O Inumanos falou de monstros e robôs no Rio do começo do século

O grupo formado por DJ Babão e MC Aori trazia uma linguagem audiovisual de histórias contadas por quadrinhos, fliperamas e vivências nas ruas do Rio de Janeiro

O Inumanos falou de monstros e robôs no Rio do começo do século

O ano era 2006 e você ligava a MTV para conhecer novos artistas. Dentro do Yo!, programa comandado pelo Thaíde na época, um clipe se destacava: o Polegar Opositor, do Inumanos, grupo carioca composto pelo DJ Babão e o MC Aori. Tudo ali chamava atenção: letras que iam além da dialética de carros e bling bling, robôs brigando pelo controle da cidade, samples que brincavam com o futuro… O Polegar Opositor tinha um lado mais “nerd” que pegou muita gente pelo ouvido. 

Aqui na ISMO, a gente vem falando de rap abstrato, e falar do Inumanos é contar uma parte essencial dessa história. O grupo foi um dos maiores expoentes brasileiros, em áudio e vídeo, do que estava sendo feito no rap que não se limitava a festas e dinheiro. Nascidos dentro de um fliperama, o grupo não poderia falar de outra coisa senão aquilo que viviam, liam, ouviam e conversavam. 

O Volume 10, álbum que tinha a música que estou falando desde o começo do texto, saiu em 2004 e outras músicas foram trabalhadas em clipe. Esse é um dos álbuns brasileiros de rap mais bem rankeados em sites, obtendo um status cult, mas muitas vezes esquecido nas festas. O que a gente faz hoje aqui, em um papo com o Aori, é relembrar de uma época em que o Inumanos tocava em todos os discman e MP3 e ressaltar sua importância dentro do rap brasileiro. 


Me conta um pouco sobre a criação do Inumanos (vc e Dj Babão) qual era a ideia desse grupo e o que tinha de diferente dos demais? 

O Inumanos foi a síntese da cultura que a gente vivia. A gente se conheceu jogando fliperama, gostava de quadrinhos, anime, cultura Do It Yourself, ouvíamos rock, cultura de rua carioca, o funk, o rap. Então tem um turbilhão de coisas misturadas que faz essa identidade sólida. 

O nosso primeiro álbum, o Volume X, foi muito maturado, foi muito processado, ficamos anos fazendo esse álbum, uns 5 anos, criando, pensando, executando… Até ele virar CD de fato. E mesmo assim, depois disso, ainda demorou pra chegar na mão das pessoas. Nós somos artistas que pegamos a digitalização da música, a virada do Napster. A gente e a galera do Quinto Andar pensávamos “o que a gente faz com as músicas?” e eles já pensavam “joga na internet!”. A gente já estava contratado por um selo, fazendo um disco, com orçamento, uma galera produzindo, a master pela galera do Instituto, o selo Bizarre Music bancou a master e a prensagem… A gente ficou pensando se botava ou não na internet, eles botaram, a gente não. A música deles deu um boom, nossa música passou por um caminho mais árduo. 

O Volume X é um clássico atemporal

Então até o CD chegar na mão das pessoas, mil cópias só, demorou muito e ele chegou muito apurado, por isso que é um disco muito conciso, uma graphic novel, ele conta uma história, um mundo descrito de forma muito concisa. 

A gente gostava de música mesmo, pensava nas coisas de forma muito profundamente, detalhes das coisas, as peças, a capa, as músicas… Um jeito muito louco de fazer música, muita colagem de sample pelo Babão, trechos de filmes e tudo mais. Passou pelo Pedrinho (Pedro Garcia, baterista do Planet Hemp), que foi a primeira pessoa que pensou em nos gravar. Tem uma camada de produção muito densa.

Existe até uma história engraçada, que a gente chegava pra gravar e ele perguntava: “é rima ou é letra?”. Se fosse rima, era só mandar a rima, se fosse letra, era algo mais intelectual (risos). Isso já foi apurando a parada! A gente finalizou o processo com o Damien Seth. A master foi com a galera do Instituto, com o Guguinha. 

Conto essa história porque hoje em dia todo esse processo é muito mais rápido, o cara já entra no rap e em 6 meses já lança single ou álbum e se virar, virou. A galera já tem um som que entra no padrão. O Inumanos não tinha padrão, não tinha uma expectativa, a gente ouvia Company Flow, sabe? A própria música “Brutal Crew”, o sample é uma versão ralentada lá em baixo, que era algo muito mais “alegre”. Não tinha muito parâmetro, não tinha essa expectativa comercial como tem hoje, de estourar ou ganhar uma grana. 

Naquela época, era uma coisa meio dos “loucos”, os loucos iam apoiar e ia ganhar uma certa grana, mas não tinha um mercado. Hoje a galera já faz um som seguindo um caminho comercial, fazendo músicas pensando em bombar. 

2002, Inumanos (foto: Matias Maxx)

Qual o cenário que você encontrou no rap quando vocês decidiram formar o grupo? O que estava rolando e o que estava em alta?

O padrão nessa época era o Racionais, esse era o que fazia sucesso, principalmente aqui no Rio. A gente tinha aqui o MV Bill. Para nós não fazia sentido porque éramos os caras do centro da cidade, não tínhamos muito a vivência de favela. Depois até conheci o Bill e vi como o hip hop se organizava, mas no Inumanos eu trouxe as letras pro meu universo, sabe? 

O De La Soul, Mos Def, Talib Kweli falavam mais a minha língua. Eu não precisava fingir ser gangsta para fazer rap, sabe? Nessa época, fim dos anos 2000, começo andar mais com o D2 (Marcelo) e ele estava fazendo o “Eu Tiro É Onda”, que é mais um rap underground, e aí a gente começa a conhecer mais essa vertente. 

O D2 ia bastante pra gringa e voltava sempre carregado de discos, fitas etc. A gente colava com ele e ficava absorvendo essas influências. Com tudo isso, a gente já veio nessa roupagem de acreditar nesse rap underground, que estava despontando nos Estados Unidos como uma alternativa ao rap gangsta. 

Foto: Elza Cohen

O Rio De Janeiro dos anos 2000 teve uma cena muito legal de pessoas falando sobre outras coisas no rap, algumas mais divertidas, outras mais cotidianas, pessoas fazendo rimas inteligentes… Como era a cena do Rio pra esse rolê que vocês estavam envolvidos? 

Em São Paulo existia uma linhagem “Racionais”, um sistema nesse sentido. Aqui no Rio era mais freestyle, literalmente. O primeiro ponto de encontro pra geral foi a Festa Zoeira, da Elza Cohen, que inclusive era a criadora do festival SuperDemo, que lançou uma galera muito grande da música. Ela fazia essa festa Zoeira numa sinuca e reunia uma galera, que começou a virar uma coisa de rap underground. Eu, Marechal, Shaolin, Mahal, Manu e Luana do Anfetaminas, De Leve depois, a galera d’O Bando… A gente colava lá.

Crew forte nos anos 2000 no Rio (foto: arquivo Aori)

Aqui valia tudo, de influências tipo Wu-Tang e Mobb Deep virou o Esquadrão Zona Norte e O Bando; Company Flow influenciou a gente, o Marechal… O Lyricist Lounge, em Nova Iorque, influenciou a festa Hip Hop Rio, essa coisa do microfone aberto e DJ. Essa coisa do DJ produzindo, as turntables, garimpo de discos, essa coisa toda ficou muito forte no começo dos anos 2000 e influenciou muita gente a ir para um lado mais underground da música também na produção. 

Tinha um intercâmbio também com a galera de São Paulo, Kamau, Emicida… A gente fazia o transporte das fitas, tudo era físico, a gente viajava e trocava informações através dos rolês de skate e do rap. Ter acesso a conhecimento na minha época era questão de sobrevivência. 

Eu lembro do clipe de Polegar Opositor. O quão importante foi fazer esse clipe? Tipo, pra mim o visual no rap alternativo também contava uma história grande da parada. Como foi pra vocês a repercussão do clipe? 

Foi crucial na nossa carreira esse clipe. Esse foi um grande diferencial dos Inumanos: o audiovisual. A gente fala do Polegar Opositor, mas a gente tem que falar de todos os clipes, porque todos foram importantes pra gente de alguma forma. O Polegar Opositor foi proposta do Rafael Grampá, que depois foi desenhar o Batman, olha que foda, e Cadu Macedo dirigindo. Esse foi um contato através do Farinha, da Bizarre Music. 

Esse clipe fez uma diferença total na nossa carreira, porque a mídia da época era a MTV. Aliás, o instagram da época era a MTV (risos), pra você ser visto, tinha que estar no YO!. A gente sempre foi forte no audiovisual com essa estética do Faça Você Mesmo. Antes do Polegar tem o Brutal Crew que é do Apavoramento SoundSystem, do falecido João Rebelo; depois tem o Monstros da L.A.P.A, do Matias Maxx, que é um filme sludge; depois o Equipamento Precário, do Tonho Quinta Feira; aí vem o Polegar Opositor. 

Os clipes nos ajudaram pra caralho a espalhar a mensagem e ajudou também no jeito que a galera entendia a gente, sacou? Isso ajudava a contar essas histórias que eram tão abstratas, colar imagens junto… Eu sou muito grato por essa galera que acreditou nas músicas – a gente não tinha nenhum puto, como sempre, pra fazer esses clipes (risos), mas a galera comprou a ideia e nos ajudou a contar essas histórias. 

Me corrija se eu estiver errado, mas vejo que na época teve uma resistência fudida pro rap alternativo no Brasil, mas que logo depois ele foi se disseminando de outras formas. O que eu quero dizer, é que vocês pavimentaram uma rua que talvez o Emicida, por exemplo, só um exemplo, depois caminhou com mais sucesso midiático. Como você vê isso?

Muito disso é porque a gente ficou preso nesse loop da indústria. Quando a gente foi lançar o primeiro álbum, um trampo foda, a indústria quebrou. No dia mesmo, apareceu NAPSTER e toda galera cool, que comprava CD e colecionava, começou a baixar música. O Farinha, da Bizarre Music, faliu com mil CDs na mão (risos). 

O Inumanos e muitos artistas, muitos da nossa geração, ficamos preso nessa mudança de mercado, que foi muito significativa na forma de como as pessoas conheciam e ouviam música. 

Talvez uma guinada que esse rap alternativo ganhou recentemente foi com o BK no Castelos e Ruínas, que parece que ali a galera voltou a ouvir disco inteiro, consumir o artista pelo álbum todo no Spotify, sabe? Mas na minha galera, a gente ficou muito desamparado, a indústria não abraçou. 

Eu vejo que muita gente que tava nesse rolê do rap alternativo hoje é visto como lendas, mas na época mesmo não teve um sucesso estrondoso. Tipo, as pessoas reverenciam vocês como gênios, mas talvez vocês nunca tiveram um rolê financeiro alto com o rap, nunca ganharam dinheiro igual gênio da música, tá ligado? 

Não tem, Filipe. Sabe o que é incrível? A gente era a geração do conhecimento, a gente buscava e espalhava conhecimento e achava isso ia ser recompensado. E a gente vive numa época que as pessoas não ligam mais pra isso, entendeu? Não existe um reconhecimento estrutural, saca? Por que não fazem uma noite com Kamau, Parteum, Marechal e Aori em um festival? Mahal, Max B.O., tem tanta gente foda que merece ser lembrado… 

Hoje é a época do hype, não tem uma parada de ser lembrado, de ser considerado, claro que existem exceções, mas não é algo recorrente. Saiu, inclusive, uma faixa que eu participo com o Zudizilla, uma releitura. Também participo de uma track com o Ogi, no álbum que ele lançou recentemente. 

Qual é o desafio hoje do rap alternativo com I.As, cortes de 15s, músicas para TikTok e afins? 

Hoje em dia é muito mais fácil fazer música. Quando eu comecei gravar era em fita. Hoje com um celular, a gente grava facinho. Mas, cara, honestamente, eu faço música sem muita expectativa. Eu sonho que todo mundo vai ouvir, claro, mas a primeira coisa é eu curtir, entende? Eu entendo que tem um lado da indústria, eles pedem uma constância, então com tudo isso saindo esse ano, entendo que vai ter mais relevância.

Mas hoje o déficit de atenção é um bagulho muito foda, né? (risos). Você vira pro seu amigo e fala “escuta minha música”, ele fala que vai escutar, aí ele abre o Instagram, abre o Tinder, vai no Linkedin, joga um jogo, vê uma série e não escutou sua música ainda! Já entendi que não é maldade, é que o povo não escuta mesmo (risos). 

Mas a gente continua lançando músicas e é isso. O rap underground nunca foi muito formado pra indústria, as ideias eram sempre diferenciadas, mais papo… Galera falava que a gente era rap de florzinha no Rio, que a gente falava de desenho animado, a gente era meio maluco mesmo (risos). A gente estava entrando numa indústria de homens mais velhos, cascudos, que acreditavam numa parada, sabe? Aí chega uns moleques do Rio falando de videogame e polegar opositor, tinha um choque! 

Aori lançou o HSB, álbum solo, em 2026, com o produtor Jonas Pheer, falamos sobre aqui na ISMO


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