Round 1, Fight! HSB tá na pista e é o Hadouken do Aori
O novo álbum, em parceria com Jonas Pheer, é inspirado em games de luta, mangás e vivências nas ruas do centro do Rio nos anos 90
Antes de ser um disco sobre videogame, HSB (High Score Boy) é um disco sobre formação. Sobre aquele momento em que a infância começa a encontrar a rua, em que a cidade deixa de ser cenário distante e passa a ser território de descoberta, risco e fascínio. No novo álbum de Aori Sauthon, produzido em parceria com Jonas Pheer, os fliperamas, os jogos de luta, os quadrinhos, os mangás e a memória dos corres no centro do Rio não aparecem como simples aceno nostálgico, mas como matéria narrativa.
A ideia nasce de um ponto muito específico da trajetória recente de Aori. Depois de O Pirata e o Jaganata, projeto conceitual feito com Barba Negra, o rapper percebeu que havia encontrado um caminho fértil: colocar a rima a serviço de uma história. Ao mesmo tempo, sua rotina voltava a se aproximar de uma paixão antiga, os games de luta, especialmente Street Fighter.
“Eu tava bem imerso nessa coisa de construção de personagem, de narrativa. E, ao mesmo tempo, nesses últimos dois anos eu reencontrei uma paixão minha que são os jogos de luta. Isso tem muito a ver com as coisas que eu gosto desde moleque: desenho, mangá, quadrinhos, videogame, artes marciais, super-heróis. Ficou na minha cabeça essa vontade de dar continuidade a essa coisa da narrativa no rap.”
A produção do mineiro Jonas Pheer é decisiva para que HSB não fique apenas no campo da referência. Rapper desde 2003 e produtor desde 2004, com mais de 500 músicas produzidas, Jonas constrói uma ambiência que parece saída de um lugar entre máquinas de fliperama, consoles de 16 bits, a densidade das rua e a memória afetiva de quem cresceu cercado por sons eletrônicos, samples e imagens em baixa resolução.
A conexão entre os dois já vinha de antes. Em 2021, Aori e Jonas lançaram “Joga o Jogo”, com clipe em linguagem 16 bits feito com a galera do 16 Bits da Depressão. Em HSB, essa afinidade vira método.
“O Jonas me mandou um pack de beats que já tinham uma sonoridade, um conjunto na minha cabeça. Fiquei pensando no aprendizado do Jaganata, de botar rima a favor de uma narrativa. Foi daí que surgiu essa ideia de amarrar uma história ao redor dos videogames.”
Uma das chaves do disco está em High Score Girl, mangá e anime japonês ambientado na febre dos arcades e de Street Fighter nos anos 90. Aori parte dessa referência para olhar para a própria passagem da infância para a adolescência, marcada pela descoberta do centro do Rio, pelas caminhadas sozinho, pelo fascínio por jogos eletrônicos e por uma cidade mais áspera, violenta e atravessada por códigos de masculinidade exacerbada, gangues e tretas por todos os lados.
“Eu pensei em criar algo que falasse um pouco desse meu momento, dessa transição de criança pra adolescente, da descoberta do centro da cidade, das caminhadas sozinho, de desbravar o mundo, do fascínio pelas coisas eletrônicas. Tudo isso ambientado numa época muito inóspita, muito violenta, esses anos 90 no Rio, onde a porrada comia.”
Com participações de Ogermano, Lis MC, Matéria Prima e Tigrão, o álbum amplia esse universo sem perder unidade. Cada convidado entra como personagem, presença ou energia dentro da narrativa. Para Aori, o ponto não era apenas chamar nomes, mas encontrar artistas capazes de entrar na atmosfera do disco.
“No HSB a gente foi muito feliz de achar uma galera que tem essa identificação. A Lis MC se amarra em game, o Germano também, o Tigrão foi uma surpresa porque ele frequentava o fliper da Praça Tiradentes naquela época. O Matéria Prima a gente já tinha feito ‘Street Fighters’ juntos com o Ogi e chegou junto em mais essa. Acho muito generoso quando a pessoa dedica esse tempo para entrar na vibe do outro artista.”
No fim, HSB funciona como um ótimo disco de rap, mas também como cenário, fase e objeto de memória. Não por acaso, Aori imaginava o projeto existindo fisicamente, como aqueles CDs cuja capa já parecia puxar o ouvinte para dentro de um universo. A arte de Bronks Tattoo, a direção criativa assinada por Aori e Jonas e a prensagem em tiragem limitada em parceria com a Ibotirama Records reforçam essa dimensão material do projeto e da nostalgia noventista.

Mais do que um álbum sobre fliperama, HSB é sobre como certas imagens moldam uma forma de estar no mundo. Para Aori, Street Fighter não foi só jogo: foi linguagem, filosofia, disciplina e disputa.
“Street Fighter me influenciou muito no jeito que eu olho a rima, as batalhas, a coisa do um contra um, a dedicação, a determinação quase como uma arte marcial. Desde a primeira vez que eu vi aquela máquina brilhante, com aqueles bonecos enormes, a música tocando, um cara verde do Brasil na Amazônia dando choque nos outros, isso mudou minha mente.”
HSB chega às plataformas nesta quinta-feira, 21 de maio de 2026. Dá o play na sua plataforma de streaming favorita e, caso queira garantir a sua cópia física limitada e autografada em CD, pode perguntar pro Aori.