5 Fotos, 5 Histórias: Marina Nacamuli

Entre encontros improváveis, subculturas e memórias pessoais, a fotógrafa revisita cinco imagens que ajudam a contar sua própria história

5 Fotos, 5 Histórias: Marina Nacamuli

Para Marina Nacamuli, fotografar nunca foi apenas observar o mundo à sua volta. Sua câmera acompanha os lugares por onde passa, as pessoas que conhece e as situações em que se envolve. Muitas vezes, a própria fotógrafa faz parte das histórias que registra. Seu trabalho nasce dessa proximidade, de uma curiosidade genuína pelo outro e de uma disposição para entrar em universos que nem sempre lhe são familiares.

Fotógrafa e filmmaker, Marina passou alguns anos vivendo no Brooklyn, em Nova York, antes de retornar a São Paulo, cidade que passou a explorar com um olhar renovado. Entre a fotografia analógica e o vídeo, sua produção transita pela arte, moda e comportamento, mas é nas ruas, nos encontros e nas subculturas que encontra alguns de seus principais interesses. Em 2017, lançou seu primeiro fotolivro, Roose, que integra o acervo do Instituto Moreira Salles, e prepara para 2026 o lançamento de Whoever Protects Me Doesn’t Sleep, pela Classic Paris.  

Nesta edição de 5 fotos, 5 histórias, Marina revisita cinco momentos que atravessam quase quinze anos de sua vida. De uma noite em Nova York que terminou com quatro desconhecidos hospedados em seu apartamento a uma viagem ao México para conhecer os devotos da Santa Muerte, passando pelas ruas de São Paulo e por uma última viagem em família, suas escolhas revelam como fotografia, memória e experiência pessoal se misturam. Mais do que contar o que existe dentro de cada imagem, Marina compartilha tudo aquilo que aconteceu para que elas existissem.

A partir daqui, ela conta essas histórias em primeira pessoa.


O ano era 2008. Meu segundo ano morando no Brooklyn, em NY, e meu terceiro apartamento, mas, pela primeira vez, morando em um lugar só meu. A vida na cidade acontece rápido. A gente acaba conhecendo pessoas e lugares todos os dias. Eu estudava de segunda-feira a sábado, das 9h às 21h, mas eu ainda arrumava um tempo pra sair. Eu não sabia quanto tempo eu estaria morando lá. Ainda tinha muito pra ver.

Acho que era outubro, por aí. Estava começando o outono. Eu tinha acabado de terminar com meu namorado francês, o Jean-Baptiste, e eu estava muito triste. Acabamos indo em um rolê que se chamava “Lit”, ficava na 2nd Avenue, em Manhattan. Em algum momento, saí pra fumar, e eles estavam ali, sentados na calçada perto do fumódromo. Eram (da esquerda pra direita) Boone, Knuckles, Anthony e (embaixo) Ash. Ah! Eles também tinham dois pitbulls que não couberam na foto :).

Começamos a conversar. Eles estavam de mochilão e me contaram que iriam migrar pro oeste, ou pro sul, que era o que faziam quando o inverno se aproximava. Eles se consideravam crust punks. Eram anarquistas, moravam na rua e estavam dormindo pelo Tompkins Square Park, parque que tinha a fama de ser “perigoso” e onde as pessoas usavam drogas. Cada vez que eu saía pra fumar um cigarro, eu sentava com eles e eles me contavam suas histórias. Até que chegou a hora de ir embora. Já eram 4h. Me despedi e parei um táxi. Olhei pra trás e não consegui embarcar. Estava MUITO frio, não me lembro exatamente, mas deveria estar uns 5 graus?!

Voltei e perguntei se eles gostariam de passar a noite na minha casa. Paramos dois táxis.

Foram os cinco dias mais diferentes da minha vida. Eu jamais conseguiria explicar ou contar tudo que vivemos juntos. Começamos no caos, os pitbulls não se davam bem, e os meninos também não. Em algum momento, eu fui separar uma briga deles e levei um soco no nariz. Eu saía com eles pra pan-handle (pedir dinheiro na rua) e, por cinco dias, eles não me deixaram pagar nada. Cozinhavam e, no final da tarde, ainda compravam uma (ou duas) garrafas de whiskey e a gente tomava juntos. Eles me contaram por que saíram de casa e por que viviam na rua. Me contavam como migravam de trem com seus cachorros. Me contavam como tinham crescido e maneiras de conseguir dinheiro. Eu e a Ash nos trancávamos no banheiro pra poder conversar em paz. Lembro da gente sentada no chão, eu com as costas na banheira, e trocávamos experiências.

Alguns dias depois, eu precisei voltar pra minha vida, e eles pra deles. Eu ainda estava triste pelo ex-namorado. Eles tinham quase me curado.

Eu colecionava suspensórios. Achava lindo. Essa foto foi a de despedida, cada um usando um.

Foi triste vê-los indo. Eles me ensinaram a ver a vida de uma outra maneira.

Mantivemos contato por mais alguns anos pelo MySpace e reencontrei alguns deles pouco tempo depois. E aí, perdemos contato.

2013, eu já tinha acabado de voltar a morar em São Paulo. Fiquei um tempo perdida, mas finalmente estava fazendo amizade com pessoas que tinham os mesmos interesses que eu. São Paulo era novidade. O centro de São Paulo era mais novidade ainda. Antes de eu ir morar fora, eu não frequentava o Centro. Mas, quando voltei, foi lá que me encontrei.

Essa noite começamos pelo Estúdio Lâmina e aí, de boteco em boteco, pelo Anhangabaú. Em algum momento, entre várias paradas em banheiros, tirei essa foto da Carol. O mais engraçado é que eu só lembrei dessa foto quando eu revelei o filme. E ela também.

Essa foto é importante porque ela diz exatamente quem eu sou. Sou uma pessoa que não tem medo de ser eu mesma. E não posso agradar todo mundo, infelizmente.

Depois dessa foto, diversas meninas me pediram pra ir no banheiro com elas e tirar foto enquanto elas faziam xixi.

Era lá pra 2015/2016.

Eu estava a caminho, desde a Praça Roosevelt, ao apartamento de um amigo na Av. 9 de Julho. Bem ali, na Rua Avanhandava, vi esse moço deitado, dormindo. Fiquei intrigada: ele tinha o rosto todo tatuado e usava uma caixa com cascas de banana como travesseiro. Cheguei até a 9 de Julho e voltei até ele. Observei por mais um tempo e aí tirei a câmera que estava sempre dentro da minha bolsa. Tirei uma foto mais de longe e aí me aproximei. Ele não se mexeu. Eu senti adrenalina. Não queria desrespeitá-lo.

Essa foto me marcou porque a cena me marcou. Pra muitas pessoas, ele era só mais um morador de rua dormindo. Pra mim, não. Queria ter tido a oportunidade de encontrá-lo novamente e saber sua história.

Dezembro, 2017.

Meu pai tinha acabado de ser diagnosticado com um câncer terminal. Resolvemos fazer uma viagem em família, pois não sabíamos quando isso ia acontecer de novo. Ele já quase não comia. Já tinha tido 2 AVCs e esse era seu 3º câncer, mas dessa vez, no esôfago. Por isso, ficava difícil de ele se alimentar.

Acabamos indo pra Miami, era uma cidade especial pros meus pais, repleta de boas memórias. Um desses dias, resolvemos pegar um carro e levar meu pai pra comer em um restaurante em Key West. Assim, aproveitaríamos pra conhecer um lugar novo, e amávamos uma estrada.

As estradas dos Estados Unidos são muito nostálgicas pra mim. Me lembram os filmes. Fico de olho em tudo, do lixo ao letreiro, à paisagem. E foi assim que vi esse Posto Shell. O furacão Irma tinha acabado de passar lá perto e, com ele, levou algumas letras desse posto. De um lado, Shell tinha se tornado She, e do outro, He. Lembro de gritar e pedir pra, por favor, pararmos o carro lá na volta (estava do outro lado da estrada).

Almoçamos e, na volta, avistamos o posto. Fiquei do pôr do sol ao anoitecer tirando fotos. E o mais importante pra mim foi que minha família, pela primeira vez na minha vida, me ajudou pra que essas fotos acontecessem. Eles não acreditavam no que eu fazia, em como eu via as coisas. Mas, naquele dia, entenderam o quanto aquilo era importante pra mim.

Voltamos pra São Paulo alguns dias depois. Meu pai foi internado em fevereiro do ano seguinte.

Acabou falecendo no dia 9 de julho, alguns anos depois.

01 de novembro, 2020.

Dia 09 de julho, meu pai faleceu. Há três anos ele estava internado e acamado. A morte diversas vezes esteve muito próxima de nós durante esse tempo e, por isso, era o que eu mais pesquisava. Em algum momento, descobri a Santa Muerte, “la flaquita” (a magrinha). Muitos devotos são da classe trabalhadora ou vivem perto do perigo, o que explica, em parte, a forte associação da Santa com o narcotráfico e o submundo do crime. O altar dela fica em Tepito, o “Bairro Bravo”, no centro da Cidade do México, onde o marido da Dona Henriqueta, a guardiã do altar, foi morto.

Precisei ir ver tudo aquilo com meus próprios olhos. E fui.

Eu já estava na Cidade do México e uma das pessoas para quem eu tinha escrito pra me levar a Tepito me retornou, a Lash. Nos encontramos em frente a uma igreja central, atravessamos o mercado de Lagunilla e chegamos na Calle Alfarería. A Lash tinha um trabalho extenso sobre o bairro e me apresentou todo mundo.

Tepito não é como qualquer lugar. As pessoas são marcantes, percebem que você não é de lá. Mas logo se abrem. Eu estava muito nervosa quando cheguei. Não quis tirar fotos até o momento certo. E aí, ele chegou. A Lash me apresentou ao Paleta (Picolé), um dos devotos mais antigos do bairro, que já estava tatuando sua 13ª imagem da Santa pelo corpo. Ele foi me mostrando uma por uma.

Contei pra ele que vim do Brasil, e ele me deu uma pequena imagem da Santa Muerte colorida (que me acompanha em todas as minhas viagens desde então). Perguntei pra ele se eu podia fazer seu retrato, ele autorizou. Naquele momento, eu entendi tanta coisa. Eu me senti adentrando um espaço que não era meu, mas que era um espaço que me aceitava. Esse foi o primeiro retrato feito lá. Esse ano, voltei, mas não encontrei o Paleta.


ISMO
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