Kiddo celebra o underground eletrônico misturando afeto e revolta

O disco de estreia da artista de Mongaguá pinta um retrato ao mesmo tempo sensível e político de uma São Paulo cada vez mais doente

Kiddo celebra o underground eletrônico misturando afeto e revolta
Kiddo (Fotos: @ruana.spic)

Há uma semana, Kiddo, rapper original de Mongaguá, na Baixada Santista, lançou Intrínseca City, projeto de oito faixas que aborda as experiências da artista no underground de São Paulo – uma trajetória atravessada por rap, drill, dubstep, grime, videogames, cultura de internet e vivência de rua.

Contando com produções de Mu540, Marvin, BNDL, Enigma, Camiska, Zizii e JPEGO, o disco explora influências de subgêneros da música eletrônica de maneira desapegada e bastante experimental. Além de BNDL, produtor tcheco que conectou com a Kiddo pela internet, todos os instrumentais são assinados por figuras centrais da cena underground eletrônica nacional, que trabalham numa subversão e reconstrução estética da bass music.

A rapper, que vem se consolidando nos últimos anos como uma das vozes mais originais na cena do grime e do drill brasileiro, conta a sua história de maneira, ao mesmo tempo, extremamente íntima e política. Carregando em si a energia crua dos DJ sets, Intrínseca City celebra a multiplicidade sonora da música eletrônica underground, evocando a potência cultural construída à margem dos grandes centros.

Capa de Intrínseca City, por @titas_unofficial

Em desabafos sobre a indústria musical, exploração no trabalho, desigualdades de gênero e o questionamento do imaginário urbano, Kiddo procura enxergar outras formas de se relacionar com a arte e com a vida de maneira livre, guiada pela experimentação e liberdade criativa.

Para acompanhar o trabalho musical, a rapper desenvolveu junto com Titas os aspectos visuais do projeto, num processo orgânico e natural que procurou equilibrar um retrato sincero e sujo da capital paulista com a ironia e bom humor que guia o trabalho de ambas as artistas.

A capa procura retratar o acúmulo e crescimento desenfreado da cidade numa pintura cheia de camadas, cores e elementos. Um retrato fiel de uma São Paulo ao mesmo tempo vibrante e colorida, cheia de ratos e pombos. Kiddo aparece no meio dessa cidade suja, enorme, conquistando o seu lugar no meio de toda essa loucura.

Troquei uma ideia com a Kiddo para entender mais sobre o que está por trás desse projeto, num papo que revisita a sua trajetória, a vida na cidade e no capitalismo e a importância de uma identidade própria e original.

Contracapa de Intrínseca City, por @titas_unofficial

Como nasceu Intrínseca City?

Eu tinha um outro projeto – de drill e alguns boombaps – que era mais datado. Eu enjoei de tudo – das músicas, do drill em si – e falei: "não, vou fazer uma coisa nova". Aí eu fui pegando os beats e escrevendo os sons. Eu escolhi esse nome porque ele traduz muito a música eletrônica que a gente vive aqui em São Paulo – de uma maneira mais underground, mas também muito íntima. Não são só sons muito de tocar em pista – tem alguns mais introspectivos.

São as vivências que eu tive na cidade, no underground, na construção da cultura – na rua, mesmo. Foi o que me inspirou a estar colocando isso nas letras, escolhendo esses tipos de melodia, pra traduzir tudo isso.

E por que usar a música eletrônica – o dubstep, o grime, o drill – para explorar essas vivências? Como nasce e se transforma a sua relação com esses gêneros?

Eu ouço música eletrônica desde que eu era muito criança. Eu pesquisava muito no YouTube, de marola – em 2007, 2008. Nessa época, era Point Blank, dubstep, café e skate. Depois que eu conheci o rap, o boombap, eu me afastei um pouco da eletrônica – mas aí eu vim morar em São Paulo e tudo isso mudou.

Eu morei em Mongaguá até os 17, e depois que eu vim pra cá, comecei a vivenciar a cultura daqui e isso acabou voltando. Querendo ou não, é uma megalópole, é muito industrial, muito moderno, eletrônico. É isso aí, não tem como fugir. E lá eu tinha um outro contexto musical – não toca eletrônica em Mongaguá.

Era muito mais por conta do mundo dos games, eu acho. Eu era muito ligada no PC, então isso vinha muito de lá. Eu pesquisava muita música na minha infância e adolescência. Hoje em dia eu não pesquiso tanto, mas essa época, eu ficava pesquisando muita música e criei essa relação.

Como é o seu processo de composição? Pensando nesse cruzamento do rap com a música eletrônica, onde você colhe as suas referências?

Eu cheguei em São Paulo na brisa do rap porque era o que eu tinha contato em Mongaguá – apresentava batalha, fazia festa. A gente tinha um grupo, nessa época. Eu vim nesse contexto, nesse direcionamento – mas eu acabei não me interessando. Era meio igual ao que eu já vivia, só era maior.

Quando eu comecei a ir pros rolês de DJs, foi revolucionário. Eu me apaixonei fortemente pela música eletrônica através dos DJ sets. Eu ouço muito DJ set no SoundCloud, porque eu comecei através disso. Eu me aproximei muito por conta dos DJs, por conta da dança, do vogue. Até hoje, eu não ouço MCs de grime, de modo geral. Eu ouço mais as divas – Charli XCX é a que mais pode ser uma "referência", desse pessoal mais novo. Mas eu ouço muita coisa mais antiga – Lady Gaga. Então eu tento compor coisas que são a resposta que eu tenho quando eu ouço o beat – não tento ficar fazendo pesquisa.

Eu nunca peguei pra estudar o grime. Eu sei as raízes, a história, mas a "forma musical" do grime, que o pessoal bate muito nessa tecla, eu não paro pra estudar. Acho isso uma grande besteira, sou bem sincera.

Eu tento ter a mínima influência externa que eu consigo, e puxar internamente o máximo de originalidade. Eu não quero pensar no que uma pessoa que eu gosto faria em cima de um beat, e falo "o que eu vou fazer?".

Os clipes expandem bastante o universo criado nas músicas. O que mais te influencia na música e na pesquisa de referências audiovisuais?

Nossa, muita coisa. Eu gosto muito de rock – Black Sabbath, System, The Doors. Eu gosto muito de pop, como eu falei, nesse âmbito mais divas – Gaga, Madonna, Charli, Etta Jones, Amy Winehouse. Do rap, tem nem o que falar – Sabotage, toda a velha escola. Mas Charlie Brown, também. Muita coisa mesmo.

Eu também gosto muito de coisas experimentais – tanto musicalmente quanto em audiovisual. Não cult, né? Porque eu acho isso um porre também. Mas coisas experimentais, não polidas, mesmo. Foi isso que eu e a Titas tentamos transmitir nesses visuais, a coisa do ruído e tal.

Os clipes que eu guardo de referência são os que eu vi até certo momento da minha vida – os da MTV, os da Lady Gaga, ela tá ali sempre presente. Eu tento pensar de uma maneira muito sinestésica – "qual é a imagem desse som?". Eu tento visualizar as imagens do som e eu tenho a sorte gigantesca de ter pessoas do meu lado que entendem essa brisa. Pra "relíkia caiçara", veio muito Charli XCX, uns clipes do Julian Casablancas, Hermes e Renato, Michael Jackson... Só que os outros estão bem diferentes. Cada um foi um babado.

O disco carrega um aspecto bastante emocional sobre a sua trajetória. Como esse lado sensível se conecta com o discurso político e com as relações sociais?

Tudo isso que eu abordo no álbum realmente são coisas muito intrínsecas pra mim, muito pessoais, muito fixas – que me moldaram, e que vieram desde pequena. Eu fazia trabalho de base com o PT quando eu tinha 11, 12 anos, com a minha mãe, ainda em Mongaguá. Eu sempre fui inserida nesse bagulho político desde muito nova. A gente sempre conversou muito sobre isso e sempre foi uma coisa que direcionou tudo que eu penso. Acho que é natural pra todo mundo que acaba tendo contato com a política.

E esse lado mais emocional da coisa é muito no sentido de como a gente muda inserido no lugar que a gente tá. Porque eu cresci no interior do litoral, basicamente – a rua da minha mãe é de barro até hoje. O meu contexto sempre foi esse. Muito mato, passa cavalo, vaca, tudo – em 15 minutos andando, eu tava na praia. Aí eu me mudei pra cá, uma selva de concreto. E eu tomei muita porrada, no quesito de interação com as pessoas daqui. Foi muito foda pra adaptar. Eu não era deslumbrada, mas sempre enxergava só o lado bom das coisas.

Aqui em São Paulo, tem que ser ruim. É a grande verdade pra você aguentar esse ultra capitalismo. É um capitalismo tão pontiagudo que você precisa ter uma casca. Você não pode ser extremamente legal, muito aberto. Óbvio que tem muita gente boa, que são os amigos, inclusive, que a gente vai selecionando. E isso foi o resultado de todas essas experiências que eu tive, pro lado bom e pro lado ruim, de uma grande transição que eu fui sentindo durante todos esses anos. Essa mudança, de personalidade, de cultura, também. Quando a gente para e presta atenção nessas mudanças e em como as coisas acontecem, a gente acaba ficando muito reflexivo e escrevendo muita coisa. É meio que isso.

Na última faixa, tudo isso aparece contraposto com uma vida mais tranquila, longe do contexto urbano. Depois de todo esse tempo em São Paulo, como você enxerga as coisas que a cidade proporciona? Cada vez mais a cidade cresce, tudo fica mais intenso – parece que não tem muito para onde fugir, né?

Você descreveu exatamente a sensação que eu tenho aqui. Não tem pra onde fugir. Quando eu ia na praia, eu via uma linha e acabou. Aqui não tem isso, é uma sensação claustrofóbica, papo reto. Eu acho que a capa transmite isso. E eu acho que isso é transmitido através de muitos elementos musicais.

Esse álbum é bem a coisa de ser engolido pelo capitalismo, pela cidade, por esse ritmo frenético que você não pode ter um sagrado descanso que é tratado como um grande luxo. Dormir, em alguns ciclos sociais, é tratado quase como uma fraqueza. É uma grande sociedade doente.

E eu tive noção disso quando eu vim pra cá, porque na Baixada, é outro ritmo, outra vibe. A gente não tem muito ímpeto de construir patrimônio, de viver de status. O consumismo não era uma coisa presente, é outro lifestyle. Eu vim pra cá e percebi como isso é importante pras pessoas – a aparência, o status. Se você não for forte o suficiente, o bagulho te engole e você muda pra pior. Cabe a você se lembrar das suas essências, manter isso vivo e lembrar o que é verdadeiro pra você. Porque se você for junto com a massa, só respondendo aos estímulos externos da cidade, aí fudeu, mano.

Por fim, como você espera que esse trampo vá bater e em quem ele pode ressoar? Como ele interfere na sua relação com o público?

Atualmente, eu não tô a fim de me montar, fazer um grande bagulho. Eu lembro que as performances que eu mais achava foda – tirando a Lady Gaga, mais uma vez – eram as que as pessoas estavam mais simples e malucas. Despretensiosas, mas muito reais e verdadeiras. Eu tô meio assim com esses grandes espetáculos, cenários e não sei o quê. Pra mim, parece uma falta, às vezes, que tem que ter alguma coisa pra preencher. E eu tô a fim de só ter um contato mais normal com as pessoas, sabe?

Tem essas grandes barreiras, de status de artista, de "gente, está no ar o meu novo negócio. Vamos lá, clique nesse banner aqui em cima..." E tem a linguagem do artista, o posicionamento. Isso é tudo coisa de São Paulo. Eu tô numa brisa de fazer uma coisa mais pessoal, mais verdadeira, mais de boa – em relação à esse grande apelo estético. Por isso eu adorei que a capa foi uma pintura.

Eu tô querendo descentralizar a minha imagem dessa figura central, porque eu acho que tem tanta coisa pra explorar quando a gente fala de visual, de fotografia. Eu tô um pouco cansada dessa centralização da figura por ela mesma. É sempre a metalinguagem do tipo: "eu estou no centro, eu sou foda. E essa música é sobre eu ser foda". Eu acho que sei lá, tá todo mundo meio cansado disso, tá ligado?

Ouça agora Intrínseca City, disco de estreia da Kiddo, já disponível nas plataformas digitais e com os clipes no YouTube.


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