Os bastidores da coleção entre CLASS e adidas
Um papo sobre o processo de apresentar um Brasil mais complexo sob a ótica de uma marca do ABC Paulista
A foto de um caminhão-baú, pintado com os logos da adidas e da CLASS juntos, foi suficiente para viralizar em perfis de streetwear e comportamento, deixando todo mundo de orelha em pé. Poucos dias depois, estava confirmada a collab entre as duas marcas. Um Megaride S2 e uma F50 Spider foram os modelos escolhidos como protagonistas para uma campanha que teve muita história e representa um Brasil diferente dos estereótipos.
Aqui na ISMO já falamos sobre o projeto e o que ele representa, mas também tivemos a oportunidade de trocar uma ideia com o Eric e a Rafaela, fundadores e diretores criativos da CLASS, para entender um pouco sobre os bastidores e processos criativos para que um projeto tão grande chegasse às ruas.
Para começar, há quanto tempo vocês estão desenhando essa collab com a adidas e como surgiram as primeiras conversas sobre o projeto?
Eric Cesar: Acho que faz mais de um ano desde que começou o primeiro contato da adidas com a CLASS.
Rafaela Sayuri: Eles chegaram com esse convite e ficamos super animados quando descobrimos quais eram as silhuetas. Logo começamos a criar um moodboard do que queríamos passar.
Eric Cesar: Eu acho que o processo foi muito sobre criar um universo além do tênis. A gente não quis ir num conceito somente focado no calçado, e sim na conexão de vários elementos.




Elementos histórico estão entre as referências
E qual foi o primeiro movimento depois do convite?
Eric Cesar: A gente começou a montar um moodboard, a jogar uma salada de frutas ali de coisas que na teoria não fariam sentido juntas. Se você pegar o primeiro moodboard do tênis e ver o resultado final, naturalmente ele tem a cara da campanha, tá ligado? A gente pegou desde personagens e campanhas de videogame dos anos 90 e anos 2000, referências de arquitetura, de mobiliário… A ideia era fazer um tênis que tivesse as cores do Brasil de uma forma ressignificada pela ótica da Class. A gente fez um estudo para trazer algo um pouco mais fechado e passar um Brasil mais melancólico, mais complexo do que a visão que tem de fora, né, que a gente é só alegre.
E pensando no produto físico (o Megaride S2 e a F50), como foi o desafio de escolher materiais em parceria com a equipe global da Alemanha?
Rafaela Sayuri: A gente fez muita pesquisa em arquivos da adidas. Estudamos modelos antigos, como a linha Porsche Design, para entender o que comportava num tênis em relação a materiais, texturas e tratamentos. Tinha o desafio linguístico, a distância e a dificuldade de explicar online o que a gente queria, usando termos muito específicos de materiais em inglês.
Eric Cesar: Deixamos claro que queríamos materiais de altíssima qualidade, desde couro até um mesh premium. Recebemos os primeiros samples e vieram muito diferentes do que estávamos esperando, ficamos em choque. O problema é que a gente tinha pouco tempo e só duas rodadas de envio de amostras. Se errasse na segunda tentativa, já era, teria que lançar daquele jeito. Começamos a fazer mockups em 3D para tentar explicar para eles e, por sorte e muito trampo, a segunda versão chegou igualzinha ao que a gente esperava. Senti que eles confiaram totalmente em nós.






Esboços do personagem Nox, por Saulo Amoroso
Acho que todo mundo ficou impressionado com os produtos, mas o Nox se tornou o grande protagonista da campanha visual. O que esse personagem representa e como surgiu a ideia de criar um mascote?
Rafaela Sayuri: Ele surgiu de referências de mascotes da Copa do Mundo e mascotes de futebol dos anos 90. Foi uma forma de criar um personagem que pudesse personificar toda a ideia.
Eric Cesar: O Nox é carismático, mas tem hora que ele tem uma maldade no olhar, ele tem uma malandragem, não é um personagem só fofinho. É uma brincadeira com o homem cordial, mostrando que a persona do brasileiro é complexa.
Pô, e ainda é um gato preto, né?! Tem um lance da malandragem, da rua…
Eric Cesar: Tem esse lance, mano! Eu falei que se o Brasil perder, não é culpa nossa, porque gato preto não dá azar. Ele é das ruas, tem a sagacidade, resolve o problema, ele se vira. Eu acho que o Nox passa essa vibe.
E o que mais alimenta esse universo visual da campanha?
Eric Cesar: A gente quis criar uma dimensão paralela, de festividades da Copa do Mundo, onde a CLASS e a adidas já fazem parte da cultura. A ideia da colaboração está no muro de uma oficina, em um pipa que tá no céu, em uma carretilha, em um baralho, ela tá em um caminhão que tá andando por São Paulo. Então é como se já fizesse parte da cultura.


Rascunhos iniciais das duas silhuetas, o F50 Spider e o Megaride S2
ISMO: No design final dos calçados, existe algum detalhe ou easter egg que vocês tenham curtido de ter emplacado?
Eric Cesar: A palmilha. Não dá para ver direito de fora, mas tem a arte de um pau-brasil cortado. A extração do pau-brasil foi feita porque ele servia de corante para tingir roupas da realeza na Europa, ou seja, acabaram com o nosso país para pintar roupa. A origem da sociedade brasileira vem dessa base de exploração, então achamos importante colocar esse simbolismo escondido ali dentro. É só para quem perceber.
ISMO: A campanha visual de vocês fala muito de cultura local e rua. Como foi a construção desse "universo paralelo" todo gravado no ABC?
Eric Araujo: O casting inteiro, tanto as pessoas que participaram quanto os atores, são pessoas muito próximas. O diretor é nosso amigo íntimo, a Rafaela pilotou o carro no vídeo, o zelador de um prédio em que ela morou participou, e até o Rodrigo TX (skatista) é quem veste a fantasia de Nox. Gravamos em lugares icônicos de Santo André, na rua em que cresci e na periferia onde a CLASS surgiu. Tudo é real.
Rafaela Sayuri: Inclusive, fomos eu e o Eric que assinamos todo o figurino do elenco durante as gravações. Optar por esses objetos reais foi quase uma resposta ao fato de que hoje em dia muitas coisas são feitas por IA (Inteligência Artificial). A gente quis ir muito pelo físico, para provar que fizemos cada objeto pensado.
Ver esses elementos manuais, pintadas, me lembrou muito da tradição de pintar ruas durante a copa do mundo. Isso é muito coisa nossa, né?!
Eric Cesar: O Brasil tem essa cultura, só que não é só felicidade que a gente traz no filme. O Brasil tem muitas chagas e a gente quis brincar com isso, com essa complexidade do que é ser brasileiro.






O tênis acabou de chegar nas lojas, a promessa é de sold out, mas a história já ficou marcada pra sempre. Quem colar na loja da adidas, em Pinheiros, ainda tem a oportunidade de ver de perto todos os elementos criados para compor o universo brasileiro de CLASS.