13 filmes para assistir antes de votar

A arte brasileira não fala da própria história e realidade porque é mais fácil, mas porque precisa exorcizar alguns demônios que nos assombram há séculos

13 filmes para assistir antes de votar

Para nós aqui da ISMO, cultura é a lente que usamos para enxergar o mundo, a partir de senso crítico, construção de repertório e valorização das subjetividades através da arte. Não existe cultura isenta de política, como já falamos por aqui, e neste próximo domingo, 25 de outubro, teremos a oportunidade de escolher qual projeto de Brasil irá nos governar pelos próximos quatro anos — isso se as instituições seguirem como estão.

De forma prática, a arte brasileira fala de política o tempo todo, às vezes de um jeito mais escrachado, outras vezes de forma abstrata, e por isso é importante consumir artistas e criativos que vivem a nossa realidade e são capazes de falar das nossas histórias e angústias como ninguém de outro país seria capaz de fazer. 

Em um momento que a soberania nacional, de forma estrutural, está sendo ameaçada, lembramos que a cultura já sofre impactos da globalização há anos, com artistas norte-americanos e europeus ocupando lugares que deveriam ser nossos por direito. Assim, escolhemos construir uma lista de filmes e álbuns para serem ouvidos e assistidos nesse contexto, não só antes da eleição, mas que sirvam de porta de entrada para o universo que nossos realizadores vêm construindo há anos. São clássicos absolutos, que abordam diferentes narrativas sobre o que é ser brasileiro, e do porque escolhemos o lado do povo. Boas sessões e, nesse domingo, vote 13.

Arábia (Affonso Uchôa e João Dumans, 2017) - Filmicca

O filme acompanha um operário a partir dos cadernos que ele deixou, e vai de bico em bico, de fábrica em fábrica, pelo Brasil que trabalha sem dar protagonismo aos trabalhadores. Arábia dá rosto e voz à precarização, ao cansaço e à dignidade de quem precisa vender a força de trabalho para sobreviver. Numa época em que se discute tanto o futuro do trabalho, vale lembrar que há décadas existe uma legião de trabalhadores que não cabe nas estatísticas, e que os direitos que protegem essa população foram conquistados, não concedidos.

Bacurau (Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019) - Netflix

Poucos filmes recentes traduziram tão bem a sensação de ter o território cobiçado por quem se acha dono do mundo. Bacurau transforma a desconfiança sobre o estrangeiro que chega com ar de superioridade em cinema de gênero. Aqui, patriotismo é memória coletiva, é comunidade que se organiza e é a recusa em ser tratado como descartável. Num momento em que a soberania nacional volta ao centro do debate, é um filme para ver e discutir.

Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967) - ItaúCultural

Glauber filmou a crise política de um país imaginário e acabou escrevendo um tratado sobre o Brasil, o populismo, a irmandade das elites, e o povo tratado como massa de manobra. Feito um ano antes do AI-5, é uma obra que segue atual, infelizmente. Assistir hoje é entender como discursos autoritários seduzem, como o poder se reinventa e por que se manter atento, vigiando a democracia, é um exercício que não tem fim.

Saneamento Básico, o filme (Jorge Furtado, 2007) - ItaúCultural

Uma comunidade precisa de uma obra de esgoto, o orçamento público não prevê nada e a saída é fingir que está produzindo um filme para liberar a grana. A comédia de Jorge Furtado é uma representação do jeitinho brasileiro, da burocracia e da capacidade de articulação de gente comum quando decide resolver um problema coletivo. Mostra o brasileiro em suas contradições, engraçado, malandro, e lembra que política também se faz nas reuniões de bairro, no improviso e na cobrança por direitos básicos que ainda faltam em tantos lugares.

Que horas ela volta? (Anna Muylaert, 2015) - Netflix

Uma casa como cenário é tudo o que o filme precisa. Na relação entre a empregada e a família da patroa, Anna Muylaert expõe as regras subentendidas que organizam a desigualdade brasileira, com origens diretas da escravidão. Quando a filha da doméstica chega e se recusa a ocupar o lugar que pensaram para ela, a estrutura inteira começa a demoronar. O filme ajuda a enxergar como a mobilidade social é conquistada com muito esforço, e como tem quem goste das coisas como estão.

Cidade de Deus (Fernando Meirelles e Kátia Lund, 2002) - Netflix

Mais de vinte anos depois, segue sendo a imagem mais conhecida do Brasil no exterior e uma das mais discutidas por aqui. Cidade de Deus mostra como a violência cresce onde o Estado chega tarde, geralmente armada — quando chega — e como o tráfico ocupa espaços abandonados pelo poder público. É um filme que incomoda porque não tem vilão simples, e por isso é útil para pensar segurança pública, quem são as vítimas, de onde vêm os jovens que entram nesse ciclo e que alternativas existem para eles.

Carandiru (Hector Babenco, 2003) - ItaúCultural

Baseado nos relatos do Dr. Auzio Varella, o filme olha para dentro do sistema prisional brasileiro antes de chegar ao massacre de 1992, quando 111 detentos foram mortos pela Polícia Militar. Ao dar nome, contexto e humanidade para quem vive atrás das grades, Babenco acaba com a ideia de que o encarceramento em massa resolve alguma coisa. Para quem vai decidir o rumo do país, é uma lembrança pesada do que acontece quando o Estado trata a segurança só como caso de força bruta.

Lúcia Murat, ex-presa política, mistura depoimentos de mulheres que foram torturadas durante a ditadura com a ficção, e cria um filme sobre como sobreviver ao terrorismo de Estado e conviver com a violência dele depois. O recorte de gênero é fundamental, porque mostra como a tortura atingiu as mulheres de maneira específica e como o silêncio, a culpa e o trauma continuaram pesando muito tempo depois da anistia.

Eles não usam Black-tie (Leon Hirszman, 1981) - ItaúCultural

Uma greve metalúrgica no ABC divide o pai, sindicalista, e o filho, que precisa do emprego e fura o movimento. Hirszman filma o dilema sem julgar ninguém, e justamente por isso o filme mostra o custo da mobilização coletiva, em que cada decisão pesa na mesa de jantar. Rodado no fim da ditadura, registra o momento em que a classe trabalhadora reaprendia a se organizar, e mostra que direitos como salário e jornada digna nunca foram favores.

Garotas do ABC (Carlos Reichenbach, 2003) - ItaúCultural

Reichenbach acompanha as operárias e jovens da periferia industrial de São Paulo com um olhar muito afetuoso. O filme coloca em cena as mulheres que sustentam a produção, a casa e os afetos, e que quase nunca aparecem nos registros sobre o mundo do trabalho. É um retrato da vida na região que fez a base do sindicalismo brasileiro, pela ótica de quem enfrenta a jornada dupla, a precariedade e a pressão de uma cidade hostil.

Branco Sai, Preto Fica (Adirley Queirós, 2014) - ItaúCultural

Misturando documentário e ficção científica, Adirley Queirós parte de uma violência real, a invasão policial a um baile black em Ceilândia, na periferia de Brasília, para imaginar uma resposta futurista de quem foi ferido. O filme mostra a cultura de quebrada como espaço de memória, resistência e invenção, e como a música e a festa podem ser territórios políticos. Vale pela forma tanto quanto pelo tema, e pela lembrança de que o Brasil que o poder esquece é também um dos que mais produz arte.

Cabra Marcado Para Morrer (Eduardo Coutinho, 1984) - ItaúCultural

Iniciado em 1964 e interrompido pelo golpe militar, o documentário foi retomado quase vinte anos depois, quando Coutinho voltou ao Nordeste para reencontrar a família do líder camponês João Pedro Teixeira, assassinado em 1962. O resultado é um dos mais importantes registros da luta pela terra e da repressão no campo, além de uma aula de como o cinema pode recuperar memórias que o poder tentou apagar. Lembra também que a questão agrária segue em aberto e que as vozes do campo, e não do agro, importam para o país inteiro.

As hiper-mulheres (Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro, 2011) - YouTube

Feito em parceria com os próprios Kuikuro, no Xingu, o documentário acompanha os preparativos de um ritual feminino de cura e põe em primeiro plano um modo de vida que costuma ser tratado como estética na narrativa nacional. Em vez de falar sobre os indígenas, o filme é feito com eles, e isso muda a perspectiva. Num país onde territórios, saberes e vidas seguem ameaçados, assistir é reconhecer a presença de povos que existem, têm história própria e muito a ensinar sobre cuidar da terra e da coletividade.


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