Como soa o grime na Inglaterra em 2026?
Entre os trabalhos de Jorja Smith, Kibo e namesbliss, o grime segue se construindo, vinte anos depois do seu surgimento, de maneira múltipla e livre de amarras
Dez dias atrás, Jorja Smith lançou seu terceiro álbum de estúdio, What Are the Odds, apresentando pela primeira vez de maneira profunda a sua relação com a música eletrônica. Ao longo da última década, a artista consolidou o seu lugar como umas das principais representantes da música britânica, equilibrando as influências do R&B com os gêneros de pista e construindo uma sonoridade em constante transformação e movimento.
Assim como nos projetos anteriores, Jorja mergulha em letras que misturam questões sociais com relacionamentos, amor e luto – mas dessa vez, a produção de P2J se vira completamente para a música eletrônica e incorpora influências de house, UK garage, jungle, afrobeats e grime, criando um contraste entre a reflexão e a dança.
A presença do grime no disco chama atenção. "Blue Lights", seu primeiro single, lançado em 2016, já contava com uma interpolação de "Sirens" de Dizzee Rascal, e foi construído a partir de uma pesquisa sobre pós-colonialismo no grime, olhando para a relação do gênero com a polícia. A construção da sua carreira como cantora se desenvolveu paralelamente às suas pesquisas, e participação, sobre o grime enquanto movimento musical e, principalmente, social.
De maneira discreta, ao longo dos anos seguintes, essa relação foi se desdobrando em alguns episódios – como o clássico freestyle em cima de "Ghetto Kyote" e o single "On My Mind", com Preditah, até chegar em "Crush", feat com AJ Tracey lançado no ano passado que chamou atenção de toda a cena. No novo disco, o grime aparece em "What Are the Odds", música que leva o título do projeto, além do feat com Devlin, que regravou os versos de "London City" na faixa que olha para a relação da cantora com Londres.
Clipe de "Blue Lights", single que apresentou a artista para a indústria musical
O interessante aqui é observar como o grime aparece e o quanto ele se transforma dentro da indústria musical. Construído desde o início como um gênero abstrato e em constante mutação, o grime vem definido mais como um jeito de ser e agir do que de fazer música, propriamente. Ele até chegou a conquistar o seu próprio lugar na indústria com a ascensão global de Skepta, mas mais como resultado de um processo pessoal do que a representação de um movimento.
A questão é que o grime sempre se construiu de maneira multi-facetada. A primeira geração de artistas abriu os caminhos e apresentou as possibilidades – Skepta, Wiley, Jammer, Dizzee Rascal, Roll Deep, Kano, D Double E, Lethal Bizzle. À partir do espaço criado por esses precursores, produtores e MCs começaram a criar as diversas vertentes e caminhos possíveis de se relacionar com esse discurso, com essa atitude.
Lançado no final de julho, where's bliss? é um grande exemplo disso. O segundo álbum de estúdio de namesbliss, MC de Kilburn, no noroeste de Londres, responsável por levantar uma nova onda do grime misturado com jazz, constrói uma sonoridade que se encontra em algum lugar entre o neo-grime e o jazz-rap.
Passando por temas como saúde mental, relacionamentos e a vida de artista, namesbliss mostra um lado mais sensível do grime, recheado de influências de soul, jazz e funk, falando sobre questões pessoais e reflexões sobre a cena de maneira descontraída e debochada, ao mesmo tempo que extremamente auto-reflexiva.

Essa onda do grime infusionado com jazz começou a aparecer por volta de 2015, com edits de freestyles que passaram a ser entendidos como uma nova vertente, definida como mellow grime. Os freestyles são parte central do universo do grime, servindo como material de pesquisa e imortalização dos nomes que compõem a cena. Documentários como Risky Roadz, Practice Hours e Lord of the Mics ajudaram a compor o panorama do gênero no começo dos anos 2000, e passaram a ser transformados por produtores como wilfred, oakland, BexBlu, WIZE, Frank Medley, Ryder, 808mystic e afrossurealist.
Bliss conta essa história em "you know what", e bebe dessa fonte para construir a narrativa e estética da sua trajetória. Resgatando a estética dos vídeos antigos e trazendo para o seu universo as vozes que mais tem se destacado nessa vertente na cena inglesa – como Paul Stephan, Saiming e DeeRiginal – o rapper trabalha em cima de uma nostalgia e de um respeito por quem veio antes. Ao mesmo tempo que fala sobre a sua interioridade e o que tem de mais íntimo, faz um aceno à tradição do movimento, e trabalha para a construção de um novo panorama sonoro que não se prende à definições limitantes.
Signature Sound 2 é uma cypher lançada no começo deste ano pelo DaMetalMessiah que reúne o círculo próximo de Bliss e apresentou bastante do que veio a ser explorado no disco
Um som em constante mutação – das batidas intensas e quase industriais à melodias sensíveis e calmas, tudo isso coexistindo e sendo ativado ao mesmo tempo. No começo do mês passado, Kibo lançou Kwengletaria:Ragamyff, seu primeiro álbum de estúdio que também parte do grime mas abraça diversas influências e vertentes da música eletrônica underground.
Original de Harrow, também no noroeste da capital inglesa, Kibo se aproximou do rap estadunidense antes do grime, e desde sempre foi movido pela vontade de criar universos fictícios através da música. Com influências de desenhos animados, videogames, ficção científica, Wu-Tang Clan e MF DOOM, o rapper traça mais um novo caminho de como o grime pode soar, borrando as definições de gêneros e atravessando influências de jungle, UK garage, donk, hyperpop e drill.
Kibo chamou a atenção na cena pela sua presença em sets e freestyles, e consolidou uma trajetória em torno das rádio piratas. Procurando construir um mundo da sua própria maneira, como num RPG, ele se propõe a transformar em extraordinário o que tem de mais mundano e normal no seu entorno. Kwengletaria é um universo utópico, mágico – um projeto, como ele mesmo descreve, adjacente ao grime, mas que continua contando essa história.
O documentário que precedeu o lançamento do álbum mergulha na vida do artista e mostra um pouco do que passa na sua cabeça
O grime na Inglaterra está adentrando mais um ciclo da sua história, mais de vinte anos depois do seu surgimento. O retorno da Roll Deep, que também aconteceu neste ano, talvez seja o projeto que represente com mais força esse momento – a crew é lendária no universo do grime, responsável por moldar o seu som, e continua avançando na sonoridade que criou lá no começo dos anos 2000.
Mas o que esses três projetos apontam é para a multiplicidade sonora e estética do gênero. A forma DIY, experimental e quase acidental de Wiley, Dizzee e outros pioneiros do grime, continua servindo como inspiração para essas novas vozes que, vinte anos depois, ainda refletem e buscam maneiras de se conectar com essa tradição.
Mais do que modelos ou formas musicais, esses primeiros artistas criaram uma forma tão forte e inovadora de se relacionar com os seus entornos e com a música que fez com que todos aqueles que cresceram nesse contexto, ouvindo o grime clássico, continuassem procurando avançar nessa construção do movimento que melhor reflete a identidade pós-colonial e multicultural do jovem britânico.
A RWD Magazine, principal revista de grime, também está voltando, abraçando e inserindo a nova geração do gênero neste ecossistema
Toda essa reflexão me leva de volta para o novo disco da Jorja. Em entrevista para a The Guardian, a artista fala sobre a sua relação com a fama – coisa que nunca buscou ou imaginou quando começou, ainda adolescente, a fazer música de maneira despretensiosa e independente. De maneira acelerada, entrou na indústria da música e ganhou prêmios, participou de grandes projetos e conquistou milhares de ouvintes. Natural de Walsall, Jorja não cresceu em Londres, e levanta a importância de se construir um panorama que descentralize o discurso da capital.
Esse "retorno" para a música de pista, e consequentemente, ao grime, parece ser uma forma de resgatar esse sentimento que moldou o início da sua carreira. O grime possibilitou para o jovem britânico do século XXI uma forma simples e direta de fazer música – que pode ser ouvida pelos falantes do celular, no meio da rua. Pouco importa se esses artistas de hoje se definem como rappers ou MCs de grime, ou algo entre essas definições. Todos eles cresceram nesse contexto e trazem essa presença, de maneira quase íntima – e às vezes discreta – em seus trabalhos.
O som cru e direto do grime do começo dos anos 2000 continua ecoando e rasgando a trajetória desses artistas, num movimento cíclico, que afasta para depois aproximar de volta. Seja por um single, uma referência numa faixa ou como ponto norteador de um projeto inovador, o grime segue aparecendo nesses projetos, seja reverenciando os pioneiros do movimento ou propondo novos contornos para as suas músicas.