O Arquivo Nacional do RAP propõe um olhar para o rap como objeto de estudo

O projeto encabeçado por Giovanna Venâncio é composto por time 100% feminino e de todas as regiões do Brasil

O Arquivo Nacional do RAP propõe um olhar para o rap como objeto de estudo

O Arquivo Nacional do RAP é um projeto independente dedicado à documentação e ao mapeamento do rap feito no Brasil. Idealizado por Giovanna Venâncio, comunicadora, designer e pesquisadora da cultura hip hop, o Arquivo completou um ano no começo deste mês, data marcada por uma profissionalização do projeto, que cada vez mais, abrange a discussão sobre o gênero a nível nacional.

Procurando preservar a memória do rap brasileiro e facilitar a sua pesquisa, o Arquivo funciona na valorização de artistas e álbuns de rap, sempre com a preocupação de abranger a maior quantidade de territórios e dar visibilidade às cenas locais – usando o rap como objeto de pesquisa e estudo. O projeto, que também conta com a gestão de Amanda Silva, se propõe a olhar para fora do eixo RJ-SP e trabalhar para a inclusão das mulheres no rap nacional.

O Arquivo é um site independente que conta com uma plataforma de mapeamento de álbuns e artistas do rap nos 27 estados brasileiros – um espaço de pesquisa e estudo do rap nacional – além de um acervo de fotos de shows, ensaios e entrevistas com artistas. No Instagram, as entrevistas em vídeo e a cobertura de shows e festivais somam nesse ecossistema que é composto por um time exclusivamente feminino.

"O meu principal objetivo com o Arquivo sendo uma equipe totalmente feminina é mostrar para as meninas que elas podem chegar nesses lugares, ter as portas abertas e se sentirem identificadas", conta Giovanna. "O rap, infelizmente, é um ambiente muito masculinizado. Eu já entrevistei vários artistas que, quando eu entrei no camarim, era só homem, e eu ficava super desconfortável.

Eu falo isso pras meninas: 'gente, as portas vão estar fechadas pra gente, mas a gente vai arrombar essas portas.'

Porque eu sou chata, e falo pra elas – tem que ser insistente. O principal objetivo das meninas, além de amar a cultura hip hop e o rap, é trabalhar com música. A maioria são jornalistas, que querem estar na música, em grandes festivais, entrevistar grandes artistas. Eu quero proporcionar esses objetivos para elas, abrir essas portas. Proporcionar para essas meninas de diferentes estados do Brasil estarem nos lugares que elas merecem estar."

Giovanna Venâncio, idealizadora do Arquivo Nacional do RAP

Crescida em Osasco, Giovanna teve contato com a cultura hip-hop desde cedo, através das batalhas de rima da região. Com o passar do tempo, o interesse foi se estendendo para os outros elementos da cultura, até que chegou a hora de compartilhar essa pesquisa. Os conteúdos nas redes começaram em 2022, por meio do TikTok e do X, falando sobre a cena de música eletrônica. Rapidamente, migrou para o Instagram, e encontrou, no público do rap, a sua comunidade.

Mesmo com conteúdos que exploravam discos de diferentes gêneros musicais, uma questão começou a incomodar Giovanna – a limitação territorial. O Arquivo nasceu da necessidade de mapear e falar sobre o rap nacional sob uma nova ótica. Desde que teve contato com o som de Neggs, rapper de Teresina, por indicação do VIANA PROD, pensou: "tem um mano lá no Piauí, produzindo e cantando uma coisa muito fora da curva do que todo mundo tá fazendo no Brasil e ninguém sabe. Quantos manos não existem no Brasil que fazem isso?". A escolha da designer foi criar um site, procurando dialogar tanto com a galera mais nova como o público mais velho do rap – resgatando a lógica de pesquisa e de acervo, mesmo.

O Arquivo nasce com a intenção de documentar os discos de rap mirando um objetivo maior de contribuir para um fortalecimento da cultura hip-hop no Brasil para que ela se desenvolva de maneira autônoma em todos os cantos do país. Com uma equipe em constante expansão, o projeto conta com colaboradoras de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Alagoas, Paraná e Santa Catarina, construindo uma rede a nível nacional, incentivando as movimentações em cada uma das regiões, como conta Giovanna:

"O artista não precisa sair do seu território para conquistar alguma coisa em uma cidade grande só porque tem essa ilusão – de ir para São Paulo para ganhar dinheiro. De fato você vai ganhar um dinheiro, vai começar a colar nos lugares. Só que eu sempre falo para as meninas – não fiquem só no eixo, vamos falar de outros territórios, de outras coisas.

Com essa nova fase, a gente tá indo nessa expansão. Vai ter Espírito Santo, Paraíba, álbuns e artistas de diversos lugares, porque isso é uma uma regra. A gente tá falando do nacional, a gente não pode esquecer dos outros estados. Nesse próximo ano, a gente vai realmente entrar nesses lugares, produzir materiais do nosso jeito, com o que a gente gosta, com o que a gente vê.

O objetivo agora é trazer essa discussão do rap, assunto que tá na boca do povo – mas sem levar a polêmica como assunto, porque o nosso objetivo é o rap como objeto de estudo."
Clique na imagem para acessar o mapa do Arquivo

O crescimento do Arquivo acontece junto com um crescimento do próprio rap na indústria da música – conquistando um espaço cada vez maior e mais influente no mainstream. "Eu vejo que o rap, nos últimos 5 anos, tá se movimentando para um lugar de expansão. Não vai chegar a ser um pop ou sertanejo, obviamente, mas tá chegando esse lugar aqui no Brasil em que a gente consegue estar em grandes festivais. A Duquesa já tocou em quase todos os festivais, a NandaTsunami também agora fez uma turnê.

Para realmente explodir essa bolha, como outros gêneros no Brasil, eu vejo que a gente precisa sempre estar levando o nome, ocupando lugares, entrevistando. E trazendo muito a nossa visão sobre isso, porque é uma galera nova que tá crescendo, assistindo e consumindo.

O rap nunca vai parar de existir, então a gente tem que fazer esse manejo para que ele continue existindo e sendo consumido pelas novas gerações", explica Giovanna, que ressalta a importância das rappers nesse momento histórico: "Agora a gente tá vendo uma era totalmente feminina, as mulheres estão arrebentando a cena nos últimos três anos.

A gente chegou nesse momento importantíssimo, porque as artistas estão conquistando esse espaço, e consequentemente a gente conquista esse espaço no backstage – elas fazem esse movimento lá na frente para que outras meninas também consigam estar."

O Arquivo não é mais uma página de rap do Instagram – se trata de um ecossistema construído coletivamente que toma o rap para si e apresenta uma nova forma de se relacionar com ele. O time, além de Giovanna e Amanda, conta hoje com a presença de Carol Almeida, Mari Galvinha, Mirella Morais, Agnes Mendes, Yohanna Delfino, Mariana Guimarães, Dâm Victorelli, Luana Costa, Isabela Rodrigues, Madu Cardoso, Ana Flávia Camargo e Lavínia Calze, e promete continuar crescendo e fortalecendo a discussão do rap.

"Eu acho que a maior dificuldade, hoje, com o Arquivo é porque as pessoas associam muito ele como uma página de rap. Eu aprendo todos os dias – é essa questão do conhecimento. Quaisquer conselhos ou ideias que elas têm são super bem-vindas aqui. Eu sempre vou dar esse suporte para elas. Porque isso é uma escola, elas estão aprendendo também. Tem muitas meninas que ainda estão cursando jornalismo, e veem o Arquivo como uma oportunidade de abrir portas para elas, conseguirem o espaço na cena.

Eu acho que o maior desafio, como em todo projeto independente, é o financeiro. Eu queria muito proporcionar diversas coisas para as meninas, mas isso me impede muito. A manutenção do site também é uma questão financeira, e é uma função exclusivamente minha.

O meu real objetivo com o Arquivo é esse – levar o rap como objeto de estudo. As pessoas pesquisam sobre os artistas, sobre os estados. Nós não somos só uma página de rap, a gente tem esse conteúdo muito rico que você pode entrar, ler, pesquisar, aprender.

E as matérias têm tido um papel fundamental dentro do site, porque é onde a gente consegue mais abertura dentro do Google. Nesse próximo ano é justamente produzir esse material e fazer as meninas conquistarem as coisas. Meu principal objetivo agora com o Arquivo, além de comandar, é fazer essa gestão para captar recursos, conseguir conquistar mais coisas e todo mundo conhecer de fato o projeto", finaliza Giovanna.

Arquivo Nacional do RAP | O mapa do RAP Brasileiro
Do Norte ao Sul, o Arquivo Nacional do RAP é um projeto cultural de pesquisa e mapeamento do RAP Nacional.

Acesse o Arquivo Nacional do RAP para conhecer mais sobre o projeto e sobre o rap ao redor do país


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