A moda engoliu Hollywood

Grifes de luxo encontraram no cinema e no audiovisual como um todo, um terreno fértil para criar além das passarelas

A moda engoliu Hollywood

Acho que já dá pra parar de ficar surpreso quando a moda acena para artes como literatura e cinema. Historicamente rolava aquele flerte básico: o diretor de cinema curtia um editorial e usava de "moodboard", ou o estilista assistia um filme do Hitchcock e decidia que sua próxima coleção seria inteira baseada em Os Pássaros. Só que, se olhar de perto o que está rolando agora, vai perceber que esse jogo está mais próximo. Ainda tem o lance de contratar atriz para segurar uma bolsa em cena, mas as grandes grifes não estão mais satisfeitas em vestir Hollywood, elas querem ser Hollywood.

Há poucas semanas, no início de setembro, A Maison Margiela, que recentemente passou por uma fase teatral nas mãos do John Galliano, soltou um curta-metragem chamado "ANONYMITY". O filme dirigido por Thibaut Grevet e estrelado pela Rebecca Hall, é um thriller psicológico denso pra cacete. A Margiela pegou o DNA — o anonimato do criador da grife, as etiquetas brancas sem logo, a ideia de se esconder atrás das máscaras — e transformou isso em roteiro de suspense. A personagem da Rebecca está em surto e as roupas que originalmente querem oferecer o caimento perfeito estão ali para sufocar a personagem. É um cinema autoral sendo bancado por uma etiqueta de roupa.

Mas pra gente chegar nesse nível em que a moda dá pitacos no roteiro, alguns malucos precisaram abrir portas tempos antes. E nenhum movimento desses foi tão estiloso quanto o do Jean Paul Gaultier em O Quinto Elemento (1997).

Quando o diretor Luc Besson resolveu filmar O Quinto Elemento, ele sabia que não dava para chamar um figurinista padrão de estúdio. Ele queria que o futuro fosse caótico, sexy, sujo e futurista. Daí chamou o Gaultier. O que o estilista francês fez então foi transformar a estética dos anos 90 e jogar no século XXIII.

Gaultier pegou a energia dos clubbers de Nova York e Londres, misturou com a alta-costura de Paris e criou um universo que parecia uma rave intergaláctica que deu muito errado (ou muito certo). Aquele traje de bandagens da Milla Jovovich é, até hoje, uma das roupas mais copiadas e referenciadas da cultura pop. Aquele macacão de leopardo do Chris Tucker, com uma gola que parecia esquisita, era o Gaultier tirando sarro da masculinidade tóxica e do ego da mídia. Ele usava plástico, vinil, neoprene, borracha… Nada sustentável, ok, mas na época eram coisas que Hollywood achava um lixo. O designer honrou a liberdade estética e fez o figurino ser protagonista

A real é que a moda há tempos tem um olhar apaixonado pelo cinema, mas as coisas só mudaram de rumo e viraram o que são hoje por causa de um trauma global mais recente, que foi a pandemia. Corta para 2020 e o mundo entra em quarentena, as pessoas trancadas em casa, e as Semanas de Moda morrem do dia pra noite. Paris, Milão, Londres, São Paulo... tudo cancelado.

Como você vende uma bolsa de milhares dólares ou um vestido de alta-costura feito à mão se não pode enfiar a Anna Wintour na primeira fila de um desfile pra bater palma? O jeito foi fazer os, agora famosos, "fashion films". Antes, esses trabalhos eram só material de making of, um apoio visual para o YouTube da marca. Na pandemia, viraram a única forma de apresentar novos projetos.

Como as grifes tinham algum dinheiro sobrando, já que não estavam gastando milhões alugando palácios em Paris, elas começaram a ligar para os diretores de cinema. A Dior, por exemplo, chamou o Matteo Garrone, conhecido por dirigir Gomorra (2008), para fazer Le Mythe Dior (2020). O resultado é uma viagem surreal gravada no meio da floresta, com sereias e ninfas escolhendo vestidos em miniatura. Em uma realidade tão triste e sem perspectivas, foi um escapismo.

A Gucci, de Alessandro Michele, foi mais longe e lançou Ouverture of Something that Never Ended (2020), uma série de sete episódios dirigida por Gus Van Sant, o favorito dos alternativos, diretor de Elephant (2003), Last Days (2005) e Paranoid Park (2007). Longe das passarelas, a Gucci mostrou a roupa em uma casa, em um drive-thru e nas ruas. Foi aí que a indústria percebeu que, ao invés de gastar uma pequena fortuna em 20 minutos de desfile, poderia fazer um filme que ficaria na cabeça das pessoas por muito mais tempo.

Acho pesado chamar de “legado”, mas a pandemia mostrou que o audiovisual também é um ótimo vendedor do luxo. E quem pegou essa visão rápido foi a Saint Laurent. Os caras não ficaram satisfeitos em só patrocinar ou colaborar, foram lá e abriram a Saint Laurent Productions. Agora, a marca é oficialmente uma produtora de cinema.

O cartão de visitas dessa nova fase foi Estranha Forma de Vida (2023), curta-metragem dirigido por Pedro Almodóvar. O Anthony Vaccarello, diretor criativo da YSL, assinou a produção junto, mas também matou no peito a missão de cuidar do figurino. E o mais legal é que o filme é um western, dos gêneros mais masculinos e conservadores do cinema americano, que Almodóvar subverteu para contar a história de amor mal resolvida entre dois caubóis, vividos por Ethan Hawke e Pedro Pascal.

A roupa ajuda a contar o que as atuações não conseguem sozinhas. O xerife Jake, interpretado por Hawke é todo travado e usa tons sóbrios e clássicos. Com o perdão da piada, ele é um homem da lei preso dentro do armário. Já o Silva, personagem de Pascal, aparece usando uma jaqueta verde e camisa amarela, nada do que se espera de quem vive em um terreno tão árido. A roupa é uma ferramenta narrativa que brinca com a tensão sexual da dupla, às vezes reprimida, às vezes vivida.

Outro que usou o cinema para criar foi Jonathan Anderson, ex-diretor criativo da Loewe e atualmente da Dior. Ele virou basicamente o parceiro de crime do cineasta Luca Guadagnino e os trabalhos que os dois fizeram nos últimos anos ajudaram a redefinir como a Gen Z e os millennials enxergam a moda no cinema.

Provavelmente o maior sucesso criado por eles foi Challengers (2024). Você pode até não ter assistido, mas provavelmente viu algo sobre o filme que fez o tênis (o esporte, não o calçado) ganhar novos adeptos. Apesar disso, o esporte é pano de fundo, já que o filme é sobre um trisal tóxico, competitivo e completamente dependente emocionalmente um do outro. Zendaya, Mike Faist e Josh O'Connor usam as roupas de Jonathan Anderson no jogo das quadras e no jogo do amor.

A personagem de Zendaya começa como um talento do tênis usando marcas esportivas e, quando lesiona o joelho e vira treinadora, o guarda-roupa dela vai pro "quiet luxury". Peças minimalistas com jeito de caras pra cacete, mas que dão a ela uma aura fria, intocável e, em alguma medida, de mãe — não da filha, do marido. Já esse, veste roupas de alta performance que parecem sempre um pouco limpas demais, meio enlatadas, um uniforme de quem anda sempre na linha. E também teve a camiseta “I TOLD YA” que vazou das telas, fez sucesso no TikTok, e esgotou nas lojas, originais e falsificadas. Anderson mostrou que entende de costura e também de viralização.

Ainda em 2024, a dupla Anderson - Guadagnino lançou Queer, adaptação do livro de William S. Burroughs, com Daniel Craig no papel principal. A história se passa na década de 50, com a comunidade de americanos no México enchendo a cara de tequila e essa descrição provavelmente já te faz pensar em alguma imagem. Mas Jonathan Anderson criou um figurino muito chique, com os ternos de linho do Daniel Craig sempre amassados, as camisas abertas pra mostrar que tava muito calor e a cabeça na ressaca. Anderson usou o linho e o algodão para representar o vício e o comportamento autodestrutivo do protagonista.

Então, quando a gente olha pro cenário inteiro, da Margiela lançando thriller psicológico em 2026, passando pelo Gaultier criando festas espaciais nos anos 90, até o Vaccarello e o Anderson desenhando as ideias do Almodóvar e do Guadagnino, a conclusão para mim é que a moda não quer mais ser figurante entre outras artes.

Sinceramente, hoje as marcas de luxo funcionam como grandes produtoras de conteúdo. O desfile de passarela continua existindo, é importante, rola aquele burburinho, os convidados tiram fotos, mas tudo é tão efêmero que não parece tão diferente do que todo mundo já vê nas telas de celular. Aliás, quem não tem como ir à semana de moda, realmente só vê pelas redes sociais. A parada é que o cinema garante para a moda outra camada de visibilidade e legado.

Antes de um personagem de Almodóvar chorar, a Zendaya dar uma raquetada, ou o Daniel Craig virar um shot de tequila, a roupa deles já conta para quem assiste de onde eles vieram, o que eles pensam e com quem eles querem ir pra cama. E as grifes, ligeiras que são, sacaram que investir em cinema não é caridade para as artes, mas uma puta jogada de marketing. A galera das tesouras e dos alfinetes descobriu como dar play, e dificilmente vão apertar o pause tão cedo.


ISMO
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