Stanley Donwood ilustrou tudo que o Radiohead nunca disse
O designer é parceiro da banda há mais de 30 anos e não tem um material gráfico que saia sem passar pelas mãos dele
Em 1994, um designer recém-formado e sem dinheiro topou fotografar um boneco de treinamento hospitalar, com uma expressão entre o êxtase e a agonia, achando que aquilo seria só mais um trampo. Não imaginava que estava assinando um dos primeiros capítulos de trinta anos de trabalho contínuo, nem que aquela imagem borrada abriria caminho para montanhas distorcidas, minotauros em prantos e cidades inteiras engolidas por enchentes. Não é lá todo mundo que sabe o nome desse designer, mas muita gente já viu o que ele fez por aí.
O nome dele é Dan Rickwood, ou Stanley Donwood, pseudônimo que ele escolheu usar nos anos 90 para assinar seu trabalho. Desde 1994 ele é responsável por absolutamente toda a produção visual do Radiohead: capas, pôsteres, encartes, cenografias de turnê, o site da banda e vídeos promocionais. Já são mais de trinta anos de parceria com Thom Yorke, o que já é mais do que suficiente para dividir a posição de sexto integrante junto de Nigel Godrich, produtor do grupo.
Stanley e Yorke se conheceram na Universidade de Exeter, cursando Belas Artes e Literatura Inglesa. Yorke lembra a primeira impressão que teve de Donwood como alguém falante e visivelmente incomodado com tudo ao redor, o tipo de pessoa que ele sabia que ou detestaria pra sempre ou trabalharia junto pelo resto da vida. Acabou escolhendo a segunda opção. Depois da faculdade, os caminhos se separaram por um tempo, mas em 1994, Yorke voltou a procurá-lo para desenhar a capa do EP "My Iron Lung". Era só isso, a princípio, mas como aquele meme do “era pra ser só uma ficada”, já se vão décadas de casamento.

Para quem não pegou a referência, abri o texto falando da capa de The Bends (1995), segundo álbum de estúdio do Radiohead, e escolhi fazer isso porque em alguma medida ela fala muito sobre as escolhas criativas de Donwood: pegar um objeto ou cena banal, distorcer até que pareça outra coisa.
Para aquele primeiro projeto, ele e Yorke foram atrás de um pulmão de aço, tipo um respirador mecânico. Não encontraram nenhum, mas deram de cara com um manequim de treinamento de Reanimação Cardiopulmonar no porão de um hospital de Oxford. Filmaram aquilo em VHS, reproduziram a gravação numa televisão, fotografaram a tela e escanearam as fotos. O resultado é aquela imagem borrada, difícil de decifrar à primeira vista, que virou a primeira capa de disco inteira assinada por ele.
Esse é um padrão que volta a aparecer em trabalhos futuros, e não tô falando exatamente sobre o VHS ou o scan, mas sobre o fato dele raramente ilustrar uma música pelo lado narrativo. Ele constrói processos que geram imagens que parecem ter passado pelo mesmo tipo de distorção que as músicas do Radiohead também passaram.

Com OK Computer (1997), essa lógica ganhou outra escala. A ideia era captar a frieza de um mundo cada vez mais mediado por telas, sem cair no óbvio de desenhar computadores. Donwood escaneou uma porrada de objetos gráficos, livros escolares antigos, textos técnicos, mapas de estrada, e passou a recompor tudo digitalmente com uma mesa digitalizadora. Para ajudar, ele colocou uma regra sobre o próprio trabalho: nunca desfazer nada. Cada erro precisava ser incorporado ao desenho. O resultado é a paisagem de um viaduto rachado, e uma paleta que ele descreveu na época como "osso desbotado". Assim como a técnica, o álbum — que foi escrito durante uma fase bem depressiva de Yorke — trata de um mundo que já não pode corrigir os erros, e que segue empilhando ruído sobre ruído.
Depois veio a dupla Kid A (2000) e Amnesiac (2001), gravados na mesma época e tratados por Donwood como irmãos de temperamentos opostos. Ele costuma dizer que Kid A soava como uma ligação desesperada, enquanto a Amnesiac soava como uma mensagem deixada na secretária eletrônica. Para dar contorno e cores para essas diferenças, ele partiu para as telas pintadas à mão, e depois manipulou essas pinturas digitalmente no Photoshop, criando aquelas montanhas serrilhadas que se tornaram o símbolo gráfico do álbum.
Já Amnesiac nasceu de cadernos de anotação, mapas antigos e fotografias que Donwood tirou em Tóquio. A figura central virou um minotauro chorando, uma criatura que sofria por só se ver como um monstro, além de representar o labirinto que a cabeça de Yorke se tornou depois das sessões do Ok Computer. A edição limitada veio dentro de um livro de capa dura, pensado para parecer um objeto encontrado por acaso, algo que alguém descobriria empoeirado dentro de uma gaveta esquecida no sótão da casa. O trabalho foi tão bom que recebeu o Grammy de Melhor Design de Embalagem.






Artes desenvolvidas durante a produção do Kid A
Hail to the Thief (2003), mais uma vez, olha para os processos de composição na hora de definir como vai se manifestar visualmente. Yorke estava usando um método de composição chamado “cut-up”, no qual ele pegava trechos escritos, sorteava aleatoriamente e reorganizava para encontrar novos sentidos. Donwood encontrou correspondência andando de carro pela cidade e reparando nas placas de sinalização espalhadas. Em uma casa, ele viu um aviso de propriedade privada que ameaçava com arma quem ultrapassasse os limites do terreno, reflexo de um mundo coberto por medo e violência. Com isso em mente, a capa final virou um mosaico de palavras soltas, relacionadas à cultura ocidental da época, muito armada, contextualizada pela guerra do petróleo.
A partir de In Rainbows (2007), a paleta de Donwood começou a se abrir. O disco chegou em um momento um pouco mais otimista, que inclusive influenciou na forma em que o álbum foi lançado. Na época, a banda escolheu postar o trabalho no próprio site, e os fãs podiam escolher o preço que queriam pagar pelo material, algo inédito para bandas do tamanho do Radiohead, o que chamou a atenção da imprensa, que viu essa ação como um ataque aos modelos tradicionais da indústria fonográfica.









Artes desenvolvidas para Amnesiac, Hail to the Thief e In Rainbows
Para alinhar o trabalho gráfico e visual do álbum, Donwood passou a usar tintas, cera derretida e seringas para injetar pigmentos em superfícies que fariam os materiais se comportarem de um jeito imprevisível e de difícil controle. A explosão de cores que nasce desse processo é fascinante, como um arco-íris mesmo, mas tem um fundo meio tóxico, lembra manchas de óleo espalhadas pela rua molhada. A capa e as imagens desenvolvidas para In Rainbows comunicam uma abertura da banda para novas texturas, permitindo que cores mais quentes possam fazer parte da conversa.
Em The King of Limbs (2011), a banda leva essa abertura ainda mais longe, misturando praticamente todas as técnicas que Donwood já tinha testado até então. O resultado são formas fluidas e ramificadas, como cabelos, raízes e fungos, alternando entre tons orgânicos e uma espécie de névoa. É um trabalho que parece menos preocupado em ilustrar uma emoção específica e mais interessado em simular um ecossistema, algo vivo demais para caber numa única imagem.
Cinco anos depois, A Moon Shaped Pool (2016) chega de surpresa, e Donwood foi para o lado das performances, onde pintou uma série de telas e as deixou expostas do lado de fora do estúdio onde a banda gravava, tomando chuva e vento por dias. Só faltou o clima assinar a capa junto, já que corroeu e borrou os pigmentos metálicos até formar aquelas marmorizações líquidas que compõem a capa final. Como o disco carrega várias composições escritas anos antes, algumas dos anos 90, por exemplo, muitos ligaram o resultado ao Yorke do passado, mais triste e depressivo.






Artes desenvolvidas para The King of Limbs e A Moon Shaped Pool
É preciso dizer que o trabalho de Donwood nunca esteve limitado ao Radiohead, até porque não dá pra um designer viver só de trabalhos para uma banda que não lança discos há 10 anos. Em 2006, ele assinou a série "London Views", com quatorze gravuras em linóleo retratando marcos londrinos sendo consumidos por incêndios e enchentes, que depois viraram a arte de The Eraser (2006), o primeiro disco solo de Yorke. Essa técnica manual, mais lenta que o digital, se tornou muito presente, e aparece também em capas para o Atoms for Peace e, mais recentemente, para o The Smile.
Fora do universo musical, Donwood construiu também uma parceria com o escritor Robert Macfarlane, ilustrando livros como Holloway (2013) e Underland: A Deep Time Journey (2019). A capa do segundo é um bom exemplo de como funciona a criatividade do designer: de bate-pronto, parece um caminho entre árvores, com uma luz agradável e quente ao fundo. Mas ao explicar, Donwood diz que não se trata de uma luz reconfortante, e sim do instante exato de uma explosão nuclear, a última coisa que alguém veria antes de morrer. Ou seja, ele pega algo que parece bonito e mostra que a beleza ali é um terror disfarçado.


Em 2019, ele reuniu boa parte de seus trabalhos no livro There Will Be No Quiet, um diário de fotografias, rascunhos e anotações cobrindo mais de duas décadas de carreira. Cada capítulo é dedicado a um projeto específico, do primeiro teste até a peça final, incluindo os caminhos abandonados. Em 2025, boa parte desse material ganhou uma retrospectiva no Ashmolean Museum, em Oxford, batizada "This Is What You Get", reunindo trinta anos de trabalho, de "The Bends" até os desenhos mais recentes para o The Smile.
Olhando para essas três décadas, Donwood trocou de técnica quase a cada disco, indo da fita VHS para o tablet, da tinta e cera para modelagem 3D, da gravura para tela deixada na chuva... Para construir esses universos visuais, ele escolhe montar processos que passam pela mesma coisa que a música está passando, para que no final as duas formas de arte possam conversar. Sei que o Radiohead tem a maior parte do crédito para que suas músicas fiquem na cabeça dos fãs, mas as capas têm o peso da mão de Stanley Donwood e são tão memoráveis quanto.
