A caixa de vários lados de Fernando Lemos

Exposição que celebra o centenário do artista luso-brasileiro, desembarca no IMS Paulista

A caixa de vários lados de Fernando Lemos
Foto: Daniel Rocha

Apresentar um panorama de setenta anos de produção artística em uma única sala é, antes de qualquer outra coisa, sobre saber abrir mão. Só a ideia de escolher 400 peças de um arquivo com mais de 12 mil me deixa completamente ansioso, e foi esse o trampo que Thyago Nogueira, coordenador de fotografia contemporânea do Instituto Moreira Salles, assumiu ao organizar Quanto mais desejo, mais invento o que vejo, exposição que o IMS Paulista abre em 19 de setembro para celebrar o centenário de Fernando Lemos (1926 - 2019). O título é um verso do próprio Lemos, artista português, radicado no Brasil, e mais conhecido por seu trabalho na fotografia, apesar da recusa em se encaixar em rótulos. 

Nascido em Lisboa, fez parte do movimento surrealista português no período em que o país sofria sob a ditadura de Salazar. Se exilou do país em 1953, cruzou o Atlântico e passou pelo Rio de Janeiro antes de se estabelecer em São Paulo, cidade em que viveu até sua morte, quase setenta anos depois dos primeiros rabiscos.

A mostra apresentada no IMS olha justamente para esses trânsitos, entre países, ditaduras, diferentes expressões artísticas, entre os rascunhos e as obras prontas. Tudo isso é parte da tese de Thyago Nogueira, que passou os últimos anos dentro do arquivo que a família de Lemos entregou ao Instituto pouco antes de sua passagem, em 2019.

A dança dos animais

Para o curador, o fio que costura as fotografias, desenhos, o trabalho de design gráfico e a poesia na obra de Lemos é justamente o método de trabalho que ele desenvolveu, com temas que se repetem em cada uma das diferentes linguagens, inclusive em fases muito distintas de sua vida. Tive a oportunidade de visitar a montagem da exposição e conversar com Nogueira.

"É uma exposição sobre o acervo, o arquivo de um artista que estava com ele quando faleceu. É uma coisa íntima, pequena, de muita variedade e riqueza gráfica e visual, porque ele trabalhou na fotografia, no desenho, na poesia, em muitas artes, no design e na moda", explica Thyago. "Ele foi muito exposto e muito vendido em galerias e na Bienal, mas eu queria manter essa ideia primeiro de ateliê. Você tem as mesas de trabalho, as vitrines para poder ver as obras e evitar as molduras muito formais de passe-partout, aquela coisa mais careta, sem paredes. [...] Na fotografia, ele aprendeu a fazer múltipla exposição para ressignificar os retratos. Na poesia, juntava palavras ou imagens e metáforas para tentar trazer novos sentidos. No desenho também, ele combinava elementos para abrir uma forma de pensar diferente."

A ideia de estrutura aparece na própria expografia e arquitetura da exposição, que, para quem já teve a oportunidade de visitar o IMS Paulista, gera surpresa por se diferenciar muito do que já foi exibido por lá. Um módulo de madeira, de 1,60 m por 80 cm de largura, se repete pela exposição inteira, às vezes deitado, como uma mesa, às vezes de pé fixado nas paredes, às vezes inclinado como uma bancada. É a mesma lógica de recombinação que Lemos aplicava nas imagens, só que agora presente na arquitetura da mostra.

Enquanto conversávamos, um dos poemas de Lemos tinha acabado de ser colado na parede e Nogueira começa a ler: "As palavras lutam duas a duas pela verdade;  palavras se metem dentro de outras palavras querendo ideias; sou uma caixa de vários lados com vários cantos com duas sombras; uma escura que nasce da clara outra clara que nasce da escura." Democracia e ditadura, consciente e inconsciente, luz e sombra são pares contrastantes que atravessam toda a obra. Conhecendo a história de Lemos isso faz mais sentido, já que ele viveu duas ditaduras, a portuguesa e a brasileira, e aprendeu a pensar em pares justamente para sobreviver a elas.

Caricatura de António de Oliveira Salazar para o jornal Portugal Democrático | 1959

Se em Portugal o surrealismo funcionava como confronto direto à arte burguesa e à repressão do Estado Novo, no Brasil ele transformou sua arte em uma ferramenta mais sofisticada, sutil mas não menos provocativa e de posicionamento claro. Por aqui ele desenvolveu um vocabulário que permitia dizer o que não podia ser dito.

"Isso era uma estratégia para fugir, se comunicar e falar em um contexto de repressão, porque os censores, tanto no Brasil quanto em Portugal, são literais e te procuram se você usar a palavra X ou Y, ou se você desenhou a pessoa assim ou não", conta o curador. "Ele foi entendendo que precisava navegar num contexto de areia movediça e começou a testar até onde precisava manifestar a sua ideia e onde conseguia construir um sentido cifrado, subentendido ou metafórico."

O Thyago cita um autorretrato célebre, em que Lemos aparece envolto numa nuvem onírica, ao lado de uma carta do Enforcado, do Tarô, e de um punhal. A imagem, à primeira vista poética, fala de ameaça e vulnerabilidade. Por sequelas de uma poliomielite contraída na infância, Lemos não conseguia correr da polícia. "Ele se sentia inseguro e falava que tinha que ficar dirigindo o carro, escrevendo, desenhando, pintando ou fotografando, porque não podia ir para o front, já que seria pego e não ia conseguir se livrar da polícia".

Auto-retrato | 1949 - 1952

Nogueira conheceu Lemos pessoalmente em 2016, três anos antes de sua morte, e conhecia até então principalmente o trabalho fotográfico. Só depois de receber o convite da família para cuidar do arquivo que teve acesso à toda obra, como desenhos, esboços, cartazes, correspondências e projetos de design que nunca circularam publicamente.

"A exposição, como deveriam ser todas as exposições, é o resultado de um processo de pesquisa. Houve um longo trabalho de catalogar, higienizar, organizar e estudar. E a partir dessa pesquisa, na qual você descobre coisas novas porque organizou e viu o arquivo de outra maneira, você apresenta para o público uma exposição, uma ideia, um ponto de vista" - Thyago Nogueira

O recorte não busca ser um panorama cronológico. Nogueira organizou a mostra a partir da ideia de desocultação, um termo que o próprio Lemos usava e do fato de encontrar peças aparentemente simples, como rascunhos em guardanapos, mas que carregam significados vários, dependendo do contexto. Essa ambiguidade é, para o curador, o núcleo do pensamento de Lemos.

O maior desafio, segundo ele, foi de escala e de tom, e se perguntou muito sobre como manter a intimidade de um arquivo pessoal sem perder o ritmo para um público que provavelmente conhece o artista pelas suas fotografias. Não se trata de uma exposição temática, que faz um recorte sobre um tema específico ou fase da vida, então existe um trabalho importante de apresentar tudo sem hierarquia, dando o mesmo peso para todas as obras.

A exposição se organiza por núcleos, mas sem divisões muito marcantes, permitindo que eles se cruzem enquanto você caminha pelo andar do IMS. Em “Desocultações”, por exemplo, estão fotografias da juventude em Lisboa. Já em “Coreografias”, vemos desenhos de corpos e da anatomia humana que são surrealistas ao mesmo tempo bem humorados e até eróticos. Existe uma parte toda dedicada ao trabalho gráfico, incluindo registros do logotipo que desenvolveu para o Memorial da América Latina e também uma parte baseada nos estudos de caligrafia que Lemos exercitou.

"Muitas vezes não dava para saber se aquilo era uma obra pronta ou um esboço, um desenho. E aí a ideia era tirar o passe-partout, a moldura e toda essa estrutura de formalização solene para aproximar essas coisas e mostrar o pensamento dele. É um artista em trabalho, exercitando o seu traço e descobrindo enquanto faz [...]. Se estava pronto ou se era um esboço, em alguma medida pouco importa para nós hoje em dia, dentro de um arquivo único, não é uma questão relevante. A ideia é mostrar o pensamento do artista." - Thyago Nogueira

Como se pode imaginar, também existe toda uma dimensão política no trabalho de Fernando Lemos, característica que Nogueira diz ser presente durante toda sua atuação. No núcleo “Arte no front”, podemos ver caricaturas para o jornal Portual Democrático, veículo da resistência antifascista editado por exilados portugueses que moravam no brasil. Podemos ver também alguns cartazes sobre a libertação do Timor-Leste e ilustrações para a campanha de conscientização sobre a aids nos anos 1990.

Para se ter uma ideia, Lemos fundou uma editora infantil, a Giroflé, dedicada a livros que tinham como objetivo alfabetizar visualmente as crianças. Grandes nomes como Cecília Meirelles e Maria Bonomi fizeram contribuíram com o projeto que se encerrou em 1964, com o golpe militar. Mas em 1969, já com o AI-5 em voga, ele publicou um livro sobre educação sexual para crianças, um tema que até hoje ainda é tabu. Para o curador, Lemos via nas crianças um frescor de pensamento, algo muito próximo do surrealismo, como se elas ainda não tivessem sido domadas pela sociedade.

Quando pergunto ao Thyago sobre o que ele espera que os visitantes levem da exposição, ele evita falar só dessa ideia de comemoração do centenário. "Para mim, é importante entender de que maneira ele empoderou a sociedade através do pensamento dele e que isso continue vivo e útil para as novas gerações pensarem também as suas lutas artísticas, sociais, políticas e culturais. [...] Ele é um cara que sempre viu a arte como uma ferramenta da sociedade, de diálogo, de construção de democracia. Não a arte como um lugar isolado nos museus para você olhar com distância, mas como um operário da arte."

Para a abertura de Quanto mais desejo, mais invento o que vejo fica em cartaz no IMS Paulista, que acontece no dia 19 de setembro, vai rolar uma conversa entre o curador e convidados, além do lançamento do catálogo.

SERVIÇO

Quanto mais desejo, mais invento o que vejo
Curadoria de Thyago Nogueira / IMS
Visitação: de 19 de setembro a 7 de fevereiro de 2027
Avenida Paulista, 2424, São Paulo/SP - 8º andar.
Entrada gratuita. 
Terça a domingo e feriados das 10h às 20h (fechado às segundas). 
Última admissão: 30 minutos antes do encerramento.


ISMO
Cultura em movimento

Assine nossa newsletter e receba
as últimas notícias em 1ª mão!

Assine agora