Trajetória e legado de Laudelina de Campos Mello são tema de exposição no IMS

A exposição reúne materiais históricos e obras de cerca de 40 artistas que se conectam com a pioneira da luta pelas domésticas no Brasil.

Trajetória e legado de Laudelina de Campos Mello são tema de exposição no IMS
Autoria não identificada, Laudelina na Posse da Diretoria da Associação das Empregadas Domésticas de Campinas, Campinas, São Paulo, 05 de julho de 1962

Alguns temas são incontornáveis quando olhamos para a cultura brasileira, e fato é que boa parte da nossa estética foi construída sob posição de sobrevivência. O samba e o funk são exemplos que carregam nas melodias e batidas, histórias de desigualdade, e isso se desenrola para as artes visuais e os movimentos sociais, que muitas vezes trabalham juntos.

É bem nesse cruzamento que o Instituto Moreira Salles Paulista apresenta, a partir de amanhã, 16 de maio, a exposição "Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello."

Se o nome de Laudelina (1904 - 1991) não ressoa pra muito gente, inclusive para mim antes de ser apresentado à essa pauta, a exposição vem para amplificar a sua história e voz. Apesar de normalmente ser apresentada como pioneira na luta das trabalhadoras domésticas do Brasil, Laudelina não se reduz a imagem de uma sindicalista no sentido mais estrito. 

Renata Sampaio, uma das curadoras responsáveis pela exposição, me acompanhou em uma incursão pelos bastidores da montagem e definiu a personagem principal como alguém maior do que a articuladora política: “Na pesquisa a gente descobriu que Laudelina fez muita coisa. Ela tinha uma ideia de luta antirracista muito completa, muito holística no sentido do todo”.

Quem entrar no IMS Paulista nos próximos meses, dificilmente vai passar batido pela experiência proposta pelo time curatorial. Os visitantes serão pegos pela temática desde o primeiro andar, através de intervenções e estatísticas espalhadas por todo o prédio.

Dividida em 7 núcleos, a mostra é um soco no estômago, mas dado com muita elegância e inteligência. No Brasil, o trabalho do cuidado atravessa a vida de praticamente todo mundo e talvez seja, até hoje, uma das relações mais próximas que temos das lógicas escravocratas.

Para brigar com esse passado ainda presente, artistas contemporâneos tiveram seus trabalhos comissionados pela exposição, e logo de cara Mariana Maia assina uma das de maior impacto, convidando o público a “lavar a roupa suja da História.

“Para a gente é bem importante que ao chegar a primeira coisa que você veja é que essa exposição quer, um pouco, lavar a roupa suja da História. A nossa vontade maior é que trabalhadoras domésticas venham pra cá e se sintam acolhidas, pertencentes e valorizadas,” - Renata Sampaio.

Mariana Maia “lavar a roupa suja da História

Em diálogo com Laudelina, artistas como Rosana Paulino e Dayane Tropicaos se juntam a mais de 40 nomes. Até mesmo uma pintura histórica de Jean-Baptiste Debret está na mostra, mas com uma sensibilidade gigante. “A gente não quer que nenhuma trabalhadora entre aqui e se violente novamente. É como a gente denuncia, mas nunca trazendo a violência de novo”, reforça Renata. Logo ao lado de Debret, Gê Viana ressignifica e subverte essa iconografia.

Um dos núcleos mais legais da mostra, foca na sociabilidade que Laudelina promovia. Ela entendeu cedo que o lazer também é um direito político. O trabalhador doméstico, historicamente isolado nos quartinhos de empregada, precisava de um refugio. E Laudelina construiu isso na pista de dança.

Foi ela a responsável por organizar os luxuosos bailes do Pérola Negra, em Campinas, esgotando as lantejoulas e outros adereços na cidade, sempre que anunciava uma edição. Ela considerava fundamental criar oportunidades para que pessoas negras pudessem se expressar pela roupa, cabelos, música e dança.

Impossível não pensar na entrevista de Mano Brown falando sobre seu álbum Boogie Naipe, que celebra 10 anos em 2026. Muita gente não entendeu os motivos do rapper fazer um álbum dançante, mas ele disse que sempre quis fazer os seus dançarem, e que isso também é revolucionário, tanto quanto as letras cruas dos Racionais. É reivindicação de humanidade.

Na exposição, pude ver uma carta escrita pela escritora Raquel de Queiroz, para Laudelina, na qual se percebe as tensões raciais do período, mas que não necessariamente estão resolvidas. Ao recusar um convite de ir ao baile Pérola Negra, não só usou o argumento do “racismo reverso”, como acusava a comunidade negra brasileira de querer se assemelhar ao negro americano. 

No mesmo tema do baile, há também um núcleo que celebra a cozinha e tira a ideia de servidão do ato de preparar os alimentos. Dona de uma feijoada lendária, feita para arrecadar fundos para suas atividades, Laudelina também mostrava que um corpo, para fazer a diferença, precisa estar alimentado.

Entre os aspectos mais interessantes revelados por Renata, está a informação de que muitos dos artistas selecionados, tanto contemporâneos como os de época, são, foram ou compartilham laços de sangue com trabalhadoras domésticas. Estamos falando de filhos, sobrinhos e netos que usam sua arte para lavar a roupa suja e reconhecer o esforço dessas pessoas que permitiram a seus descendentes pegar em câmeras e pincéis.

Isso está muito forte nas obras de Maria Auxiliadora e Madalena Santos Reinbolt, ex-domésticas que alcançaram na arte (as vezes não reconhecida em vida) sua versão mais genial. 

Essas múltiplas atuações de Laudelina ajudaram a criar um mito sobre sua imagem. Um dos únicos itens pessoais dela expostos é uma farda condecorada, a qual usou ao servir o exército durante a Segunda Guerra Mundial. Chegam a rolar histórias de espionagem, tiro trocado e operações anti-aéreas na orla de Santos. Verdades ou não, fato é que sua vida foi dedicada à inúmeras causas, e se encerrou anos antes de ver um dos principais resultados de sua luta: a PEC das Domésticas de 2013.

Em cartaz até o dia 22 de novembro, Dignidade e luta entrega arte de nível alto e encontra um Brasil que trabalha e trabalha muito. Coloca no centro de uma das maiores instituições culturais do país, figuras que geralmente estao à margem. Aliás, algo descoberto durante a pesquisa e que acrescenta peso à exposição, é que Laudelina trabalhou na casa dos Moreira Salles, em Poços de Caudas, ainda na adolescência.

Para o final de semana de abertura vai rolar debate com Phelipe Rezende, Raquel Barreto e a própria Renata Sampaio, além de uma performance de Mariana Maia que lavará a calçada do IMS Paulista para dar boas vindas a Laudelina.

Aqui fica não só o convite como a convocação para que se possa ver a vida e o trabalho de Laudelina presente em cada pincelada e foto. Certeza que ao sair de lá, você perceberá que ela também vive em cada feijoada bem temperada e em cada passo de dança nos bailes do nosso Brasil.

SERVIÇO

Exposição Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello

Abertura: 16 de maio
Visitação: Até 22 de novembro
6º andar | IMS Paulista
Entrada gratuita

Dayane Tropicaos, Toda Doméstica Tem Um Pouco de Dandara, Contagem, Minas Gerais, 2023, Técnica mista, stencil, bordado

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