Jonabug quer sair da letargia com Torpor
Novo EP será lançado amanhã mas você já pode ouvir com exclusividade aqui na ISMO
Existe uma espécie de “não-lugar” em relação ao segundo trabalho de toda banda que mandou bem de primeira. Não é medo, mas também não é confiança total. É um espaço cinzento entre repetir a fórmula que já deu certo, e tentar inventar algo totalmente novo. A Jonabug, antes trio, agora quarteto do interior de São Paulo, emplacou Três Tigres Tristes (2025) como álbum de estreia super bem comentado na cena indie, mas passou os últimos três meses passando justamente pela situação descrita. Como mar parado não faz bom marinheiro, decidiram colocar algumas composições para jogo e assim nasceu Torpor, EP de quatro faixas que funciona como ponte entre o que a banda construiu e o que está por vir.
Bati um papo muito massa com Marília Jonas (vocal e guitarra), Samuel Berardo (bateria), Dennis Felipe (baixo) e o recém chegado Thales Leite (guitarra), para falar sobre o peso de repetir sucesso, o processo de compor em quarteto pela primeira vez desde que a banda mudou de formação, a produção com Roberto Kramer e a faixa que quase ficou de fora e acabou virando a favorita de todo mundo.
Ah, enquanto lê, aproveita para ouvir em primeira mão o EP Torpor:
Ouça Torpor na íntegra com exclusividade antes do lançamento
Mesmo que não queira, todo artista ou banda que estreia bem, precisa lidar eternamente com a comparação consigo mesmo. Samuel já resume bem como funciona esse clima: "Realmente é uma pressão você lançar um segundo trabalho, porque a galera gostou do primeiro, e aí você fica: 'será que o segundo vai rolar igual?'"
Mas em vez de tentar copiar o formato, a Jonabug decidiu usar o EP como um espaço de teste. São quatro faixas para experimentar antes do próximo álbum, sem a pressão de fechar um conceito definitivo. Samuel explica que "esse segundo EP sai como uma maneira de mostrar que a gente quer fazer coisas novas, que a gente tá explorando coisas novas. Não só ficar fazendo a mesma receita de bolo."
Marília, por sua vez, sente que o amadurecimento do processo criativo trouxe menos ansiedade.
"Agora eu sinto menos cobrança de mim mesma para lançar um trabalho. Sinto que a gente lidou de uma forma diferente na hora de compor, na hora de gravar, até agora na divulgação." - Marília Jonas
Thales, o novo personagem da história, entrou como músico de apoio durante a turnê do primeiro álbum e, aos poucos, foi absorvido pelo núcleo criativo da banda, até virar voz ativa na composição. Rolou até uma metáfora para explicar a sensação de entrar num bonde que já estava seguindo rota pelos trilhos. "gosto de imaginar que é como se agora eu estivesse surfando uma mesma onda que eles já estavam há mais tempo, e eu meio que integro. Foi muito importante todo esse período de adaptação para a conclusão do primeiro trabalho que é o Torpor."
Do outro lado, Dennis conta que a banda já tinha existido como quarteto antes, mas não funcionou muito, e que retomar essa configuração exigiu aprendizado do coletivo inteiro. "A gente olha um pouco para trás, vê as paradas como já funcionavam, aí olha pro Thales e tenta compreender as influências que ele traz." Já Samuel vai na mesma direção, mas foca nos ganhos de som que a nova guitarra trouxe, até porque compor bateria com duas guitarras é completamente diferente, é mais uma voz ali no meio da conversa. Para ele existe um novo desafio que acrescenta camadas de complexidade no processo e, por consequência, no som que a banda entrega também.


Fotos: Giulia Geyer
Apesar de ter escrito que não houve a mesma pressa de um álbum conceitual completo, o EP carrega no título uma palavra com peso de tese sociológica. Marília, principal compositora das letras, tentou colocar em palavras as sensações que vinha sentindo, uma resposta do corpo aos momentos de desconforto e lentidão. O processo, como é de se esperar, não é muito feliz ou glamuroso, mas carrega muita verdade.
Foi Thales quem deu uma nova camada de significado para a palavra, ligado diretamente ao momento que a banda atravessa. São três anos de carreira, uma experiência gigante de tocar no palco do Lollapalooza e a pressão da busca pela profissionalização. Samuel resume essa camada: "a questão de você entrar nesse estado de torpor, pelo menos para mim, eu vejo como ter que usar nossas energias, o que a gente tem guardado esse tempo todo para fazer algo novo acontecer." Já Thales define o EP quase como um mecanismo de defesa: "é nossa resposta, nosso estado de resposta para toda uma mudança, toda uma angústia, ansiedade que vem em torno da profissionalização, de novos shows, novos palcos, novos lugares. É uma autodefesa meio natural."
Para ajudar a definir os contornos do EP, convidaram Roberto Kramer para assinar a produção, nome conhecido por trabalhos com Rancore, Terno Rei, Jovens Ateus e Paira, nomes que, em alguma medida, fazem parte do universo sonoro da Jonabug. E pelo relato de todos os integrantes, a relação foi muito orgânica, principalmente por conta da bagagem de referências que Kramer carrega. Para Samuel, o processo foi telepático. "A partir do momento que a gente pisou no estúdio, a gente não precisou entregar muita coisa, porque ele já tinha muita coisa com ele. Ele já tinha muitas das nossas referências."
As gravações rolaram em junho desse ano, no Estúdio Rockambole, e o resultado carrega influências que vão de Lush e My Bloody Valentine a Ludovic. Os timbres de bateria, aliás, muito inspirados no shoegaze, com poucas variações mas soando meio eletrônica, foi uma das contribuições marcantes de Kramer.
Marília faz questão de destacar a paciência de Kramer como elemento essencial do processo, algo que, para quem está gravando, faz toda diferença no resultado final. "Foi uma experiência em que a gente saiu de lá aprendendo também. É essencial para a gravação dar certo, ter essa paciência com o músico que tá ali e tornar o ambiente confortável."
Thales, que cresceu ouvindo trabalhos assinados por Kramer, comenta sobre o choque de realidade de estar do outro lado da mesa de produção: "eu chegar ali era tipo chegar com o Josh Homme para gravar." Comentam ainda um detalhe que diz muito sobre o tipo de generosidade que só rola entre gente que entende de música. Kramer trouxe equipamento próprio, incluindo guitarras que tinha acabado de buscar no luthier, e simplesmente liberou tudo para a banda usar sem restrição

Agora, falando especificamente das faixas de Torpor, algumas carregam histórias muito próprias, como “Rascunho”, última composição do EP, que quase ficou de fora, e hoje é considerada pela banda como uma favorita. Quando pergunto para Marília qual o critério que define o que entra e o que sai de um lançamento como esse, ela me diz que não existe uma regra única, e nesse caso específico eles sentiram que a música começou a ficar maior do que eles esperavam e tinha potencial para ser a mais impactante.
Como às vezes a gente precisa dar mais de uma chance para perceber o real valor de uma música, Dennis conta que a virada de chave aconteceu por insistência de Marília, que sabia que a música só precisava de uma nova audição para perceberem que tinha lugar no EP.
"Eu lembro quando a gente tava tocando e a Marília me mostrou essa música duas vezes. A primeira vez eu não gostei. Ela falou: 'você vai gostar'. A segunda audição resolveu tudo e foi tipo 'mano, essa música tem que entrar, é muito boa.’” - Dennis
Já “Certo ou Errado”, único feat de Torpor, traz justamente uma banda que, segundo todos os integrantes da Jonabug, moldou boa parte do gosto musical deles. A relação com a banda sergipana Cidade Dormitório começou de fã para ídolo e, numa dessas oportunidades mágicas que só a cena independente proporciona, virou amizade real depois de uma turnê em conjunto pelo Sul do Brasil.
Samuel lembra o momento exato em que a ideia do feat surgiu. "A música surgiu do nada no grupo do WhatsApp. Quando eu vi, falei: 'E se fosse um feat com Cidade Dormitório?'." Marília reforça o quanto essa parceria específica virou parâmetro para futuras colaborações da banda: "Gostaria que fosse da mesma forma que foi com a Cidade Dormitório, que a gente se juntou na turnê do Sul, tava no mesmo lugar, compôs alguma coisinha junto, tocou junto. Daqui para frente eu quero que todos os feats que a gente faça sejam assim, que tenha um pedaço de cada um ali."
Thales, que também já era fã de longa data da banda, bem antes de entrar na Jonabug, faz questão de contar, com brilho nos olhos, sobre como a amizade construída foi muito verdadeira, e não só um caso de estúdio. "na sexta-feira passada eu tava com eles em Americana também e é meio mágico, surreal, o que o mundo da música proporciona."


Foto: Giulia Geyer
Antes de qualquer faixa do Torpor existir oficialmente nas plataformas de streaming, uma delas já tinha sido testada ao vivo, inclusive no palco do Lollapalooza. Pergunto se a reação do público funciona como termômetro e ajuda a definir os caminhos de composição e seleção e Marília confirma minha hipótese. "Rola quando eles veem que é música nova e curtem a gente tocando ao vivo, às vezes nem está nas melhores condições de som, mas eles estão curtindo."
Para Samuel, esse tipo de resposta orgânica, ainda mais quando não tem nenhum tipo de campanha de lançamento por trás, é o termômetro mais honesto que existe: "Não ter nem lançado a música e a galera já perguntando quando sai, é uma coisa bem massa."
"É muito gratificante a resposta do público e fortalece muito nas composições. A gente vê que o caminho que a gente tá indo tá dando bom." - Dennis
E caminhando para o final do papo, a pergunta óbvia é: o que vem depois de um EP batizado com o nome de um estado de letargia? Marília, cabeça que parece estar sempre cozinhando, já projeta o trabalho seguinte, ou melhor, OS seguintes. "Eu fico às vezes pensando como vai ser o nosso quinto álbum. Fico animada com isso porque eu quero que a gente explore tudo que puder e quiser."
O conceito do EP se relaciona com o momento real de transição de vida da banda, com todos ali pelos vinte e poucos anos, lidando com a maturidade da vida pessoal, entrando na vida adulta, e também com a profissionalização de algo que, para muita gente nessa mesma faixa etária, é só brincadeira. E se o tema parece meio triste e pesado, as respostas até que foram bem otimistas. "Tenho fé que um dia a gente vai fazer uma música bonitinha e romântica. Eu queria muito que a gente fizesse uma música felizinha em algum momento da banda." diz Samuel. Dennis assina embaixo: "A gente vai ter que ser feliz um dia."
Por enquanto a Jonabug segue no meio do processo, tocando ao vivo faixas que ainda soam novas até para a própria banda, aprendendo a versão ao vivo do que nasceu dentro de um estúdio, testando novas sonoridades e formatos. Como resume Thales, o EP virou território de aprendizado contínuo, e não um ponto final que morre em si próprio. "Tô muito na pira ainda de tocar elas ao vivo, fazer elas terem uma forma mais orgânica." O desejo de apresentar um novo repertório parece ser o combustível para a banda, até chegar a hora de voltar para o estúdio e cozinhar o próximo álbum. Até lá, seguimos ouvindo Torpor.
O EP está disponível aqui com exclusividade, e chega amanhã, dia 11/09, nas plataformas de streaming, pelo selo +um HITS.
