Arnaldo Batista é o ponto comum entre gerações em novo projeto de releituras

7.8 reúne artistas renomados e independentes para celebrar os 78 anos de um dos nomes mais importantes da música brasileira

Arnaldo Batista é o ponto comum entre gerações em novo projeto de releituras
Arte por Ste Marino sobre a obra de Rogério Puhl

Um músico e compositor de 78 anos, mais de 60 artistas de diferentes lugares do Brasil, e nenhum contrato, gravadora ou verba de marketing amarrando ninguém a nada. Só vontade. O resultado é o Arnaldo Baptista 7.8 – Canções Inesquecíveis Revisitadas, que chegou às plataformas de streaming hoje, 4 de setembro, e que talvez seja o retrato mais honesto que já se fez da música independente brasileira nos últimos anos.

Organizadas em quatro coletâneas, batizadas de Cobre, Sunny, Pink e Jeans, nomes tirados das cores da capa, e três single, as 56 faixas são assinadas por nomes como Sandra Sá, Zé Ramalho, Boogarins, OTTOPAPI, Exclusive os Cabides, Bufo Borealis, Chinaina e dezenas de outros artistas que aparecem juntos em um mesmo projeto.

Um detalhe muito importante é que nenhuma dessas releituras é dos Mutantes. Todo o repertório vem da obra solo de Arnaldo, aquela parte da carreira que sem dúvidas influenciou muita gente de gerações diferentes, mas que nunca foi reconhecida ou lembrada na mesma proporção. O projeto nasceu então pra dar conta dessa injustiça.

Sonia Rosa Maia, jornalista e uma das responsáveis pela direção e coordenação do 7.8, conta que o movimento cresceu meio sem controle. Começaram a chegar gravações de diferentes lugares e, quando percebeu, já tinham mais de 60 artistas trabalhando ao mesmo tempo sobre o mesmo universo musical, e tudo isso sem convite aberto. Se tivesse saído chamada pública nas redes, o número de participantes com certeza teria sido bem maior.

De certa forma, ninguém entrou no projeto para cumprir compromisso formal. Cada artista escolheu a própria música, gravou do jeito que quis, e lançou como single independente. Arnaldo é a conexão entre todo mundo, e o resultado fala sobre reverência e principalmente sobre influência, que impactou gente de gerações e trabalhos muito diferentes entre si.

Como estamos falando de artistas com carreiras diferentes entre si, nomes tão grandes quanto o do próprio Arnaldo, e outros que ainda estão construindo os degraus do próprio nome, a ideia é que estejam “todos juntos reunidos numa pessoa só”, sem hierarquia, como diz Sonia. Isso aparece na escolha dos títulos dos álbuns, por exemplo, que não trazem destaque principal para nenhum deles, nem tem faixa principal ou artista de capa. O espirito é coletivo.

A estratégia de lançamento também não tem muita hierarquia e, em vez de concentrar a divulgação num perfil ou canal único, cada artista é um ponto de amplificação do projeto, levando públicos diferentes a se cruzarem e se conhecerem. Vamos combinar que reunir 60 vozes para depois empurrar todo mundo pro mesmo lugar, seria meio contraditório.

O jornalista Luiz Cesar Pimentel, que assina o texto de lançamento e também gravou uma faixa, resume algo que talvez explique o projeto melhor que qualquer número: uma parte significativa de quem foi aos shows do Arnaldo na década passada, ou fala sobre a obra dele hoje nas redes sociais, nem tinha nascido quando os discos que entraram pra história saíram. É uma galera que chegou por indicação, por ouvir em casa com os pais, ou até algoritmos de streaming, sei lá. Mas com certeza não foi por nostalgia.

7.8 é o registro de um legado que ainda está em movimento, agora reinterpretado por gente que trabalhou diretamente com Arnaldo, e outros que nem o viram surgir. Ao todo, são as 56 faixas em uma organização sem destaque individual que dão visibilidade ao grande artista, claro, mas também à uma cena independente que segue inovando e alimentando o futuro e o agora da música brasileira.


ISMO
Cultura em movimento

Assine nossa newsletter e receba
as últimas notícias em 1ª mão!

Assine agora