Fé ativa, estudo e alquimia: Zudizilla fala do Quintessência

Uma conversa sobre música, a imagem de um outro Rio Grande do Sul, legado e novas formas de se fazer rap

Fé ativa, estudo e alquimia: Zudizilla fala do Quintessência

Zudizilla passou três discos construindo a história de Zulu, resultado, nas palavras dele, de uma série de acidentes entre 2015 e 2019. Em Quintessência, o rapper de Pelotas troca o olhar para as coisas que o cercavam, por uma observação de quem ele é hoje. Os beats vieram primeiro, depois, a banda gravou e resultado é um rap com piano, baixo, tempos de jazz e samba e uma sanfona gaúcha sobre boombap, algo que o próprio Zudizilla diz nunca ter ouvido antes.

Trocamos uma ideia em que ele fala da fé que o impede de desistir, do ego como escudo de quem é inseguro, do estudo como quinto elemento do hip hop, do extremo sul entre Brasil e Uruguai, onde o candombe soa mais alto que a imagem da Serra Gaúcha, e do filho que lhe deu a noção de que a própria vida tem valor. A conversa rolou uma semana depois do lançamento, o que deu tempo de assimilar os efeitos do disco no público e na cena, temas que também aparecem por aqui.

Quando recebi o release do disco, pensei em fazer um faixa a faixa, mas isso não combina com as subjetividades do seu trabalho, então prefiro um papo sobre como o projeto entra no universo que você constrói. Quero começar pela persona. O Zulu teve três discos para se firmar como personagem, e o Quintessência parece apontar outro caminho. Que voz você quis construir aqui?

Eu não forço muitos processos e acho que é por isso que o som acaba chegando muito naturalmente nas pessoas, sem muita forçação de barra. O eu do Zulu, dos volume um, dois e três (2019, 2022, 2023), é o resultado de uma construção de vários acidentes que aconteceram comigo entre 2015 até 2018. Muita coisa aconteceu nesses períodos que me fizeram entender que eu precisava trazer uma naturalidade para dentro do meu trampo, e que dificilmente alguém ia conseguir reproduzir ou replicar em questão de temática, narrativa e conteúdo emocional.

Já no Quintessência, não é mais o resultado de coisas. É muito mais a observação do eu de agora, daquilo que eu sou, do que propriamente das coisas que me constroem. Eu falo da obra, falo de quem eu me torno mesmo. De aceitar esse lugar que agora eu ocupo. Eu enxergo que acabei dando voz para um eu que as pessoas não esperavam quanto ao progresso dos outros trabalhos que eu fiz, mas era muito óbvio que chegasse nesse lugar. Eu não ia poder ficar sofrendo o resto da minha vida, uma hora eu ia ter que ganhar essa porra. E acho que isso é bom para mim e para a música também, porque explora outros lugares.

É a mesma temática, mesmas narrativas, mas de um outro ponto de vista. Minha arte ganhou uma outra página. Mas é difícil de lidar, parece que está mais difícil de chegar na galera do rap com esse rap que eu faço e enxergo. Então, não sei te dissertar sobre quem é essa nova persona que eu trago porque eu ainda estou vivendo ele.

Acho que o Zulu era isso, eu estava olhando para tudo em volta que estava me agredindo, me montando ou me dando alegria e falando sobre o entorno, mas era pouco daquele lugar onde eu habitava. Agora eu estou com os dois pés no chão escrevendo. Sinto que ele é muito parecido com o Zulu Volume 1 nesse lugar. Quando ele chega, ele abre a possibilidade de outro universo para as pessoas e para uma galera que não me conhecia, e para a galera que me conhecia também. O Quintessência me dá a possibilidade de ir por um outro lugar que nem eu sei qual vai ser, me tornei uma incógnita novamente de quem serei eu no futuro. E isso é muito bom.

Vou puxar uma pergunta que ficaria mais para o fim, mas que faz sentido com o que você disse sobre estar no lugar de quem venceu. A alquimia fica no limiar entre ciência e fé, e a fé tem um papel enorme no disco. Fé em você, num mundo melhor, na próxima geração de artistas... Como você enxerga a fé, e por que ela ainda importa no mundo em que você vive e neste álbum?

Ela é algo que impede que eu desista. Já era para eu ter desistido há muito tempo, de muitas coisas. Hoje eu perdi mais um irmão que tirou a própria vida, então é muito foda, só que a gente meio que acostuma. A galera vem de um lugar que é muito duro, de um bairro também que é muito pesado. Enfim, já era para eu ter desistido igual a tantos outros que fizeram a mesma coisa, que sonharam. E não é por falta de talento ou falta de oportunidade, parece que tem um teto invisível, uma parede invisível que se coloca na frente da gente. Se eu não tivesse muita fé, eu já teria abandonado tudo há muito tempo.

E acho que, apesar de eu ter feito obras muito importantes no decorrer da minha vida, eu também fui bem covarde em vários momentos porque poucas vezes eu deixei a fé escrever. A fé fluir e reger o meu corre. Às vezes eu tinha aquilo fervilhando no meu peito de falar, do ímpeto, mas eu tinha que cortar para alguma narrativa comercial. Eu sei que a minha vida, minha vivência, minha experiência enquanto homem preto é justamente aquilo que o mercado precisa e quer. Só que ficar girando esse parafuso não estava me fazendo bem e eu queria ficar bem. Tem músicas minhas que eu não canto porque me trazem esse lugar de dor, e eu queria muito fazer músicas que eu realmente conseguisse levar para o resto da vida. E aí entra esse lugar da fé ativa.

Eu tive um momento muito louco. Eu fui para Nova Iorque a primeira vez em 2024. Fiz todos os rolês turísticos possíveis e teve um dia que eu e a minha esposa, a gente estava no Brooklyn e queríamos ir numa igreja, a Abyssinian Baptist Church, que é uma igreja de 260 anos só de gente preta e fica lá no Harlem. A gente foi até essa igreja, chegou lá e estava rolando uma ministra muito irada e ela começou a dar uma pregação sobre uma passagem da Bíblia que falava sobre um cara que construiu uma charrete. A galera perguntava por que ele estava construindo a charrete, e ele dizia: "Porque quando chover o solo fica úmido e a gente consegue plantar, a gente vai ter que transportar as coisas". A galera dizia: "Mas nós estamos numa seca, não chove aqui faz anos". Ele falou: "Deus me disse para me antecipar à chuvarada". E aí choveu para caramba e a charrete dele foi útil.

E ela falou: "Vocês precisam saber definir o que é fé da fé ativa. E eu sei que tem pessoas aqui que são fruto da fé ativa". Naquele momento ela começou a me foder, porque ela começou a falar: "Tem gente aqui que era para estar morto. Tem gente que não era para estar aqui, que não sei como chegou aqui. Mas que está aqui agora". E a Luedji (Luna) apertando meu pulso, e eu comecei a chorar para caralho e ali eu vi que de fato minha fé que me move.

"Se é de fato minha fé que me move, axé! / Confesso que eu tenho estoque para mais alguns vários anos"

Então era muito mais difícil não escrever com a fé do que escrever com a fé, com esse lugar que ela ocupa. Minha mulher é a pessoa que fica mais tempo comigo, então ela é uma pessoa que olha e fala: "eu queria muito ter a certeza que tu tem nas coisas. Você nunca arrumou com o que você faz, e tu não para. Você vai e continua". E eu acho que isso é muito fruto da fé. Esse disco tem muito esse caráter.

Quando eu falo que ele parece muito o Zulu, Vol. 1, é como se tu pegasse a "Foco nos Planos" e transformasse num disco inteiro. O Quintessência traz muito desse olhar de que qualquer música que está ali diz que não vou parar agora, é só para frente. Então a fé ocupa um lugar muito especial na minha vida. Eu sempre fui ateu minha vida inteira, até quase morrer e voltar, mas a fé ocupa um lugar muito especial e eu ainda não consegui dissertar do jeito que eu queria, mas acho que o Quintessência já é bastante honesto nisso.

Isso me lembrou uma fala do Brown quando lançou o Boogie Naipe, que o sonho dele sempre foi fazer música para as pessoas dançarem, mas o rap tinha que falar de uma realidade dura, até chegar a hora de fazer outra parada. Percebo que você levou para o estúdio o que a gente via ao vivo. Com a banda ali, muda a sua caneta? A rima, a construção das letras, a resposta a um piano, a um baixo...?

Acho que isso é o que mais está me quebrando, porque eu sinto que meu disco rompeu o véu do rap, ele chega em outros lugares, mas ele é um disco que começa só no beat. Foi a banda que veio de encontro ao trampo, a escrita não foi de encontro à banda. O que é mais fenomenal é o que já acontecia com a banda: ela pegava meus beats e o meu som e transformava nessa experiência que só existia nesse lugar do show. Eu queria muito ter essa experiência e essa potência dentro do estúdio no disco, mas eu não tinha grana para isso. Todos os discos eu fiz no peito.

Esse disco já estava pronto nos beats, tanto que ele vai ter uma versão para DJ. Comecei ele todinho em cima dos beats e depois, quando eu tive a possibilidade de ir para o estúdio, a banda veio junto comigo do mesmo jeito que a gente faz o show. Eu produzi esse disco três vezes. Uma com os beats, aí eu já tinha as vozes gravadas. Quando eu chamei a banda para gravar, vieram para minha casa, pluguei todo mundo na minha placa, botei fone de ouvido para todo mundo e deixei nos projetos só minha voz e o clique do BPM. A gente já tinha tirado as cifras. Aí a gente tocava e brincava, e nesses lugares surgem os acidentes maravilhosos da música. Quando a gente foi para o estúdio, gravamos do jeito que a gente ensaiou.

Num quarto momento, eu venho para colocar a voz. Fiz todos os estudos da pós-produção do disco, tive auxílio do engenheiro de gravação, mas a minha voz eu queria de um jeito específico. E ela saiu daqui praticamente pronta para a mão de quem fez a mixagem, o João Milliet. O trabalho inteiro dele de mixagem não foi de correção. Ele coloca efeitos, corrige volumes, destaca coisas que já estão ali, mas não tem que corrigir nada. A gente já veio com tudo muito pronto. Então a voz está servindo ao rap e a banda vem de embalo com a gente, trazendo aquilo que a banda tem e gosta de fazer.

Os meus músicos, quando estão de folga, tocam jazz. Eu não queria que eles tocassem rap, porque não é o que os desafia mais. Quando estou parado, vou fazer um desenho, pintar, ver o que consigo fazer. O natural seria que no meu tempo de folga eu fosse fazer algo vinculado ao rap, mas não. Os músicos, quando estão de folga, vão estudar jazz, então o disco soa jazz porque os meus instrumentistas gostam de jazz. Mas não foi uma linha de condução de "vamos fazer jazz porque minha letra precisa ser jazz".

Eu tentei fazer um rap que eu gosto, que eu escuto. A minha vida inteira eu fiz bombas, fiz uns sons pesados, mas se você entrar no meu carro, você vai escutar Strange Fruit, Slum Village, D'Angelo, vai escutar coisas que eu nunca consegui trazer para o meu som, e nesse disco eu consegui. E agora eu não sei o que fazer com isso.

Em "Aristocracia", o rapper convida o conterrâneo Vitor Ramil

O jazz tem um pouco disso, né?! Mestres como Coltrane e Miles às vezes nem sabiam para onde iam ao mesmo tempo que ficavam putos quando o público entendia.

Quando o público entende, eles estão errados! É isso que é foda. Como você vai dizer para o cara que ele está errado se de repente é um grande crítico que vai te ajudar a vender? O cara ficava puto que não entendeu nada. No meu caso, ainda não entenderam nada. Não quis fazer um disco de jazz. Eu falava para todo mundo: "eu vou inventar um som". A galera, com seu conhecimento, vai colocar dentro da caixinha que lhe é de competência. Te parece com jazz, te lembra outras coisas, tudo bem, mas eu nunca ouvi uma sanfona gaúcha tocada em cima de um boombap, são coisas únicas. A forma como entra o meu samba dentro do disco, que para mim não é samba, mas tem samba no tempo. Tem muito desse lado nerd, porque tem muito estudo.

Eu acho que o rap merece estudo, especialmente nesse momento de mercado, quanto mais a gente mostrar que é burro, pior. A gente não pode mais ser burro. O rap nunca foi burro. O Grandmaster Flash era chamado de cientista porque ele consertava os equipamentos. Ele inventou o slipmat para o disco escorregar. A galera estudava. E agora que deu muito dinheiro, virou burro.

O número cinco dentro do hip hop existe e sempre foi o conhecimento. Quem conhece os pilares sabe dos quatro elementos, mas o cinco é o conhecimento, é o estudo, é a busca. Você não vai conseguir melhorar o seu entorno sem entender o que está acontecendo. Por isso que a gente gosta tanto de Brown, porque ele é o intelectual sem precisar de academia. O MV Bill sentava na cadeira da Globo para dar orelhada nos caras.

Depois que isso mudou, a gente ficou um pouco com medo, com vergonha de ser inteligente. Isso é muito ruim para a periferia. Eu sou periférico, estudei em escola pública, mas fui salvo por uns dois ou três livros e por desenho. E aí eu consigo canalizar. Quando eu falo de quintessência na substância mais pura, tem que ter alquimia, tem que ter o estudo do bagulho, tem que fazer essa experimentação.

Foto: Thaïs Vandanezi

Indo para outro lado, autoconfiança é quase um clichê do rap. Falar de si, dizer que é foda, faz parte da cultura. No seu trabalho, isso aparece junto com vulnerabilidade. Como afirmar que está na sua melhor versão sem cair numa injeção de ego gratuita, sem entrar na disputa de posição do jogo do rap?

Tem um ditado que diz "o homem que diz ser todo o mundo, não é ninguém". O Emicida que ergue essa bandeira. O ego é o escudo do inseguro. Quase todo mundo que cai no rap, cai porque é inseguro, porque é tímido. Ele encontra esse lugar onde consegue ser o pica das galáxias e explora isso. Eu batalhei muito, mas nunca achei que o ego fosse uma ferramenta. Alguém com ego grande não consegue liderar nada. E eu tenho um ego gigante, sim, mas luto para que ele não pule na frente. Que minhas relações não sejam pautadas a partir disso.

Quando eu falo que "essa é a minha melhor versão", na continuidade da frase mostra o quão bom é falar o que eu falei quando se está nesse lugar, que é "sem sombra de dúvidas, essa é a melhor versão de mim mesmo". Esse é o meu melhor momento. Agora, se o meu melhor momento supera o melhor momento do outro, não é culpa minha. É porque o outro não está se preocupando em ser melhor do que si, e acaba que não é melhor do que ninguém. E aí fica nesse jogo bobo que é útil pra vender disco, fazer punchline... Mas cara eu acho tão infantil, tão pequeno, mas tem que ter, faz parte do rap.

Não que eu não tenha, se tu for em "Barracuda" tem barras e barras e, em alguns momentos, eu tô ali: "se eles desperdiçam barras, minhas barras de ouro / esbarram nessa cena burra, forçação de barra". Então eu também tenho esse lugar, só que eu sou sutil. A crianças gostam disso, mas meu som não é pra criança e fica mais difícil eu conseguir me inserir no circuito do rap. Eu estou muito feliz com o que eu fiz, mas acabo me enxergando muito perdido porque está todo mundo indo para o lado errado. Eu não tenho como, nos meus 41 anos, ficar fazendo rima dizendo que meu tênis é foda.

Então eu queria encontrar perspectiva para pessoas da minha idade continuarem, ou os mais jovens olharem e pensarem: "olha para onde o negão foi, se pá eu posso crescer junto com meu público". Eu posso ir para um lugar onde meu público amadureça junto comigo. Toda vez que eu vou fazer estudos sobre meu trampo, é sempre aquilo que é muito difícil de conseguir subir os números, mas quem me escuta nunca mais para de escutar.

Esse disco olha muito para a sua origem, e Pelotas tem uma relação estética e sonora com os países que ficam próximos. O que esse Sul tem que o resto do país não escuta, e o que ele precisa ouvir de você?

O Sul tem um outro Sul, tem uma outra página do estado, da história, do pertencimento, da identidade. Tem muita coisa no Rio Grande do Sul que até eu mesmo vou redescobrindo. Não que eu queira ser o representante da música do Rio Grande do Sul, mas eu não quero que a galera escute meu som e compare com artistas que estão na cara da mídia, pois vou tomar desvantagem. Eu precisava trazer um Rio Grande do Sul mais eficiente dentro do meu trabalho, e aí fui fazer todo esse estudo.

Acho que falta para nós, artistas do Rio Grande do Sul, fazer esse movimento arriscado de imersão, de estudar nossa região para não fazer um som estereotipado. O Da Guedes ajudou muito nisso, Ultramen, a galera do funk do Rio Grande do Sul também. Eu não sou o primeiro artista de lá a fazer isso, mas tive que fazer uma pesquisa profunda.

Falta o Brasil entender que o Rio Grande do Sul e o Sul do Brasil são dois lugares diferentes. Pecaos, Cassol, Dow Raiz são do Sul, mas estão longe do Rio Grande do Sul. A identidade do meu lugar eu nunca tinha conseguido trazer à tona. Então através do meu som e do meu corpo preto, a galera vai perceber o tamanho do problema que estão esquecendo.

Aquele lugar onde eu vivo, entre Brasil e Uruguai, é fantástico. Cheio de lendas e misticismo, e que é diferente do desenho do Rio Grande do Sul que o resto do Brasil recebe, da Serra Gaúcha. No extremo sul você vai pegar os remanescentes dos nativos, os pretos que tentaram chegar ao Uruguai e alguns colonos que chegaram aqui com promessa de trampo.

O sonho de liberdade de muitos era o Uruguai e a gente conseguiu atravessar pro outro lado e contribuiu muito com a cultura deles. O ritmo principal da música de lá é o Candombe, que se pauta nos três tambores, igual o Candomblé. então teve muita interferência da africanidade. Eu vivo nessa fronteira, então o gaúcho que eu conheço é diferente. Ficaria muito feliz se alguém se interessasse por entender mais desse lugar, ou se desse play no meu disco.

Uma pergunta mais pessoal, sobre o audiovisual que você lançou agora, em que seu filho aparece junto. Como ser pai mudou a sua forma de pensar legado, de deixar uma obra no mundo?

O meu filho me deu vontade de viver mais, de me cuidar, ir no médico, parar de beber, parar de fumar, me tornar menos reativo aos problemas que o mundo vai impor. Alguém que conseguisse ditar o ritmo da própria vida. Isso transparece muito, estou muito seguro do lugar que eu habito. Essa segurança se dá porque consegui manter uma pessoa viva por seis anos. Isso te dá uma vantagem, uma maturidade e responsabilidade.

Quero que o meu filho tenha orgulho de mim e da coragem que o pai teve para se tornar uma pessoa melhor. Ele me dá aulas de vulnerabilidade, de civilidade. Ele é um moleque que nasceu num mundo para o qual não estou preparado. Minha versão de ser humano já está se tornando obsoleta. Aprendo muita coisa com ele, mas acima de tudo, eu consegui escrever sobre a vida, antes de escrever sobre morte e os amigos que perdi. Eu preciso trazer histórias em que a minha vida tem valor. Meu filho me deu a visão de que a minha vida tem valor. Ele é nuclear para minhas obras de agora e do futuro.

Para fechar, em uma das faixas você diz que o processo te interessa mais que o resultado. Com o álbum nas ruas, o que você vislumbra desse processo agora?

Faz uma semana que o disco saiu e eu tenho recebido salves de uma galera que está muito distante do meu público. Numa semana mudou completamente. Antes meu público era absurdamente masculino, agora está meio a meio. Antes era até 28 anos, agora está de 25 para 40. Meu público mudou completamente. Isso não vai ditar minha nova tendência, mas ainda não consigo vislumbrar o que vou escrever para a frente porque não sei o que esperar.

Eu esperava uma coisa do agora, ele está me mostrando outra fita. Toda a cultura urbana que eu tentei trazer, com toda a força para o disco, eu não tentei sair do rap, eu quis honrar o rap. Eu botei a roupa mais bonita no rap, levei para a festinha e agora nenhum dos amiguinhos quer brincar com meu rap. Eu vejo que a galera do rap meio que se assustou com meu trabalho. Eu tenho grandes amigos MC's, eu sou do universo do rap, então eu recebo e sempre que produzo alguma coisa ela acaba se proliferando, mas houve um silêncio. E é foda porque é o meu disco de melhor performance, mas o rap em si ficou em silêncio.

Não sei se a galera não entendeu, se não gostou. Em certo momento fiquei pensando se eu tinha feito um disco ruim, mas é impossível, não tem como o disco estar ruim. Acho que a galera se assustou, ou não esperava que eu fosse dar uma guinada de 180º. Eu vou para outro lugar entregando um rap com toda a qualidade possível, mas sinto que o chão que eu caminhava foi se desfazendo, e eu estou em outro campo.

O rap continua comigo, quem gosta de rap continua comigo, mas um novo horizonte se abrindo traz novas pessoas. De todos os universos! Tenho recebido salve da galera do pagode! Não era o que eu tinha planejado. Queria continuar brincando com meus amigos. O jogo do rap às vezes é um jogo sujo que não me permite ter um vislumbre do futuro agora. Fiquei triste em alguns momentos, mas não posso ficar triste por fazer um bagulho bom.

Fui levar meu carro para revisão no Morumbi, moro na Lapa, e vim caminhando numa bad. Chegando em casa pensei: "agora que eu estou com os dois pés machucados, eu tenho do que reclamar". Do disco não tenho do que reclamar. Se eu soubesse o que ia fazer no próximo passo, significaria que estou criando um produto e não uma peça de arte. É isso que vou me permitir. Conto com todo mundo para me ajudar a proliferar esse disco, porque sou um cara com números risíveis perto da galera do trap e do rap. Estou feliz e tranquilo. Saber o que vou fazer daqui para frente não é algo que eu quero. Quero continuar fazendo peças de arte que mudem a vida das pessoas.


ISMO
Cultura em movimento

Assine nossa newsletter e receba
as últimas notícias em 1ª mão!

Assine agora