Dário Inerente canta a beleza e a resistência do Sul da Bahia
Os Atabaques são Clarins de Guerra é o segundo disco de estúdio do rapper grapiúna e chegou nesse último final de semana pela Sujoground
Na última sexta-feira, 25/09, Dário Inerente, rapper natural de Itabuna, no Sul da Bahia, lançou seu segundo álbum de estúdio, Os Atabaques são Clarins de Guerra, pela Sujoground. Com participações de Ricô (OQuadro), Matheus Coringa, DJ Noé, Nitcho e Ciano, o disco chega como uma sequência de Bloco na Rua, lançado no ano passado, e se propõe a pintar um retrato cru e sincero da região em que cresceu.
A relação de Dário com as ruas de Itabuna e Ilhéus aparece no projeto como fio condutor – uma força única, na criação de uma sonoridade que representa tanto a sua individualidade como a experiência coletiva de quem vive no seu entorno. Conterrâneo de Jorge Amado, o rapper buscou em Capitães da Areia uma fonte de inspiração para refletir sobre as suas próprias experiências.
Ao mesmo tempo que explora sem filtro a realidade da sua cidade, Dário pinta um retrato bonito e sensível dela. É, como ele mesmo explica, “uma festa da luta e a luta pelo direito de festejar”. Troquei uma ideia com o rapper para entender o que norteia esse segundo disco, como é sua vivência no Sul da Bahia e a importância de falar sobre as coisas de maneira positiva.

O disco fala muito sobre o seu território, com muito balanço e rimas afiadas. O que aparece de diferente nesse projeto, pensando em Bloco na Rua e no tempo que passou entre os dois discos? O que norteia Os Atabaques são Clarins de Guerra?
A ideia é uma continuação, mesmo. Bloco na Rua foi uma coisa muito pensada, que demorou um pouco, já esse álbum foi muito mais natural. Foi surgindo da necessidade que eu tinha de falar do meu território. Ele tem como fio condutor o Sul da Bahia, especialmente as duas cidades que eu vivo – entre Itabuna e Ilhéus.
Eu queria fazer alguma coisa – porque eu tenho essa sensação de que a gente precisa falar, mostrar mais essa coisa do território. Eu vi que Bloco na Rua foi chegando em muita gente que foi falando: "já fui em Salvador, já conheço a Bahia". Eu tinha que explicar que não é a mesma coisa – daqui pra Salvador é uma caminhada. Não é o mesmo sotaque, não é a mesma cultura.
Então eu fui fazendo algo nessa mentalidade de imprimir ainda mais as ruas daqui. A gente fez a capa de Bloco na Rua na rua aqui em Itabuna, no centro, que tem uns prédios antigos. Aqui já é mais urbano, não tem praia. Quando eu tava com essas faixas do álbum, eu falei com meu parceiro Augusto, que também fez a outra capa, e a gente foi pra Ilhéus. E aí a gente fez essa foto lá no centrão, na Praça da Catedral de São Sebastião – que é um ponto turístico.

Tanto Itabuna quanto Ilhéus são cidades de Jorge Amado. Ele nasceu aqui, no distrito de Ferradas, uma fazenda de cacau. Apesar de ter essa coisa toda de Jorge Amado em Salvador, ele nasce aqui. Eu tiro o título de Capitães da Areia, é o penúltimo capítulo. Eu tinha lido ele moleque e li de novo no ano passado – minha mãe é professora, então ela sempre me passou muitos livros, desde pequeno.
Hoje em dia, eu tenho muita dificuldade de ler – mas é um resgate. Eu li duas vezes no ano passado e essa frase ficou na minha cabeça por muito tempo. Esse penúltimo capítulo é uma narrativa meio metafórica – Pedro Bala tá meio alucinando, ele começa a ouvir o som do mar batendo, e é como se tudo isso tivesse chamando ele pra luta de classes. Jorge Amado vai escrever esse capítulo inteiro nessas metáforas – de que ele tá ouvindo o som, tem algo batendo forte no peito dele junto com o tambor do candomblé, e esse som tá chamando ele pra revolução. Ele termina o capítulo falando 'na noite misteriosa das macumbas, os atabaques ressoavam como clarins de guerra'.
Aqui em Itabuna, tem uma cultura de terreiros de candomblé muito antiga. A gente tem essa herança do cacau, do candomblé, do coronelismo... É uma terra adubada com sangue e violência, ao mesmo tempo com essa cultura afrobrasileira, afroindígena. É um título que funciona como uma continuação de Bloco na Rua. Agora o bloco tá passando, e Os Atabaques são Clarins de Guerra. Os clarins de guerra são do exército, tocam as músicas de batalha. E Jorge Amado fez essa metáfora maravilhosa, porque é essa coisa do subaiano.
Um bloco de carnaval passando com tambores que entoam um canto pra luta. É uma festa da luta e a luta pelo direito de festejar. A gente luta cantando, e canta pra poder lutar – porque não tem como lutar fraco.
Esse disco tem mais balanço, é um pouco mais pra cima. É um pouco mais essa coisa do ritmo, da rítmica das palavras, também – girando em torno dessa coisa do território, especificamente Itabuna e Ilhéus, aqui no Sul da Bahia.

Como foi crescer em Itabuna e como essa vivência influencia a sua arte?
Eu cresci no Parque Boa Vista, aqui em Itabuna. Era um bairro que tinha uma galera mais velha, e começou a surgir uma molecada da minha idade, mas era um pouco violento – a rapaziada brigava muito por causa de besteira. Então os meus pais me protegeram muito. Quando eu fiz uns 12 anos, comecei a andar de skate e a ir pro centro da cidade – e fui ganhando a minha liberdade.
Depois de um tempo, com 13, 14 anos, eu já ficava na rua o dia inteiro, andando de skate. Eu vi muita besteira, e muita coisa boa também. Eu sempre fui muito bem educado pelos meus pais, sempre ouvi rap, desde mais novo, então sempre fui muito atento com essas paradas, não me envolvi com muita besteira. Eu vivia muito essa coisa da rua – de segunda a domingo. E era tranquilo porque o skate me protegia, eu acho. E também porque eu podia estar gastando meu tempo com outra coisa, que talvez não fosse boa pra mim.
Em determinado momento, eu me vi como um desses moleques, Capitães da Areia, também. Apesar de ter uma casa, ter uma família – mas no sentido de estar vivendo a rua, respirando essa coisa. A polícia da Bahia também é uma das piores, senão a pior do Brasil, então a gente sofreu truculência também. Eu vi muita coisa, vi pessoas passando por várias situações. Então eu tô jogando na rua toda a vivência que eu tinha pra escrever.


Como é a relação com a cena de Salvador, e como isso interfere na maneira que as pessoas enxergam o seu som? Você considera viver em outro lugar?
Eu acho que as referências de rap na Bahia são mais de Salvador, então existe um estigma em cima do estilo – talvez as pessoas esperem um sotaque, uma agressividade. Eu acho que é um processo de desconstruir. Assim como Salvador não tem só um representante, não é só um estilo, tem várias coisas – eu quero fazer algo que possa desmistificar essa visão da Bahia. A gente tá vivendo as nossas vidas, normalmente.
Eu acho que essa coisa do balanço, dessas praias, desse clima tropical, de tambor, de percussividade – sem ser uma coisa necessariamente agressiva. O balanço da música afroindígena brasileira, que é a nossa herança. As pessoas nem sabem que existe o Sul da Bahia. É um processo de reivindicar, porque nós estamos aqui.
É um álbum que alguém de Salvador não poderia fazer, assim como eu não conseguiria fazer um álbum que representasse Salvador. É um pouco do ímpeto, da necessidade de aparecer, mesmo. Não rola tanto esse diálogo entre as cenas. A galera não conhece tanto a Bahia pra além da capital e o pessoal que tá na capital também não dialoga tanto.
Eu penso em morar em Ilhéus, arranjar uma casa lá. Viver um pouquinho melhor, já é mais perto da praia – cuidar da saúde mental. Mas a minha intenção real é conseguir fazer as coisas daqui. Poder estar conectando com o eixo, fazendo coisas, estando aqui. As pessoas colam nas paradas, então funciona. Só que passa uma cota pra conseguir fazer essa parada, e às vezes não rola. E eu faço com as próprias mãos – ao mesmo tempo que é muito da hora, às vezes impossibilita de fazer algumas coisas.

Esse cenário que você pinta tem muito swing, muita beleza e soa, de algum modo, feliz. Como foi a construção dessa sonoridade, pensando tanto nas rimas como na produção das batidas?
Legal que você falou que achou feliz. Apesar do título, o contexto, a narrativa da luta pelo direito de se festejar, eu não queria fazer algo muito pesado. Esse álbum tem uma coisa mais da paixão, mesmo, pelo território. É quase uma ode ao território, um louvor às nossas gírias, ao nosso jeito de falar, de viver. É como se fosse um retrato musical de como eu vejo aqui e de como eu vivo entre essas duas cidades.
Quero que as pessoas deem play e conheçam o lugar através da perspectiva de alguém que vive aqui. Esse lado bom, e não como se ignorasse as coisas ruins – mas o lado do malandro que vive aqui. Que não necessariamente sou eu, mas também os meus parceiros, as pessoas que estão em volta. É um malandro com swing, um malandro rítmico.
É um álbum muito poético. Tem as coisas da nossa religiosidade, do sincretismo, do malandro, esse lifestyle de clima tropical. Eu queria passar isso na sonoridade, também. Fui atrás de jazz, umas coisas percussivas, afrobrasileiras. É um som bastante diurno, bastante solar. Queria que os instrumentais falassem por si só também, que passassem esse clima daqui. Que você pudesse ouvir só o beat e sentir que tá numa praia, numa rua ensolarada, num bar.
Eu vejo esse álbum como uma festa da luta, mesmo. O bloco já tá na rua, com esse ímpeto, essa necessidade. É uma denúncia – da polícia militar, do abandono, da negligência política, da pobreza aqui do território. Agora o bloco tá passando, festejando – é cerveja gelada, água, fumaça e bagunça. E os atabaques tão fazendo o som pra esse alvoroço.
É um cortejo, um bloco de carnaval passando e tá todo mundo tocando instrumento, segurando arma, a espada – uma visão lúdica. Se fosse uma peça de teatro, seria isso – uma festa enquanto você briga. Pela sua vontade de viver, pela busca ao acesso, sem esquecer da festa, que é o que inspira. Eu tenho a minha fé, eu tenho o meu pé no candomblé, nesse sincretismo que eu aprendi com os mais velhos, os familiares – eu cresci com essa fé em São Jorge.
Esse álbum é esse balanço, essa alegria, porque eu acho que a gente não consegue lutar sem estar forte, com a nossa fé, com as nossas ideias e com a nossa cultura. Para que eu esteja forte, com a minha identidade, seguro de mim mesmo – pra conseguir lutar.
É uma necessidade de movimento – um coração que pulsa, busca movimento. É super groovado, mas a gente quer uma vingança, mesmo. A gente quer chegar sem pedir licença. A gente tá sofrendo como povo brasileiro, como povo baiano. Acho que é essa mistura – mas cantando tudo balançado, rítmico mesmo. É quase uma dor rítmica.
Eu não sei como vai ser o futuro, se eu vou conseguir fazer – mas eu quero fechar uma trilogia, criar o meu próprio universo, um próprio misticismo. Os Atabaques são Clarins de Guerra também gira em torno disso. O sofrimento, a tristeza, as batalhas que a gente tá enfrentando – e a gente faz festa em cima disso. Todo esse choro ainda é carnaval.
É uma junção de referências – e tô fazendo referências à minha própria obra também, o que eu tô tentando construir. Tô tentando misturar tudo e chegar em algum lugar, que eu não sei onde vai ser exatamente, mas tem a ver com esse território, com essa coisa carnavalesca. Tem essa coisa da voz, do barulho, da bagunça – do som.

Para fechar, como tudo isso aparece na capa, que cria um diálogo com Bloco na Rua mas transmite uma outra energia – e o que ela diz sobre a proposta do disco?
A gente fez as fotos na Catedral de São Sebastião de Ilhéus, que é enorme. E é curioso, porque é um resquício do colonizador – num álbum que tá falando do Sul da Bahia, que tem um título que é uma citação ao candomblé. Foi um dia de sol louco, céu azul – diferente de Bloco na Rua, que já tem uma cor mais bege, mais suja. São esses dois momentos, uma continuação mesmo.
A gente já tinha essa foto, já tinha o feat com Ricô gravado, e dois meses atrás, o show d'OQuadro foi na frente dessa catedral – muito simbólico tudo isso. Uma banda de jovens pretos, subaianos, totalmente influenciados pelo candomblé. Os caras falam de orixá, de tantas coisas, em frente à catedral católica, numa cidade coronelista pra caralho. Esse álbum também é ressignificar a região cacaueira pro povo novamente.
Acho que a intenção principal do disco é ser visto, mesmo – não só como pessoa, mas o meu lugar, o Sul da Bahia. É um nome que, talvez, até seja novo pras pessoas. É a Bahia, só que a gente tá aqui na ponta. Eu quero inserir a gente no diálogo quando as pessoas citarem artistas da Bahia.
Tem mais quem? OQuadro – uma banda que tem uma carreira de 30 anos e também sofre um certo apagamento. A intenção principal é ser visto e poder conectar. Tem muita coisa boa aqui – culturalmente, é independente. Esse é um álbum que eu fiz completamente aqui, desde a inspiração, até a sonoridade, é tudo pensado aqui. Com esse céu, esse chão, essa praia, essa parada. É só o Sul da Bahia.
Os Atabaques são Clarins de Guerra já está disponível nas plataformas digitais, pela Sujoground