Daniel Ferro e o músico além da música

Diretor do documentário “Andar na Pedra”, que conta a história dos Raimundos, Daniel mescla música e história com o lado humano de seus personagens

Daniel Ferro e o músico além da música
Daniel Ferro gravando o Dead Fish (foto: arquivo pessoal)

Na Globoplay, um dos documentários mais assistidos nos últimos meses foi o Andar na Pedra - A História dos Raimundos, contando a história da banda de Brasília que ficou famosa nos anos 90 no Brasil. Um doc que, para quem assiste, conta uma história além dos hits da banda, buscando as situações mais interessantes e marcantes da trajetória do quarteto. 

Esse recorte vem da cabeça do Daniel Ferro, diretor e documentarista, que através da busca pelo lado humano, como ele mesmo diz, da vida de cada artista enfocado, consegue ir além e e encontrar o que faz eles serem pessoas singulares. 

Junto o Daniel tem uma trajetória também na música, um diploma de jornalismo e uma veia criativa bem humanizada. Dono da Ferrorama, baterista do Emoponto, jornalista de campo e documentarista de rock, hardcore, funk e sertanejo (e o que mais tiver de gênero pra ser contadas histórias), a gente bateu um papo com ele, mas sem falar só de Raimundos - a gente também quis conhecer seu lado humano. 


Daniel, como começa sua relação com a música? Você toca, já teve banda, quando você se apaixonou por música? Me conta um pouco sobre isso. 

É curiosa essa pergunta porque fazendo o documentário dos Raimundos eu sempre fazia essa pergunta para iniciar o processo das entrevistas. É uma pergunta que abre possibilidades infinitas, você literalmente pode ir para qualquer porta. 

Eu sou de 1979 e minhas primeiras memórias de música é no meio dos ano 80. Até revendo o filme do Michael Jackson e com essa onda dele agora, comecei a revisitar esse meu início - meu primeiro contato com música foi o Michael Jackson, entendendo também o que é o show business. Depois acompanhei toda aquela repercussão negativa que rolou com ele… Sempre fiquei muito fascinado com a história por trás da música e o caso do MJ foi isso, meu primeiro grande ídolo da música e depois ele ficou muito mal visto por todas as acusações que ele teve, ficou manchado porque a mídia foi bastante em cima dele, contando só um lado da história e que agora, com a quantidade de informação que temos disponíveis, a gente acaba bombardeado com o outro lado da informação.

O Daniel estava naquele Woodstock histórico de 99 (foto: arquivo pessoal)

Faço esse paralelo porque hoje percebo que o jornalismo e a música sempre foram presentes na minha vida e eu não percebia isso. 

Na adolescência descobri o punk rock, Nirvana, pegando o fim da geração grunge, acabei tendo banda com 17 anos, toquei bateria, tive a banda Emoponto, até assinamos com gravadora no começo dos anos 2000… Então entrei nesse meio de entender como funciona gravadora, produtoras, rádio, não é bem só ter uma banda e tocar. 

Com o advento das câmeras serem acessíveis, comecei a filmar a minha própria banda. Então minha carreira foi do interesse da música até o jornalismo, as coisas foram caminhando paralelamente. Hoje, como pai, vejo que os interesses estão lá desde o início. Quando eu tinha oito anos ouvindo Michael Jackson, eu queria saber mais que a música, tinha interesse pelas histórias que andavam em paralelo. 

Teus documentários seguem uma linha bem hardcoriana. Qual a sua relação com o hardcore? 

Acho que desde quando fui mordido pelo vírus do Nirvana e do punk rock, comecei a ler coisas junto. Com o Kurt Cobain e o Dave Grohl, comecei a ler, entender a ética por trás do punk e me dediquei com aquilo, com a ideia do Faça Você Mesmo. Até a Ferrorama, a empresa que tenho hoje, o nome no CNPJ é DIY Videos. Então é algo que sempre me aproximei naturalmente nessa gravidade, desse universo, toda essa questão da ética, não só a música. 

Obviamente por ter banda e minha banda estar ali no rolê, comecei a me envolver com selos independentes. O Dead Fish foi uma banda que abriu minha cabeça, participei, enquanto espectador próximo, dos lançamentos dos discos, fui um dos primeiros a comprar cada disco novo deles, então aquilo foi abrindo minha cabeça para uma cena nacional, estadual, local… Por exemplo, no Rio de Janeiro, vi o Los Hermanos nascer, eles eram meus colegas de faculdade. Então gravitacionei por esse mundo naturalmente e o hardcore pautou minha vida nesse início, até pelo Faça Você Mesmo, e esse fazer me ensinou muito. 

Lembro que aluguei uma câmera e fiquei a madrugada inteira tentando fazer funcionar - no dia seguinte eu estava filmando! Assim fiz o meu primeiro filme, o embrião da Ferrorama, um making of do CD da Fresno. Eu fiz primeiro, apresentei e depois a gravadora comprou e me pagou (risos).

Quando você vai pro filme, você já vai pensando em fazer coisas relacionadas com a música? Qual foi sua motivação pra ir pra área de audiovisual?

Acho que não, mas ao mesmo tempo, eu sabia o que eu não queria. Eu cheguei a trabalhar na Globo, fui da equipe do Galvão Bueno e lembro de uma situação que foi um divisor de águas na minha mente: em uma São Silvestre, no fim do ano, estava subindo a rua para levar umas fitas pro departamento de jornalismo, geral em festa e eu estava um pouco de saco cheio. Eu tive esse pensamento “eu não quero isso, não quero ser esse jornalista tradicional”. Era legal? Era muito, mas não era pra mim. Aí quando tive a chance de ver que minha banda ia se profissionalizar, eu virei o cara de banda. De 2001 a 2006, mais ou menos, vivi de banda, vendendo shows, fazendo turnês, independente, vendendo merch… Aí comecei a gravitacionar para essa coisa de documentar minha banda em foto e vídeo - e vi que eu tinha certo talento e comecei a ir por aí. 

Não foi algo pensado tipo “vou trabalhar com jornalismo musical”, embora já tenha estagiado em uma revista chamada Mix Music, de música eletrônica, e cheguei a entrevistar o Kraftwerk, com 18 ou 19 anos, eu sentando pra entrevistar os caras em inglês. Não foi algo pensado, mas é aquilo, você acaba seguindo sua realidade, ela moldando seu caminho. 

Trocando uma ideia com a banda Jimmy Eat World (foto: arquivo pessoal)

Dub Echoes e 90 dias com o Catra são produções que fogem do rock e do hardcore. Como foi fazer essas duas?

Não foi diferente de documentar rock ou hardcore, por exemplo, até porque é isso que gosto de fazer. Cheguei a trabalhar com artistas de Sertanejo… Não querendo ser leviano, mas entre muitas aspas, eu não estudo muito meu entrevistado, claro que sei seus hits e tudo mais, mas meu viés não é só sobre a carreira da pessoa, é sobre o ponto de vista humano das pessoas. O que o hardcore e o Kurt Cobain me ensinaram foi que não existe só o artista, existe a pessoa! 

A Elza Soares nas lentes do Daniel (foto: arquivo pessoal)

O que o Michael Jackson me ensina hoje, 15 anos depois da sua morte, é que existe uma pessoa, totalmente má interpretada à época, alguém que venderam um personagem. Quando eu vou entrevistar a Ivete Sangalo ou o Catra, meu approach foi na pessoa. Para entender o Nirvana, entendi o Kurt Cobain. Para entender o Raimundos, eu entendi os quatro individualmente. Meu approach é esse, quem é o Catra, quem é a Ivete? 

O Dub Echoes já foi um pouco diferente porque a gente contou a história do gênero, então a montagem é um pouco diferente. Já o documentário do Catra, que eu fui o editor, viralizou aquela fala dele sobre os filhos, que ele vai enumerando e até esquece quantos filhos tinha (risos). Eu poderia ter montado um documentário de estrada, de quem ele fez ou foi, mas quando você aborda o lado humano, aí que é a graça! 

O 90 Dias com Catra foi editado pelo Daniel e dirigido por Rafael Mellin

E os clipes? Como é fazer clipes hoje, pensando em internet, pensando em engajamento na internet. Sei que você é mais velho, viveu intensamente a MTV, a gente era muito apegado aos clipes. Mas como é hoje trabalhar com o vídeo na música? 

O clipe hoje tem até mais importância do que antes. Os clipes antigamente, serviam para apresentar o artista, para botar uma cara no encarte, ver em movimento aquele cara que tá na capa do disco. Hoje o clipe chega antes da música, talvez você nem tenha ouvido a música, mas viu um corte no Instagram. Você viu o visual e pensou “gostei disso aqui” e às vezes a música nem é tão boa, mas a coisa viraliza por causa do visual. 

Eu conversava bastante com o Rafael Kent, diretor que cresceu comigo, e que hoje não está mais entre a gente, a gente falava que era difícil fazer clipes antigamente, as gravadoras em momento de crise não apostavam mais nisso. A gente ainda tinha a MTV como lugar dos clipes, mas o Youtube não tinha essa força toda. A gente fazia clipe numa época que não era importante fazer – mas era muito maneiro. 

A gente teve uns videoclipes que bombaram, tipo o Infinito, da Fresno, que mandamos uma câmera pro espaço e foi super bem no VMB daquele ano. Hoje fazer videoclipe é mais fácil porque os artistas, empresários e gravadoras dão mais valor. Hoje é impossível lançar uma música sem videoclipe, o que era normal até 15 anos atrás. Hoje é importante o vídeo, o visualizer, tudo isso, o visual acompanha muito a música. 

Eu até estou voltando para o videoclipe, era um lugar estranho, mas hoje é força total de novo. 

Os caras mandaram uma câmera pro espaço, bicho

Como é seu processo criativo, desde a ideia de fazer um doc até de fato começar a filmar? 

Não sei se meu projeto criativo tem uma “cara”... Acho que o diretor tem que ter uma identidade, além dos seus projetos. O doc dos Raimundos, dirigido pelo Daniel Ferro, teve essa cara, e se fosse dirigido por outra pessoa, teria outra cara. Os fatos não mudam, mas a abordagem é diferente, assim como os livros. Eu li bastante coisa diferente dos artistas que gosto e não tem um livro perfeito – eles são complementares. 

O diretor tem que ser seu estilo, senão ele só está realizando. A direção é o meu olhar. Óbvio que tem a particularidade de caso a caso, do acesso que o artista vai te dar, mas tem também meu olhar nisso tudo. Talvez eu não consiga sempre o mesmo acesso que tive com o Raimundos, por exemplo, mas a identidade sempre vai ter. Eu faço questão disso, então meu processo criativo parte da minha identidade. 

Quais são suas maiores influências, em termos de documentários. Aquele doc que você fala “nossa, eu queria fazer um doc igual a esse”.

O documentário do Ramones, End of the Century. É um doc que eu adoro! Me influenciou demais, porque se você olha o documentário dos Raimundos, é curioso, porque eles foram influenciados pelo Ramones e o documentário foi influenciado por um doc deles. 

Esse documentário foi muito honesto, abordando relações fragilizadas, tipo o Joey morreu sem falar com o Johnny direito, sabe? É muito triste, duro como fã pra assistir, mas terminei o documentário achando a banda mais genial ainda. Hoje, olhando, o documentário não é bonito, mas é muito honesto e por isso sobrevive ao teste do tempo. Esse me influenciou demais.

E clipe?

O Thriller, do Michael Jackson, sempre vai ser o auge do que significa clipe. Ele engaja, é eterno, é criativo, é perfeito. A versão extendida, o short film, como o Michael falava. 

Esse clipe abre novas gerações, mostrei pro meu filho e ele pirou. Eu li uma frase que talvez o Michael seja o único artista que os fãs ainda não nasceram, e com meu filho foi isso! A porta de entrada foi o clipe. 

O Smooth Criminal, tirado do Moonwalker, é absurdamente perfeito, luz, fotografia, arte… Esses são os que eu gosto! Eu não sou um cara que fez muito clipe com coreografia, mas esses clipes do MJ são excelentes.

Existe uma preocupação sua de ficar preso ao cenário musical nessa questão audiovisual?

Eu sou produtor além da Ferrorama e recebo convites para trabalhar em outras coisas e não tem problema nenhum (risos). Eu sou um diretor que gosto de contar histórias. Um ponto alto da minha carreira foi a abordagem que tivemos no Rock in Rio, em que contei o festival “no chão”, sem ser uma coisa institucional - virou pílulas documentais que a gente usava na programação. O próprio Rock in Rio chegou junto através dessa abordagem que era o meu jeito de enxergar o evento. Um festival que acontecia com histórias reais. Uma história humana. 

Se eu tiver a chance de fazer um documentário sobre qualquer coisa, eu vou querer contar histórias. Lembro que entrevistei o Ronaldo antes da Copa de 2002 e foi muito legal, porque apesar de eu ter minhas anotações, eu consegui imprimir a história. Minha abordagem é humana e talvez seja o grande trunfo para a geração futura, que vai lidar com roteiros feitos com IA, porque o nosso grande trunfo é a humanidade, entender as nuances humanas. 


ISMO
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