O futuro é offline - por dentro da Toner/Torque

Projeto editorial de Luciano Albertazzi é fanzine, exposição e tudo o mais que contribuir para visualizar um futuro diferente através das imagens

O futuro é offline -  por dentro da Toner/Torque

Era final dos anos 90, e Luciano era um adolescente que andava com a galera do skate pelas ruas de Alegre, no interior do Espírito Santo. Um dia se deparou com o Sirva-se (1997), álbum de estreia do Dead Fish e depois disso alguma coisa mudou dentro dele. "Cheguei na casa desse amigo e já estava rolando o disco, já estava na quarta faixa, 'Proprietários do Terceiro Mundo'", ele lembra. "Caramba, e agora, depois desse disco, o que acontece? Agora a gente vai fazer um fanzine".

Quase trinta anos depois, esse mesmo impulso move Luciano Albertazzi, que é fotógrafo, editor e o cara por trás da Toner/Torque, projeto curatorial que chegou à terceira edição com o fanzine “O último verão antes da guerra”. Nascida como printing show, a Toner/Torque cresceu e se tornou um organismo colaborativo, artesanal e que não tem pressa nem objetivo de virar produto.

Troquei uma ideia com o Luciano sobre o processo por trás dessa terceira edição, sobre o que significa trabalhar com curadoria de imagens sem controlar o resultado e sobre os porquês dele ainda acreditar no formato.

Luciano Albertazzi durante oficina de Fanzines

Realmente não começou com a ideia de ser um projeto acabado, de ter apenas uma linha, alguns fazeres. A proposta sempre foi expandir ou diminuir, dependendo da circunstância” ele me explica sobre como o projeto nasceu. A primeira edição, por exemplo, foi uma exposição, um printing show realizado em Anchieta, ES. Na segunda ele trouxe a ideia do zine para dividir espaço com as fotos impressas, ainda com um lado expográfico. Agora, na terceira, o plano era seguir só com o fanzine. Mas não rolou.

"Uns amigos que têm uma galeria em Vitória, a Mosaic Fotogaleria, e a Elisa, que é da Lúcia Livraria, na cidade onde eu moro, brigaram comigo, acharam que tinha que ter uma exposição". Ele cedeu, e hoje define a Toner/Torque como um projeto editorial, de edição e curadoria, ou vice-versa, com o objetivo de buscar pessoas para contarem histórias através de um fanzine, um livro de artista ou outros formatos que forem surgindo.

A opção do fanzine, como dá pra perceber no começo do texto, é estética e biográfica. Por crescer dentro de uma cultura que circula as produções de mão em mão, tipo munição, foi natural seguir por esse caminho. E citou referências fundamentais para ele, como o Wener Marq, cara que apareceu na cidade de Alegre falando de fanzines e que considera fundamental para introduzi-lo à cultura. Depois disso, o DIY nunca mais o abandonou.

Depois de alguns anos desde o lançamento da segunda edição, um novo tema surgiu como algo bem direto ao ponto, apesar do Luciano fazer questão de não querer deixar que a leitura mais óbvia seja definidora. “A princípio parece que é um tema pessimista ou de despedida, mas talvez seja tudo bem ser de despedida. Todo dia a gente se despede e vê o que vai ter na frente”.

O ponto de partida saiu de algumas leituras e audições, como do livro Realismo Capitalista do Mark Fisher e do último disco do Dead Fish, Labirinto da Memória (2024), costuradas com temas que surgem em várias conversas, como o de estarmos destinados a um futuro que não foi imaginado por nós. "É mais fácil acreditar no fim do mundo do que no fim do capitalismo, por exemplo. Parece que a coisa é tão certa e determinada que nem adianta você lutar". 

A saída e as respostas não estão dadas por aí, mas ele propõe que essa construção possa passar pela imagem e pela desconfiança de que muito do que vemos hoje em dia só ajuda a reforçar esse futuro “pré-fabricado”. Para ele, "a gente está inserido numa sociedade altamente mergulhada em imagens. Existe um excesso de imagens, um excesso de sentido, mas muitas vezes essas imagens apontam para um futuro dado, um futuro da moda, do comércio, do mercado financeiro." Para Luciano, as pessoas já imaginam que não é mais possível impedir uma catástrofe ambiental, por exemplo, que as periferias são locais de pessoas desocupadas ou até que a próxima geração seja formada de gente que não se interessa por nada. Ele quer se opor a isso, a esse imaginário construído pela cultura mainstream.

Foi a partir dessa provocação que ele convocou os fotógrafos para contribuírem com a edição. Para Luciano, a fotografia tem algumas vantagens em relação à outros suportes e um deles é o da abertura de sentido. "Apesar de ter aquela expressão de que uma fotografia fala mais do que mil palavras, não existe nenhuma palavra na fotografia. Você que vai construir essas palavras e esses significados. A fotografia mais legal é aquela que aponta, não a que explica”. Ou seja, no fanzine, a ideia é tentar encontrar frestas por onde podemos olhar algo diferente.

Sobre o processo curatorial, a Toner/Torque tem uma perspectiva muito colaborativa e de confiança com quem participa. Luciano faz um pedido simples aos fotógrafos, que se resume a uma explicação do tema, nada muito aprofundado, e ao formato da foto, que deve ser vertical. Não precisa ser inédita e nem produzida com alguma técnica específica. Além disso, ele não escolhe a imagem que as pessoas vão mandar, isso está nas mãos dos fotógrafos convidados.

Isso vem com um preço, claro, mas não é negativo. Segundo ele, 70% a 80% das imagens ele não faz ideia do que serão. “Elas chegam e eu abro todas em cima de uma mesa ou no chão e começo o trabalho de edição.” O processo é meio ritualístico, de sequenciar tudo em uma superfície plana, olhar, organizar, deixar descansar, voltar no dia seguinte, olhar de novo, mudar de lugar… Tudo até chegar no primeiro “boneco”, e aí sim ver cada virada de página, para garantir que a história está sendo contada da melhor forma. Se precisar, abre tudo de novo e edita. Sem pressa.

Quando pergunto sobre o que ele ganha ou perde quando decide seguir pelo caminho da publicação ou da exposição, formatos usados até o momento, Luciano prefere não enquadrar nada como perda, já que são construções diferentes. Na segunda edição, por exemplo, ficou responsável por desenhar o grid das fotos na vitrine de uma cafeteria em Vitória. Na seguinte, Gabriel Lordello, da Mosaic Fotogaleria é quem assumiu o projeto expográfico, propôs trilha sonora, ambientação, e recebeu carta branca para criar a partir do material recebido. Tudo é amostra do lado colaborativo do projeto. 

"Eu gosto do fanzine pelo meu contato a vida inteira com fanzines. E eu acho que ele circula, ele constrói um sentido na hora que chega. O fanzine só vai estar pronto quando você abrir e ler. Ele vai estar pronto para chegar na sua mão e você tirar um sentido. Isso para mim é apaixonante."

Ainda assim, comenta sobre uma possível resistência cultural ao formato impresso. "Acho que as pessoas gostam de exposição no Brasil. A questão do fanzine, do livro de artista, do fotolivro, ainda não é muito popular. As pessoas gostam do espaço expositivo, caminhar, conversar. Acho que é questão cultural do Brasil ainda."

Vitrine da Kaffa Cafeteria, durante a segunda edição da Toner/Torque

A terceira edição da Toner/Torque saiu em 75 exemplares, mais que a anterior, mas ainda uma tiragem pequena. Para Luciano, isso tem a ver com o DIY, que define o formato desde sempre. "Da minha escola (risos), o fanzine tem uma tiragem limitada mesmo. Porque ele é algo amador no sentido de amar fazer isso." E ainda brinca sobre como não existe barreira impeditiva para quem ama fazer isso. Se não sabe desenhar, faz tosco mesmo, se não tem grana pra xerox, vai usar a do trabalho, sem computador, vai fazer na mão… Não existe limitação pro cara que quer editar.

Hoje o projeto funciona sem patrocínio, e Luciano conta que até já recebeu proposta de uma grande mineradora, mas recusou. Essa escala pequena, artesanal, é onde ele mira mesmo, sem pensar em produções de escala industrial. O manual é parte do cuidado e do processo. "Meu sonho é fazer 200 cópias. Vou ficar muitos dias costurando capa com meu companheiro Saulo Dias, comendo bolo, fazendo carinho na cachorrinha e ouvindo um som."

Essa troca humana, direta, é o que ajuda a construir uma comunidade ao redor do projeto. São dezenas de fotógrafos que se conectaram através das exposições e do fanzine. Luciano diz que o conceito de “Zona Autônoma Temporária” do teórico Hakim Bey, é um ótimo exemplo, originalmente aplicado para territórios, mas que serve para coisas mais amplas, incluindo coletivos. 

A ideia de que essas zonas, esses espaços de existência e resistência surgem em oposição à uma cultura dominante e duram o tempo que conseguem, até se dissolverem e migrarem para a próxima atuação. Para ele o fanzine pode ser uma ZAT.  "A gente conhece pessoas que têm afinidades, não só do fazer fotográfico, mas de imaginar o mundo. A gente é uma comunidade que surge com o projeto e vai durar enquanto existir o fanzine."

O que fica depois que a edição termina são as conexões que o projeto ajuda a desbloquear entre pessoas que já queriam trabalhar juntas. Ele cita alguns exemplos que rolaram de fotógrafos que, ao receberem a listagem de participantes, ficam surpresos ao ver que já estavam em contato com alguns nomes mas ainda não tinham construído a oportunidade perfeita de colaborar. 

Enquanto conversamos, percebo que Luciano recusa a romantização do passado, do saudosismo. Quando comento sobre uma percepção pessoal de desconexão da nova geração com a cultura, ele discorda: "Eu não gosto de pensar assim. Primeiro que não é nem o meu momento. É o momento da garotada, da molecada. E eu acho que eles estão descobrindo outro jeito de ter isso, particularmente. Eu evito ser nostálgico. Acho que a gente tem que ficar apontando para a frente e confiar em quem é mais novo que a gente, porque o futuro é deles. Ninguém confiou na gente não. Ninguém confiou na gente e a gente tá aqui."

Ao mesmo tempo, ele diz que a Toner/Torque só faz sentido como projeto offline. Não tem um perfil de Instagram dedicado, não tem site… Funciona na materialidade impressa mesmo, circulando de mão em mão, e nivelando tudo o que chega. Não importa se uma foto foi produzida com uma câmera de última geração, com uma Cybershot ou em filme, tudo vai ser impresso em toner, no mesmo papel, sem hierarquia. E essas imagens, a partir da edição, vão conversar entre si e com quem acessar o material. Para Luciano o futuro é assim, offline.

Sobre a quarta edição, ainda não existe um tema fechado, e pela experiência com as edições anteriores, é possível que chegue de surpresa, como um estalo. A ideia que está clara é que nas próximas se busque mais diversidade, reunir fotógrafos de diferentes regiões do Brasil, e mais mulheres. Agora o resto, depende do que o mundo apresentar, e a partir disso ele decide o que vai devolver pro mundo.

É um pensamento que, no fundo, resume bem o espírito da Toner/Torque, um projeto que não tenta prever o futuro, mas que insiste e teima, com toner, xerox e encadernação artesanal, em abrir uma fresta para imaginar algo diferente.


ISMO
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