Por que chove sempre que alguém morre?
O novo EP de NEGGS e Yangprj recupera a sonoridade intimista e reflexiva que marcou o começo da trajetória da dupla de rap piauiense
No final de agosto, diretamente de Teresina, no Piauí, NEGGS e Yangprj lançaram mais um projeto colaborativo, POR QUE CHOVE SEMPRE QUE ALGUÉM MORRE. Desde 2024, o rapper e o produtor vêm construindo uma trajetória conjunta, procurando ampliar as possibilidades do rap feito no Piauí, com muita originalidade e à partir de uma recusa de se enquadrar nos padrões do mercado.
Ao longo das cinco faixas, o EP reflete, de maneira extremamente íntima e sensível, as percepções dos artistas sobre as suas vivências, a relação com a indústria musical e com o processo de composição e de pesquisa. Referências de forró, MPB, brega, reggae e samba se misturam com as vivências locais na criação de um retrato sincero da realidade periférica em Teresina.
"Eu gosto de passar a minha forma de enxergar o mundo. Nem tudo são rosas. Nem todo mundo tá sempre feliz. As pessoas querem que eu lance algo falando que eu tô rico, porque minhas músicas estão batendo alguns números – só que não é assim que funciona. Ainda mais quando você é de fora do eixo. Eu preciso estar lançando, me movimentando, e colocando a minha verdade no bagulho." – NEGGS
Para o rapper, o projeto representa um mergulho profundo no seu interior: "desde VTML, eu abordo assuntos muito íntimos – coisas que eu não consigo conversar com ninguém, não consigo externalizar sem que seja dentro da música. Nos outros álbuns, eu tentei me afastar um pouco disso, pra não soar repetitivo. Só que eu não posso fugir de quem eu sou, dos meus pensamentos, do que eu sinto. É muito do que eu penso, das fases da vida..."


Capa e contracapa de POR QUE CHOVE SEMPRE QUE ALGUÉM MORRE
Frutos de um processo criativo muito natural, os instrumentais de Yang aprofundam as conversas iniciadas pelo rapper e transportam a energia do seu dia a dia para a sonoridade do projeto. "É o que reflete o que a gente vive aqui, e não o que as pessoas querem ouvir. Na realidade, elas precisam ouvir o que eu quero falar, transmitir. Não é essa necessidade, de certa forma rasa, das pessoas só quererem ouvir coisas legais, ritmos felizes – e nada que te faça pensar e refletir sobre o que, de fato, está acontecendo no mundo. Deitar a cabeça no travesseiro e fingir que nada está acontecendo."
O produtor, nascido em Natal, no Rio Grande do Norte, cresceu entre diversas cidades do interior do estado até chegar na capital piauiense, processo que possibilitou um contato profundo com referências musicais de diversos lugares. Os samples, quase todos de músicas brasileiras, exploram bastante os vocais das músicas, criando um conversa e dividindo o espaço com as barras de NEGGS.
"Eu queria trazer essa pegada de usar muito sample BR e muito sample vocal. Abdicar um pouco de samplear só os instrumentos, e samplear os vocais – e rimar por cima deles." – Yangprj

"'Por que chove sempre que alguém morre?' Eu acho que todo mundo que perdeu alguém já se fez essa pergunta. Eu nem sei responder – e eu acho que nem precisa de resposta. O EP é para representar aquele momento que tá só você e seus pensamentos. Lidando com problemas que você nem consegue dividir, com questionamentos iguais a esse – que nem tem resposta, mas que a gente é obrigado a se fazer." – NEGGS
O EP chegou logo depois da passagem da dupla por São Paulo, numa turnê que aproximou o trabalho com o público do sudeste e deu início a alguns diálogos. Mais do que buscarem se integrar no ecossistema do eixo RJ-SP, contam que a experiência alimentou ainda mais a vontade de construir uma trajetória independente que não dependa das pressões de mercado. A relação com o cenário é turbulenta, uma vez que eles procuram explicitar e questionar, através das suas músicas, as incoerências e os problemas da indústria musical.
"Todo mundo vai chegar na tua DM e dizer que tu é brabo, mas ninguém vai falar teu nome em nenhuma oportunidade boa. Porque os caras tão sempre no pânico de tu tomar o lugar deles", explica Yang. "Fazer música é uma parada natural pra mim. Se o bagulho desse um real, como dava há dois anos, a gente ia continuar fazendo – ia continuar sendo foda, e ninguém ia poder falar nada. É irrelevante fazer parte dessa bolha. Deixa os caras pensarem que tá fácil. A régua é diferente pro lado de cá."

Teresina é a única capital do nordeste que não tem praia, e com uma violência crescente e cada vez menos perspectiva de melhora, é difícil ser otimista. Mas NEGGS não deixa de enxergar a sua beleza, e encontra na representação verdadeira dessa realidade um potencial de mudança. "Teresina é uma cidade muito linda, apesar de ter seus problemas, que são vários. A desigualdade aqui é muito foda, como em toda capital nordestina.
Não tem praia – a cidade é banhada por dois rios, mas que nem chegam a ser pontos turísticos porque são poluídos – e é uma cidade muito violenta. Uma cidade que tá tendo uma crescente de dominação territorial de facções, o que priva muito a liberdade de um moleque de periferia. Eu tento não falar só de coisas ruins – ainda tem regiões aqui da cidade que são mais tranquilas. Mas tá ficando quase impossível de achar essas regiões.
Querendo ou não, eu falo muito de morte nas minhas músicas porque é algo que é muito constante aqui. Todos os moleques têm receio de andar em bairros diferentes, de ser confundido e acontecer alguma coisa. E eu negar isso, não colocar isso nas minhas letras, seria trair a minha verdade, a minha vivência."




Capas de VTML (2024), LIBERTADOR e LIBERTADOR PT2 (2025), e SALMO 777 (2026)
Esse discurso direto já aparecia nos primeiros sons da dupla. Vivos Traídos & Mortos Lembrados foi o primeiro passo da parceria que trouxe ao mundo, no ano passado, LIBERTADOR e LIBERTADOR PT2. O projeto nasceu com o foco voltado para uma perspectiva de libertação, de criação de um futuro melhor. As músicas foram sendo produzidas, o discurso foi se intensificando e o que era pra ser um disco acabou virando dois.
"Os jovens aqui não são livres, e às vezes eles nem sabem disso", explica NEGGS. "Libertador para mim é muito isso – ser quem você é, e defender as coisas que você gosta, acima de tudo. A paz, mesmo, acima da guerra. Para as pessoas daqui conseguirem sonhar, e correrem atrás desses sonhos. É tão difícil alguém daqui ascender – para fora de um trabalho braçal. Qualquer piauense que consegue correr atrás do seu sonho, todos os outros têm uma identificação, porque a gente sabe como é difícil. Se for preciso, você vai brigar, vai guerrear, para conseguir a liberdade e viver do seu sonho"
Mais cedo neste ano, a dupla se juntou com Donai, que também participou da turnê por São Paulo, para a construção de SALMO 777, disco colaborativo que reforça mais ainda o fluxo intensivo de produção de NEGGS e Yang. "O rap aqui é muito nichado. Fora do país tem gente que me consome mais do que onde eu nasci, é loucura. E é algo que as pessoas se identificam, para fora de território – o cara não precisa nascer aqui para se identificar com alguma coisa que eu falo", explica o rapper.
"Aqui no meu estado é uma das primeiras vezes que isso tá acontecendo – artistas de rap que tão conseguindo alcançar alguma coisa fora daqui. E é uma responsa. Eu não posso me permitir botar um pé no freio. Eu já tô pensando na próxima coisa que eu vou fazer."
As produções não param, e a expectativa com todo esse trampo é criar um modo sustentável de viver de rap sem precisar mudar de estado. "A gente espera que os projetos batam, e que as pessoas entendam que isso nunca morreu, e nunca vai morrer. O rap e o boombap não voltaram – uma rapaziada sempre esteve fazendo", conta Yang.
"Eu tenho uma esperança que a gente consiga fazer nossa parada aqui sem ter que morar em São Paulo ou no Rio. Sem ter que sair de onde a gente mora pra abrir portas que vão exigir que a gente faça um tipo de música que a gente não é.
Fazer rap daqui dá uma liberdade do caralho. Não é fácil, a gente passa dificuldades pessoais, mas graças a Deus a gente consegue ter um estúdio pra fazer tudo que a gente quer. Mas continua sendo um lugar onde não tem apoio, patrocínio. Viver de rap aqui é meio impossível, mas eu tenho esperança."
POR QUE CHOVE SEMPRE QUE ALGUÉM MORRE já está disponível em todas as plataformas digitais