De que lado joga o seu time? A política por trás do futebol

De origens operárias a torcidas antifascistas, a história dos clubes revela disputas de classe e poder que ajudam a entender até a atual crise dos patrocínios de apostas

De que lado joga o seu time? A política por trás do futebol
Adesivos distribuídos pela torcida do Vasco da Gama no jogo do dia 20 de outubro

Na internet, circula uma espécie de espectro político do futebol mundial. É um gráfico dividido em quatro quadrantes, com clubes distribuídos entre esquerda e direita no eixo horizontal, e elite e proletariado no vertical. A ideia é simples: localizar os times de acordo com suas características políticas e sociais. O resultado é uma coleção de escudos que parece transformar a tabela de um campeonato numa discussão de sociologia.

Consegue encontrar seu time?

Desde que vi essa matriz pela primeira vez, fiquei curiosa para entender por que cada clube aparece onde aparece. O Corinthians costuma ser associado à classe trabalhadora e à democracia, enquanto o St. Pauli, da Alemanha, é conhecido por sua postura antifascista. Já a Lazio, da Itália, carrega uma reputação ligada à extrema direita por causa da atuação de setores de sua torcida. Mas o que faz um clube ser considerado de esquerda, de direita, popular ou elitista? Sua fundação? Os dirigentes? A torcida? Algum acontecimento que entrou para a história?

A matriz não apresenta, pelo menos nas versões que circulam amplamente, uma metodologia capaz de sustentar todas essas classificações. Ainda assim, desperta uma discussão interessante: clubes de futebol atravessam gerações, mudanças políticas e transformações econômicas, mas continuam associados a acontecimentos e valores de períodos muito anteriores. Para entender de onde vêm essas relações, vamos voltar rapidinho à formação do próprio esporte.

O futebol sempre foi do povo?

O futebol moderno começou a ganhar suas regras na Inglaterra do século XIX, inicialmente organizado em escolas, universidades e associações esportivas, mas logo se espalhou também entre operários, comerciantes e comunidades locais. A industrialização teve um papel importante nessa expansão: fábricas, ferrovias e bairros trabalhadores ajudaram a formar clubes que acabariam se tornando parte da vida de suas cidades. Essa trajetória, porém, não foi igual em todos os lugares. Enquanto algumas instituições nasceram em ambientes privilegiados, outras se desenvolveram diretamente entre trabalhadores.

O Schalke 04, da Alemanha, tem uma relação histórica com os mineiros da região industrial do Ruhr, tão forte que as referências ao trabalho nas minas continuam presentes na cultura do clube. Na Argentina, o Boca Juniors foi fundado em 1905 por jovens de famílias imigrantes italianas no bairro portuário de La Boca, em Buenos Aires. Nos dois casos, a relação com trabalhadores e com o território ajudou a construir uma ligação com as classes populares que permanece mesmo depois de os clubes alcançarem projeção internacional.

O túnel até o estádio do Schalke 04 foi transformado em uma mina de carvão, homenageando sua origem

No Brasil, essa discussão passa necessariamente pelas barreiras raciais e sociais do futebol. Em 1924, o Vasco da Gama recusou as exigências de uma liga que pretendia afastar 12 jogadores de sua equipe, num contexto em que atletas negros e de origem humilde enfrentavam obstáculos para participar das competições. A chamada Resposta Histórica virou um dos documentos mais importantes da memória antirracista do futebol brasileiro. Embora não tenha eliminado o racismo do esporte, o episódio registra um confronto concreto com mecanismos de exclusão que favoreciam determinados grupos sociais.

A Resposta Histórica do Vasco da Gama, há mais de 100 anos, é um grande orgulho de sua torcida até os dias atuais

Essas histórias ajudam a explicar a popularização do futebol, mas também mostram que a classe social dos fundadores ou dos primeiros jogadores não determina, necessariamente, o posicionamento político de uma instituição. Em diferentes momentos, os clubes passaram a participar de conflitos que ultrapassavam as quatro linhas, com consequências para sua administração e para a relação com os torcedores.

Quando os clubes começaram a tomar partido?

Um dos episódios mais conhecidos do futebol brasileiro aconteceu no Corinthians, entre 1982 e 1985. Durante a ditadura militar, a Democracia Corinthiana estabeleceu formas de participação dos jogadores nas decisões do departamento de futebol e aproximou o clube das mobilizações pela redemocratização. Sócrates, Wladimir e Casagrande se tornaram alguns dos rostos do movimento, que defendia a participação política e chegou a estampar mensagens de incentivo ao voto nas camisas.

A Democracia Corinthiana tinha os próprios jogadores como rostos do movimento

No Palmeiras, a história revela um cenário diferente. Fundado em 1914 como Palestra Italia, por integrantes da comunidade italiana de São Paulo, o clube atravessou o período de ascensão do fascismo na Itália e suas repercussões entre os imigrantes no Brasil. Uma pesquisa de mestrado do historiador Micael Lazaro Zaramella Guimarães, defendida na USP em 2021, identificou a presença de grupos fascistas e antifascistas organizados dentro da instituição entre 1923 e 1945. As disputas entre esses grupos influenciaram os rumos do Palestra Italia, mostrando como um mesmo clube podia reunir projetos políticos conflitantes.

Na Espanha, o Barcelona oferece outro exemplo. Sua ligação com o catalanismo ganhou importância durante a ditadura de Francisco Franco, quando a língua e as expressões nacionais catalãs sofreram restrições. Em 1972, ainda sob o regime, um anúncio em catalão voltou a ser feito pelos alto-falantes do Camp Nou. O vínculo com a Catalunha atravessou diferentes governos e continua tendo relevância cultural e política, embora o nacionalismo catalão reúna correntes ideológicas distintas.

O nacionalismo catalão presente na torcida do Barça

Enquanto o Corinthians viveu uma experiência de participação democrática, o Palestra Italia abrigou disputas internas e o Barcelona esteve ligado a reivindicações culturais e territoriais. São situações diferentes, que demonstram como os acontecimentos políticos de cada época também influenciaram a trajetória das instituições esportivas.

A arquibancada também tem posição política

Nem toda manifestação política parte de dentro para fora. Em muitos clubes, são os próprios torcedores que organizam movimentos, adotam símbolos e se aproximam de causas sociais. É o caso do St. Pauli, de Hamburgo, que se tornou conhecido internacionalmente por sua cultura antifascista, antirracista e ligada a movimentos alternativos. Essa característica ganhou força especialmente a partir dos anos 1980, quando grupos associados à cena contracultural da cidade passaram a ocupar as arquibancadas.

St. Pauli: a torcida antifascista de Hamburgo

Na Itália, o Livorno também se tornou conhecido pela presença de símbolos comunistas entre setores organizados de sua torcida. A Lazio, por outro lado, tem um histórico documentado de manifestações racistas e fascistas envolvendo grupos ultras, nome dado a organizações de torcedores particularmente presentes no futebol europeu. Esses episódios contribuíram para a reputação política dos clubes, embora não representem necessariamente a opinião de todos os seus torcedores.

Outras rivalidades envolvem questões que ultrapassam a divisão entre esquerda e direita. Em Glasgow, na Escócia, Celtic e Rangers carregam relações históricas com comunidades católicas de origem irlandesa e protestantes unionistas, respectivamente. A rivalidade reúne futebol, religião, imigração e disputas sobre a relação entre Escócia e Reino Unido, com episódios de sectarismo que atravessam décadas.

A rivalidade Celtic x Rangers leva a campo diversas disputas

Também existem divergências dentro das próprias arquibancadas. Um torcedor pode se reconhecer nas raízes operárias de seu clube e defender políticas conservadoras, enquanto outro pode participar de movimentos progressistas sem compartilhar das tradições políticas associadas à instituição. A atuação das torcidas organizadas é parte importante dessa história, mas está longe de representar todas as pessoas que vestem a mesma camisa.

Ao longo do século XX, a profissionalização, os direitos de transmissão, os patrocínios e a expansão internacional transformaram profundamente o funcionamento dos clubes. Instituições originalmente ligadas a bairros e comunidades passaram a integrar uma indústria de alcance global. Manchester City e Paris Saint-Germain, por exemplo, ilustram a influência de grandes investimentos internacionais e estratégias comerciais que ultrapassam seus países de origem.

A mudança também chegou às arquibancadas. Reformas nos estádios, programas de associação, setores premium e ingressos mais caros criaram novas experiências de consumo, enquanto parte dos torcedores passou a enfrentar dificuldades para acompanhar os jogos presencialmente. Uma pesquisa da Quaest divulgada em 2023 mostrou que 15% dos entrevistados com renda de até dois salários mínimos tinham o costume de frequentar estádios. Entre aqueles com rendimentos acima de cinco salários mínimos, o percentual chegava a 30%.

Protesto da torcida Corinthiana contra a dificuldade de acesso aos ingressos

Os números mostram como a renda interfere no acesso ao estádio, mesmo num esporte acompanhado por pessoas de diferentes classes sociais. Isso não significa que as arquibancadas sejam frequentadas exclusivamente pelos mais ricos, mas indica que acompanhar o próprio clube presencialmente pode ser uma experiência muito diferente dependendo das condições econômicas de cada torcedor.

Ao mesmo tempo, a dimensão das torcidas passou a representar uma oportunidade comercial cada vez maior. Camisas, produtos licenciados, assinaturas e contratos publicitários exploram o alcance dessas instituições e sua capacidade de mobilizar consumidores. Foi nesse mercado que as empresas de apostas esportivas encontraram espaço para uma expansão acelerada no Brasil.

A Nike, que no Brasil só fornecia material esportivo para o Corinthians, trouxe Atlético Mineiro e Vasco da Gama para o portfólio a partir de 2026

As bets e a disputa pelo futuro do futebol

Em março de 2025, todos os 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro tinham algum patrocínio de casas de apostas, segundo levantamento do ge. Em 18 deles, uma bet ocupava o espaço principal da camisa. Em setembro de 2026, 14 dos 20 participantes ainda tinham empresas do setor como patrocinadoras master, em contratos que somavam cerca de R$ 910 milhões anuais. Em poucos anos, as apostas passaram a ocupar uma parcela importante das receitas comerciais do futebol.

A situação mudou em 25 de setembro de 2026, quando o governo federal publicou a Medida Provisória 1.394, proibindo a exploração e a publicidade das apostas de quota fixa no Brasil, incluindo apostas esportivas e jogos online. A medida tem força de lei, mas ainda depende da tramitação no Congresso para se tornar definitiva. A reação de parte dos clubes foi imediata: além da preocupação com os contratos, equipes passaram a participar de campanhas contra a proibição, argumentando que a perda de receitas prejudicaria o financiamento do esporte.

O Flamengo vem jogando com uma camisa que protesta contra a proibição das bets

Existe uma dimensão social importante nesse debate. Uma nota técnica do Banco Central identificou que beneficiários do Bolsa Família transferiram aproximadamente R$ 3 bilhões via Pix para plataformas de apostas em agosto de 2024. O valor representa transferências brutas, não necessariamente perdas definitivas, mas ajuda a dimensionar o alcance do setor entre pessoas economicamente vulneráveis. As discussões sobre endividamento, dependência em jogos e publicidade dirigida aos consumidores colocam em questão o custo social de uma atividade que se tornou uma das principais financiadoras do futebol.

Os clubes argumentam que a proibição ameaça uma fonte significativa de recursos, enquanto representantes do setor defendem que a regulação seria mais eficaz para enfrentar as apostas ilegais. A saída das bets também não elimina a necessidade de financiar salários, estruturas esportivas e competições. Algumas equipes já começaram a substituir os espaços publicitários por outras empresas ou pela divulgação de seus próprios serviços, mas isso representa, por enquanto, uma reorganização comercial. Repensar o financiamento exigiria discutir também diversificação de receitas, gestão, participação dos associados e acesso dos torcedores.

Afinal, de quem é o futebol?

As mudanças recentes no mercado de apostas colocaram os clubes diante de decisões econômicas importantes. Encontrar novos patrocinadores pode resolver parte das perdas financeiras, mas dificilmente altera, por si só, a forma como o dinheiro circula no futebol e como as instituições estabelecem suas prioridades.

Existem experiências de gestão e financiamento que apontam para diferentes caminhos, desde modelos associativos até iniciativas de participação comunitária. Nenhum deles oferece uma solução universal, mas ajudam a ampliar uma discussão que frequentemente se limita aos valores dos contratos e aos resultados dentro de campo.

Afinal, se a história dos clubes é marcada pela participação de trabalhadores, comunidades e movimentos sociais, vale investigar qual espaço essas pessoas ocupam atualmente nas decisões sobre o esporte. O futuro do futebol depende também de como essa relação será construída, para além dos patrocinadores que aparecem nas camisas.


ISMO
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