Leigo Records, Ruff Sqwad e o grime com Lula
Pela democracia, pelo grime e pela cultura, contra o fascismo e contra o Bolsonaro
No último domingo, 18/10, a Leigo Records, principal coletivo de grime do Rio de Janeiro, movimentou um evento histórico envolvendo música, política e resistência. O Trauma, no centro do Rio, foi o palco que recebeu o line composto por DJ CARLOZS, CL FEZ O BEAT, Planet Mina, YAS, Jacquelone, diniBoy, ANTCONSTANTINO e Africanoise na seleção, acompanhados de um time com os principais nomes da cena na cidade e a presença ilustre de membros do Ruff Sqwad, coletivo fundacional da cultura do grime lá em Londres.
Rapid, Slix e Shifty Rydos se juntaram à Sapaganjah, Mari Torquato, Amanda Sarmento, Akascagrossa, Cute Shawty, Puterrier e EFI no set que fechou o evento, enquanto a chuva caia lá fora e todo o público se apertava dentro da casa. Há uma semana do segundo turno das eleições, a disputa entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ganhou protagonismo no discurso dos artistas presentes, que não tiveram receio em trazer a intensidade do momento político que vivemos para dentro do evento.
Frente à uma das eleições mais importantes dos últimos anos e batendo de frente ao avanço do fascismo no mundo todo, a cena brasileira de grime – gênero afro diaspórico, criado por imigrantes caribenhos e historicamente perseguido pela polícia – se posicionou, declarando apoio ao candidato do Partido dos Trabalhadores e ficando do lado da cultura, da democracia e da luta.

Diogo Queiroz – operário do underground e o produtor cultural por trás da Leigo – conta que enxerga na música, nos eventos, e na arte no geral, um potencial infinito de transmissão de mensagem e visão de mundo – e a responsabilidade de se posicionar contra o conservadorismo e manter uma cena forte e unida.
"A gente sabe que a extrema-direita tenta enfraquecer a arte e a cultura porque é uma das grandes ferramentas que a gente tem para bater de frente com as propostas e o conservadorismo deles." - Diogo Queiroz
Uma das características centrais para o grime no Brasil é a rebeldia, o lugar de contracultura – que se aproxima do rolê hardcore e do punk. Muita gente envolvida nessa cena vem desses movimentos, trazendo uma forma parecida – e politizada – de se movimentar. "A gente acaba não tendo tantos acessos ao dinheiro, aos grandes festivais, grandes casas, grandes festas...", conta Diogo. "Então a gente acaba tendo que construir um movimento de base muito forte, muito trabalhoso e muito radical – no sentido de quebrar barreiras, mesmo. Arrumar espaço, fazer evento na rua, acessar lugares, viajar, fazer por conta própria".
Estando num meio termo entre o cenário eletrônico underground e a cena do rap, do trap e do funk, o grime tem um potencial de resistência por conseguir misturar os aprendizados desses movimentos e desde sempre se tratar de um movimento social e político além de musical. Com dimensões menores, o controle é maior e a educação do público vai se dando junto com o fortalecimento da cena.
A presença da Ruff Sqwad nesse último final de semana intensifica a percepção de que os gringos estão cada vez mais de olho nas movimentações nacionais. Sendo um gênero estreitamente ligado à identidade da cultura jovem britânica e com muitas particularidades, é interessante para os artistas de lá verem a identificação que acontece com o povo daqui. Ainda que incipiente, a nossa cena tem aprofundado discussões e levantado pautas que ainda são muito mal resolvidos na cena inglesa.
"O grime também é um lugar muito masculino, então a gente acaba pecando em muitas coisas. O público precisa ser educado para conviver, para estar inserido e para dar espaço para as mulheres e para as pessoas LGBTQIAPN+. Isso é uma coisa que precisa ser ainda estudada, cuidada e trabalhada dentro do movimento do grime." - Diogo Queiroz





Registros de Wander Scheeffër no set de ANTCONSTANTINO e Africanoise com os MCs
"A arte e a música sempre foram (e sempre vão ser) ferramentas de resistência, de posicionamento, expressão, de diálogo! Diante de qualquer tipo de opressão ou tentativa de retirada dos nossos direitos, a arte e a música sempre vão ter esse papel chave. Tão ali provocando reflexão, tão ali fortalecendo as comunidades, tão mobilizando." - YAS
A DJ carioca fez um set recheado de produções nacionais e que procurou tensionar os limites entre o grime e o dubstep. YAS ressalta a importância política do grime e a responsabilidade com o movimento. "Eu procuro estudar ao máximo e ter muito cuidado e compreensão de que não é só tocar grime, não é estética. É refletir sobre a história que a gente tá carregando, quem recebe visibilidade, quem ocupa os espaços e como essa cultura tá sendo contextualizada, valorizada".
O resultado do primeiro turno das eleições mostrou um avanço massivo da extrema-direita na nossa política, com um discurso cada vez mais violento, que representa, como escreveu Agazero no Substack da Poliedral, a "consolidação de um projeto e um plano gigantesco que visa desmontar os direitos, desmontar a democracia e asfixiar os meios de produção cultural independente". Sendo um movimento de resistência cultural underground e marginalizado, o grime corre perigo de ser progressivamente perseguido e silenciado – ainda mais com um possível governo Bolsonaro, assim como a maioria dos outros movimentos periféricos independentes que ocupam a rua e a noite.
"O grime também é construção de comunidade – dar espaço e visibilidade à essas narrativas, politizar a galera mesmo. Na sonoridade, se diferencia por carregar essa energia mais de confronto, de tensão. O grime tem uma estética muito particular, visceral – não é tão previsível na estrutura e nem 100% orientada pra pista." - YAS

Além da importância do combate, a criação de um ambiente acolhedor neste momento se tornou um ponto central para ANTCONSTANTINO ao organizar o evento. "Mesmo com a gente reivindicando nossos direitos, falando o que a gente quer, o que a gente não quer, o que os caras vão fazer que a gente não concorda – atentados à democracia, às minorias –, a gente mostra que consegue reivindicar os direitos, ainda assim em um ambiente harmonioso. Um rolê digno de festival, sem briga, sem nada, apenas pelo nosso direito."
Sendo uma cena nichada e que mira na autossuficiência, o grime não procura convencer nem se adequar ao que está sendo feito nas outras escalas da indústria musical. Presente no Brasil desde o começo do século, o gênero foi se infiltrando no nosso ecossistema musical até chegar no lugar que está hoje – cada vez com um discurso mais sólido, mais conectado com as movimentações de fora e superando as suas limitações estéticas e sonoras. Além de trocar e contribuir com outros movimentos underground do nosso país, o contato com artistas que estavam envolvidos na criação do gênero na Inglaterra e com aqueles que continuam avançando na sua construção, mostra um potencial de alterar profundamente como a cultura se dá do lado de lá.
"A forma que a gente tem de trampar aqui pode ajudar os caras lá, se eles quiserem – se não quiserem, também, se foda. Pensando em minorias, em diversidade no evento, de público, de artistas – isso é uma parada que a gente no Brasil tem dado aulas e lá, não necessariamente, os caras se preocupam tanto com isso." - ANTCONSTANTINO
Registros da noite por @mirellawho
"Não é segredo que, diante de um cenário maluco de polarização e tensão política como esse, a arte e a música conseguem mobilizar e organizar a tropa. Elas conscientizam, criam espaços de debate e ainda fortalecem o mental e o senso de pertencimento – coisas que eu acho fundamentais pra gente recuperar o fôlego e seguir na luta." - Jacquelone
Por ainda estar em formação e ter uma definição sonora muito experimental e abstrata, o grime é uma coisa difícil de definir – e diz respeito mais a um jeito de agir e se relacionar com o mundo em que vivemos de maneira crítica do que de fazer um som específico. "O grime traduz a complexidade e a imprevisibilidade da mistura, das ruas e do cotidiano de um jeito muito único", explica a DJ e produtora. "Eu reconheço a arte e a música como grandes ferramentas de luta e disputa – especialmente pra mim, uma mulher negra que há 31 anos mora num território historicamente marginalizado como a Baixada Fluminense".
"Meu grime não é só político / eu faço a política do grime emergir", cantou Piores em Eedyat Babylon, faixa com FUNGI lançada no começo do ano. Ruth Adams, em sua pesquisa de 2018 – "Home sweet home, that’s where I come from, where I got my knowledge of the road and the flow from", que procurou olhar para o potencial de expressão de identidade do grime na Londres pós colonial –, encara o gênero como uma ferramenta potente para enxergar e entender o cenário político e social da capital inglesa.
"O grime é digno de estudo não só porque é um empolgante e inovador fenômeno cultural nos seus próprios termos, mas também porque ele oferece um entendimento das experiências, identidades e ontologias, recentes e contemporâneas, de um estrato jovem urbano da classe trabalhadora, que é, em outros casos, comumente negligenciada ou excluída do discurso público. O grime e as histórias que ele conta pintam um retrato vivido, não só de vidas individuais em comunidades específicas, mas de um contexto maior de uma cidade global em perpétua transformação." - ADAMS, 2018
Babylon vai cair
"Ser DJ de grime é lindo porque o grime é rebelde, é um movimento que chuta pra lonjão o balde da higienização e da elitização cultural (amplamente promovidas pela extrema-direita, inclusive)", acrescenta Jacquelone. "Mas também é um enorme desafio pelo mesmo motivo, principalmente quando a gente inclui recorte de gênero no papo. Acho que o grime se assemelha a outros gêneros do underground eletrônico diaspórico no sentido de ser uma tecnologia de sobrevivência que preserva memória, questiona o presente e projeta um futuro negado pra nós, tudo ao mesmo tempo".
Essa conexão vem da África, passa pela Jamaica, vai até o Reino Unido e depois volta para o Brasil. O grime e o funk podem ser enxergados como movimentos análogos, surgidos como resposta à repressão e marginalização de uma juventude periférica. A DJ conta que o gênero inglês, agressivo e pungente, se relaciona com ela no campo emocional, através da raiva. "Ele desde sempre exerceu papel catalisador quanto à elaboração de raivas e revoltas que a vida não me permitia elaborar, e sei que essa experiência não é individual. E outra, uma revolta bem elaborada é um motor sem freio pra mobilização política, tá? Até porque o que a gente mais tem é motivo pra se revoltar."
Por fim, resgata o pensamento da historiadora Beatriz Nascimento quando olha para esse movimento todo. "Quando ela defende que a experiência histórica dos quilombos segue viva entre espaços e culturas da diáspora africana; quando ela chama o dominador de ingênuo por querer destruir o povo sem prever que o povo fosse se apropriar da história e reproduzir sua crítica através do samba; quando ela diz que o negro descobre alternativas por ele mesmo e que, naturalmente, resiste e cria um novo quilombo pra enfrentar alguma situação adversa... Eu também penso na expansão e consolidação do grime no Brasil."
@mirellawho
"É um momento muito delicado e eu acho que a comunicação é importante. Comunicar com a galera, conversar – de qualquer forma, que seja compartilhando conteúdo, falando com seus fãs, na mensagem da música. Eu sempre acho importante a comunicação e a mensagem direta", conta diniBoy. O DJ está por trás do Brasil Grime Show, principal vitrine do gênero e responsável por sua disseminação no país inteiro, e sempre lutou pela reivindicação do grime enquanto música eletrônica. Quando se espalhou pelo país, o grime passou a ser lido como uma variação do rap, e a gente sabe bem que isso não é verdade.
O processo de educação do público é lento, constante e desafiador. Quando muitos artistas do rap, em sua grande maioria homens, começaram a enxergar no grime um território possível para construir a sua trajetória, uma certa agressividade e expectativa sobre um jeito de rimar foi sendo cristalizada dentro do gênero. A partir de um processo de emancipação das cenas do rap e do trap e uma passagem de foco para a figura dos DJs, o grime tem tomado rumos diferentes do que, por exemplo, o drill – cena que também foi construída a partir do BGS –, se voltando, cada vez mais, para essa herança afro diaspórica. Olhando para novos jeitos de cantar, produzir e se relacionar com a cultura, principalmente em um momento onde todo mundo quer ouvir o que quer e já conhece, o grime nacional olha para o outro lado e rompe com essas expectativas.
"A potência que eu enxergo aqui no Brasil é enorme porque eu sinto que a gente é mais politizado do que a galera lá de Londres. O grande exemplo é a inclusão de mulheres e da comunidade LGBTQIAPN+, que vem chegando, apesar de ter as dificuldades. Mas isso acontece mais aqui no Brasil do que em Londres em si, que é a origem do movimento. O potencial é enorme e eu acho que a gente pode ter muita voz sobre isso." - diniBoy









Manifestações de artistas do grime de Norte a Sul declarando apoio a Lula
Pegando emprestado o trecho do texto que soltamos neste mês sobre os perigos que corre a cultura e a importância de votar contra Flávio Bolsonaro nesse próximo domingo:
O segundo turno vai passar, e a cultura brasileira continuará criando, se transformando e encontrando caminhos, como sempre fez. A questão é sob quais condições isso acontecerá, quem terá acesso a essas condições e quantas vozes podem se perder pelo caminho. Não estamos falando apenas da sobrevivência da ISMO, mas da possibilidade de continuarmos tendo artistas, filmes, discos, livros, festivais, bailes, espaços, cenas e histórias para contar. Se existimos para falar de cultura, precisamos também falar quando ela está em risco.
O grime, assim como todos os movimentos musicais afro diaspóricos que surgiram no mundo inteiro ao longo das últimas décadas, foi um gênero que sofreu muito com a perseguição policial. O formulário 696 foi criado pela Polícia Metropolitana de Londres em 2005 para perseguir as festas de grime no começo dos anos 2000, e teve um impacto profundo no movimento de lá. O documentário apresentado por JME, irmão de Skepta e um dos principais nomes da cena inglesa, conta essa história – e tem versão legendada em português no Youtube do Poeira Grime.