua ainda recente carreira musical, Bia Soull explora fetiches, desejo e relata experiências sexuais de forma explícita, navegando por diferentes sonoridades: às vezes de forma mais crua e bem humorada, outras vezes mais sexy e misteriosa, mas também em tom de crítica ao machismo e à masculinidade frágil, tudo isso sob uma lente LGBTQIA+.
Seus primeiros singles e participações já mostravam essa versatilidade: no refrão melódico de "Gostosin" (2022) com Zilks e TUTU, no jogo de palavras em "iFude" com DJ Hugo CS (2024), no eletropop "Sunga Linda" (2025) em parceria com o duo Cyberkills e até mesmo na pisadinha sensual "Pornstar" (2025), com DJ Yago.
Com "ABC DA PUTARIA", colaboração com CAE, NandaTsunami, LAI$ROSA e Yuri Redicopa, e no feat com a Barona, MC Morena e YORI em "Sexo Hot 2" — ambas lançadas em 2025 —, a artista chamou atenção na cena underground brasileira, chegando a públicos, produtores e produtoras musicais que movimentam o circuito alternativo de festas de música eletrônica, rap e funk. Foi nesse terreno que a base de fãs de Bia começou a se formar.
"Eu sinto que já existiam pessoas que estavam me consumindo, e eu estava passeando por vários universos: estava dentro do mundo do funk, mas também dentro do mundo do rap, frequentando rolês LGBTs e uma cena mais eletrônica também. Então eu estava passeando por muitos universos, mas não tinha nada muito sólido ainda. Eu vejo que essa construção está acontecendo agora — as pessoas querem saber quem é a Bia Soull, o que ela faz, por que ela fez Pornografia Auditiva", conta a artista.
Mesmo já tendo explorado distintas formas de abordar o sexo como temática, é no primeiro álbum que Bia mergulha de cabeça em um universo erótico, explorando facetas que ainda não conhecíamos e se aprofundando ainda mais no que já vimos a artista entregar.
"Me surpreendi também durante o processo, porque por muito tempo eu não entendi o quão fundo eu poderia ir dentro desse universo — justamente porque a gente está muito acostumado a escutar uma putaria mastigada. E eu adoro, eu consumo, é o que me inspira também. Mas trazer essa profundidade dentro desse universo, com produções experimentais, acho que é isso o que é mais interessante", pontua.
Visuais e referências pop dos anos 2000

"Pornografia Auditiva" se destaca não apenas sonoramente, mas também pela estética visual que amarra o conceito do disco. Foi pela divulgação da capa nas redes sociais – antes do lançamento – inclusive, que a artista capturou a atenção de fãs e pessoas interessadas em conhecer mais sobre seu trabalho.
"Eu lancei a capa no Instagram, teve uma boa repercussão, e lancei no Twitter também. Muita gente repostou e as pessoas estavam ansiosas, e aí eu comecei a construir essa expectativa.
Com o lançamento do álbum, para o que a gente estava pensando e para o tamanho de artista que eu era naquele momento (um mês e dez dias atrás), a receptividade foi muito positiva. As pessoas estavam: 'Caramba, a capa é muito boa. Será que o álbum é tão bom quanto a capa?' E é, sabe? A capa foi pensada justamente porque o álbum é muito bom — ela é um reflexo do álbum. E eu sinto que supri as expectativas da galera.
Está sendo incrível, porque as pessoas ficam tipo: 'Meu Deus, vou escutar uma parada que se chama Pornografia Auditiva. Como vai ser?' E é muito bom."
Bia conta que o álbum Erotica (1992), da Madonna, foi o ponto de partida para a construção conceitual do disco, junto com referências da cultura pop dos anos 2000 – época que a cantora revisita para se inspirar artisticamente:
"O Erotica da Madonna foi uma das primeiras referências. Depois a gente montou um moodboard mais extenso: a minha diretora criativa trouxe muitas ideias de tecnologias obsoletas, tipo iPods, rádios dos anos 2000 e aquelas campanhas de revista de moda super fashion, que trabalhavam com sombra e silhueta.
Tem uma parte do moodboard que é só propagandas da Apple do lançamento dos fones e dos iPods. E aí traz muitas dessas referências distintas, porque o álbum tem uma estética eletrônica dos anos 2000 que é muito do que eu consumo e que reflete na minha arte. O Erotica foi uma das primeiras referências, mas a gente destrinchou isso de muitas formas."
A foto escolhida para a capa do álbum mostra a Bia usando um fone de ouvido plugado em uma calcinha prateada que se assemelha a um MP3 player, fazendo par com um sutiã que simula dois alto-falantes.
Eu quando dou ouvidos a minha buceta
— bia soull PORNOGRAFIA AUDITIVA (@girlPlanB) April 12, 2026
PORNOGRAFIA AUDITIVA 16/04 pic.twitter.com/giVGKWcPl6
A relação da Bia com a obra da Madonna ficou mais aparente depois que a rainha do pop anunciou os visuais do seu próximo álbum, Confessions II, no dia 15 de abril. Nas imagens de divulgação do trabalho – que será uma continuação do clássico Confessions on a Dance Floor (2005), Madonna também mescla elementos sensuais e sonoros em uma estética retrô.
Na capa do disco, a artista está sentada em cima de um aparelho de som e no encarte do vinil ela aparece deitada com uma caixa de som entre as pernas abertas – o que conecta ainda mais conceitualmente as duas artistas.

Contrato com a Warner Music e novo single à vista
"Pornografia Auditiva" chamou a atenção da major Warner Music, que assinou contrato com Bia Soull no dia 15 de abril e está trabalhando na promoção do disco junto com a equipe da cantora. A parceria virou assunto entre os fãs da artista:
"Eu vi muitos comentários assim: 'Ai, coitada, assinou com a Warner, agora vai ficar no porão. Tomara que não entrem com ela na geladeira, tomara que não a podem.' Eu vi muitas coisas assim. E por mais que o mercado esteja sempre tentando empurrar o pop e com medo da putaria – porque é muito mais difícil de vender –, eu não vendi a minha carreira para a Warner, eu vendi o meu álbum.
O meu álbum já estava pronto, os visuais já estavam prontos, as músicas já estavam prontas. Eu já ia lançá-lo de forma independente. Mas aí a Warner se interessou pelo projeto, escutou, gostou e comprou a minha ideia. Meu contrato com eles é referente ao álbum e mais dois lançamentos que farei ainda este ano; eles têm prioridade porque outras gravadoras também estavam de olho na minha carreira.
Depois que esse contrato acabar, eles têm prioridade para fecharmos algo maior – ou então eu vou para outra gravadora; ainda não sabemos o que vai acontecer. Mas é isso: eles estão muito animados justamente porque fecharam pelo álbum. Para eles, não é como se estivessem tentando me podar. Era isso que eles queriam."

Bia observa que as gravadoras estão buscando investir em artistas do underground porque perceberam que também é possível faturar com trabalhos experimentais, que se conectam com públicos nichados.
"Eu acho que as gravadoras estão começando a perceber que o underground é a inspiração do pop e que ele tem público — e esse público também gasta. As pessoas querem escutar esse tipo de coisa, e também dá para fazer dinheiro nesse cenário. Então eles estão começando a abrir as portas para essa galera." – Bia Soull
Até então, toda a divulgação do álbum — que já conta com mais de 3 milhões de plays no Spotify — foi orgânica, e a artista pretende conquistar mais ouvintes: "Agora a gente vai começar a fazer um trabalho de sustentação para o álbum. Esse primeiro mês, tudo que aconteceu foi orgânico, foram as pessoas que fomentaram mesmo", conta Bia.
A artista mencionou que no dia 2 de junho fará um lançamento pela Podpah Records — nova gravadora da empresa Podpah, dos sócios Igão (Igor Cavalari), Mítico (Thiago Marques) e Victor Assis. O nome da faixa é “2 L’s" e Bia antecipa: "É uma música que fala sobre o underground, sobre o mainstream, sobre como os artistas são vistos.
Agora que as coisas estão furando algumas bolhas, tem uma galera muito fã de chart que não consegue respeitar artistas que estão surgindo e fica naquele: 'who?', tipo, 'quem [é essa pessoa]?', como se nós não merecêssemos respeito.
É muito engraçado, porque eu escrevi essa música muito tempo atrás. A gente estava fazendo "Pornografia Auditiva" quando eu a escrevi, e eu sinto que ela é quase uma resposta para as coisas que estão acontecendo agora."
Bia ainda nos apresentou um verso da música em primeira mão:
"Mais respeito com o underground
Antes de chegar no topo, tem que vir de algum lugar
Esse é o movimento novo
Eu não tô inventando o nome
É da margem que o mainstream copia as boas ideias
E ainda faz mal feito, só porque eles têm plateia"
— Bia Soull
"Essa é a primeira frase da música e é justamente tudo o que eu queria falar — e eu nem sabia", descreve a artista. Outros singles também estão na fila para lançamento: "É segredo. Mas tem coisas boas por vir — boas parcerias. Enfim, estou bem animada", comenta.
Enquanto aguarda os novos lançamentos de Bia Soull, ouça "Pornografia Auditiva":