O refix tornou possível a produção de grime no Brasil

Boss Mischief, Meio Feel, Sucateiro e VIANA PROD contam como a tesoura virou instrumento

O refix tornou possível a produção de grime no Brasil
Estúdio Black Ark, de Lee Scratch Perry (Kingston, Jamaica, 1978). Foto: Adrian Boot

Já falamos aqui na ISMO sobre as dificuldades da definição do grime enquanto gênero musical. O grime é, essencialmente, um gênero da música eletrônica – uma cultura preta, proveniente da diáspora jamaicana e que desde sempre foi construída pelas classes trabalhadoras e imigrantes – surgido em Londres no começo dos anos 2000 e construído a partir de fragmentos e influências de gêneros como o rap americano, o dancehall, o dub, o UK garage e o jungle.

É um gênero, por natureza, experimental, disruptivo e em constante modificação, que se alimenta das mais diversas influências e as reorganiza na produção de algo novo – que conversa com a tradição ao mesmo tempo que rompe com ela. Dentro desse universo de desconstrução, o refix surge como uma prática de produção que, ao trabalhar em cima do recorte e reinterpretação de faixas já existentes, democratiza e expande as possibilidades da produção musical. Essa maneira de se relacionar com outras músicas é herança da cultura soundsystem, e central para o DNA do grime.

Em seu novo livro Dub Revolution, David Katz traça o panorama histórico, político e social do gênero que mudou a história da música e foi decisivo para o desenvolvimento das cenas eletrônicas ao redor do mundo. Surgido como uma evolução natural das versões do reggae, o dub transferiu o foco para o instrumental, trabalhando pela subtração e livre manipulação de sons já existentes. A sua definição do dub enquanto um gênero "transformacional por natureza" ajuda a entender a origem desse aspecto abstrato que ressoa, até hoje, no grime.

"O mais abstrato, divertido e desconcertante de todos os subgêneros do reggae, o dub é um componente vital da cultura sound system que exerceu uma influência desproporcional. (...) O dub é feito a partir de truques de estúdio, com seus autores moldando algo novo por meio da subtração em vez da adição, invertendo as técnicas padrão de gravação. É uma música de ausência e ilusão, um sósia sonoro fantasmagórico com primazia do baixo e estruturas de canção sabotadas, cheio de lacunas e reviravoltas inesperadas." – David Katz, Dub Revolution (White Rabbit Books, 2026)

É fazendo um aceno à essa tradição que o refix se consolidou como a principal porta de entrada para os produtores de grime no Brasil. Com a intenção de entender mais sobre como essa prática se constrói e como ela se consolidou na nossa cena, troquei uma ideia com o Boss Mischief, referência na cena de Londres, e com Meio Feel, Sucateiro e VIANA PROD, três dos principais nomes que pegaram a prática como identidade na cena brasileira.

Refix Madness

"Com o grime, é uma quantidade infinita de possibilidades para expressar a sua arte e criatividade – e só ser você mesmo", conta Boss Mischief, produtor londrino amplamente reconhecido na cena de grime pela sua série Refix Madness, na qual apresenta a sua própria interpretação de clássicos do hip hop e do R&B estadounidense. "Eu amo o grime porque ele me dá a liberdade de me expressar como eu quero. Não é sobre o kick certo, o snare no lugar certo, ou um mesmo padrão – anos atrás, as pessoas falavam sobre os 140 BPM, mas a gente sabe que isso não é mais o caso. Do meu ponto de vista, como produtor, o grime é a liberdade de se expressar à partir de uma tela em branco."

Fortemente influenciado por grandes nomes do hip hop, como Neptunes e Dr. Dre, ao mesmo tempo que pelos principais produtores do grime londrino, como Rapid, DaVinChe, Wiley, Jammer e Skepta, Mischief encontrou o seu próprio jeito de produzir, lapidando uma sonoridade única e instantaneamente reconhecível. "Eu basicamente refixo todas as coisas que eu cresci ouvindo. Eu me inspirava mais pelos instrumentais do que pelos vocais, e quando ouvia os beats, eu ficava pensando: 'eu quero conseguir colocar a minha identidade nisso'.

Eu sinto que eu tenho o meu próprio estilo de refixes – de como eu faço os cortes. Eu procuro picotar de uma maneira específica para que as pessoas possam associar aquilo comigo. Fazer um refix é mais difícil do que parece, porque é o som de outra pessoa, e você tem que adicionar a sua própria sonoridade."

Crescendo e acompanhando os desenvolvimentos do grime, Mischief buscou expandir o panorama sonoro da cena, focando em trazer novas possibilidades ao invés de trabalhar em cima dos instrumentais que já circulavam. Dez anos depois, a sua influência segue decisiva, principalmente aqui no Brasil – recentemente, Cassiel lançou seu álbum de estreia, ON, contando com um refix de "Parklife", do Blur, assinado pelo produtor inglês.

"Eu não refixo beats de grime. Um beat de grime tem a sua própria jornada, ele fez o que precisava fazer. Eu estou tentando fazer o mesmo, então eu gosto de pegar um instrumental de hip hop, de R&B, e colocar a minha interpretação naquilo, ao invés de pegar um beat de grime e deixar ele 'mais grime'.

Eu vejo o que tá rolando no Brasil e fico muito feliz. É insano que as pessoas estejam curtindo o som, é realmente inspirador. Tem muito talento, muita paixão e eu sinto a energia. Me faz lembrar dos tempos das antigas em UK, quando tudo tava começando, as raízes orgânicas, todo mundo dando 100%.

Eu não faço música para nada além de poder compartilhar e ver as pessoas que são apaixonadas por essa arte curtindo. Aquele sentimento old school, de fazer para as pessoas que fazem a sua parte pela cena, seja DJ, MC ou o que for. Não é pelos cliques, pelo viral, pelas dancinhas – é só pela arte."

Versão Brasileira...

O grime chegou de maneira confusa no Brasil, se misturando com o rap, o trap e o funk e encontrando, aos poucos, o seu espaço dentro do amplo ecossistema sonoro da música eletrônica underground. Desde o começo, a cena foi pautada por uma pluralidade na produção, incorporando essas influências da música periférica brasileira e as reconstruindo por meio das batidas quebradas.

O refix gerou um caminho de identificação, e permitiu que produtores pouco familiarizados com o grime, ou com a própria parte técnica da produção musical, pudessem se aproximar do gênero. Um momento marcante nessa história aconteceu durante a pandemia – o BEAT PVP, projeto organizado por ANTCONSTANTINO em lives na Twitch, que abria espaço para produtores das mais diversas cenas se arriscarem na produção, e teve a sua segunda edição focada em refix.

A segunda edição do BEAT PVP está disponível no canal Poeira Grime no YouTube, e premiou DJ Keu, referência na cena do funk que impressionou com os seus primeiros refixes

Um dos primeiros produtores que pegou o refix como identidade na nossa cena foi o Meio Feel, diretamente do Paraná. Fortemente influenciado pelas primeiras movimentações do Brasil Grime Show, ouviu o refix do Spooky de Lean Back e decidiu se arriscar na produção, entendendo de ouvido como fazer. "Eu já tava começando a produzir música eletrônica, já tava escutando grime, mas ainda não tinha me encontrado nesse meio. Eu fiquei com isso na cabeça: ‘acho que eu consigo pegar o instrumental de uma música que eu curto e fazer isso também'. Na hora que você vai ouvindo, você vai entendendo – dá para ver que o cara não usou nenhum kick, nenhum snare. Era um refix, ele nitidamente só tinha picotado o som e remontado ali."

A influência de nomes como Boss Mischief, Spooky Bizzle e Gundam foram decisivas para que ele pudesse encontrar a sua musicalidade, com refixes de clássicos dos anos 2000 gerando um reconhecimento instantâneo. Em seus projetos Versão Brasileira, o artista explora refixes de nomes como M.I.A, ConeCrew, Redman, 50 Cent, Ariana Grande e Marcelo D2, trazendo as mais diversas referências e as conectando com o universo do grime.

"Às vezes, você escuta uma track que você já conhece, mas picotada, e fala: 'eu sei que música que é essa, só que ela tá diferente, que porra é essa?' Eu acho muito louco esse destravamento, de tirar de um local e colocar em outro, dar uma outra roupagem na música – é basicamente samplear, só que usando os próprios recursos da música, é tirar leite de pedra. Na mesma época que eu tava descobrindo tudo isso, eu tava me formando em design gráfico. Eu gostava muito de colagem, e tirei muito a pira de que o refix era uma colagem.

No design gráfico, a gente falava que a colagem era uma forma de reciclar, de ressignificar uma coisa que já existe. No refix, você tá reciclando, pegando um pouco daquilo que já existe para transformar numa coisa nova, dar uma nova roupagem para o bagulho."

O set recentemente lançado pela Veneno conecta os dois principais nomes do refix brasileiro

Foi bebendo dessas mesmas influências que, anos depois, Sucateiro puxou o bonde da reciclagem sonora com o seu álbum de estreia Santa Sucata vol. 1, contando com releituras de artistas como Djavan, Racionais MC's, Bob Marley, System of a Down e Kendrick Lamar. Levando adiante o caminho pavimentado por Meio Feel, e fortemente influenciado por ele, o produtor paulistano expandiu o universo do refix na nossa cena, revisitando clássicos do rap nacional e dos mais diversos ritmos da música brasileira, levantando a bandeira da originalidade e da liberdade na produção.

"No grime, o refix é um processo quase como uma cirurgia. Ao invés de adicionar novos acordes, você trabalha com cortes, repetições, time stretching – uma reorganização rítmica, mesmo. Pode até parecer mais fácil porque você não precisa adicionar coisas, mas você precisa reconstruir. Por mais que possa parecer ter uma formulinha, é muito mais difícil do que parece, e cada produtor vai fazer de um jeito – cada um é um universo diferente.

Depois que eu fui pesquisar mais a fundo, descobri que o termo refix já era usado muito antes, nos anos 80/90, na cultura dancehall. Era a estratégia que os caras tinham para ir refazendo o som, e dar uma nova vida a esses clássicos. Vem muito dessa escola da cultura musical jamaicana, de tratar a música como um material que pode ser reconstruído continuamente – isso que originou vários outros gêneros que a gente adora, como o rap e qualquer gênero eletrônico que nasceu nas periferias do mundo.

É uma forma diferente de pensar, de enxergar a música. Algo fora do convencional, e, para mim, funciona como algo contracultural também. É uma parada de você enxergar a música de uma forma mais livre e menos dentro da caixa – e não tem a ver só com discotecagem, mas principalmente com pesquisa musical e curadoria, porque é um processo de pesquisa e de ir atrás das coisas para fazer os refixes."

"Como a gente não usa elementos externos, nem kick, nem bass, nem nada, a gente faz muita questão de usar as automações nativas do FL – o meio da mixagem e as artimanhas que a gente tem no programa para poder brincar com o que a gente já tem", explica VIANA PROD, diretamente de Teresina, Piauí, que já conta com cinco volumes da sua série de refixes no BandCamp. "O legal é que, em tese, tem uma limitação de você não pegar nada externo, mas você tem a sua criatividade para testar o que você quiser em cima daquela bateria que você já picotou inteira.

É ir picotando mesmo – te dá um pouco de liberdade pra você ir lá, errar, e testar, sabe? Você fica bem aberto às possibilidades daquilo ali. Eu, particularmente, acho que é um trampo. Não acho fácil fazer, porque não necessariamente aquilo ali vai ficar bom a princípio. Então você tem que ir na tentativa e erro, tentativa e erro. E muita disposição para ficar ouvindo, prestando atenção, estudando, e entendendo como funciona. Às vezes, acontece de eu ouvir algumas faixas, guardar elas na minha cabeça, e em algum momento, baixar elas e tacar a tesoura – é uma grande tesouraria da música.

Chega no Brasil, tudo fica mais interessante, mais maluco, mais criativo. A gente tem uma cabeça a milhão para trabalhar com essas ideias – principalmente sobre o grime, que é um gênero tão abstrato."

O refix acendeu o fogo do grime e incentivou muita gente a começar a produzir. Hoje, produtores como diniBoy, HRKN, Solita, Camiska, JPEGO, Rog, Ishval, RNGUEDZ, Nice 55, j3llyX, NOAZE, Enigma, Starkenoten, Fellet, Agostode2002, Zoe Beats, FUDIDO NOXY, DJSCOPEBOYG, GR33G, Little Aug e Marcelo USB, entre tantos outros, seguem, pelo refix ou por produções autorais, levando esse caminho adiante e acrescentando as suas interpretações ao amplo e abstrato panorama do grime brasileiro.


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