Korsain e Ecoalaize misturam vivência, bass music e hardcore

JAHJAH BARS, EP colaborativo lançado pela Deriva Records, resgata a estética das mixtapes e mistura grime, dubstep, hardcore, metal e punk rock

Korsain e Ecoalaize misturam vivência, bass music e hardcore
Fotos: Leo Velozo

Na última quarta-feira, 16/09, Korsain e Ecoalaize lançaram o EP JAHJAH BARS, pela Deriva Records. Aproximando dubstep e grime com hardcore, metal e punk rock, o projeto nasceu da vontade de fazer uma música que não fosse de plástico, livre de fórmulas e das pressões mercadológicas.

Concentrando experiências e pesquisas de uma amizade de mais de dez anos, o trabalho nasceu do cruzamento da bass music com a atitude de banda de garagem, resgatando o formato das mixtapes – com faixas curtas, sensivelmente interligadas e uma estrutura fora dos padrões da indústria musical. Produzidas entre São Paulo e Assis, as músicas nasceram de maneira natural e descontraída, quase como um exercício de externalizar os pensamentos e percepções sobre a cena, a indústria e as vivências.

"Eu já entendi que o meu bagulho é mais sobre fazer a parada que eu gosto – porque se fosse pra ganhar dinheiro, mesmo, eu já estaria fazendo outra coisa", conta Korsain, produtor natural de Assis, no interior de São Paulo, que é referência na cena de dubstep e bass music no Brasil e mundo afora. "Foi literalmente nadar contra a maré. Nada foi feito tentando deixar uma mixagem limpona, algo que a mídia pede, que os dispositivos vão reproduzir melhor – cagamos pra isso. E não é um desafio, porque a gente sempre fez assim."

Capa de JAHJAH BARS

"De tanto trocar ideia sobre o mercado fonográfico e olhar a merda que é a música hoje, a gente falou: 'vamos fazer um bagulho como se fosse uma banda de garagem, de amigos'", explica Ecoalaize, artista que constrói uma trajetória de mais de dez anos a partir do encontro entre reggae, rap, dancehall, bass music e cultura sound system. "Tem um monte de fita errada que as pessoas esqueceram – passaram muito pano. Eu faço questão de citar isso de uma forma lúdica, também. Falar os bagulhos sem pudor, sem filtro. Vamos falar do que a gente quer."

"MEMA FITA E EU", um half time que vira um metal, abre os caminhos do EP que não se propõe a seguir uma estrutura tradicional, com uma ordem crescente de intensidade, e brinca com essas expectativas. Na sequência, um interlúdio, que poderia ser a introdução, simula uma transmissão de rádio que incorpora personagens e brincadeiras internas entre o produtor e o MC. A terceira faixa dá nome ao disco e explora o dubstep quebrando para o hardcore – resgatando as origens do movimento e trabalhando com distorções, modulações e bateria. "NUNCA TE VI" foi construída em colaboração com o tecladista Gabriel Lujaro e existe num lugar comum entre dubstep, r&b e grime, explorando, entre outras coisas, a questão das redes sociais e da internet.

"Já que assim que é o padrão, então vamos fazer tudo ao contrário. Essa aqui era pra ser a última? Vai ser a primeira. Veio nesse momento em que as músicas tão curtas – essa ideia mercadológica do TikTok, de consumo rápido. A gente vai tentar jogar com esse padrão de fazer um som curto, realmente, mas então vamos fazer dois sons em um só." – Korsain

As barras ácidas e pontuais de Ecoalaize escancaram a previsibilidade e superficialidade do mercado da música, resgatando as suas vivências e recuperando a tradição do movimento soundsystem. Esse olhar profundo para a música contemporânea e a vontade de fazer algo totalmente oposto ao que tem sido produzido de maneira massiva coloca em JAHJAH BARS um potencial de abrir discussões e tensionar ideias na bass music e no rap.

"Não me siga nas redes sociais, eu faço som, não faço mídia. É mais sobre fazer e viver do que sobre postar e falar.

Pra mim, tá faltando caneta. Chega até a ser engraçado – que você fazer um bagulho diferente, hoje, é você fazer uma música que fala a verdade, que fala uma parada que realmente faz parte da sua vida. Essa que foi a ideia – fazer um bagulho que fala o que a gente vive, que expressa a nossa pesquisa. Sem filtro, sem bloqueios, com a real troca. Os meus últimos lançamentos são tudo reggae, boombap, mas a ideia que eu dou é a mesma – oreiada.

Eu sou do reggae – soundsystem, vinil, raggamuffin, essa é minha onda. Tem várias outras coisas que eu gosto de ouvir, dubstep pra caralho, mas a minha onda, a minha vivência na escrita, é o new roots – Alborosie, Damian Marley, Capleton, Sizzla, que também são as referências dos caras do grime. É teoria da conspiração, é falar um pouco de verdade, um pouco de vivência, um pouco da sua visão. Porque a escrita na música parou de ser sobre visão e passou a ser sobre contar história.

A bass music sempre foi um bagulho urbano, de maloqueiro, de vivência – por mais que sempre esteve em vários lugares conceituados, hypados. Chame como quiser – dubstep, grime – eu chamo de third world grime. É o grime do terceiro mundo. A gente falou: 'se a gente for fazer uma parada que a gente goste, vai ser bass music.' Não tem como fugir, porque a gente ama o bagulho – mas que vá pra onde for", conta Ecoalaize.

Contracapa de JAHJAH BARS

A energia da banda de garagem surge de maneira natural na colaboração, resgatando as origens dos artistas e os aprendizados adquiridos ao longo das suas trajetórias. Recentemente, Korsain saiu numa tour pelo Sul do país com ANTCONSTANTINO, Bruno Kroz e Starkenoten, para tocar grime e dubstep em vinil, e enxerga essas movimentações como uma nova geração da escola do faça você mesmo. "Eu já cruzo outros estilos, né? Eu acabo pegando tudo isso e somo numa parada – seja em questão sonora, de atitude ou de vivência. A gente é as novas bandas de hardcore. O que a gente fez ali, de juntar os doidos no carro, enfiar os cases de disco – nessa atitude, eu sinto que a gente bebeu dessa fonte do hardcore, do faça você mesmo.

A gente vai tirando dessas outras escolas – e ajuda até a perceber o que tá em volta, até pra poder compor. Toda essa bagagem que eu já tive de hardcore, do emo, do reggae, com banda também – tudo isso soma, não só na forma de produzir música, mas na forma de viver."

Ecoalaize ressalta a importância da descontração e da naturalidade estarem envolvidas no processo: "Tentar fazer um bagulho divertido, mesmo. Fazer sessão de estúdio como era – você chegar, trocar um papo, tomar uma água, comer um bagulho. Curtir aquilo, sentir prazer em fazer, e sentir que você tá fazendo uma parada real e sincera. Um bagulho que você vai se orgulhar, ao mesmo tempo que se superar como artista."

A importância da pesquisa aparece ao longo de todo o discurso e direcionamento do projeto, que resgata e ativa a história e tradição dos movimentos musicais. Mas antes, como ponto focal do EP, está a vivência, a experiência na rua, no underground. "É a vivência em primeiro lugar – seja você estando no epicentro do bagulho ou não", conta Korsain. "Eu moro em Assis, cidade de 100.000 habitantes que é tomada por coronelismo, sertanejo e funk. Eu vivia o bagulho aqui do meu jeito – tinha a minha meia dúzia de amigos que piravam no bagulho e a gente ficava ali. Fazia evento, tava pra rua movimentando.

É um bagulho que, na hora que você compreende, tudo muda. Você começa a entender, porque você sai um pouco só do seu eu. O hardcore me ensinou muito isso – é muito nós. O rap também. A partir do momento que você entende o cenário como ele é, você vê que o jogo é diferente. Pra mim, tá muito ligado a isso – vida, vivência real, o lado humano do bagulho. Prezo muito por isso."

"A vivência faz parte da pesquisa, né? A pesquisa da galera hoje é só a internet. Como artista, a gente tem a obrigação de ter consciência. A arte tem que ter um conceito, um princípio, uma ideia – senão é entretenimento, não é arte. E ninguém tá falando que isso é um problema, mas não vamos normatizar, não vamos descer a régua." – Ecoalaize

Para acompanhar a parte musical e ressaltar ainda mais essa importância da vivência, o audiovisual, produzido por Ecoalaize, conta com diversas imagens de mais de 15 anos de arquivo, além do EP inteiro mixado em formato de mixtape, olhando de todas as maneiras possíveis para as referências desses movimentos underground e resgatando a sua essência. "A maior referência é fanzine de punk – loucura, doideira, viagem e liberdade. Tá tudo muito engessado – os mesmos plug-ins, mesmos timbres. Gostamos muito do que a galera faz na Europa, mas a gente também quer fazer a nossa parada. Não temos preocupação nenhuma com que isso seja algo que vá ter milhões de visualizações", acrescenta o MC.

O audiovisual conta com o EP na íntegra, em formato de mixtape

O trabalho é o segundo lançamento da Deriva Records, selo independente de música eletrônica de São Paulo que tem trabalhado nas intersecções entre o legado e a vanguarda da bass music nacional. Korsain valoriza a troca entre gerações e acredita que essas aproximações são a própria essência do que mantém o ecossistema do underground: "É interessante até pra gente entender o que a molecada gosta, o que eles tão ouvindo. Eu acho que vai ser um prato cheio pra gente, de conseguir destilar e entender a geração nova. Por mais que a gente esteja há mais tempo, a gente também faz parte da geração nova, a gente tá ativo."

"Os caras tão ali criando um uma label, fazendo festas, se conectando, produzindo, investindo e criando estrutura pra aquilo acontecer. Os moleques têm idade pra serem meus filhos, e tão curtindo o trampo que eu tô fazendo", acrescenta Ecoalaize, que acredita na força do faça você mesmo como forma de resistir à indústria musical e fazer música de verdade."Eu aprendi muito com esse movimento do hardcore, do punk, a questão do antifa, do antiracismo. Eu fui crescendo, vendo esses movimentos acontecerem – e toda a arte, a música, o graffiti, girava em cima do faça você mesmo, de ser vanguarda, contracultura. E hoje, parece que as pessoas só pegaram a parte da mídia de tudo – é essa onda do fake na música."

"O hardcore é um bagulho universal – no quesito do faça com o que você tem, crie um cenário, faça sua rede de apoio. Tem muito a ver com esse consenso de cenário – o famoso fazer pela cena. Eu aprendi isso no hardcore", finaliza Korsain.

"Ganhar dinheiro não é um bagulho errado, mas, quando você tá no início de um cenário, não pode ser o prato principal – ainda mais falando de hardcore, grime, dubstep, punk rock.

Eu queria que todo mundo do underground, que trabalha com arte, ganhasse dinheiro. Isso tudo é por descaso do governo, por isso ninguém é valorizado, e por isso que a gente paga pra tocar a maioria das vezes. E não vai ser por causa disso que o bagulho vai deixar de de ser feito – é muito mais forte que isso.

A geração nova vem, e com ela, várias soluções, e também vários problemas. É um ciclo, isso nunca vai acabar. E se for pra alguém ganhar dinheiro com isso, que seja nós."

Ouça JAHJAH BARS, já disponível nas plataformas digitais


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