As crônicas sonoras de Loopcínio Rodrigo
Entre samples, personagens e diferentes vozes do rap brasileiro, Rodrigo Ogi encontra uma nova maneira de contar histórias
Rodrigo Ogi sempre quis produzir um disco seu, mas durante boa parte da carreira encontrou bons motivos para adiar a ideia. Nave, DJ Caique, Dario e tantos outros beatmakers estiveram por trás das bases sobre as quais construiu suas crônicas, enquanto ele participava do processo montando guias, sugerindo melodias e indicando caminhos. “Eu sempre tive essa vontade de produzir um disco meu por completo, mas nunca me sentia preparado”, conta. Contar com produtores que admirava ao redor fazia com que a ideia pudesse continuar esperando.
Kamau foi um dos que ajudaram a mudar essa relação. Ogi acompanhava o amigo cada vez mais focado na produção e começou a olhar com mais atenção para uma vontade que carregava havia anos. Até que, no ano passado, resolveu focar e mergulhar de vez nesse universo. Passou meses caçando samples, cortando trechos e montando beats, muitas vezes criando melodias sobre o fragmento encontrado, tocando em um VST ou gravando um guia para que algum músico executasse. Bruno Duprê, Cravinhos, Thiago França e Thiago Ticana estão entre os instrumentistas que participaram desse processo.
“Fazer beats é um negócio viciante, fico produzindo sem parar”, diz Ogi, que quando percebeu já tinha produzido mais de 50 instrumentais. Separou cerca de seis para o próximo disco solo e decidiu usar parte do restante para realizar outra vontade antiga: fazer um álbum como beatmaker, convidando MCs que admirava para rimar sobre suas bases. A ideia inicial era chegar a dez músicas, mas muita gente foi topando e, no fim, ele já tinha 24 faixas prontas. A quantidade de material acabou definindo o formato do projeto, dividido em dois discos, com Loopcínio Rodrigo, Vol.1 chegando agora e o segundo volume já previsto para sair em outubro.

A nova assinatura nasceu de uma referência bem mais antiga. Ogi é fã de Lupicínio Rodrigues desde que começou a pesquisar música, no fim dos anos 1990, e conta que o nome do cantor e compositor gaúcho continuou rondando sua cabeça desde então. Chegou a considerar outras identidades como produtor até que, um dia, apareceu Loopcínio. Inicialmente seria apenas isso, até que o Matéria Prima, segundo sua lembrança, completou com o Rodrigo. “Foi o casamento perfeito. Loopcínio associado aos loops e Rodrigo por ser o meu primeiro nome.” Mais do que somente batizar seu projeto de estreia como produtor, Loopcínio Rodrigo passa a ser sua identidade como beatmaker.
"Esse é o nome definitivo que usarei como beatmaker. Meu plano é seguir fazendo mais discos nesse formato, eu curto muito esse lance coletivo".
A homenagem ainda ganhou uma coincidência maravilhosa que nem Ogi havia planejado. Loopcínio Rodrigo, Vol.1 foi lançado ontem, justamente no dia do aniversário de Lupicínio Rodrigues. Ele só descobriu depois de ler um comentário nas redes, foi conferir a informação e confirmou que era real. Depois de quase três décadas com o nome de Lupicínio rondando sua cabeça, Loopcínio acabou estreando justamente no dia em que o compositor gaúcho nasceu.
Se o loop está no nome, ele também nasce de uma relação de longa data com o garimpo. Ogi diz que pode passar de 12 a 14 horas na procura de um sample, ouvindo música, normalmente gravações antigas, sem necessariamente saber o que está procurando. A descoberta acontece no caminho, quando alguma passagem chama sua atenção e revela a possibilidade de se transformar em outra coisa.
“O lance de sample é isso, fazer uma coisa virar outra ou trazer de volta algo que foi esquecido. É bom demais.”
A partir daí, o sample funciona como ponto de partida: ele cria melodias que conversem com aquele fragmento e grava guias para que os músicos reproduzam o que imaginou.
A construção dos beats também não obedece a uma fórmula. Em algumas músicas, Ogi enviou a base pronta para o MC; em outras, recebeu a voz e só depois acrescentou instrumentos. Depois de tantos anos escrevendo sobre produções de outras pessoas, descobriu que aquilo que imagina para uma batida nem sempre corresponde ao que outro rapper escuta nela. Já enviou um beat certo de que determinado artista iria escolher e o viu preferir outro completamente diferente, enquanto bases nas quais ele próprio não se imaginaria rimando ganharam voz no flow de outra pessoa. “Não consigo ficar engessado só em um estilo de beat, então fui criando vários estilos”, explica. Essa abertura atravessa o disco tanto nas sonoridades quanto nas pessoas convidadas a ocupá-las.

Os 16 MCs do primeiro volume vêm de diferentes lugares, gerações e momentos de carreira. Eram artistas que Ogi já acompanhava e que estavam no seu radar, mas, reunidos no mesmo disco, acabam revelando também para onde sua atenção está voltada. “O rap tá cheio de gente fazendo excelentes trabalhos, mas infelizmente a maioria não chega ao grande público. Muita gente ouve música por playlist ou por comparação de views e nisso muita gente talentosa acaba sofrendo um apagamento.”
Loopcínio Rodrigo funciona também como uma maneira prática de colocar essas vozes lado a lado. Mais do que reunir participações, existe na escolha uma defesa da troca entre artistas em um momento que Ogi percebe como cada vez mais individualizado. “Acredito que sozinho não se faz nada e sinto que hoje em dia tá muito cada um por si, então quis trazer pra esse disco esse espírito hip-hop de coletividade.” É uma lógica que atravessa o projeto, dos MCs convidados aos músicos que transformam seus guias em instrumentos, e chega também aos skits escritos por Ronald Rios.
Ogi sempre gostou de interlúdios, personagens e pequenas cenas dentro de discos, mas, diante de tudo que já estava fazendo em Loopcínio Rodrigo, chamou o amigo para assumir o roteiro. Ronald criou personagens como o Dr. Loopcínio e Agente Loop e Ogi aproveitou sua “veia de dublador” para interpretar a maioria dos personagens, acompanhado pelo próprio Ronald, Paulo Marcondes, Deborah Di Cianni e Pedro, seu filho. Os skits recuperam uma tradição dos álbuns de rap e ajudam a fazer com que samples, vozes, músicos e personagens habitem um mesmo universo.
É nesse ponto que Rodrigo Ogi e Loopcínio Rodrigo começam a se encontrar. Boa parte da obra do rapper foi construída a partir da observação da cidade e da capacidade de transformar cenas, personagens e acontecimentos em música. Agora, mesmo quando deixa o microfone para outros Mcs rimarem, continua partindo de imagens. “Eu sempre imagino cenas nos beats que faço. Eu construo trilhas sonoras pra mim, tenho várias que poderiam ser usadas em filmes.”
Essa descoberta já aponta para o que vem depois. Além do segundo volume de Loopcínio Rodrigo, Ogi está com quase todos os beats do próximo disco solo selecionados e pretende finalmente concretizar o desejo que adiou durante anos: produzir um álbum inteiro para si mesmo. Isso não significa abandonar outros beatmakers porque, como ele ressalta, “o trabalho coletivo engrandece a obra”. Há ainda planos de produzir discos de outros artistas e de levar essa linguagem para um território em que nem mesmo a presença de um MC será necessária.
Ogi quer fazer discos inteiramente instrumentais, construídos para que os próprios beats carreguem a narrativa. Depois de uma carreira transformando histórias em rap, Loopcínio parece menos uma ruptura do que uma continuação por outros meios: uma maneira de descobrir que as histórias que sempre procurou nas ruas também podem estar escondidas dentro de samples garimpados em discos antigos. “Vou fazer discos só de instrumentais em breve em que os beats conversem como se fossem histórias.”