Antes do grunge, havia o Dead Moon
Aos 77 anos, Toody Cole vem pela primeira vez ao Brasil com a história de uma banda que ajudou a construir o imaginário underground do Noroeste americano antes de Seattle conquistar o mundo
Quando o mundo descobriu Seattle, no começo dos anos 1990, Fred e Toody Cole já estavam na estrada havia muito tempo. Gravadoras, jornalistas e executivos desembarcavam no Noroeste dos Estados Unidos em busca do próximo Nirvana, Soundgarden ou Pearl Jam. O Dead Moon, enquanto isso, seguia fazendo mais ou menos o que sempre tinha feito: gravava os próprios discos, lançava pelo próprio selo, entrava numa van para tocar onde fosse possível e voltava para casa para começar tudo de novo. O grunge transformaria a região no epicentro do rock mundial. O Dead Moon continuaria no underground.
Talvez seja por isso que, quase quatro décadas depois de sua formação, a banda continue tão importante para entender o que aconteceu ali. O Dead Moon nunca foi exatamente grunge, e não faria muito sentido encaixá-lo no gênero em retrospecto. Seu som vinha de outro lugar e de outra geração: garage rock dos anos 60, punk, psicodelia, blues e country misturados numa música crua, direta, quase sempre gravada com o mínimo de interferência. Mas, antes que a distorção, a produção lo-fi e uma certa recusa às convenções da indústria passassem a ser associadas mundialmente a Seattle, Fred, Toody e o baterista Andrew Loomis já tinham transformado tudo isso numa maneira de fazer música e, principalmente, de viver música.

É essa história que chega a São Paulo em 31 de outubro, quando Toody sobe ao palco do Cine Joia para sua primeira apresentação na América do Sul, revisitando o repertório do Dead Moon. Loomis morreu em 2016; Fred, no ano seguinte, aos 69. Desde então, Toody se tornou a principal guardiã de uma trajetória que começou muito antes de o trio existir.

Fred e Toody se conheceram em Portland em 1966, ainda adolescentes, quando ele tocava com os Weeds e ela circulava pela cena local. Casaram-se no ano seguinte e construíram uma vida em que família, trabalho e rock’n’roll acabariam se tornando indissociáveis. Enquanto criavam três filhos, tocavam pequenos negócios e atravessavam as transformações que levaram da contracultura dos anos 60 ao punk do fim dos 70, Fred passou por diferentes bandas. Toody começou a tocar baixo mais tarde e formou com ele os Rats, antes de os dois criarem o Dead Moon com Loomis, em 1987. A essa altura, já não eram jovens tentando entrar no mundo da música, mas sobreviventes dele.



Os três primeiros discos do Dead Moon
O primeiro disco, In the Graveyard, saiu em 1988. Vieram depois Unknown Passage, Defiance, Stranded in the Mystery Zone e uma sequência de álbuns que consolidou um som imediatamente reconhecível: guitarras saturadas, baixo seco, bateria reduzida ao essencial e as vozes de Fred e Toody cantando sobre solidão, desejo, fracasso, morte e sobrevivência. Não havia virtuosismo a exibir nem produção tentando esconder imperfeições. O Dead Moon soava como três pessoas tocando juntas numa sala porque, muitas vezes, era exatamente isso.
A precariedade, porém, nunca significou falta de controle. Pelo contrário. Fred e Toody criaram a Tombstone Records para lançar a própria música e levaram a independência a um grau quase literal. Gravavam em casa, montavam as capas, cuidavam da distribuição e cortavam os masters de muitos discos num velho torno de corte mono de 1954, comprado por Toody por 200 dólares como presente de aniversário para Fred. Depois de meses de reparos, a máquina voltou a funcionar. Segundo a história preservada pela família, era o mesmo equipamento usado para cortar o lendário single “Louie Louie”, dos Kingsmen, em 1963.

Hoje seria fácil chamar tudo isso de estética DIY. Para Fred e Toody, era simplesmente como as coisas funcionavam. Não havia equipe transformando precariedade em conceito, nem plano de branding em torno da lua crescente, das roupas pretas, das capas feitas à mão ou da vela acesa sobre uma garrafa no palco. Em entrevistas, Toody conta que essa identidade surgiu de forma espontânea e foi incorporando aos poucos elementos da vida da própria banda. O imaginário do Dead Moon não foi criado para representar autenticidade. Ele se tornou reconhecível porque quase não havia separação entre a banda e as pessoas que a formavam.
Enquanto isso, a menos de 300 quilômetros ao norte, outra história tomava forma. Seattle e Portland compartilhavam clubes, bandas, selos, público e uma longa tradição de rock barulhento no Noroeste dos Estados Unidos. Os Sonics e os Kingsmen tinham deixado suas marcas nos anos 60; no fim dos 70, os Wipers se tornariam referência decisiva para o punk da região. Quando o Dead Moon começou a ganhar certa notoriedade, o Green River tinha acabado de se separar, o Mudhoney estava prestes a nascer, o Soundgarden lançava seus primeiros discos e o Nirvana ainda era uma banda pequena de Aberdeen. Mais do que uma linha simples de influências, havia ali um ecossistema em formação.

Fred e Toody pertenciam a uma geração anterior à da maioria daqueles músicos, o que lhes deu uma posição curiosa na cena. Não eram contemporâneos de vinte e poucos anos disputando os mesmos espaços. Eram gente que mostrava, na prática, que era possível construir uma vida inteira em torno do rock independente. Toody resumiria mais tarde essa mudança de papel de forma simples: depois de décadas tentando manter o sonho vivo, ela e Fred tinham se tornado “os mentores, a história, a prova de que isso podia ser feito”.
Em 1991, Nevermind transformou o Nirvana em fenômeno mundial e jogou luz sobre uma cena construída durante anos longe do centro da indústria. De repente, guitarras sujas, camisas de flanela, selos independentes e pequenas casas de show do Noroeste americano viraram matéria-prima para uma corrida das grandes gravadoras. Bandas que pouco antes tocavam para algumas centenas de pessoas passaram a vender milhões de discos. Fred já tinha passado dos 40, e ele e Toody acumulavam décadas de bandas, empregos, filhos, lojas, turnês e discos independentes. O Dead Moon continuou sendo o Dead Moon: uma banda cultuada, circulando abaixo do radar da grande indústria e construindo um público próprio nos Estados Unidos e, sobretudo, na Europa. Um obituário de Fred resumiria anos depois esse lugar estranho: enquanto a corrida do ouro do grunge transformava seus vizinhos mais jovens em estrelas, o Dead Moon seguia sendo um segredo muito mal guardado do Noroeste americano.
É nesse ponto que sua influência sobre aquela geração fica mais interessante. Ela não se mede apenas procurando riffs do Dead Moon em músicas do Nirvana ou tentando descobrir quem ouviu qual disco primeiro. Estava também na demonstração de uma possibilidade: gravar sem pedir licença, lançar sem esperar por uma gravadora, excursionar sem grande estrutura e continuar fazendo isso por anos. Numa cultura que logo transformaria a independência em produto, Fred e Toody tinham feito dela uma forma de sobrevivência.

O reconhecimento veio dos próprios músicos. O Mudhoney manteve uma relação próxima com o casal, integrantes da geração de Seattle frequentavam seus shows, e o Pearl Jam incorporou “It’s O.K.” ao repertório ao vivo, com Eddie Vedder levando a música do Dead Moon a plateias muito maiores. Décadas depois, artistas como Ty Segall continuariam reivindicando essa linhagem. Com o passar dos anos, enquanto o Dead Moon permanecia relativamente desconhecido do grande público, crescia a lista de bandas que o apontavam como referência.
Toody sempre esteve no centro dessa história. Baixista, cantora, parceira de Fred e peça fundamental da engrenagem que fazia aquela pequena estrutura funcionar, ela passou boa parte da vida recusando a divisão convencional entre fazer música e tornar possível que ela existisse. Em entrevistas, lembra de uma rotina de mandar os filhos para a escola, trabalhar até o começo da noite, fazer o jantar, cuidar da casa e então voltar ao centro de Portland para ensaiar seis dias por semana. Após as mortes de Loomis e Fred, seguiu administrando sozinha o catálogo, o site e boa parte do legado da banda.
Há algo de simbólico, portanto, em vê-la subir de novo ao palco aos 77 anos. Antes de cada show, uma vela é acesa sobre uma garrafa de uísque. A banda se reúne ao redor dela por alguns instantes, e a chama segue queimando durante toda a apresentação. É um ritual que acompanha há décadas a mitologia particular do Dead Moon, feita de luas, túmulos, estradas, fogo e uma dose incomum de persistência. Em 31 de outubro, essa chama chega pela primeira vez à América do Sul.
O Dead Moon nunca teve o tamanho comercial das bandas que surgiram ao seu redor. Não vendeu milhões de discos, não dominou a MTV, não virou símbolo de uma geração. Talvez seja exatamente por isso que sua história continue fazendo sentido. Enquanto o grunge nasceu, explodiu e virou indústria, moda, nostalgia e, por fim, história, Fred e Toody permaneceram mais ou menos no mesmo lugar: fazendo discos porque queriam fazer discos e tocando porque era isso que sabiam fazer. Antes de o mundo descobrir o grunge, o Dead Moon já estava lá. Quando o mundo seguiu adiante, continuou lá.

Serviço:
Associação Cultural Cecília apresenta
DEAD MOON NIGHT: TOODY COLE & BANDA PELA PRIMEIRA E ÚNICA VEZ NA AMÉRICA DO SUL
Local: Cine Joia
Data: 31 de outubro (domingo), 21h
Line-up da noite: Pink Opake, Thee Dirty Rats e Dente Canino
Discotecagem : Camilla Jaded & Hiro / Mateus Mondini & Raphael Carapia
Realização: Cecília Cultural
Apoio: Cine Jóia e Porta
Arte: Rodrigo Cha
Ingressos antecipados aqui