Por que mulheres gostam tanto de histórias desgraçadas?

O público de Raphael Montes é majoritariamente formado por mulheres jovens. O sucesso do escritor ajuda a entender por que crime, medo e violência viraram também prazer de leitura

Por que mulheres gostam tanto de histórias desgraçadas?

Dos 15 livros mais vendidos pela Companhia das Letras na Bienal do Livro de São Paulo deste ano, nove eram de Raphael Montes. O primeiro lugar era A Estranha na Cama, seu lançamento mais recente; o segundo, Jantar Secreto; depois vinham Suicidas, Dias Perfeitos, Uma Família Feliz, Uma Mulher no Escuro e Bom Dia, Verônica. Não era uma lista de lançamentos, mas quase uma retrospectiva involuntária da carreira de um único autor.

Os números fora da Bienal ajudam a dimensionar a cena: Raphael já passou de 1 milhão de exemplares vendidos, foi publicado em mais de 25 países e, só em 2024, vendeu 250 mil livros pela Companhia das Letras, tornando-se o autor brasileiro mais vendido da editora naquele ano. Jantar Secreto, sozinho, já ultrapassou a marca de 500 mil cópias.

Mas existe um detalhe especialmente interessante no meio de tanto número: quem está lendo. O próprio Raphael diz que a maior parte de seu público ainda é formada por mulheres entre 16 e 25 anos. É uma informação que combina bastante com a imagem das filas na Bienal, cheias de leitoras jovens esperando por histórias que começam no desconforto e quase sempre descambam para alguma forma absurda de violência.

Daí nasce uma pergunta que parece meio debochada até a gente perceber que ela já virou objeto de pesquisa acadêmica: por que mulheres gostam tanto de histórias desgraçadas?

O crime tem um público (e ele é muito feminino)

Raphael está longe de ser uma anomalia. O true crime, gênero dedicado a crimes reais, também encontra entre mulheres uma parcela desproporcionalmente grande de seu público. Em uma pesquisa do Pew Research Center com ouvintes de podcast nos Estados Unidos, 44% das mulheres disseram ouvir true crime regularmente. Entre os homens, eram 23%. Quase metade contra menos de um quarto.

Outro estudo, publicado em 2018, analisou 308 ouvintes de podcasts de true crime e encontrou uma audiência 73% feminina. E, diferente do que se esperaria, as principais motivações gerais não eram tão dramáticas assim. Entretenimento, conveniência e tédio apareciam com força. Entre as mulheres, interação social, escapismo e voyeurismo também tinham peso maior do que entre os homens.

Isso complica um pouco aquela explicação bastante difundida de que mulheres consomem crime apenas para aprender a se proteger. Existe pesquisa sustentando essa hipótese. Em 2010, duas psicólogas mostraram que mulheres demonstravam maior interesse por narrativas de true crime e eram particularmente atraídas por histórias que ofereciam informações sobre a motivação do criminoso, formas de escapar e estratégias de sobrevivência. Mas isso nunca foi a única razão encontrada.

De repente é mais útil pensar que o crime oferece uma forma de organizar aquilo que, na vida real, costuma chegar como caos. A narrativa põe ordem nos acontecimentos, cria relações de causa e consequência e tenta dar sentido ao que muitas vezes parece não ter nenhum. Mesmo quando não há justiça no final, há uma estrutura capaz de transformar o medo em algo compreensível.

Medo também pode ser entretenimento

Tem uma aparente contradição nesse interesse. Mulheres são lembradas desde muito cedo de que determinados perigos são reais: cuidado ao voltar sozinha, cuidado com a bebida, cuidado com o homem insistente, cuidado com quem sabe onde você mora. Ainda assim, ou justamente por isso, uma parcela delas escolhe passar horas ouvindo histórias sobre desaparecimentos, assassinatos e relacionamentos que terminam da pior maneira possível.

A ficção acrescenta outra camada a essa relação. Em Dias Perfeitos, por exemplo, o leitor acompanha Téo, um estudante de medicina que sequestra Clarice e passa a construir dentro da própria cabeça uma versão delirante daquele relacionamento. Em Jantar Secreto, quatro amigos vão do aperto financeiro a um esquema de jantares clandestinos em que carne humana entra no cardápio. Uma Família Feliz começa dentro de uma casa aparentemente confortável e transforma maternidade, casamento e suspeita em ameaça.

Há violência, mas também existe uma promessa muito simples: alguma coisa vai acontecer e você vai querer saber o quê. É aí que Raphael Montes me parece particularmente bom. Ele não depende apenas da bizarrice das premissas. Seus livros avançam em pequenas recompensas narrativas, com personagens fáceis de localizar dentro da trama, informações dosadas e problemas que invariavelmente puxam problemas maiores.

O próprio Raphael já comparou a literatura policial à mágica. Quando criança, queria ser mágico; hoje diz pensar nas surpresas de uma história como os coelhos que precisa saber quando tirar da cartola. A comparação explica muito de sua escrita: o leitor entra sabendo que está sendo conduzido, mas quer descobrir o truque mesmo assim.

De Pedro Bandeira ao canibalismo

Foi lendo Jantar Secreto que tive uma sensação estranhamente familiar. E não porque minha formação como leitora envolvesse jantares de carne humana em Copacabana. Felizmente.

Era alguma coisa na forma como o grupo se organizava. Dante, Leitão, Miguel, Hugo (já começa pelos nomes, especialmente pelo apelido). Quatro amigos com personalidades reconhecíveis, colocados diante de um problema que vai crescendo, crescendo e crescendo. Um segredo compartilhado. Uma decisão ruim que exige outra decisão pior. Aquela sensação de que encerrar o capítulo significa adiar uma resposta que já está logo ali.

Me lembrou a literatura que ensinou muita gente da minha geração a devorar livros: a Série Vaga-Lume, os mistérios juvenis, Pedro Bandeira e os Karas. Não estou propondo uma influência direta ou colocando autores e coleções diferentes na mesma prateleira histórica. Estou falando de memória de leitura, daquela arquitetura de aventura em que cada personagem ocupa rapidamente um lugar e a trama nunca deixa o leitor esquecer que há alguma coisa a ser resolvida.

A associação fica ainda mais curiosa porque Pedro Bandeira já contou Raphael Montes entre os leitores que se formaram com seus livros e depois se tornaram escritores. Aos 84 anos, Bandeira falou recentemente sobre a experiência de encontrar autores adultos que haviam sido seus leitores quando jovens e citou Raphael como exemplo.

Eu enxergo uma ponte aí. A menina que aprendeu a gostar de leitura em histórias movidas a mistério, aventura e suspense não necessariamente abandona esse prazer quando cresce. O que muda é o tipo de conflito, agora atravessado por questões bem mais adultas e por uma violência que essa literatura de formação geralmente só sugeria. A estrutura que ensina alguém a querer "só mais um capítulo" continua funcionando muito bem.

Quando o livro encontra o fandom

Também não dá para separar esse fenômeno da forma como livros circulam hoje. Uma pesquisa brasileira sobre o BookTok encontrou mais de 70% de mulheres entre os criadores analisados. Mistério apareceu em 29,4% dos livros mencionados nos vídeos, empatado com romance. Nas observações feitas em livrarias, meninas adolescentes, mulheres jovens e mães acompanhadas das filhas apareciam repetidamente entre quem procurava ficção, romance, suspense policial e aventura.

O recorte se aproxima bastante daquele que Raphael Montes descreve para o próprio público: mulheres jovens, muitas delas dentro da faixa que mais intensamente transforma leitura em conversa de rede social. Isso não significa que o BookTok explique o sucesso dele, muito menos que suas leitoras sejam necessariamente consumidoras de true crime, mas são ecossistemas que se encostam.

E adaptação é uma peça importante dessa engrenagem. Quando Bom Dia, Verônica, escrito com Ilana Casoy, chegou à Netflix em 2020, as vendas do livro na Estante Virtual triplicaram de setembro para outubro. No mesmo período, os demais livros de Raphael Montes tiveram crescimento de 26% na plataforma. A série devolveu atenção ao catálogo inteiro.

Acho que isso ajuda a explicar por que nove livros do mesmo autor aparecem simultaneamente entre os quinze mais vendidos de uma editora em uma Bienal. Quem chega por uma série encontra os livros. Quem começa por Jantar Secreto pode voltar para Suicidas, passar por Dias Perfeitos e seguir pelo catálogo. Cada obra deixa de circular sozinha e passa a alimentar um pequeno universo Raphael Montes, espalhado entre literatura, streaming, cinema e novela (sabia que Beleza Fatal, da HBO Max, também foi escrita por ele?).

E se a história desgraçada for justamente a parte confortável?

Tentar explicar o gosto feminino pelo medo e transformar a preferência em mecanismo de defesa é tentador porque resolve a pergunta de maneira organizada: mulheres vivem sob determinados riscos, então consomem histórias sobre esses riscos para aprender a reconhecê-los. Só que uma mulher também pode ouvir um podcast sobre assassinato porque está entediada lavando louça. Pode ler um thriller porque gosta de quebra-cabeça. Pode achar divertido sentir medo quando sabe que está segura no sofá.

Os livros de Raphael Montes mostram que uma história pode ser horrível sem ser difícil de consumir. A experiência de leitura é familiar porque a história rapidamente nos dá um lugar dentro dela e, dali em diante, sempre existe alguma coisa errada que precisamos entender antes de fechar o livro. O conteúdo adulto radicaliza aquilo que a estrutura torna confortável.

Nossa pergunta inicial, “por que mulheres gostam tanto de histórias desgraçadas?”, revela menos uma estranheza feminina do que uma estranheza nossa diante do fato de mulheres gostarem publicamente de violência e morbidez. Durante muito tempo, esse tipo de curiosidade pareceu mais aceitável quando associado a outros repertórios (guerra, máfia, filme policial...). Quando aparece em uma menina de 20 anos carregando três thrillers numa Bienal, vira algo que precisa ser explicado.

Raphael Montes parece ter encontrado esse público num ponto bastante específico: entre o prazer antigo de virar página e uma cultura contemporânea que transforma medo em conteúdo, conversa e fandom. Isso ajuda com que essas histórias tão desgraçadas sejam, ao mesmo tempo, tão fáceis de levar para casa.


ISMO
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