A cerâmica não-convencional da Mãe de Pote

Gabriella Nobrega tem na cerâmica uma plataforma para exorcizar demônios internos - ou simplesmente transformá-los em arte

A cerâmica não-convencional da Mãe de Pote

“Você faz telha?” foi a pergunta que a Gabriella ouviu uma vez quando disse que trampava com cerâmica. Realmente, o uso do material pode ser diverso, podendo estar presente no telhado da sua casa ou na sua mesa de jantar todas as refeições. A multi utilidade da cerâmica permite uma gama gigante de usos e adereços. Mas para a Gabriella Nobrega, a Mãe de Pote, sua cerâmica não vai na telha da casa nem no prato do dia a dia. Ou pelo menos, não sempre. 

A paulista Gabriella Nobrega encontrou na cerâmica uma plataforma para fazer arte. O que era um caminho de papel e caneta, se transformou em 3D trazendo referências da infância, influências de culturas orientais e misturando técnicas de fogo com vários materiais. Gárgulas de desenhos animados e demônios Oni se transformaram em peças artesanais feitas pelas mãos de Gabriella, que viu seu @ do instagram se transformar em apelido. A “Mãe de Pote” tem um caminho não-tradicional e não-convencional dentro da arte em cerâmica e suas carrancas vão além do óbvio. 


Quando e como surgiu teu interesse pela cerâmica?

Sempre gostei muito de desenhar, desde criança, desenhando obsessivamente, o dia inteiro. Ninguém nunca teve dúvidas de saber que eu gostava de fazer isso. Gostava muito de brincar de massinha, fazendo vários estilos de arte. Quando fiquei adolescente, senti a necessidade de explorar outras coisas, então fazia modelagens com cerâmica fria, com durepox, fiz até bongs de durepoxi (risos). Mas sem muita pretensão, era mais uma necessidade do desenho sair do 2D e ir pro 3D, eu fazia por prazer, mesmo, sempre tivesse esse hábito. 

Na faculdade eu fiquei mais travada, mas antes era uma coisa natural. Na faculdade eu tive o primeiro contato com ateliê de cerâmica, tendo noção mínima de como funciona o processo, a modelagem, a primeira queima (que chamamos de queima de biscoito), a esmaltação e a segunda queima, mas não consegui ter muita dimensão da profundidade daquilo, tivemos pouco tempo para aprender mesmo a cerâmica. 

O ateliê te exige muito, na faculdade você conhece o básico. Fui ter noção mesmo quando comecei a trabalhar com isso de fato. 

Quando me mudei para São Paulo, estava inclinada a trabalhar com cerâmica, até fiz um curso de torno. Consegui montar um ateliê com coisas mínimas num sobrado, fazendo milagre de espaço - para a cerâmica é muito tenso ter um ateliê dentro de casa. Quando consegui instalar o forno, veio a pandemia. Fiquei muito focada, introvertida, completamente imersa nisso, naquele mundo esquisito, incerto… Comecei a dar umas aulas, atendendo pessoas em casa naquele protocolo da COVID. Aprendi muito ensinando, conheci muita gente legal nesse tempo. Então teve tanto uma inclinação minha pra ir pra esse lado, quanto o acaso do destino, uma pandemia me forçando fazer isso o dia inteiro. 

Você parece seguir um caminho não tão ortodoxo na cerâmica, buscando fazer outros objetos que não só utensílios domésticos. Quando você começou a ir por esse caminho?

Eu não consigo abrir mão da minha expressão artística. Não foi um objetivo trabalhar com encomendas personalizadas, sabe? Eu acho legal quem faz objetos utilitários, mas te exige um cuidado que é outro tipo de pensamento, inclusive vemos muita cerâmica de xícaras, por exemplo, com muita coisa fofinha e no dia a dia fica mais decorativo, porque não é algo muito prático. 

Eu não trato minha produção como algo de fábrica. Talvez seja um caminho que demore um pouco mais, me dá bastante dor de cabeça, sempre arranjo coisa pra fazer que dá um nível de trabalho a mais - o bom é que nunca paro de estudar, tem coisa que dá errada de maneira feliz, tem coisa que dá só errado mesmo (risos). 

É uma parte mais artística de trabalhar com cerâmica, não pensando em ser só uma empresária. Me aprofundei mais ainda na escultura e outros tipos de queima que não só o forno elétrico - que é o que a pessoa mais leiga da cerâmica vai ver e achar a coisa mais linda do mundo, sabe? Mas ao me aprofundar, fui colocando outros valores em uma peça.

Quando me mudei para um ateliê no Morro do Querosene, o pessoal lá já era mais artista. Meus colegas de ateliê estavam trabalhando com queima de raku e eu fiquei louca, é muito incrível, praticamente você enfia sua cara no forno quente com uma pinça, tira a peça incandescente, põe numa cama de serragem e tampa aquilo - a reação que faz é muito linda, você não controla tanto os efeitos e as cores. Na época que estava lá, pirei muito em fazer esculturas, foi um baita combustível para a minha criatividade, aprendi demais. 

O que vivi nessa época foi o que alimentou a minha vontade de ir embora de São Paulo, sentir meu estilo de trabalho, conseguir ficar sozinha para me organizar… Meu trabalho é um pouco diferente dos outros, parece ser descontraído mas te exige muita presença, ter o ateliê dentro de casa é uma coisa muito boa pra mim. Não tem como muito bater ponto, trabalhar mecanicamente… 

Hoje parece existir uma rede de maior apoio a ceramistas, com feiras, cursos e mais pessoas interessadas. Como é isso pra você? Você participa de feiras ou algum coletivo? 

Eu acho legal, deu uma hypada, né? Eu acho bacana que tenham espaços para artistas que sejam um pouco menos da linha clássica mostrarem seus trabalhos e que o interesse por cerâmica surja a partir disso. Eu lembro que quando comecei a fazer, perguntaram se eu fazia telha, porque trabalhava com cerâmica (risos). 

As redes sociais tornaram mais acessíveis saber o que é de fato. O que eu acho um pouco irritante, nas redes sociais, é a falta de profundidade que às vezes as pessoas tem olhando - a gente sempre como ceramista tem que alertar que demora, às vezes é um prazo de até três meses, se você acelera, você pode perder todas as suas peças, o clima e o tempo também influenciam muito. 

Tem a parada da organização também, de pensar com antecedência todo seu trabalho, essa dinâmica de ateliê tem que existir. Eu já participei da Feira Pirata, mas não necessariamente é voltada para ceramistas, mais para pessoas com trabalhos tridimensionais, como Toys, que estão dispostos a expor - é de longe a feira que mais gosto de ir quando dá. Também já participei da semana da cerâmica de Cunha e lá conheci várias pessoas, é muito bacana pra gente do meio conhecer o trabalho de outras pessoas e participar e oficinas. Se tiver com dinheiro e disposição para fazer oficina, lá é um lugar maravilhoso pra isso. 

Fala um pouco sobre as carrancas que você produz, de onde veio a ideia? 

Comecei a fazer várias carrancas inspiradas em Onis, demônios japoneses, mas depois foi indo para além disso, representando várias figuras demoníacas diversas. Sempre gostei de fazer por conta do desenho Gárgulas, sabe? Esse desenho antigo é muito bom! Tem essa característica minha, desde criança tenho um certo nível de carinho por coisas feias, por animais não tão fofinhos (risos). Eu tenho meu lado mais “garotas” também, mas sempre gostei de arte mais pesada, história de terror… Eu era muito medrosa, mas gostava! 

Tem um lado meu que gosta de trabalhar essa parte do medo, uma vontade de retratar essa parte intimidadora. Olhando meu trabalho, eu acho que acessa uma agressividade que acabo expressando na arte. 

São características que carrego comigo até hoje e, conforme vou fazendo, vou gostando mais e mais. Tem também a influência de frequentar estúdios de tatuagem, trabalhei de aprendiz um tempo em São Paulo - mas aí decidi fazer outra coisa que é mais a minha pegada, que foi a cerâmica. Sigo até hoje como uma pessoa que gosta de fazer bastante coisa diferente. 

Qual a coisa mais difícil que você já fez e por que foi tão treta? 

São várias coisas que são muito difíceis. Acho que o primeiro ponto que deu uma estabilizada foi a realidade de não precisar mais ficar mudando de ateliê toda hora. Queria fazer muita coisa e não podia, por falta de espaço, falta de lugar fixo, falta de contrato. não dá pra mudar de lugar de hora em hora – se você tem um ateliê de cerâmica você carrega muita coisa com você. Acho que esse é o ponto principal.

Depois disso, tecnicamente falando, mexer com molde de gesso é foda, suja muito, tem que ter um espaço, dá errado muitas vezes. Queima à gás também, até ter a segurança de mexer com botijão de gás, maçarico, fazer a queima de raku botando a cabeça no forno quente, não pode quebrar as peças nem se queimar… É por aí, o processo é treta, tem muita coisa que já deu errado, muita coisa que quebrou – e eu tenho certeza que é igual pra todo ceramista! Todo mundo que trabalha com cerâmica, por bem ou por mal, tem um certo nível de maturidade para lidar com a frustração, vai trabalhando internamente senão você desiste, não tem como. 


Conheça mais sobre o trabalho da Gabriella, a Mãe de Pote, no site maedepote.com


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