O HC Emocional no Brasil não foi só franjas e maquiagem
Em novo livro, Tiago Simão quer contar a história do gênero e da cultura que começou nichada e ganhou fãs no Brasil inteiro
Muita gente não lembra, e eu mesmo peguei só um pedaço dessa fase, mas teve um tempo em que a internet se organizava em fotologs, comunidades do Orkut, perfis no MySpace e uploads no Trama Virtual. Foi por lá que o hardcore emocional cresceu no Brasil. Letras sensíveis, guitarras distorcidas e melódicas, música feita com pouca grana... Quando o emo chegou na TV e conquistou o mercado, boa parte dessa história já existia, e o que sobrou na memória coletiva foram as franjas, lápis preto no olho e outros estereótipos.
É essa parte antes do sucesso que Tiago Simão quer contar no livro História do Hardcore Emocional. Vivendo a cena por dentro, ele foi atrás de arquivos pessoais, cartazes e vídeos espalhados por plataformas que deixaram de existir. O resultado reúne bandas que chegaram ao grande público, como a Fresno, e outras que ficaram no nicho, além de espaços como o Hangar 110, peça central na circulação de bandas de diferentes estados.
Troquei uma ideia com Tiago para entender as particularidades da versão brasileira do emocore, a crise entre o DIY e o pop, o preconceito que o gênero sofreu dentro e fora do punk, e o legado que as bandas pioneiras deixaram para a nova geração da música alternativa.
Lá fora o hardcore emocional e o “midwest emo” nasceram de contextos sociais e políticos específicos. Aqui no Brasil, quais fatores culturais você acredita que moldaram nossa versão?
Acho que precisamos começar entendendo que o Brasil não simplesmente importou o emocore. As referências vieram de fora, claro, mas encontraram uma realidade cultural muito particular.
Aqui, o hardcore melódico já tinha construído uma rede importante de bandas, selos independentes, fanzines, produtores e casas de shows. Quando as letras mais confessionais, as melodias mais emotivas e as influências do emo começaram a ganhar espaço, já existia uma estrutura de circulação independente para isso.
Também havia uma questão geracional. Era uma juventude vivendo as transformações da internet, dos fóruns, dos primeiros blogs, do acesso a novas referências musicais e de uma cultura cada vez mais conectada. Ao mesmo tempo, continuamos enfrentando dificuldades muito concretas: falta de espaços para tocar, pouca estrutura de produção e a necessidade de fazer tudo acontecer com recursos limitados.
Acho que nossa versão nasceu desse encontro entre a ética do faça você mesmo, a tradição do hardcore brasileiro e a necessidade de expressar sentimentos que nem sempre encontravam espaço em outros ambientes. E havia uma característica fundamental: cantar em português permitia transformar aquelas referências em experiências muito próximas da nossa realidade.
O emocore brasileiro não teve uma única origem nem uma única sonoridade. Ele foi construído por diferentes bandas e cenas, algumas muito próximas do hardcore, outras do pop-punk e outras de caminhos mais experimentais. É justamente essa diversidade que me interessa recuperar no livro.

Durante a pesquisa, você encontrou diferenças sonoras ou ideológicas na forma como o 'emo' foi absorvido em diferentes regiões do país (tipo o eixo Rio-SP comparado ao Sul ou ao Nordeste)?
Sim, mas eu tomaria cuidado para não transformar isso em uma divisão rígida entre regiões. Não existia um emocore paulista, outro gaúcho e outro nordestino completamente separados. Havia circulação de bandas, troca de referências e muita gente descobrindo os mesmos discos, embora cada cena tivesse suas próprias condições.
São Paulo tinha uma posição estratégica pela concentração de casas de shows, selos, distribuidoras e pela possibilidade de reunir bandas de diferentes estados. O Hangar 110, por exemplo, foi fundamental nesse processo. Mas isso não significa que a história tenha acontecido somente ali.
O Rio de Janeiro tinha uma trajetória própria, com bandas como a Emoponto, que ajudam a mostrar como o movimento se desenvolveu fora do eixo mais frequentemente lembrado. No Sul, o Fresno é um exemplo importante de uma banda que construiu sua identidade dentro de um circuito independente antes de alcançar um público muito maior. E o intercâmbio com outras cidades ajudava a conectar essas experiências.
Eu vejo mais diferenças de trajetória, de organização e de identidade musical do que fronteiras regionais absolutas. Cada lugar tinha seus espaços, seus produtores, suas bandas e seu público. O que o livro tenta mostrar é que, quando olhamos somente para os nomes que chegaram ao mainstream, perdemos uma parte importante dessa geografia musical.

O termo 'emo' foi abraçado pelo mainstream e, muitas vezes, apagavam a palavra 'hardcore' da parada, focando só na estética (franjas, maquiagem…). Como o livro aborda esse conflito entre as bandas que mantiveram o DIY e a explosão pop?
Esse é um dos conflitos centrais dessa história. Antes de o emo se tornar um fenômeno de grande visibilidade, havia uma rede independente que sustentava muitas dessas bandas. Existiam shows pequenos, selos, discos produzidos com poucos recursos, divulgação pela internet e um público que acompanhava os grupos de perto.
Quando algumas bandas começaram a alcançar a televisão, as grandes gravadoras e um público muito maior, a palavra emo passou a ser usada de maneira mais abrangente. Muitas vezes, ela deixou de identificar uma tradição musical e passou a representar um pacote estético: o cabelo, a roupa, a maquiagem e um determinado comportamento juvenil.
O problema não foi a popularização em si. Para muitas bandas, ela abriu oportunidades reais de trabalho, gravação e circulação. O problema foi a simplificação da história, como se tudo tivesse começado quando o mercado descobriu o movimento.
O livro procura recuperar essa trajetória anterior e mostrar que o underground e o mainstream não são necessariamente mundos inimigos. Houve continuidade, ruptura, negociação e conflito. Algumas bandas preservaram sua relação com a ética independente; outras mudaram de escala, de sonoridade ou de público.
Para mim, é importante lembrar que, antes de virar uma etiqueta comercial, essa música foi construída por pessoas que organizaram shows, lançaram discos e criaram espaços para que outras bandas também pudessem existir.

Por muito tempo, o hardcore emocional sofreu preconceito, tanto do punk mais tradicional, quanto do grande público. Você sente que o livro funciona como uma 'reparação histórica' para o impacto musical dessas bandas?
Em alguma medida, sim. Eu não diria que o livro pretende fazer justiça definitiva ou estabelecer uma verdade absoluta, mas acho que existe uma reparação quando você recupera uma história que foi tratada durante muito tempo como algo menor.
O emocore sofreu preconceito por diferentes motivos. Dentro de setores do punk e do hardcore, havia quem enxergasse a vulnerabilidade emocional, as melodias acessíveis e determinadas referências estéticas como um afastamento da essência do movimento. Fora da cena, o preconceito aparecia de outra maneira: a música era frequentemente reduzida a uma fase adolescente, a uma moda passageira ou a um estereótipo visual.
Isso acabou apagando contradições e contribuições importantes. Muitas dessas bandas construíram carreiras, desenvolveram linguagens próprias, movimentaram circuitos independentes e ajudaram a formar músicos e públicos que continuaram atuando na música alternativa.
O livro nasce também dessa inquietação. Quero que essas bandas sejam compreendidas dentro de seu contexto histórico, com seus méritos, suas limitações e suas contradições. Não quero transformar tudo em uma celebração nostálgica, mas mostrar que houve ali uma produção cultural relevante.
Se o livro conseguir fazer alguém revisitar um disco, descobrir uma banda esquecida ou compreender que aquela cena foi muito mais complexa do que os estereótipos sugeriam, acredito que já estará cumprindo um papel importante.

Muitos dos registros da fase de ouro do HC emocional no Brasil estavam em plataformas que praticamente desapareceram. Qual foi o maior desafio de resgatar essa memória digital e qual material físico mais te surpreendeu?
Um dos maiores desafios foi entender que a história da música independente não está necessariamente preservada nos lugares onde esperamos encontrá-la. Muita coisa circulou pelo Fotolog, pelo MySpace, pelo Trama Virtual, por fóruns, blogs, páginas de bandas e comunidades que desapareceram ou deixaram de funcionar.
Quando essas plataformas saíram de cena, parte dos registros ficou espalhada em arquivos pessoais, publicações antigas, vídeos, fotografias, encartes e lembranças de quem participou daquele período. A memória existia, mas estava fragmentada.
Isso muda completamente o trabalho de pesquisa. Não basta procurar uma informação e encontrar uma página oficial. Muitas vezes, é preciso cruzar relatos, datas, lançamentos, cartazes e registros diferentes para reconstruir uma trajetória. E também é necessário reconhecer que alguns materiais simplesmente não sobreviveram.
Uma coisa que essa pesquisa me ensinou é que a história do underground depende muito das pessoas que guardaram alguma coisa sem necessariamente imaginar que aquele material teria valor histórico no futuro. Eu tive o prazer em conversar com algumas grandes figuras da cena, receber fotos, arquivos e algumas confissões. foi de fato uma caça, onde muitas das vezes, era uma rua sem saída.

Como alguém que viveu essa cena, o saudosismo bateu? E você tentou afastar essa leitura mais pessoal do processo, ou aceitou que estava escrevendo sobre algo que fez parte da sua vida?
O saudosismo aparece, seria impossível negar. Estamos falando de uma música que acompanhou uma geração, de discos que descobrimos em determinados momentos da vida, de shows, amizades e experiências que ajudaram a formar quem somos.
Mas eu não queria escrever apenas sobre as minhas lembranças. A memória pessoal é importante, porque ela ajuda a compreender o impacto que aquela música teve, mas não é suficiente para contar a história de uma cena inteira.
Por isso, procurei olhar para o movimento em perspectiva, entender as bandas, as diferentes fases, os conflitos, as mudanças de sonoridade e as relações com o mercado. Também é importante reconhecer que aquilo que foi marcante para mim pode não ter tido a mesma importância para outra pessoa ou em outra cidade.
Acho que o caminho não foi eliminar o envolvimento pessoal, mas aprender a usá-lo sem deixar que ele determinasse todas as conclusões. Existe uma diferença entre escrever sobre algo que você viveu e presumir que a sua experiência representa a experiência de todo mundo.
No fim, talvez essa seja uma das coisas mais interessantes do projeto: eu revisito uma parte da minha própria história, mas tento fazer isso de uma maneira que permita a outras pessoas reconhecerem suas próprias histórias também.

Como você enxerga a influência das bandas pioneiras na nova geração da música alternativa brasileira?
A influência aparece de várias maneiras, e nem sempre por uma referência direta ou declarada a uma banda específica.
Existe uma herança musical, que passa pelas melodias, pelas guitarras, pela alternância entre momentos intensos e passagens mais delicadas e pela liberdade de misturar hardcore, punk, emo e outras linguagens. Mas existe também uma herança de atitude: a possibilidade de produzir música autoral, organizar projetos independentes, construir uma comunidade e encontrar seu público sem depender inicialmente de uma grande estrutura.
A internet mudou completamente as formas de circulação, mas não eliminou a necessidade de espaços, produtores, estúdios e pessoas dispostas a construir uma cena. Nesse sentido, há uma continuidade entre quem organizava shows e distribuía demos e quem hoje cria selos, estúdios, coletivos e redes de divulgação.
Também acho importante perceber que a nova geração não precisa reproduzir o som dos anos 2000 para carregar essa herança. Ela pode incorporar o emo ao shoegaze, ao post-hardcore, ao indie, ao rap ou a outras linguagens.
O legado mais interessante não é a repetição de uma estética, mas a possibilidade de continuar transformando experiências pessoais em música e construir uma comunidade em torno delas. Se hoje existe espaço para novas leituras do emo e do hardcore, é porque muitas bandas anteriores ajudaram a abrir esse caminho.

Qual banda ou disco você acha que mais merece ser redescoberto e por que ficou fora do radar?
Eu gosto de pensar nessa pergunta a partir de uma banda como a Emoponto. Acho que ela merece ser redescoberta justamente porque ajuda a ampliar a maneira como contamos a história do emocore brasileiro.
Quando falamos dessa época, é muito comum a narrativa se concentrar nas bandas que alcançaram maior projeção comercial ou que ficaram mais associadas à cena de São Paulo. Só que existia uma produção independente importante em outros lugares, com trajetórias próprias e uma relação muito próxima com seus públicos.
A Emoponto, do Rio de Janeiro, é um bom exemplo de como essa história não cabe em uma lista formada apenas pelos nomes mais conhecidos. Recuperar bandas assim permite compreender melhor as conexões entre o hardcore melódico, o emocore e as diferentes cenas que se desenvolveram no país.
Acredito que muitas bandas ficaram fora do radar não necessariamente por falta de qualidade, mas porque não tiveram a mesma estrutura de divulgação, distribuição ou preservação de seus registros. Algumas desapareceram justamente quando as plataformas que ajudavam a divulgar seu trabalho perderam relevância.
Redescobrir essas bandas é também questionar como construímos nossa memória musical: quem permanece em evidência, quem é esquecido e quais critérios usamos para definir o que merece ser lembrado. Devo citar aqui também, Level Nine e Dossiê, bandas com trabalhos muito bons, mas que nunca chegaram à MTV na época.

Conheça mais sobre o projeto no site oficial.