Cold Mold lança o álbum Ghost Enemy
Primeiro álbum da banda de Curitiba surge de sessões descontraídas, jogos de videogame e referências diversas
O Cold Mold, banda de hardcore de Curitiba, lança seu primeiro álbum, intitulado Ghost Enemy, com gravação, mix & master feita pelo baixista Lucas Redekopp, pelo selo dele SEM PEITA Records. Distribuição física é da AAK Records da Alemanha e EUA. Esse é o primeiro full da banda, que em 2025 apresentou o EP Straight Outta Cave, continuando uma proposta de peso, agressividade e riffs cavernosos.

Com 13 músicas, Ghost Enemy surge em meio à sessões despretensiosas de criação de música e convivência de um grupo de amigos que há mais de 10 anos está junto nos rolês de hardcore. Com influências de Led Zeppelin a Cannibal Corpse, o álbum tem músicas curtas, mas com riffs porradeiros. Em conversa com a ISMO, a banda explica sobre o álbum e fala sobre sua cena local de Curitiba.
O que vocês queriam trazer nesse álbum? É uma continuação do Straight Outta Cave?
O nosso primeiro EP, Straight Outta Cave, nasceu de uma maneira bem diferente. A banda começou sem uma formação definida e o Gueorgue foi encontrando os integrantes enquanto desenvolvia o projeto. O Alemão começou a gravar e desenvolver algumas ideias e, quando chegamos a uma formação que funcionava, boa parte das músicas já estavam pronta. Fizemos alguns ajustes para que todos pudessem participar e lançamos o EP muito pela vontade de colocar aquilo no mundo e descobrir o que as pessoas achariam.
O Straight Outta Cave tem riffs mais repetitivos, divertidos e até um pouco irônicos. As letras sempre foram pesadas, mas existia uma atmosfera muito mais urbana. Depois vieram os shows e, com eles, fomos criando uma sinergia que ainda não existia no começo. Somos amigos há mais de dez anos, então existe uma história e uma intimidade entre nós que acabou sendo muito importante para o processo de composição desse disco.
Esse clipe é da música Shot Twice, do EP Straight Outta Cave
Também tínhamos um grupo com alguns amigos onde compartilhamos músicas e referências, e acabamos ouvindo muita coisa em comum. No começo do ano, começamos a nos reunir para tentar transformar algumas dessas referências em músicas novas. Pegamos ideias antigas, desenvolvemos outras do zero e todo mundo participava ativamente do processo, dando ideias, mudando partes e tentando descobrir juntos o que funcionava.
O mais curioso é que, no início, não existia exatamente a intenção de fazer um álbum. A gente só estava compondo. Só que depois da terceira semana seguida fazendo duas músicas por dia, ficou muito claro que aquilo estava virando um disco.
E talvez a melhor parte tenha sido justamente a maneira como isso aconteceu. Essas sessões pareciam muito mais um rolê entre amigos do que uma obrigação de uma banda. Tinha comida, som, conversa e sempre algum filme passando ao fundo. A gente acredita muito na ideia de que uma forma de arte pode influenciar outra, então o cinema acabou tendo uma presença bastante forte nesse processo. Akira Kurosawa esteve muito presente nessas sessões, principalmente pela estética mais bruta e pela maneira como ele representa o conflito e violência.
Ao mesmo tempo, o Gueorgue e o Alemão estavam assistindo Xógum e jogando Ghost of Tsushima, então algumas dessas referências acabaram inevitavelmente entrando no universo visual e nas ideias que cercavam o disco. Mas a estética japonesa veio mais como consequência do que como ponto de partida. As letras não são sobre samurais ou sobre o Japão. Muitas delas foram influenciadas por conversas que tivemos enquanto assistimos aos filmes e séries ou jogávamos. O que nos interessava eram as batalhas, a violência, a agressão, a resistência e o aspecto físico do conflito.
Musicalmente, acho que isso também explica bastante o que tentamos fazer no Ghost Enemy. O disco é mais sombrio e mais complexo, porque nos permite mergulhar de verdade nas nossas influências e explorar possibilidades diferentes. Não queríamos que a guitarra ou o baixo fossem apenas instrumentos presos a uma determinada afinação ou a uma função específica dentro da música. Pensamos muito mais neles como uma espada: uma mesma ferramenta pode ser usada para cortar bambu ou para cortar uma pessoa. A música tinha que ter essa mesma flexibilidade. Queríamos transformar os instrumentos naquilo que precisávamos representar, explorando técnica, dinâmica e diferentes possibilidades dentro das nossas próprias referências.
E existe uma história engraçada envolvendo o próprio nome do álbum. Ghost Enemy começou como uma ideia do Gueorgue para uma música. Ele encaixou um trecho de uma música em um riff antigo que o Alemão tinha e surgiu a ideia de fazer uma faixa chamada Ghost Enemy. A partir daí, literalmente todas as vezes que nos encontrávamos alguém falava: "vamos fazer a Ghost Enemy hoje". Só que ela foi justamente a única música que nunca fizemos. Toda vez que pegávamos a guitarra para começar, a música tomava outro caminho e acabávamos fazendo outra coisa. No fim, Ghost Enemy virou o nome do álbum mesmo sem nunca ter sido a música que a gente pretendia fazer.
No final das contas, Ghost Enemy é um disco que construímos juntos. Mais do que uma banda, somos amigos que se conhecem há mais de dez anos e que compartilham muitos gostos, referências e histórias. Tudo isso acabou aparecendo no álbum de alguma maneira: nossas conversas, nossas lembranças, as coisas que estávamos consumindo naquele momento e, principalmente, a experiência de estarmos juntos fazendo música.
Se o Straight Outta Cave foi muito sobre colocar a banda para existir, o Ghost Enemy foi sobre descobrir até onde poderíamos levar essa banda quando todos nós estávamos realmente construindo aquilo juntos.
No fim, foi simplesmente um processo de curtir aquilo que mais gostamos de fazer: música.
Quais referências vocês tem ouvido pra botar nesse som?
Black sabbath, Conan, Mongrel, Led Zeppelin, Rogério Gulin, Severed, Cannibal Corpse, Carcass, Entombed e Obituary.

O hardcore tá bem em alta de novo nos últimos anos. Como vocês vêem isso e como tem sido pra vocês?
A gente viu esse boom do hardcore, mas viu tudo isso pelo lado de dentro. Tirando o batera, nós nos conhecemos em 2009 ou até antes, ainda na época da CWBEATDOWN, quando a galera (inclusive membros da cold) fazia os shows e trazia as bandas que estavam circulando naquela época.
Para a gente, nunca foi uma questão de hype. A gente vive isso há muitos anos, inclusive nos períodos em que não era tão legal ou não tinha tanta atenção. Teve época em que praticamente não tinha show para ir, mas a gente continuava ouvindo, acompanhando as bandas, fazendo o que dava e apoiando a cena da maneira que conseguíamos.
E acho que é justamente aí que está uma das coisas mais legais do hardcore. O hype é obviamente positivo, porque traz visibilidade, coloca bandas novas em evidência e faz mais gente descobrir o que está acontecendo. A gente tem muita sorte de viver em um país com tantas bandas boas e uma cena tão criativa, e sinceramente achamos que tudo isso poderia ser muito mais valorizado.
Mas, para nós, o mais importante é que essa valorização não fique restrita ao momento em que o hardcore está em alta. Porque existe uma história muito maior por trás disso. Existem pessoas que continuam fazendo show, tocando, gravando, viajando, organizando as coisas e apoiando bandas mesmo quando ninguém estava olhando.
Então, se o hype é o meio, a verdade é o começo e o fim. É essa verdade que fez a gente continuar aqui durante todos esses anos e é também o que a gente tenta colocar no que fazemos hoje.






Cold Mold ao vivo (fotos por @felxpe)
Curitiba tem uma cena foda, com bandas muito legais fazendo sons novos. Como tá a cidade em relação ao hardcore na visão de vocês?
Curitiba tem algumas lendas. Muita banda foda já saiu daqui e, para a gente, é impossível não reconhecer o quanto essa imersão cultural influenciou quem somos hoje. A gente cresceu frequentando muitos rolês, alguns deles até bastante conflitantes por causa das pessoas e das diferenças que existiam dentro da própria cena.
Só que o tempo passa. Aquelas pessoas que eram adolescentes cresceram, amadureceram e hoje conseguem desenvolver melhor suas ideias, seus princípios e, principalmente, entender o que realmente importa. Mesmo com diferenças entre nós, existe uma vontade cada vez maior de trabalhar por um objetivo comum: fazer com que os rolês sejam mais agradáveis, mais inclusivos, mais responsáveis e, acima de tudo, que continuem acontecendo. A gente é maluco por isso aqui.
E, tirando toda essa história da velha escola, Curitiba e o Paraná como um todo continuam produzindo muita coisa nova e muito boa. Ponta Grossa está especialmente quente, com uma quantidade absurda de lançamentos legais. Tem uma troca muito forte acontecendo: a galera de lá cola aqui, a gente cola lá, as bandas circulam, as pessoas se conhecem e esse conhecimento vai girando. É assim que uma cena continua viva.
A gente gosta muito da ideia de que você não precisa esperar uma grande mudança para começar a fazer alguma coisa. O futuro é uma sucessão de presentes e, se hoje a gente consegue fazer alguma coisa, por menor que pareça, na direção daquilo em que acredita, isso já é uma vitória.
Talvez seja justamente esse o momento que Curitiba está vivendo. Não é uma cena tentando ser uma coisa só. É um monte de pessoas diferentes fazendo coisas diferentes, mas entendendo que existe valor em manter esse movimento acontecendo. E a gente quer fazer parte disso enquanto puder, seja como banda, como público, como produtor, como consumidor e etc.

Em um mundo onde tudo é curto, pequeno, agora, vocês fizeram um álbum com 13 músicas. Como vocês enxergam essa importância de se ter um álbum, de fazer coisas mais substanciais?
A gente é muito apreciador de álbuns. Para nós, um álbum é um universo próprio. Você pode explorar a sequência das músicas, criar interlúdios, mudar a atmosfera, criar tensão e respiro, e construir uma experiência que não existe da mesma maneira quando você pensa em cada música isoladamente.
E talvez fazer um álbum de 13 músicas hoje seja justamente uma escolha consciente. A gente vive em um mundo cada vez mais acelerado, onde tudo precisa ser curto, imediato, consumível e substituível. A chamada "tiktokização" da atenção é muito real. Existe uma pressão constante para prender alguém nos primeiros segundos e passar imediatamente para a próxima coisa.
Isso conversa diretamente com uma lógica de consumo. Quanto mais rápido você consome alguma coisa, mais rápido pode consumir a próxima. Nossa atenção virou mercadoria, e isso acaba afetando até a forma como nos relacionamos com arte.
O Ghost Enemy é um álbum muito direto, mas acreditamos que uma coisa não precisa ser imediata para ser acessível. As 13 músicas têm suas próprias identidades, mas quando colocadas em sequência criam um contexto maior. Os interlúdios, as mudanças de atmosfera e os momentos de respiro existem justamente para construir essa experiência.
E isso conversa muito com o hardcore. Somos indivíduos, cada um com suas particularidades, histórias e complexidades. Mas quando pessoas diferentes se juntam por algo em comum, existe um contexto muito maior do que aquilo que cada uma poderia construir sozinha.
Num mundo cada vez mais individualizado e acelerado, acreditamos que ainda existe valor em fazer coisas substanciais. Coisas que exigem atenção, paciência e algum tempo para serem absorvidas.
No fim, fazer um álbum hoje também é uma maneira de dizer que nem tudo precisa ser rápido, imediatamente compreendido ou consumido e substituído.
Em um mundo de singles, seja álbum.
Ouça o Ghost Enemy aqui