Toody Cole viu o grunge virar negócio

Às vésperas do primeiro show no Brasil, a baixista do Dead Moon relembra a explosão de Seattle e explica por que ficar independente foi uma escolha

Toody Cole viu o grunge virar negócio

Quando Nevermind explodiu em 1991 e levou gravadoras, MTV e imprensa internacional a correrem para Seattle, Fred e Toody Cole já faziam música havia décadas. Como já falamos em Antes do grunge, havia o Dead Moon, a banda que os dois mantinham em Portland ajudou a construir o imaginário underground do Noroeste americano antes de a região virar o centro do rock mundial. Enquanto músicos muito mais jovens eram lançados dentro de uma indústria que até pouco antes ignorava aquela cena, Fred e Toody sabiam que não queriam seguir o mesmo caminho. “Não estávamos interessados em ser uma banda tão ‘grande’ assim e, para falar a verdade, já éramos velhos demais para cair nessa!”, conta Toody.

Ela respondeu algumas perguntas da ISMO por e-mail, a poucos dias de sua primeira apresentação na América do Sul, marcada para 31 de outubro, no Cine Joia, em São Paulo. Toody chega como a única integrante viva do trio que fundou com Fred Cole e o baterista Andrew Loomis em Portland, em 1987. Loomis morreu em 2016 e Fred, no ano seguinte.

Toody Cole a sua banda, Kelly Halliburton (esq) e Christopher March (dir)

Fred e Toody pertenciam a uma geração anterior à da maioria dos músicos associados ao punk, ao garage e, depois, ao grunge do Noroeste americano. “Embora Fred e eu fôssemos mais velhos do que a garotada envolvida nas cenas punk rock, garage e grunge, sempre nos sentimos parte de tudo aquilo”, diz. Com o tempo, a diferença de idade deu aos dois um lugar próprio naquela comunidade: “Acabamos assumindo mais um papel de mentores para os músicos mais jovens.”

Portland e Seattle estão separadas por poucas horas de estrada e sempre compartilharam bandas, público e circuitos de shows. Ainda assim, Toody vê as duas cidades como lugares com personalidades próprias. “Seattle é uma cidade muito maior e sempre recebe mais atenção. Portland é mais amigável com os artistas e mais DIY”, diz. Foi circulando entre esses mundos que o Dead Moon tocou em muitas noites de Seattle, dividindo a programação com bandas americanas em turnê. Toody se lembra de grandes shows com The Gits, Mudhoney e o D.O.A., de Vancouver, “e muitas outras bandas que nem dá para listar”. A maioria delas jamais alcançaria a projeção de um Nirvana ou um Pearl Jam, mas formavam o tecido de uma cena muito maior do que os poucos nomes que acabaram explodindo no mainstream e entrarando para a história do rock.

Formação original do Dead Moon nos anos 1980

A influência do Dead Moon sobre aquela geração era visível na plateia. “A gente praticamente sempre soube que era uma influência para as bandas mais novas. Pelo menos metade do público na maioria dos shows do Dead Moon, onde quer que tocássemos, era formada por músicos que também tinham suas próprias bandas”, lembra Toody. Ela e Fred procuravam oferecer conselhos e apoio sempre que podiam e espalhar a ética do faça-você-mesmo. O que ela descreve é menos uma relação entre ídolos e seguidores do que uma comunidade em que quem estava no palco numa noite podia estar na plateia na seguinte, aprendendo, trocando referências e montando as próprias bandas.

Foi esse mundo que mudou de escala quando o Nirvana explodiu com Nevermind, vendeu milhões de cópias e transformou uma cena regional em fenômeno global. Quando pergunto sobre o impacto disso no Dead Moon, Toody é categórica: “Na verdade, nada mudou.” Olhando para os músicos mais jovens ao redor, ela e Fred reconheciam os riscos do que estava acontecendo.

“[A indústria] fez o que sempre faz: jogar garotos com a aparência e o talento, mas sem experiência suficiente para perceber quando estão sendo explorados, no mundo de alto risco do rock’n’roll corporativo.”

A idade, que poderia parecer desvantagem numa cultura tão associada à juventude, funcionou como proteção. E ficar fora das grandes gravadoras não foi por falta de interesse delas. “Sim, permanecer independente foi uma escolha consciente”, afirma Toody. Houve sondagens, mas o limite era claro: “A ética do Dead Moon simplesmente não funcionaria de outra maneira que não fosse DIY.”

Toddy com Fred na frente da casa em que moravam

Essa ética tinha consequências práticas. Fred e Toody não só tocavam e gravavam: criaram a Tombstone Records, lançavam os próprios discos, cuidavam da distribuição e organizavam as turnês, levando a independência a um nível hoje quase impossível de reproduzir. Décadas depois, DIY virou categoria musical, estética e até linguagem de marketing, mas Toody ainda reconhece parte daquele espírito nas bandas de Portland. Talvez não no extremo a que ela e Fred o levaram, admite, mas como objetivo e, muitas vezes, necessidade para os músicos independentes da cidade.

Nada mudou na ética da banda, mas isso não quer dizer que o Dead Moon tenha atravessado a explosão do grunge imune às suas consequências. “O Dead Moon teve a sorte de ser notado junto com as bandas de Seattle, como parte daquela cena, e isso ajudou nossas turnês a fazer ainda mais sucesso”, reconhece Toody. É uma distinção importante: Fred e Toody não rejeitavam a possibilidade de ser ouvidos por mais pessoas. Rejeitavam a ideia de que, para isso, precisariam entregar o controle sobre o que tinham construído.

A clássica vela acessa, um ritual nos shows do Dead Moon

Quase quatro décadas depois da formação do Dead Moon, essa história chega ao Brasil, e na noite de Halloween. É uma data adequada para uma banda cujo imaginário sempre girou em torno da lua, da noite e do fogo. Antes de tocar, Toody costuma acender uma vela sobre uma garrafa de uísque e reunir a banda numa breve oração. A vela fica acesa durante toda a apresentação, como único elemento de cenário. Ela lamenta não conhecer bandas brasileiras, mas imagina que a música sempre foi parte importante da vida e da cultura daqui e espera ver um pouco disso na viagem. As músicas do Dead Moon, por sua vez, chegaram ao país muito antes dela.

“Significa muito para mim e para meus companheiros de banda poder visitar o Brasil pela primeira vez e tocar para o público daí. Espero que a música soe verdadeira para essas pessoas e estou ansiosa para compartilhar com elas as canções e a música de Fred.”

Aos 77 anos, depois de décadas de bandas, discos e estrada, e de ter visto o underground do Noroeste americano se transformar numa das últimas grandes revoluções comerciais do rock, Toody dá uma resposta surpreendentemente simples quando perguntada sobre o que ainda a faz subir ao palco. “Essa é fácil de responder! Ainda é muito bom tocar diante de uma plateia, e a reação das pessoas à música e à nossa performance é o que me faz continuar querendo mais!” Talvez seja uma régua de sucesso muito parecida com a que ela e Fred escolheram quando o mundo inteiro começou a olhar para Seattle: não o tamanho da indústria ao redor, mas o que acontece entre uma banda e uma plateia quando a música começa.

Dead Moon Night: Toody Cole and her Band
Data:
31 de outubro de 2026 (sábado)
Horário: abertura às 19h
Local: Cine Joia
Endereço: Praça Carlos Gomes, 82, Liberdade, São Paulo – SP
Atrações extras: Pink Opake, Thee Dirty Rats e Dente Canino
Discotecagem: Camilla Jaded & Hiro; Mateus Mondini & Raphael Carapia
Ingressos: Ingressos disponíveis aqui.


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