DIIV: alternativa a quê?

Em entrevista à ISMO, a banda fala sobre ZIRP!, capitalismo, A. G. Cook e a tentativa de inventar uma nova música alternativa

DIIV: alternativa a quê?
DIIV por Louie Kovatch

O que ainda significa fazer música alternativa em 2026? Alternativa ao mainstream? À música pop? À indústria? Ao algoritmo? Ou “alternative” se tornou apenas mais um gênero dentro das mesmas plataformas, festivais e prateleiras que um dia pretendia desafiar?

A pergunta está no centro de ZIRP!, novo álbum do DIIV, mesmo quando a banda parece mais interessada em se divertir do que em oferecer respostas. O título vem de Zero Interest Rate Policy, política de taxa de juros zero, expressão do vocabulário econômico transformada aqui em nome de disco com cara de onomatopeia de história em quadrinhos. Na capa, a bandeira americana se desfaz enquanto suas listras despencam como um gráfico do mercado financeiro. Ao redor dela, ternos, crachás, slogans corporativos, cartões de visita e um novo gênero musical inventada pela própria banda: New Alternative.

Tudo isso poderia sugerir um disco ainda mais sombrio que Frog in Boiling Water, de 2024, trabalho denso e claustrofóbico no qual o DIIV já olhava para o capitalismo tardio, a degradação do mundo e a sensação de impotência diante de sistemas grandes demais para serem enfrentados individualmente. Mas ZIRP! parte de muitos dos mesmos incômodos para chegar a um lugar quase oposto. “A vida é difícil, ZIRP! é fácil”, anuncia a banda no release. Desta vez, a palavra que aparece repetidamente é outra: diversão.

Para chegar lá, o DIIV convidou A. G. Cook, fundador da PC Music e colaborador de nomes como Charli xcx, Caroline Polachek e Beyoncé para ocupar um lugar improvável atrás da mesa de produção. O encontro ajudou a banda a trocar parte do perfeccionismo e do controle que marcaram seus discos anteriores por velocidade, experimentação e desapego. Se Frog in Boiling Water acabou carregando para dentro das músicas a claustrofobia de seu próprio processo de criação, ZIRP! tenta recuperar algo mais elementar: a empolgação que fez quatro amigos quererem estar em uma banda em primeiro lugar.

Primeiro single lançado de ZIRP!

Essa mudança também chega ao palco. Antes mesmo do lançamento do álbum, marcado para 30 de outubro, o DIIV começa a apresentar essa nova fase ao vivo em São Paulo, onde toca no Balaclava Fest ao lado de nomes como Blonde Redhead, Dry Cleaning, Beach Fossils, Wednesday e High Vis. O festival marca o primeiro show da turnê de ZIRP! e também o primeiro teste de uma abordagem mais direta: depois da produção visual grandiosa de Frog, descrita por Zachary Cole Smith como quase “uma atração da Disney”, a ideia agora é diminuir as distrações e voltar a colocar a própria banda no centro do palco.

Foi às vésperas dessa apresentação, a convite do Balaclava Fest, que conversamos por videoconferência com Cole e Ben Newman sobre ZIRP!, A. G. Cook, capitalismo, plataformas de streaming, a apropriação da estética anticorporativa e uma palavra que talvez tenha perdido tanto o significado que precise ser inventada novamente.

A conversa começa, porém, de um jeito bem menos complicado: duas crianças, uma câmera e uma única instrução, se divertir.

Primeiro, parabéns. O clipe de “Kid” acabou de sair. Adorei o fato de ele ter sido filmado inteiramente do ponto de vista de uma criança e de terem sido justamente o Roy, filho do Cole, e um amigo dele que ficaram atrás da câmera. De quem foi essa ideia e quanto controle criativo vocês realmente deram a eles durante as filmagens?

Cole: Fizemos esse vídeo realmente em cima da hora, então tive essa ideia de algo que conseguiríamos fazer muito rápido e não esperava que fosse ficar tão bom. Demos às crianças controle criativo total. Elas nunca tinham usado a câmera antes e a gente simplesmente disse: “Ei, apontem a câmera para a gente quando conseguirem e façam o que quiserem”. E elas ficaram correndo de um lado para o outro no estúdio, se divertindo…

Eu vi alguns brinquedos espalhados pelo estúdio também. Parecia que eles tavam se divertido bastante fazendo aquilo…

Cole: Sim, exatamente. Esse era meio que o objetivo, sabe? Manter a coisa divertida. E foi. A gente se divertiu muito fazendo o vídeo.

Set de gravação do clipe do single Kid. Foto por Jaxon Whittington

Antes de entrarmos no disco: vocês anunciaram ZIRP! enviando esses misteriosos cartões de visita com um número de telefone. De quem foi essa ideia e qual foi a reação mais engraçada ou estranha que receberam de alguém que realmente ligou?

Cole: A gente queria que o disco fosse anunciado pelos fãs, sabe? Em vez de simplesmente soltar um press release ou alguma coisa assim. Então foi bem divertido ver aquilo se espalhando organicamente pela internet. Infelizmente, não tínhamos correio de voz, então as pessoas não podiam deixar nenhuma mensagem. Elas só conseguiam ouvir uns 20 segundos de uma pequena mensagem ao telefone ou um trecho de uma das músicas. A ideia era fazer alguma coisa simples, envolvendo os fãs, para que eles tivessem acesso a algumas informações antes de todo mundo.

A capa do disco mostra uma bandeira americana literalmente se desfazendo, com as listras se transformando no que parece ser um gráfico do mercado financeiro despencando. Mas a mensagem em torno do lançamento do disco parece quase o oposto: “A vida é dura, ZIRP! é fácil”, “este disco é divertido”. Então ZIRP! é um disco sobre colapso ou sobre encontrar uma maneira de rir em meio a ele? Ou pode ser as duas coisas?

Cole: Sim, definitivamente as duas coisas. Acho que o humor é um mecanismo muito comum para lidar com as coisas. O título do disco é, ao mesmo tempo, essa palavra com uma cara muito divertida, meio história em quadrinhos, mas que carrega um significado sinistro, Zero Interest Rate Policy (política de taxa de juros zero). E a capa é bastante lúdica, mas também sombria e sinistra. Acho que são as duas coisas ao mesmo tempo.

Capa de ZIRP!, com arte assinada coletivamente por Jacob Hulmston, Travis Stearns, Edward Marshall Shenk, A. G. Cook e DIIV

Vocês têm chamado este disco de “New Alternative”. A palavra “alternative” já significou algo que existia fora do mainstream, até que acabou sendo apropriada pelo próprio mainstream. O que “alternative” realmente significa para o DIIV em 2026? Alternativa a quê?

Cole: [Risos] É isso. Você acertou. Alternativa a quê? Porque, como você disse, o alternative foi tão apropriado e corporativizado, enquanto a música pop se tornou tão experimental e avançou tanto… A pergunta “alternativa a quê?” está, na verdade, contida na própria palavra, sabe? “Alternativa” pressupõe uma alternativa a alguma coisa.

Então acho que o New Alternative é uma alternativa ao “alternative”, e pode incluir música pop. Mas acho que cabe aos jornalistas ou ao público descobrir o que mais se encaixa nesse “New Alternative”. O que a gente queria era meio que fincar uma bandeira e dizer: “Esse termo perdeu o significado, então vamos simplesmente criar alguma coisa nova”.

A. G. Cook é um nome que as pessoas associam muito mais ao hyperpop e à PC Music, não exatamente ao universo do DIIV. Como essa parceria aconteceu? E será que havia alguma coisa que ele enxergava no DIIV que vocês mesmos ainda não tinham percebido?

Cole: É uma pergunta interessante. Para mim, sempre pareceu que essa poderia ser uma parceria fértil porque acho que tanto nós quanto ele somos capazes de fazer músicas com sonoridades muito diferentes, e queríamos fazer algo eclético e divertido. Não sei exatamente o que ele enxergou na gente que nós mesmos não enxergávamos…

Ben: Chegamos com demos que já tinham vários sons legais que havíamos criado e acho que, muitas vezes, um produtor iria querer regravar algumas dessas coisas que estavam nas demos. Mas ele realmente não tinha medo de simplesmente pegar um som e transformá-lo em alguma coisa que ele gostasse mais.

Não sei se ele enxergou alguma coisa que a gente não enxergava, mas ele trabalha de uma maneira diferente da nossa. Então foi muito legal vê lo simplesmente mudar completamente alguma coisa, sem medo, e aquilo funcionar e acabar entrando na versão final.

Cole: Sim. A gente pode ser muito apegado e perfeccionista com as coisas, então foi divertido ter essa pessoa por quem tudo precisava passar e que tinha o poder de mudar completamente qualquer ideia que já existisse.

Isso fez com que trabalhássemos muito mais rápido e abraçássemos muito mais o lado divertido de fazer música, sem nos preocuparmos tanto com como aquilo acabaria soando, porque tudo estava sujeito a mudar.

Frog in Boiling Water e ZIRP! parecem olhar para alguns dos mesmos problemas, mas reagem a eles de maneiras completamente diferentes. Frog soa mais claustrofóbico e denso; ZIRP! parece mais lúdico, polido e, às vezes, quase absurdo. O que mudou entre os dois discos?

Cole: Acho que você acertou completamente. É basicamente isso que dizemos quando falamos sobre as diferenças entre os dois discos. E eu amo Frog, sabe? Mas ele meio que soa como foi a sensação de fazê-lo. Foi realmente bastante claustrofóbico.

E, fazendo este disco, queríamos abraçar novamente as razões pelas quais começamos a fazer música: a diversão e a empolgação. Acho que essa abordagem acaba transparecendo bastante na música. Foi um processo de lembrar qual era o papel da banda nas nossas vidas no começo e depois perceber o quanto ficamos atolados em Frog. Então foi também uma tentativa de dar uma espécie de reset.

Esta será a terceira vez de vocês no Brasil. Vocês tocaram em São Paulo e Recife em 2017 e depois voltaram a São Paulo em 2024. Quando pensam na banda que veio para cá pela primeira vez, quase dez anos atrás, ainda parece ser a mesma banda?

Ben: Sim. Quer dizer, é estranho porque, de certa maneira, isso é praticamente tudo o que conhecemos durante todo esse tempo, então ainda parece algo muito confortável. Mas, obviamente, nós mudamos, o mundo mudou, muita coisa aconteceu.

Então não, não é a mesma banda. Mas sinto que entramos muito facilmente nesse contexto de turnê. É algo que sabemos fazer bem. Nesse sentido, para mim, não parece tão diferente de como era naquela época.

DIIV em show da tournê de Frog

Vocês estão começando toda a turnê de ZIRP! aqui em São Paulo, antes de tocar em casa no Brooklyn e quase um mês antes do lançamento do disco. Por que começar essa nova era no Brasil? E como é estrear um show completamente novo diante de um público que ainda nem ouviu o álbum?

Cole: O show de Frog era muito… sabe, quase como uma atração da Disney, com todos aqueles visuais malucos e aquele universo realmente claustrofóbico. E acho que o que queremos experimentar neste show no Brasil e na turnê que vamos fazer com o Interpol é simplesmente ser uma banda no palco, sabe? Tocar as músicas sem depender de todas essas outras coisas acontecendo ao mesmo tempo.

Vamos ver como funciona, mas acho que se tem uma coisa que nós, como pessoas, sabemos fazer muito bem é tocar músicas do DIIV. [Risos] Então acho que isso talvez mereça um pouco menos de distração. Queremos focar um pouco mais. Vamos ver se damos conta sem aquela TV gigante passando coisas atrás da gente.

Há muita coisa em ZIRP! sobre o capitalismo transformar tudo em produto, inclusive a música. Mas vocês também estão lançando um disco através das mesmas plataformas e sistemas que estão criticando. Essa contradição é frustrante ou estar dentro do próprio sistema é parte do que torna essa crítica interessante?

Cole: A gente quer que as pessoas ouçam a música, sabe o que quero dizer? Não dá para simplesmente tocar dentro de uma caverna no meio do nada para ninguém ouvir. Obviamente, eu adoraria que existisse uma biblioteca pública de streaming de música e que o sistema fosse completamente diferente, mas infelizmente não acho que nós, como uma única banda, tenhamos o poder de mudar isso.

Ben: Acho que isso é até engraçado dentro desse contexto. O bobo da corte precisa estar dentro da corte. Estamos tirando sarro dessa coisa, mas isso não significa que vamos fazer um voto de pobreza ou algo assim. Estamos meio que dentro da máquina dizendo: “Olha como essa porra é estúpida. Vocês não estão vendo?”

E acho que obviamente as pessoas estão vendo. E, como o Cole disse, claro que preferiríamos não alimentar a máquina de jeito nenhum. Mas acho que, independentemente do trabalho que você faça, de alguma maneira você está alimentando a máquina. Existem contradições, com certeza.

Cole: Sim. Temos os ternos, temos os slogans corporativos, temos o New Alternative, temos o branding. É algo com que queremos brincar bastante porque acho que a estética anticorporativa foi tão apropriada por aquilo que chamamos de “alternative” que simplesmente reproduzi-la começa a parecer quase um gesto automático.

Então pareceu divertido subverter isso mais uma vez, sabe? Virar o jogo de novo.

Última pergunta, para alguém que nunca ouviu DIIV, vocês têm uma frase para convencê lo a ouvir ZIRP!. O que diriam?

Cole: Um elevator pitch? [Risos] Tipo… imagine rock, só que bom.

Ben: É, é muito bom. A gente promete.

Cole: Quer dizer… “o gênero New Alternative para o século 21”. Esse é meio que o nosso resumo em uma frase.

ZIRP! tá chegando no dia 30/10, mas você pode ouvir antes ao vivo no Balaclava Fest

ISMO
Cultura em movimento

Assine nossa newsletter e receba
as últimas notícias em 1ª mão!

Assine agora