Plantasia: Um disco para plantas e clubbers completa 50 anos
Um sintetizador Moog e uma paixão produziram uma das peças mais importantes da música experimental do século XX
Tem gente que conversa com plantas para elas crescerem melhor, outros falam que tudo depende da mão de quem mexe na terra, e há quem prefira deixar tudo na mão de Deus e só lembra de regar seus cactos e suculentas uma vez a cada 2 meses. Esse não é um lembrete para você regar suas plantas, mas há exatos 50 anos, Morton Sanford Garson, ou só Mort Garson, fez um álbum inteiro dedicado ao crescimento vegetal, e o melhor, é um álbum de música eletrônica.
Para explicar essa viagem, é importante tentar entender um pouco de como a cabeça de Mort funcionava. Antes de mergulhar de cabeça em sintetizadores, o cara tinha estudado música na Juilliard e trabalhava como arranjador e músico de estúdio para muitos artistas de soft pop e jazz. Dois fatos curiosos que o conectam com o Brasil, é que ele compôs os arranjos de uma coletânea de Bossa Nova, em 1963, e três anos depois também assinou os arranjos da versão mais famosa de “Guantanamera”, canção que por aqui é tão conhecida que já virou propaganda de cerveja e pagodão baiano.
Mas vamos para o que realmente mudou a vida de Mort Garson, que foi conhecer o sintetizador da Moog, item que hoje tem versão portátil e que cabe na bolsa, mas na época, por conta da modularidade, poderia ocupar paredes de uma sala inteira com seus osciladores, filtros e cabos. Mort pôde conhecer Robert Moog, inventor da engenhoca, em 1967, e foi um dos primeiros a usar o instrumento para compor. A partir daí, o mundo ficou pequeno e ele deixou de pensar em músicas pop para desenvolver álbuns completos, com conceitos dos mais diversos.

No mesmo ano ele se juntou a Paul Beaver para lançar The Zodiac: Cosmic Sounds, que como o próprio nome já diz, se trata de um álbum sobre o zodíaco, com uma faixa dedicada para cada signo. Astrologia e psicodelia já parecem temas que se relacionam, mas Mort fez questão de fazer isso ter sua própria trilha sonora, que aliás, foi expandida em 1969, quando ele lançou um álbum para cada signo.
Ainda nos anos 1960, Mort Garson se inspirou em produções cênicas e visuais para lançar dois álbuns que ajudaram a popularizar os sintetizadores Moog: The Wozard of Iz (1968) e Electronic Hair Pieces (1969). O primeiro é uma paródia hippie do filme O Mágico de Oz (1937) e entra na lista de álbuns que, de alguma forma, se relacionam com a história de Dorothy e seus companheiros pela estrada de tijolos amarelos; e o segundo é uma releitura do musical Hair (1967), ícone da contracultura hippie, que ganhou camadas eletrônicas aos grooves e ritmos funkeados da trilha original.
Para fechar essa parte de álbuns conceituais, preciso ainda falar de Black Mass Lucifer e Z – Music for Sensuous Lovers, ambos de 1971. O primeiro é um disco de música ambiente com elementos de occult rock que surfou na onda de temas esotéricos e assustadores, muito impulsionados na cultura pop por filmes como O Bebê de Rosemary, O Caçador de Bruxas e A Noite dos Mortos-vivos, todos de 1968. Para contrapor e aliviar o clima, Music for Sensuous Lovers é um álbum de música eletrônica que mistura sintetizadores e, acredite, gemidos. Penso se o gemidão do zap no começo dos anos 1970 foi mais bem recebido.


Mort Garson e Eugene Hamblin (engenheiro de som) | Fotos: David F. Smith
Perceba que existem dois pontos presentes nos trabalhos conceituais dele, que são as referências a obras de outros universos que não os musicais, e a ideia de produzir música para coisas que não humanos. Constelações, bonecos de lata, leões e até o senhor das trevas receberam discos para si, e o destaque veio em 1976 com Mother Earth's Plantasia, hoje considerado seu maior sucesso, mas que levou algumas décadas para alcançar esse reconhecimento. Veja, não é como se Mort Garson fosse um nome desconhecido na indústria musical, mas um disco com um subtítulo que dizia “Músicas para as plantas… e para as pessoas que as amam” não parece algo lá muito popular.
A inspiração para o disco dessa vez veio de dentro de casa, já que sua esposa era conhecida por cultivar plantas e, provavelmente, discutia com ele sobre as experiências que tinha com as espécies. Um broto de feijão nasce em qualquer lugar, mas só quem já precisou cuidar de uma Alocasia em casa sabe a frustração que é zelar todos os dias e ver as folhas caírem ou pelo tempo seco, ou pela terra estar úmida demais.
Nos Estados Unidos do Século XX, berço fértil de seitas e pseudociências como a Cientologia, o Rajneesh de Osho, e os loucos de Charles Manson, para citar só alguns dos exemplos mais famosos, começou a ganhar popularidade um movimento que acreditava na consciência das plantas, as quais se comunicariam por telepatia e teriam sentimento. Um dos maiores propulsores dessa ideia foi o livro A Vida Secreta das Plantas (1973), de Peter Tompkins e Christopher Bird. O livro foi tratado como piada pela mídia especializada, o que não o impediu de alcançar a lista de mais vendidos do ano no país. Esse mesmo livro chegou a ganhar um documentário com trilha sonora de Steve Wonder! Mas o ícone da Motown não foi o primeiro a fazer música para as verdinhas.
Não encontrei registros de um Mort Garson que acreditava em tais teorias, mas dois amigos seus tinham uma loja de plantas, a tal “Mother Earth” que assina o título de Plantasia, e foi dessa relação que nasceu o disco. A ideia foi compor músicas pensadas para os ouvidos das plantas e que as ajudariam a crescer. Aliás, algumas faixas são pensadas para espécies específicas como Espadas de São Jorge, Lírios da Paz, Begônias e Violetas.
Em uma época em que não tinha como lançar discos digitalmente, a distribuição aconteceu em parceria com a tal loja, onde você comprava uma planta e lavava o disco para casa, simples assim. Curiosamente o disco também era entregue de graça na compra de colchões da Simmons nas lojas da Sears, o que não faz muito sentido, mas até aqui você já deve ter entendido que lógica não era um critério obrigatório para Mort Garson fazer boa música.
Distribuição feita, o disco não fez lá muito sucesso e caiu no esquecimento por alguns anos, até ganhar novos ouvintes com o advento do YouTube e seus uploads ilegais de rips feitos para MP3. Mas isso não foi impeditivo para que, mesmo abaixo do radar, outros artistas fizessem referência ao trabalho de Mort Garson. Koji Kondo, compositor da trilha sonora de dezenas de jogos da Nintendo, se apropriou de uma das faixas de Plantasia para compor o tema de Link em The Legend of Zelda: Ocarina of Time (1998), e o The Pharcyde também sampleou a faixa “A Mellow Mood for Maidenhair” no disco Plain Rap (2000).



Ilustrações de Marvin Rubin para o álbum
Só em 2019, quando o selo Sacred Bones conseguiu os direitos sobre as músicas, que essa obra de Mort Garson veio a ser lançada oficialmente nas plataformas digitais e também em CD, cassete, e novamente em vinil. Aí foi sucesso de verdade, com novas pessoas descobrindo, novos artistas se inspirando e a obra recebendo a visibilidade que sempre mereceu.
Depois disso, Mother Earth’s Plantasia inspirou de De La Soul a Magdalena Bay, passando por The Avalanches, apareceu em propaganda de supermercado francês, a até a Receita Federal norte-americana fez uso da música de abertura do disco para promover o novo software de restituição do imposto de renda.
Nesse mês, em que celebramos os 50 anos do álbum, a Sacred Bones lançou edições comemorativas, incluindo uma versão em vinil completamente sustentável, feita com materiais recicláveis, um livreto com sementes para você plantar; organizou um festival de música em Chicago, e preparou algumas audições especiais em lojas de disco da América, Europa e Oceania. Uma verdadeira celebração para plantas e seus donos.






Os alemães da HHV estavam na lista de celebrações | Divulgação/Instagram
É difícil falar do legado de um disco que não foi produzido para humanos, e também não dá para calcular quantas plantas foram mais felizes ouvindo o trabalho de Mort Garson nos últimos 50 anos, mas a história de Plantasia não só mostra como os precursores da música eletrônica conseguiram transformar criatividade em sons inovadores, como também reafirma o poder atemporal da música e, nesse espaço específico, de uma obra que continua a florescer e encantar novas gerações de ouvintes, sejam eles humanos ou botânicos.