13 discos para ouvir antes de votar
A história do Brasil também está nos discos que desafiaram o poder, romperam convenções e abriram caminhos para novas vozes
A música sempre foi uma das principais formas de o Brasil contar sua própria história. Das canções que enfrentaram a censura durante a ditadura aos sons que nasceram nas periferias e conquistaram o país, nossos artistas transformaram experiências individuais e coletivas em obras que ajudam a entender quem somos. Mas essa história não se resume à denúncia ou ao protesto. Também está na liberdade de experimentar, na afirmação de identidades, na mistura de referências e na criação de formas que desafiam aquilo que se espera da cultura brasileira.
Neste domingo, 25 de outubro, vamos escolher o projeto político que governará o Brasil pelos próximos quatro anos. E, como já discutimos por aqui, não existe cultura isenta de política. A liberdade de criação, as condições de produção artística, o acesso aos espaços culturais e o reconhecimento das diferentes manifestações que formam o país também dependem das decisões tomadas nas urnas. Quando uma expressão cultural é marginalizada, quando um artista é silenciado ou quando determinados grupos não encontram espaço para contar suas histórias, estamos diante de questões que vão muito além da música.
Assim como fizemos com os filmes, reunimos 13 discos que oferecem diferentes perspectivas sobre o Brasil, suas contradições e suas possibilidades. Não se trata de uma seleção definitiva dos maiores álbuns da nossa história, nem de uma lista restrita a canções de protesto. São trabalhos que ampliaram os limites da música brasileira, deram voz a experiências pouco representadas e ajudaram a construir um repertório que continua fundamental para compreender o presente. Discos para ouvir antes de votar (13), mas também para revisitar muito depois da eleição.

Gal Costa — Gal Costa (1969)
Em 1969, enquanto a ditadura endurecia a repressão e Caetano Veloso e Gilberto Gil seguiam para o exílio, Gal Costa lançou seu primeiro disco solo e assumiu o posto de voz central da Tropicália em solo brasileiro. Com arranjos de Rogério Duprat, que misturavam orquestra, guitarras elétricas e efeitos inesperados, a cantora atravessava composições de Caetano, Gil e Jorge Ben sem se prender às convenções da MPB. Em “Baby”, a ironia sobre a cultura de consumo vem embalada em doçura. Em “Divino, Maravilhoso”, o aviso de que “é preciso estar atento e forte” soa como alerta para o momento político. E “Não Identificado” se transforma em uma canção de amor espacial. Gal fazia da própria voz, que ia do sussurro ao grito, uma forma de liberdade em um país que tentava controlar o que se podia dizer.

Chico Buarque — Construção (1971)
Poucos discos brasileiros conseguiram transformar a relação entre trabalho, desigualdade e violência em música com a precisão de Construção. Lançado durante os anos mais repressivos da ditadura, o álbum observa a vida cotidiana sob diferentes formas de opressão. Na faixa-título, a morte de um operário é narrada em versos terminados em proparoxítonas que se reorganizam a cada estrofe, enquanto o arranjo de Rogério Duprat amplia a tensão até o desfecho. Em “Deus Lhe Pague”, a ironia expõe a lógica de uma sociedade que cobra gratidão até de quem recebe muito pouco. Aqui a sofisticação musical não suaviza a crítica: torna-a ainda mais contundente.

Milton Nascimento e Lô Borges — Clube da Esquina (1972)
Nascido das amizades e dos encontros musicais em Belo Horizonte, Clube da Esquina é uma das demonstrações mais bonitas de como a criação coletiva pode transformar a música. Milton Nascimento, Lô Borges e seus parceiros reuniram referências do rock, do jazz, da música latino-americana e das tradições mineiras em um álbum que parecia não reconhecer fronteiras. As harmonias inesperadas, as mudanças de ritmo e a atmosfera de canções como “Cais”, “Tudo Que Você Podia Ser” e “San Vicente” criam um universo próprio, atravessado pela tensão política dos anos de ditadura, mas também por amizade, deslocamento e esperança. Mais do que um estilo, o Clube foi uma maneira de produzir cultura a partir da troca, sem pedir licença a um centro que determinasse o que deveria ser a música brasileira.

Jorge Ben — África Brasil (1976)
Em África Brasil, Jorge Ben levou sua combinação de samba, funk e rock a um território ainda mais elétrico, com guitarras marcantes, percussões e uma pulsação que atravessa o disco inteiro. O álbum reúne personagens históricos, referências religiosas, futebol e histórias populares em uma celebração da presença africana na formação cultural brasileira. “África Brasil (Zumbi)” recupera a memória da resistência à escravidão e lista as nações africanas trazidas à força para o país. “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)” transforma o futebol em uma narrativa de identidade e afirmação, e “Xica da Silva” revisita uma das personagens mais conhecidas do Brasil colonial. Sem abrir mão do humor e da inventividade, Jorge Ben fez da festa uma forma de confrontar o apagamento das contribuições negras para a história do país.

Itamar Assumpção — Beleléu, Leléu, Eu (1980)
Itamar Assumpção estreou em disco com uma obra que parecia desafiar todas as regras da indústria fonográfica. À frente da banda Isca de Polícia, o músico criou uma sonoridade que misturava reggae, samba e rock, com o baixo elétrico no centro e estruturas rítmicas pouco convencionais. As letras exploravam personagens urbanos, ironia e jogos de palavras, a começar pelo próprio Beleléu, seu alter ego malandro. Em vez de buscar um formato comercial, o disco apostava na estranheza. Nome fundamental da chamada Vanguarda Paulista, Itamar construiu uma trajetória independente em um mercado que oferecia pouco espaço para artistas negros fora das expectativas estabelecidas. Sua obra continua perguntando quem tem acesso aos meios de produção e circulação cultural.

Chico Science & Nação Zumbi — Da Lama ao Caos (1994)
Quando Chico Science & Nação Zumbi lançaram Da Lama ao Caos, Recife se transformou no centro de uma das experiências mais inventivas da música brasileira dos anos 1990. O grupo conectou maracatu, coco e outras tradições pernambucanas ao rock, ao hip-hop e à música eletrônica, traduzindo em som a imagem que resumia o manguebeat: uma antena parabólica fincada na lama. As letras abordam fome, desigualdade, violência e degradação ambiental, mas o disco está longe de ser apenas um diagnóstico dos problemas da cidade. É também uma demonstração da sua potência cultural. Chico Science questionou a ideia de que a inovação precisa nascer nos grandes centros econômicos e provou que a cultura brasileira se reinventa justamente onde muitos enxergam apenas precariedade.

Sepultura — Roots (1996)
Depois de conquistar espaço no cenário internacional do metal, o Sepultura decidiu explorar de maneira mais direta suas referências brasileiras. Em Roots, guitarras pesadas e ritmos agressivos se encontram com percussões afro-brasileiras, com a participação de Carlinhos Brown em “Ratamahatta”, e com uma colaboração com integrantes do povo Xavante, registrada na faixa “Itsári”. O disco foi uma ruptura dentro da própria trajetória da banda e ampliou as possibilidades do metal nos anos 1990. Sua aproximação com culturas indígenas, porém, também levanta questões sobre identidade, representação e os limites das trocas culturais. Roots mostra um Brasil capaz de dialogar com o mundo sem abandonar suas particularidades e deixa em aberto uma pergunta importante: quem participa dessas narrativas e como suas vozes são reconhecidas?

Racionais MC’s — Nada Como um Dia Após o Outro Dia (2002)
Em Nada Como um Dia Após o Outro Dia, os Racionais MC’s aprofundaram uma das interpretações mais complexas já feitas sobre a sociedade brasileira. Depois da contundência de Sobrevivendo no Inferno, o grupo ampliou o olhar sobre a vida nas periferias, abordando racismo, violência, consumo, ambição, pertencimento e mobilidade social. “Negro Drama” expõe a relação contraditória de um país que consome a cultura negra enquanto marginaliza seus criadores. “Vida Loka” investiga os desejos e conflitos produzidos pela desigualdade, e “Da Ponte Pra Cá” desenha as fronteiras invisíveis que dividem São Paulo. Com narrativas longas, produção sofisticada e um vocabulário inseparável da quebrada, o álbum consolidou o rap como uma das principais ferramentas de interpretação da realidade brasileira.

Elza Soares — A Mulher do Fim do Mundo (2015)
Aos 85 anos, Elza Soares encontrou um novo som para uma voz que já atravessava décadas da história brasileira. Gravado com uma geração de músicos ligados à cena experimental paulistana, como Guilherme Kastrup, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Romulo Fróes, A Mulher do Fim do Mundo mistura samba, rock, ruído e arranjos pouco convencionais para acompanhar letras sobre violência, racismo, sexualidade e sobrevivência. Em “Maria da Vila Matilde”, a violência doméstica é enfrentada sem rodeios: “cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”. Já a faixa-título transforma a persistência em uma declaração de existência. Em vez de revisitar a própria trajetória, Elza preferiu se arriscar, e o disco é a prova de que experimentar também é uma forma de continuar resistindo.

BaianaSystem — Duas Cidades (2016)
Em Duas Cidades, o BaianaSystem transforma Salvador em uma experiência sonora atravessada por conflitos sociais, ritmos e disputas pelo espaço urbano. A guitarra baiana de Roberto Barreto e a voz de Russo Passapusso encontram o dub, o reggae, a cultura de soundsystem e as percussões afro-brasileiras em uma música feita para circular pelas ruas e mover multidões. O título aponta para as diferentes cidades que convivem dentro de Salvador, separadas por desigualdades de classe, raça e acesso a direitos. Nos shows e no Carnaval, o grupo faz da rua um espaço de encontro e expressão política, e o disco reivindica, faixa a faixa, o direito de ocupá-la.

MC Carol — Bandida (2016)
Em seu primeiro álbum, MC Carol, criada no Morro do Preventório, em Niterói, reafirma o funk como uma das formas mais diretas e provocadoras da música brasileira contemporânea. Logo na abertura, “Não Foi Cabral” corrige a aula de história: o Brasil não foi descoberto, foi invadido, e quem construiu o país foram os povos indígenas e os africanos escravizados. Em “100% Feminista”, ao lado de Karol Conká, a violência contra a mulher é confrontada de frente. “Delação Premiada” transforma em crônica a relação entre polícia e favela. Com humor ácido e uma maneira de cantar que não se adapta aos padrões da indústria, Carol responde a quem ainda trata o funk como problema social, e não como uma das expressões culturais mais importantes do país.

Linn da Quebrada — Pajubá (2017)
Linn da Quebrada estreou em álbum com uma obra que confronta diretamente as normas que organizam gênero, sexualidade e comportamento na sociedade brasileira. Misturando funk, rap e música eletrônica, Pajubá transforma o corpo e a rua em ferramentas de provocação. As letras exploram desejo, violência, identidade e autonomia com ironia e uma franqueza que recusa qualquer tentativa de agradar o público conservador. O título vem do pajubá, linguagem formada a partir de palavras de origem iorubá ligadas ao candomblé e adotada como código de proteção e pertencimento pelas travestis e pela comunidade LGBTQIA+. Em um país que ainda tenta controlar quais corpos podem ocupar determinados espaços, Linn faz da liberdade uma disputa cotidiana pelo direito de existir.

Juçara Marçal — Delta Estácio Blues (2021)
O título já anuncia o encontro: o delta do Mississippi, berço do blues, e o Estácio, bairro carioca onde nasceu o samba moderno. Em Delta Estácio Blues, Juçara Marçal constrói um dos diálogos mais instigantes entre tradição e experimentação da música brasileira recente. Produzido em parceria com Kiko Dinucci, seu companheiro no Metá Metá, o disco combina samba, blues, rap e eletrônica em batidas fragmentadas, guitarras e texturas que mantêm uma tensão permanente, de “Vi de Relance a Coroa” ao single “Crash”. Juçara trabalha com um repertório que desafia classificações e evita respostas fáceis. A tradição, aqui, não é peça de museu: pode ser desmontada, reorganizada e transformada em algo novo.