Tudo é política. Inclusive o silêncio.

A ISMO existe para falar de cultura. Por isso, diante do risco de novos retrocessos nas políticas culturais brasileiras, não podemos ficar em silêncio

Tudo é política. Inclusive o silêncio.

A cultura nunca esteve separada da política. Está nas ruas que ocupamos, nos discos que ouvimos, nos filmes que vemos, nos artistas que descobrimos e nas histórias que escolhemos contar. Está também nas condições que permitem que tudo isso exista, circule e encontre seu público.

Quem consegue produzir, quem tem acesso aos recursos, quais manifestações ganham espaço e quais permanecem à margem são questões políticas, mesmo quando não parecem.

A ISMO nasceu da vontade de olhar para a produção cultural contemporânea, descobrir novos artistas, documentar movimentos e abrir espaço para manifestações que nem sempre encontram visibilidade. Nossas escolhas editoriais dizem muito sobre aquilo em que acreditamos. Quando escrevemos sobre o funk mandelão das quebradas paulistanas, Dário Inerente cantando a resistência do Sul da Bahia, a irmandade de artistas negros da Vilanismo ou um clube que lê letras de rap como literatura, também estamos escolhendo quais histórias consideramos importantes e quais vozes queremos amplificar.

Mas nenhuma dessas histórias acontece no vazio. Um filme não existe apenas porque alguém teve uma boa ideia, assim como um disco não acontece apenas porque existe uma banda. Festivais, exposições, livros, peças, bailes, espaços culturais e movimentos independentes dependem de uma rede enorme de profissionais, instituições, investimentos e políticas públicas para existir. Cultura também é trabalho, renda, formação, circulação e acesso. Em um país tão desigual quanto o Brasil, produzir cultura não pode ser um privilégio reservado a quem consegue pagar por isso.

Isso fica mais evidente quando saímos das siglas e olhamos para a rua. O funk e o hip hop nasceram e cresceram nas periferias, criaram linguagens próprias, movimentam uma enorme cadeia econômica, influenciam música, moda, arte e comportamento e hoje ajudam a projetar a cultura brasileira para o mundo. Ainda assim, convivem com tentativas de restrição e estigmatização, e propostas legislativas que miram artistas e manifestações dessas cenas aparecem em diferentes partes do país. Ao mesmo tempo, o Ministério da Cultura lançou editais voltados ao reconhecimento e à valorização do hip hop e, em julho, a Câmara aprovou um projeto de lei que reconhece o movimento como manifestação da cultura nacional, atualmente em tramitação no Senado. Programas de incentivo direcionaram recursos para favelas e periferias, e políticas afirmativas começaram a ampliar o acesso de grupos historicamente afastados dos mecanismos de financiamento. O mesmo país que reconhece essas expressões como cultura vê surgir propostas para restringi-las. A diferença entre esses dois caminhos é política.

E essa diferença importa, porque liberdade artística não é apenas poder criar sem censura. É também ter condições para criar, produzir, circular e encontrar seu público. Por trás de muitas dessas possibilidades estão nomes que podem parecer distantes do cotidiano: Ministério da Cultura, Ancine, Fundo Setorial do Audiovisual, Lei Rouanet, Política Nacional Aldir Blanc, Lei Paulo Gustavo. Mais do que as siglas, importa o que elas ajudam a tornar possível: um primeiro filme realizado, um festival acontecendo fora dos grandes centros, um coletivo periférico mantendo suas atividades, uma companhia circulando pelo país, um espaço cultural de portas abertas, um artista transformando uma ideia em trabalho.

Há ainda uma contradição na maneira como esses mecanismos aparecem no debate público. Seus críticos costumam apresentar o incentivo à cultura como gasto, privilégio ou desperdício de dinheiro público, mas o impacto econômico desse incentivo é mensurável. Um estudo da Fundação Getulio Vargas divulgado em janeiro de 2026 mostrou que, somente em 2024, cada R$ 1 de renúncia fiscal via Lei Rouanet movimentou R$ 7,59 na economia brasileira e gerou R$ 1,39 em arrecadação tributária. Foram R$ 25,7 bilhões em atividade econômica e 228 mil postos de trabalho gerados ou mantidos. Por trás desses números há uma cadeia que envolve técnicos, produtores, artistas, fornecedores, profissionais de comunicação, transporte, alimentação e muitos outros setores. A cultura não precisa se justificar pelo retorno econômico, mas os números ajudam a desmontar a ideia de que investir nela é retirar recursos da sociedade sem retorno.

Nada disso significa que as políticas culturais estejam acima da crítica. Há concentração de recursos, burocracia, desigualdade regional e dificuldade de acesso. Defender esses mecanismos é exigir que sejam cada vez mais transparentes, descentralizados, diversos e acessíveis. Mas há uma enorme diferença entre discutir como aperfeiçoar essas estruturas e trabalhar para enfraquecê-las.

O Brasil conheceu essa diferença recentemente. Em 2019, uma das primeiras medidas do governo Jair Bolsonaro foi extinguir o Ministério da Cultura como pasta autônoma e rebaixar a área a uma secretaria especial dentro do Ministério da Cidadania. Naquele mesmo ano, Bolsonaro chegou a anunciar que poderia extinguir a Ancine caso não fosse possível impor o que chamou de “filtro” sobre as produções apoiadas pela agência. Nos anos seguintes, o setor atravessou sucessivos conflitos envolvendo financiamento, instituições culturais e liberdade de criação. A produção brasileira, evidentemente, não desapareceu. Continuou criando, ocupando espaços e encontrando maneiras de existir. Mas sua capacidade de resistir não pode servir de justificativa para aceitar seu desmonte.

É impossível olhar para o segundo turno sem considerar esse histórico. O plano de governo de Flávio Bolsonaro dedica uma seção à cultura e fala em descentralizar recursos, aperfeiçoar as leis de incentivo e dar mais transparência ao setor. São pontos que, no papel, poucos contestariam. Mas o mesmo texto promete apoiar “artistas de grande mérito” e levar a arte ao país “sem subordiná-la a agendas políticas”, sem esclarecer quem definiria esse mérito ou o que seria considerado uma agenda política. A linguagem inevitavelmente levanta questões sobre quais critérios seriam adotados e quais garantias existiriam para preservar a autonomia artística, sobretudo considerando que, em 2019, esse mesmo campo político defendia um “filtro” para o audiovisual.

Não seria responsável afirmar que todas as decisões do governo Jair Bolsonaro se repetiriam, mas também não podemos ignorar de onde vem esse projeto, o que aconteceu quando esteve no poder e quem volta a se movimentar ao seu redor. Segundo reportagem da Folhapress, Mario Frias, que comandou a Secretaria Especial da Cultura durante parte do governo Jair Bolsonaro, já articula seu retorno à área, agora como ministro, em uma eventual gestão de Flávio. Diante disso, a preocupação com retrocessos deixa de ser uma abstração.

Nossa preocupação, porém, vai além desse campo, porque a cultura não existe separada do mundo em que é produzida. Artistas indígenas não existem fora da disputa por território; a cultura LGBTQIA+ não existe separada da luta por direitos; a produção periférica não pode ser dissociada das desigualdades e da violência que atravessam esses territórios. E a liberdade artística dificilmente floresce onde instituições democráticas são fragilizadas e o pensamento crítico é tratado como inimigo.

Por isso essa discussão diz respeito diretamente à ISMO. Existimos porque existem artistas criando coisas que ainda não sabemos nomear, bandas começando em quartos e garagens, MCs transformando a experiência das periferias em música, cineastas tentando realizar seus primeiros filmes, coletivos ocupando espaços improváveis, selos independentes lançando discos, editoras apostando em novos autores e festas criando cenas. É sobre essas pessoas e esses movimentos que falamos todos os dias. Seria contraditório celebrar essa potência e permanecer indiferente quando as condições que permitem que ela continue existindo estão em disputa.

Não somos uma publicação partidária e não acreditamos que a cultura deva estar subordinada a governos ou ideologias. Continuaremos cobrando de quem estiver no poder investimento, transparência, liberdade, diversidade e compromisso com o setor, porque defender instituições fortes é também defender sua autonomia para apoiar artistas capazes de questionar, provocar e criticar aqueles que as financiam. Essa independência é o que nos interessa. Mas independência não é indiferença, e apartidário não é o mesmo que neutro diante de um projeto político cujo histórico com a cultura já conhecemos.

O segundo turno vai passar, e a cultura brasileira continuará criando, se transformando e encontrando caminhos, como sempre fez. A questão é sob quais condições isso acontecerá, quem terá acesso a essas condições e quantas vozes podem se perder pelo caminho. Não estamos falando apenas da sobrevivência da ISMO, mas da possibilidade de continuarmos tendo artistas, filmes, discos, livros, festivais, bailes, espaços, cenas e histórias para contar. Se existimos para falar de cultura, precisamos também falar quando ela está em risco.


ISMO
Cultura em movimento

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