Uma cobertura independente da Mostra Internacional de Cinema

Sem credencial, mas com vontade de ver filmes e escrever sobre eles

Uma cobertura independente da Mostra Internacional de Cinema
Detalhe da arte de James Gray para o cartaz da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo chegou à sua 50ª edição e pela primeira vez estou tendo a oportunidade de acompanhar um pouco mais de perto. Para quem mora em São Paulo, curte cinema, e já teve a oportunidade de ir em alguma edição da Mostra, sabe que por lá rolam oportunidades únicas de assistir filmes que dificilmente terão distribuição nacional e mais, não vão chegar em streamings ou mesmo via pirataria. Existe uma espécie de mística ao redor de festivais de cinema como a Mostra, e nesse caso específico, por ser o maior festival de cinema do país, isso ganha contornos ainda mais profundos.

Já adianto que este texto tem um tom mais ensaístico e pessoal. Ele tenta mostrar o que existe por trás da mística de um festival como a Mostra, e o que sobra dela depois de uma semana de cabines, filas e corres. Como alguém que não teve a oportunidade de entender cedo como funciona esse lugar do registro e da documentação sobre a produção cultural do país, achei que compartilhar minha experiência seria interessante para todos que têm perspectiva de fazer isso também.

Escrevendo para a ISMO há mais de 1 ano, e nesse meio tempo aproveitando a chance de escrever sobre cultura, entendi que seria importante estar presente na Mostra, e lá fui eu tentar a tão sonhada credencial e a cota de ingressos para assistir tudo o que pudesse. Um spoiler: não consegui.

Apesar de não ter conseguido uma credencial, me convidaram para assistir a algumas sessões de cabine, entrevistar diretores e, com isso, construir um histórico de cobertura sobre a Mostra, que ajudará no credenciamento da próxima edição. É aí que começa a história, já que nunca tive exatamente que ocupar esse papel de análise, crítica e entrevista sobre filmes assistidos recentemente.

As sessões de cabine, por exemplo, são fechadas para a imprensa, e acontecem em horários aleatórios, como 9h da manhã, o que já pega quem precisa levantar cedo pra chegar a tempo. Nesse contexto, existe toda uma responsabilidade em estar ali, na exibição, e por consequência, muda muito a forma em que se consome filmes. Isso me fez lembrar de uma passagem de Walter Benjamin, em A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica (1936), sobre o que o cinema tem de particular: a recepção dele já nasce coletiva, e de certa forma já nasce vigiada.

O convencional é usufruído acriticamente; o efetivamente novo é criticado a contragosto. Mas não no cinema. E a circunstância decisiva para tal é que em parte alguma que não no cinema as reações dos indivíduos, cuja soma constitui a reação massiva do público, mostram-se desde o início condicionadas por sua massificação imediata iminente. E, ao se manifestarem, se controlam. Também aqui a comparação com a pintura permanece útil. A pintura sempre foi apropriada à contemplação exclusiva de um ou de poucos. A contemplação simultânea de pinturas por um grande público, surgida no século XIX, é um sintoma precoce da crise da pintura, que não foi de modo algum desencadeada somente pela fotografia, mas relativamente independente desta, por meio da destinação da obra de arte às massas.— Walter Benjamin, 1936

Assim, nas sessões, fui aos poucos me obrigando a aproveitar a projeção ao invés de incorporar o chato que fica anotando detalhes ou pensando nas justificativas de um diretor ou diretora, ao escolherem um certo plano. Na prática, não existe uma diferença entre assistir um filme com o objetivo de construir uma crítica, ou mesmo um ensaio sobre o filme, mas existe uma responsabilidade sobre o que se escreve.

A rotina de sessões também me fez lembrar de uma conversa que assisti há alguns anos entre o cineasta cambojiano Davy Chou e o nosso querido Kleber Mendonça Filho, amigos de anos, e que de vez em quando se cruzam por festivais no mundo. Nessa conversa, Kleber diz que assistir a muitos filmes durante um festival de cinema é exaustivo física e mentalmente, porque não é natural assistir tantos filmes por dia, se expor a imagens e sons, dentro de uma sala escura. E por mais que isso pareça ser uma experiência que muitos desejam passar, e eu até me incluo nessa, é realmente muito doido assistir três filmes em um único dia.

Por outro lado, existe algo que me parece a melhor parte da Mostra e que o streaming dificilmente oferece, que é a chance de escolher um filme sem saber nada sobre ele. A programação é enorme, com títulos de vários países, e a decisão muitas vezes vem de uma sinopse de três linhas, do nome de uma cidade que você nunca visitou ou de um horário que coube na agenda. Sem trailer de blockbuster, sem a nota do Letterboxd, sem algoritmo sugerindo o próximo título. Você entra na sala sem expectativa e sai com uma opinião que é só sua. Foi o que rolou comigo assistindo A Ginasta e A Violência de Ninguém, por exemplo.

Isso pesa mais quando lembro do que comentei no início, sobre muitos desses filmes não terem distribuição nacional. A sessão da Mostra pode ser a única chance de vê-los no Brasil, o que dá à descoberta uma sensação de urgência. Para quem escreve, isso traz uma responsabilidade extra, já que um texto sobre um filme assim pode ser um dos poucos registros em português sobre ele. Talvez por isso cobrir o festival faça sentido para mim mesmo sem credencial.

Essa aposta no desconhecido só funciona por causa do lugar onde acontece. Quando penso na sala de cinema como um espaço de suspensão da realidade, onde um coletivo de pessoas que, em sua maioria, não se conhece, é como se um lugar quase religioso se formasse. São pessoas reunidas que se desconectam do exterior e, por algumas horas, se conectam e mergulham em uma história apresentada. Quando penso nisso acho muito bonito, meio sagrado mesmo, e político ao mesmo tempo.

Essa dimensão política ficou ainda mais evidente na primeira semana, quando assisti a uma mesa sobre estratégias para o Oscar, com Kleber Mendonça Filho e outros nomes como Emilie Lesclaux, produtora de O Agente Secreto (2025), Rodrigo Teixeira, produtor de Ainda Estou Aqui (2024) e Ryan Werner, o cara responsável pela aquisição de filmes globais da Neon. No papo, 10 dias antes do segundo turno das eleições presidenciais, Kleber foi o único a levantar a bola da política. Foi enfático em lembrar que a cultura é um eixo social, econômico e artístico fundamental para o país, e que já foi atacado durante o governo de Jair Bolsonaro. Todo mundo celebra quando um filme brasileiro é premiado no Oscar, mas isso só é possível graças a leis e projetos de incentivo que, por vezes, fazem usos sim de dinheiro público.

Nessa mesma mesa, durante as perguntas, pude ouvir realizadores de Minas Gerais, Florianópolis, Rio de Janeiro, Pará, enfim, pessoas que acreditam no cinema e que veem nele uma ferramenta de construção de futuro. A Mostra tem esse poder de reunir gente que vê valor na cultura e isso tem um peso político muito forte, ainda mais nesse contexto atual.

Foto: Mario Miranda Filho/Agência Foto

Está sendo um privilégio muito foda assistir filmes, ouvir sobre filmes e pensar sobre filmes com pessoas que os amam assim como eu. Claro, isso é trampo, e por mais que seja legal, não deixa de ser uma responsabilidade grande, além de bem cansativa. Mas é algo que estou fazendo porque também acredito na importância de potencializar e amplificar histórias e narrativas de realizadores do mundo todo, que enxergaram no Brasil um terreno fértil para apresentarem seus trabalhos.

Ainda não posso prometer, porque não depende só de mim, mas nos próximos dias, talvez semanas, devem sair algumas coisas sobre a Mostra aqui na ISMO. Não sei se críticas, entrevistas ou outros ensaios de tom pessoal como este. Enquanto isso, se tiver a possibilidade, vá à Mostra e escolha um filme de algum diretor que você nunca ouviu. Quem sabe você não assista ao primeiro filme do vencedor da Palma de Ouro ou do Oscar de 2030. Até lá, o cinema segue resistindo, com mais ou menos apoio, mas resistindo e existindo.

A programação completa da mostra você pode conferir aqui: https://mostra.org


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