Yuri Redicopa vai muito ‘Além da Putaria’ em novo EP
Em entrevista à ISMO, o cantor fala sobre projeto que aborda autoestima, ascensão social e faz crítica a casas de apostas
Na última sexta-feira (21/08), Yuri Redicopa lançou o EP ‘Além da Putaria’, projeto que parte do funk para abordar diferentes nuances da vida do artista de Taboão da Serra, na Grande São Paulo.
Ao longo de 9 faixas, o projeto reúne participações de diferentes DJs, produtores musicais e cantores brasileiros e estrangeiros, como DJ RD da DZ7, Kyan (ambos do Brasil), Sainté (Reino Unido) e Benjay (França). Do funk mandelão — subgênero abraçado pelo cantor desde o começo da carreira — ao trap, Yuri mostra outras faces de si próprio, abordando temas distintos que permeiam sua vida.
O nome Além da Putaria, no entanto, não foi pensado como uma forma de diminuir essa vertente, mas sim para dizer que, por meio dela, ele chegou a lugares que jamais imaginou e que não se limita ao subgênero para se expressar.

Yuri parte da perspectiva de um corpo preto e periférico habitando o mundo, passeando por temas como autoestima, ascensão social, relacionamentos afetivos e até mesmo fazendo uma crítica a divulgação de casas de apostas.
Conversamos com o artista que nos contou sobre sua carreira, processo de criação do EP, entre outros assuntos. Confira o papo na íntegra:
Vamos começar do início. Quem é Yuri Redicopa ‘Além da putaria’?
O meu nome é Yuri Redicopa, sou nascido no Taboão da Serra, mas resido em Embu das Artes. Cresci por aqui nessa região da zona sul, entre Embu das Artes e Capão Redondo.
Sou um moleque igual vários outros moleques, tenho vários sonhos, várias paradas, várias vontades. E com o decorrer da minha vida, eu acabei conquistando várias coisas que eu achava que era muito distante e acabou que nem era tanto, sabe? Era mais uma percepção minha e hoje em dia eu tô vivendo da música, me sinto muito grato. Eu já tentei ser jogador de futebol também [risos].
Que louco!
Sim! E o EP [Além da Putaria] serviu para dar uma profundidade maior para a minha carreira também. Para as pessoas terem uma visão minha diferente, além de ser só putaria o que eu faço, entendeu? Para as pessoas conhecerem realmente quem é o Yuri Redicopa, eu sou isso daí que eu tentei trazer no último EP.
Você começou como dançarino, é isso mesmo?
Isso. Eu comecei a dançar em 2016, num grupo chamado NGTD. Em 2017 a gente começou a ficar conhecido, fizemos shows… Em meados de 2018 foi quando eu comecei a fazer música com o grupo. E em 2020 eu acabei saindo desse grupo, mas de forma amigável, para começar a minha carreira solo.
Legal! Parece que a dança apresenta muita coisa, musicalmente, para as pessoas, né? E em sua carreira, você faz uma viagem por distintas sonoridades eletrônicas afro-diaspóricas (como o funk, é claro, dancehall, amapiano, trap, até mesmo bouyon, ritmo caribenho). De onde vem esse interesse em se jogar em tantos ritmos? A dança tem a ver com isso?
Eu acho que muito por conta da dança, sim. Eu dançava Passinho do Maloca, só que ao mesmo tempo eu precisava inovar nos passinhos, porque não dava para poder ficar dançando a mesma coisa em todos os vídeos e em todos os lugares que eu fosse, em todas as apresentações.
Então, a gente começou a olhar primeiro ali para o Rio de Janeiro, que é o Passinho Foda. Aí, daqui a pouco a gente já foi para os passinhos mais antigos também, que é o Passinho do Magrão, o Passinho do Romano…


Grupo musical NGTD (Foto: Reprodução/@ngtdoficial)
A gente já foi lá para fora para poder aprender um pouquinho de C-walk, algumas paradas de afrobeat também. Então, acho que muito da minha fase da dança vem refletindo hoje na minha parte da música, porque eu acabei conhecendo vários gêneros. E eu gosto muito de explorar isso daí, eu não quero ficar preso em um ritmo só, ser taxado como um artista de um só ritmo.
Até por isso que no meu nome não tem MC, sabe? Eu comecei no funk putaria e eu não coloquei MC, porque eu queria expandir isso daí.
Você já tinha essa visão de produzir outras coisas além do funk?
Sim, eu já brisava muito. Mesmo no início eu tendo muita dificuldade para gravar qualquer coisa que não era funk.
Você acha que o funk te abriu portas, então?
Demais! Ainda mais porque o público que me acompanhava era o público do funk. Então, ele sempre abraçava tudo que eu fazia em torno do funk. Principalmente putaria.
Vamos falar sobre isso, então! Eu gosto muito do termo “Muita Putaria Brasileira”, porque ele dá um outro significado pra sigla “MPB” – mostra que o funk é um dos gêneros de música mais populares do Brasil e que ele deve ser valorizado. Como surgiu a ideia de usar essa assinatura nas suas músicas?
Foi em 2023, eu tava fazendo um álbum e eu queria colocar um nome, só que o que aconteceu em 2022: a gente lançou uma música chamada ‘Puta Mexicana’. E foi a minha primeira música que furou muito a bolha.
"A minha família falava tipo: 'Ah, essas músicas que você faz, da hora, beleza. É legal, mas você não vai nem chegar na TV. Como essas músicas vão tocar em algum lugar?' Aí eu falei: "Não, o que eu faço também é MPB. Só que é Muita Putaria Brasileira, é música para baile”.
Aí, eu comecei a bater muito nessa tecla, até que o pessoal começou a abraçar e aí eu lancei o álbum com esse nome.

Muito bom esse álbum, inclusive. Ao te ouvir eu sinto que a Putaria é algo que transborda o gênero funk. É como se ela fosse um fio condutor, uma linguagem, que aparece em diferentes músicas e ritmos. É algo que vejo também no trabalho de outras artistas contemporâneas, como Bia Soull, NandaTsunami, etc. Como você enxerga a Putaria na sua construção artística?
Eu acho que isso daí fez eu pensar: “mano, eu posso colocar um pouquinho de putaria num tipo de música que uma pessoa vai gostar, mas eu também posso colocar bastante para outro tipo de pessoa gostar muito”.
"Eu acho que é isso que conecta o artista Yuri Redicopa com as pessoas, tá ligado? Eu consigo colocar putaria em qualquer gênero [musical]".
Lembrei da sua apresentação no canal WE4Sessions, que você se apresentou com uma banda. A galera tocando instrumentos orgânicos e você cantando putaria, super encaixou.
Daí que veio a minha ideia de fazer esse EP agora. Eu também quero mostrar para as pessoas que eu vou além disso.
No EP você fala de vários assuntos também, né? Mas uma faixa que chamou muito a minha atenção foi a ‘Não Divulgo Bet’. É uma pauta que reflete muito os tempos de hoje. Para você, enquanto artista, qual é o papel da arte em abordar esse tipo de tema para as pessoas que te acompanham?
"No momento que eu tava fazendo essa faixa, eu percebi que muitas pessoas falavam de tigrinho e outros bagulho de aposta, mas ninguém falava que era a contra. Eu mesmo nunca divulguei essa parada porque eu sei que tem muita pessoa que fica dependente disso daí, não tem uma mentalidade, uma estrutura para poder ter uma ajuda e sair dessa parada. Aí eu falei: Mano, quer saber? Eu vou falar sobre isso".
Eu não sei se todo mundo vai gostar do que eu tô falando, mas eu acho que esse é o meu papel. E aí o KayG apareceu também para pular nessa comigo, eu fiquei muito feliz. E essa faixa é muito da hora, eu gosto muito dessa faixa.
Eu acho que você fez um intercâmbio cultural interessante nos feats, com artistas de fora do Brasil. [No EP], você colaborou com Benjay, que é francês, né?
Sim! inclusive foi o Benjay que fez o Bouyon.
Sim, exatamente. E também tem o Sainté...
É, o Benjay é de Paris e o Sainté é britânico. Mano, achei muito da hora essa parada de eu conhecer o Sainté. Eu fiz um comercial para a New Balance ano passado. E eu já conhecia o trabalho dele. Porém, eu nem sabia que ele fazia parte do time da New Balance.
Aí, quando o comercial lançou, ele foi uma das primeiras pessoas a me seguir e ele me enviou uma mensagem. Eu falei: "Mano, mas eu gosto muito do trabalho desse cara. Como assim, ele me mandou mensagem"? Para mim era tipo algo que era muito distante.
Eu fico muito tempo no estúdio, acabo não vendo muitas coisas que acontecem fora. Dificilmente eu vou ver se algum artista postou minha música, se ninguém me mandar…
Você fica mais off assim?
É. Fico fazendo os meus trabalhos, aí acaba que muita coisa passa e eu não vejo. Só que eu consegui ver e aí eu fiquei muito feliz, comecei a conversar com ele e aí deu um mês depois que ele me seguiu, eu tive a oportunidade de viajar para lá.
Eu conheci ele pessoalmente, só que um pouquinho antes de eu ir viajar, ele falou: "Por que a gente não faz algumas músicas juntos"? E eu tinha feito uma música aqui na minha casa e eu falei para ele: "Mano, tem uma música aqui que tem um sample que foi usado pelo Racionais [Mc's], que são os rappers aqui do Brasil. Essa música tem uma letra que eu gostei muito, eu acho que ia ficar muito da hora se você tivesse nela”.
Daí ele já mandou na hora de volta com a parte dele gravada. Essa música já tá guardada há um ano mais ou menos e eu não tinha postado nenhuma prévia.
E o Benjay eu conheci um tempinho depois aqui no Brasil, ele trabalhou com vários artistas e ele já tava batendo nessa tecla do Bouyon. E eu já conheço o Bouyon porque eu visitei Paris e eu fui na Festa da Música [Fête de la Musique], que é meio parecido com o Carnaval. Aí eles escutaram muito Bouyon.
A gente gravou esse Bouyon e também fomos numa sessão no estúdio da WE4 [Sessions] e gravamos essa faixa que tá no EP.
E você vinha soltando essas faixas inéditas em alguns DJ sets que participou, né?
Sim. E a música ‘Alô BM’, que faz parte desse projeto, já tinha mais de um ano que eu deixei a prévia solta, só que o que que eu fiz: eu tenho um link num aplicativo [que uso] para organizar minhas guias. Só que eu vazei essas guias pros fãs. Mais de 2.000 pessoas escutam essas guias e não sabem quando vou lançar, só ouvem.
Então, você deixa liberado para a galera ouvir?
Eu gosto que as pessoas escutem coisas exclusivas. Aí eu tinha deixado sem a parte do Kyan. Eu deixei a minha parte do MC Jvila só. Aí as pessoas: “Por que que você não vai lançar isso”? Agora que elas tão vendo ela completa, ficam: “Ah, tava escondendo o ouro”.
O bom é que eu fico sabendo o que é mais viável lançar ou não. Porque, como a gente falou no início, eu abordo vários type beats diferentes, gosto de misturar muita coisa, mas não é tudo que as pessoas entendem na hora e gostam. Aí tem coisa que é melhor segurar um pouquinho.
E você tem um contato também com produtores e DJs, né? Você começou soltando a sua voz no SoundCloud. Você continuou fazendo isso?
Sim! Eu ainda faço isso, solto as vozes no SoundCloud e eu também mando no WhatsApp, e aí todas as vezes que eu gravo um pack de vozes, eu encaminho para todos eles, depois eu posto no SoundCloud. Aí no mesmo dia que eu mando as vozes, já voltam algumas músicas.
"Muito de eu estar em vários gêneros musicais é por conta dos produtores. Tem muitos gêneros que eu nem tinha nem testado ainda e eles já tinham me enviado usando minhas acapellas, como exemplo o dancehall".
Ainda falando dessas trocas culturais, feats e tudo mais, você mira numa projeção internacional? Onde a gente vai ouvir "Muita Putaria Brasileira" tocando daqui para frente?
Logo logo eu quero tá indo para a Europa. Eu também penso em aparecer aqui por perto da América do Sul. Eu tô visando muito a América Latina em geral. Eu quero lançar muita coisa com Dembow. Já ouviu Dembow?
Nó, demais!
Então, eu queria fazer bastante [música em] beat de Dembow, umas paradas assim, encostar lá para poder conhecer os artistas de perto, ver como é o processo. Porque às vezes a gente fica visando coisa longe, mas tem muita coisa aqui perto que é muito chave, tá ligado?
Total. E faz todo sentido como que você já faz musicalmente, né?
Sim. É que as maiores oportunidades que eu tive até o momento foram na Europa. É por isso que eu citei lá, mas o que eu quero começar a fazer daqui para frente é [na] América Latina. E de antemão, vou falar para você. Esse EP é um aquecimento para o M.P.B Volume 2.
Exclusiva, é isso? [risos]
É isso aí. Esse ano ainda tem um álbum bem grande.
Sabe mais ou menos quando?
Pô, não, é porque eu tenho um problema, eu falo a data que não é a data, eu falo a data que eu queria que fosse, entendeu? Eu já falei que o MPB [vol. 2] ia sair ano passado uma vez. Só porque eu queria que fosse. Aí eu não posso mais prometer datas. Mas esse ano. Eu tenho fé que esse ano.
'Além da Putaria' já está disponível nas plataformas de streaming. Enquanto o M.P.B Vol. 2 não sai, o EP serve como um bom termômetro de onde Yuri Redicopa quer chegar: um artista que passeia entre gêneros musicais diversos, sem abrir mão da putaria como assinatura, mas ainda assim sem se limitar a ela.