Por que a gente é obcecado pelos anos 80?

De trends de IA à lembrança de uma era não-digital, os anos 80 sempre constam no nosso imaginário como uma época dourada

Por que a gente é obcecado pelos anos 80?

Com certeza você tem alguma coisa que chama de “preferido” que veio dos anos 80, seja banda, filme, artista ou momento – e você nem precisou ter vivido a década pra isso te marcar profundamente. A década de 1980 é constantemente trazida como referência de estilo, estética, sonoridade e bom gosto. O que para muitos foi um período de descobrimento de muitos interesses, para outros é só uma lembrança de algo que nunca foi vivido. 

Mas por que, 40 e tantos anos depois, a gente continua se aprofundando nos anos 80 como um marco histórico, querendo viver o momento e estacionando memórias no período? Mesmo com o fashion e a cultura se apropriando de outras décadas para fazerem o próximo grande hit, os 80's parecem ter algo especial e sempre voltam no nosso imaginário. 

Estética não-digital

Os anos 80 é marcado pela pré-internet. Na verdade o termo já existia desde o fim dos anos 60, mas foi só no final de 1980 que a gente foi ter acesso de modo mais amplo, e só na década seguinte que a gente foi conhecer o World Wide Web. Então pensar nos anos 80 é pensar analógico - câmeras fotográficas, discos de vinil, walkman de fita e rede social eram os garotos da rua. Enquanto hoje você clica numa tela e acha pessoas do mundo todo, na década 80 conhecer pessoas novas era ir até os lugares, literalmente. 

O conhecimento nessa década era passado de outra forma e, por muitas vezes, você tinha que ir atrás - raramente as coisas chegavam até você sem você querer. Ao mesmo tempo, curtir algo era gradativo, levava tempo, tinham vários momentos para você realmente se aprofundar em uma coisa só. Por exemplo: você conhecia um disco de uma banda hoje através do físico, seja no vinil ou na fita, e para consumir, você precisava colocar pra tocar, sentar e escutar. Esse processo levava seu tempo e a apreciação das coisas era feita de maneira lenta - não dava pra trocar a banda ou a música com um mísero clique. 

A noção de tempo era outra, a troca de informação também. Tinha o deslocamento, o toque, a escuta e a visão. Se estamos falando de música, tudo tinha um fator sensorial: ver a capa, sentir o cheiro da loja de disco mofada, tocar a agulha do vinil e ouvir as músicas. 

Ao mesmo tempo, a iminência de uma terceira guerra mundial, aliada aos avanços tecnológicos, faziam da década uma espécie de começo do fim do mundo, deixando ansiosos aqueles que estavam de olho no que viria a seguir no âmbito tecnológico. Não sabíamos se teríamos carros voadores ou bombas nucleares, mas na TV passavam filmes de zumbis e de super-heróis que lutavam contra robôs do futuro. 

Estava tudo bem, só tinha o Schwazeneger robô em 1984

Tudo isso cria um imaginário de maior simplicidade na mente de muita gente que não viveu o período, intrigando a pessoa que tem estímulos diversos através de telas o dia todo. Como seria viver em uma época onde eu não precisava estar conectado o tempo inteiro? De maneira assertiva, assim é vendida a ideia dos anos 80, um período onde o digital não comandava as relações nem o conhecimento das coisas. 

Começo de vários movimentos artísticos

A cultura dos anos 80 é marcada por momentos importantes do mainstream das artes em vários âmbitos. De novos gêneros musicais surgindo, à popularização da pop art, o investimento colocado na arte no período é notável, possibilitando que o mundo fosse impactado por novidades no setor cultural. 

Na música, a década de 80 foi marcada pelo impacto massivo do vídeo. Com a chegada da MTV, em 1981, a música ganhava um novo aliado: o audiovisual, que impulsionaria a imagem de artistas já consagrados e criaria novos ídolos através do visual além da música. Se antes a galera já era famosona pelo som, agora todo mundo veria as ideias das bandas sendo botadas em prática nas telas - Michael Jackson e Thriller, por exemplo, foram marcos de uma época de criatividade e espontaneidade. 

Thrash Metal, Synth Pop, Hip Hop, Pós Punk, Glam Rock, House, Grunge, New Wave, todos esses gêneros (e outros mais) ou foram criados na década ou ganharam um impulsionamento de popularidade gigantesco. A música foi uma das vertentes da arte que mais se beneficiaram na década de 80, ganhando gravações digitais, uso de sintetizadores e uma grande corporativização, com grandes gravadoras no mundo todo investindo pesado no som. 

Nessa década, o músico agora tinha que pensar não só na música, mas no clipe, na tour, na trilha sonora, no merchandising e na promoção. A música pop, com Michael Jackson, Madonna, Prince, Whitney Houston, entre muitos outros, ganhou uma popularidade massiva com toda essa matemática além da música.  

No Brasil, o rock brasileiro ganhava força com a situação social e política da época. O fim da ditadura militar, fim do bipartidarismo, Diretas Já, Nova República e novos planos econômicos faziam do Brasil um país sedento por mudanças, mas ao mesmo tempo com muita coisa guardada pra dizer. Músicos como Cazuza, Kid Abelha e Legião Urbana cantavam uma juventude que misturava poema e rebeldia em músicas que marcaram a geração. 

Os Titãs nos anos 80

Na arte contemporânea, o diálogo urbano que teve força em Nova Iorque nos anos 70, começou a ganhar status de cult e adentrar museus mundo afora. Os jovens Basquiat e Andy Warhol faziam uma revolução visual através de cores vibrantes e traços marcantes, impactando um gênero da arte que não começou na década de 1980 mas que ganhou expressividade também pelo audiovisual. 

Marilyn Diptych ressignificava Marilyn Monroe na arte pop de Andy Warhol

No cinema, a década foi marcada pelo avanço do mercado norte-americano e pela popularização, com muita grana envolvida, de gêneros como ficção e terror. Os gêneros mais populares variavam entre comédias adolescentes, filmes sobre um futuro distópico, terror slasher com muito sangue e ações explosivas. E.T., Exterminador do Futuro, Rambo, Top Gun, Clube dos Cinco, Curtindo a Vida Adoidado, Touro Indomável, Scarface, A Cor Púrpura, Dirty Dancing e muitos outros filmes são considerados marcos icônicos de uma geração que tinha no ato de ir ao cinema, um rolê pra chamar de rotineiro. 

Clube dos Cinco marcou uma geração pela sua pluralidade de personas - todo mundo era um pouco cada personagem do filme

Constante lembrança e impacto cultural de quem nunca nem viveu 

Pensar na década de 1980 é pensar na nostalgia, e essa palavra é uma que está na moda na indústria cultural. A ideia de vender uma vida mais simples ou de uma época em que não se pode mais voltar é uma que o mercado hoje se apega com muita certeza de sucesso. Se uma trend no instagram, usando a IA para nos fazer ficarmos com cara de anos 80 fez bastante sucesso, isso não foi à toa: foi a construção de um imaginário de um período que nos traz recordação, sentimento e pertencimento, mesmo que a gente nunca tenha vivido isso. 

Os anos 80 são constantemente lembrados e vendidos, subjetivamente ou não, em nossos cotidianos, seja na moda de ombreiras e cores vibrantes em casacos e tênis de basquete, ou nas calças legging com meias por cima, ou até mesmo nos cabelos com mullets e franjas absurdas em bandas que pareciam se misturar entre si, os anos 80 sempre voltam para nos lembrar de um momento que apreciar algo era realmente viver aquilo. Hoje não, necessariamente, precisa viver para ser, mas você pode comprar aquela estética clicando no link do anúncio nas redes sociais. 

Chat, me faz aí nos anos 80?

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