Entre dois turnos: a 50ª Mostra de São Paulo e o cinema como assunto político
Um festival que nasceu driblando a censura chegou aos 50 anos com uma eleição presidencial no meio da programação
Na sexta-feira, 23 de outubro, era dia de debate presidencial, mas eu escolhi ir ao cinema para não surtar. Era o 9º dia da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, e faltavam dois dias para o que, provavelmente, seria a eleição mais importante que já votei. Fiquei pensando se alguém conseguiria, no dia do pleito, sair de casa para votar, e depois ir ao cinema — isso se os ônibus da cidade permitissem. Fato é que, se a pessoa que tomasse essa decisão fosse assistir algum filme da Mostra Internacional de Cinema, as chances de ser um que se relaciona com política era bem grande. Só uma das várias “coincidências”.
O festival acontece em outubro desde 1977, e a seleção de filmes dessa edição saiu um dia antes do primeiro turno. A abertura, que aconteceu na Sala São Paulo, rolou dez dias depois. O segundo turno aconteceu no meio da maratona. A cerimônia de encerramento, ontem, veio quatro dias depois do resultado. Foram quase 400 filmes de mais de 90 países, espalhados por dezenas de espaços da cidade. Quem teve a oportunidade de estar em uma sala de cinema da Mostra nessas duas semanas de festival, devia estar pensando em política e possivelmente viu a projeção falar sobre o tema.
Para dar um pouco de contexto sobre essa relação entre política e a Mostra, vale voltar ao começo. Leon Cakoff criou a Mostra em 1977, para as comemorações dos 30 anos do MASP. O Brasil estava em plena ditadura militar e com o AI-5 em vigor havia quase 10 anos, a repressão batia forte, impedindo que muitos filmes pudessem ser exibidos por aqui. Na série da HBO sobre a história do festival, o primeiro episódio se chama “Uma Arte Subversiva” e acho que isso diz muito sobre o cinema e seu poder, até porque, uma das primeiras coisas que governos ditatoriais fazem para ampliar o controle ideológico é usá-lo como ferramenta de propaganda. Bom, 50 anos depois, o festival não só permanece como virou patrimônio cultural de São Paulo.
Este ano, enquanto escolhia os filmes que iria tentar assistir, fui percebendo, talvez por estar com a cabeça afundada no tema, que muitas das obras dialogavam com a política, de várias formas diferentes. Alguns, falavam diretamente sobre ditadura e memória, como Retorno a Buenos Aires, que conta a história de um exilado que retorna à Argentina depois de anos, para depor no julgamento dos militares que o torturaram. Em A Garota com a Leica, parte da vida de Gerda Taro, a primeira fotojornalista morta em guerra, é retratada como exemplo de quem usou a câmera como ferramenta de resistência. O Primeiro Ano (1972) e a trilogia A Batalha do Chile (1975-1979), de Patrício Guzman, foram alguns dos filmes restaurados e exibidos, e que mostram o interesse da Mostra em resgatar documentos históricos.
O oriente médio, região que atravessa conflitos há décadas, por exemplo, também aparece de diferentes formas. Rehearsals for a Revolution, é um desses filmes que expõe que a história iraniana é atravessada por questões políticas muito mais profundas do que a mídia escolhe apresentar. Já o Displacement Film Fund, fundo que apoia cineastas refugiados, trouxe os cinco curtas realizados na primeira leva de subsídios. Já Aos treze em Gaza é bem literal no título e, bom, você já deve imaginar que enfrentar o deslocamento forçado por um bombardeio, sendo uma adolescente, deva ser uma das experiências mais assustadoras de uma vida.
Além desse lado mais “histórico” e/ou conflituoso, a política aparece na mostra também a partir de outras esferas, como a do poder e do trabalho. Talvez os principais exemplos do primeiro tema sejam Dragões, que mergulha nas imagens que ajudaram a construir o mito do ex-presidente, atual presidiário, Jair Bolsonaro, e como as telas contribuíram para que ele chegasse ao poder; e Musk, que discute a influência que toda a grana do magnata da tecnologia têm sobre o ocidente.

O fim da escala 6x1, votada e aprovada no dia 16 de outubro, também aconteceu durante a Mostra, mais precisamente um dia depois da abertura do Festival, e claro que existem filmes que abordam os temas do trabalho e de classe. Talvez o mais significativo seja Quase da Família, que conta a luta pela regulamentação do trabalho doméstico a partir de Laudelina de Campos Melo. Já A Noite e os Dias de Miguel Burnier, acompanha a comunidade de Ouro Preto ameaçada de desaparecer do mapa depois que uma mineradora comprou todo o território.
Por fim, outro tema que se relaciona com política e esteve muito presente entre os filmes da Mostra, foram os relacionados ao corpo, seja pela ótica do gênero, da sexualidade, da identidade ou até da saúde. Coligay – A Torcida Impossível, é sobre a torcida gay do Grêmio, criada durante a ditadura. 17 e Chicas tristes tratam de violência sexual contra adolescentes; Sonhos do rio, do Cazaquistão, reúne mulheres falando das cicatrizes de ser mulher e da resistência à opressão; e como também tem espaço para séries na Mostra, a segunda temporada de Colônia volta para falar dos abusos de um hospital psiquiátrico de Barbacena nos anos 1970.




Estamos falando de um festival, logo, a maioria dos filmes é exibida dentro de competições, e um juri que vai avaliar filmes com temas tão políticos, precisaria estar atento ao que acontece no mundo. Um dos nomes que mais circulou fora do circuito foi o de Boots Riley. O diretor veio pela primeira vez ao Brasil, não só para integrar o juri, como também para lançar seu novo longa, I Love Boosters. O cara, que já tem uma história na militância e que sempre usou sua arte para se manifestar, teve a oportunidade de ver uma série de filmes muito politizados, e de assistir a um país que se mobilizou pela democracia.
Antes do cinema, Riley já rimava letras críticas e radicalmente progressistas no The Coup, grupo de rap do qual faz parte desde o começo dos anos 1990, e que serve de base para muito do que o artista aborda em seus filmes. O seu primeiro longa, Sorry to Bother You (2018), tem o mesmo título de um disco do The Coup lançado anos antes, e o próprio I Love Boosters também já foi faixa lançada 20 anos antes, no disco Pick a Bigger Weapon.
O que torna a presença de Riley politicamente relevante é o que ele disse sobre o próprio filme. Em entrevista, feita na reta final da campanha do segundo turno, ele falou que todos nós conhecemos os problemas do mundo, e que o difícil é saber qual alavanca de poder está nas mãos de quem trabalha. Para Riley, essa alavanca é a capacidade de a classe trabalhadora organizada paralisar a indústria. Vale registrar que o próprio Riley admitiu que não conhece o Brasil o bastante e que fala de fora. Ainda assim, o recado de um diretor que passou a vida unindo música, cinema e organização, deu à Mostra um momento que nenhuma programação consegue planejar.
Amazing to be in São Paulo on such a historic night. pic.twitter.com/vtCzyBu7uh
— Boots Riley (@BootsRiley) October 26, 2026
A escolha dos homenageados também diz muito sobre o que o festival entende por política, cultura e humanidade. O Prêmio Leon Cakoff, entregue para quem contribui com o cinema independente, foi dividido entre três nomes. O primeiro deles, Paulo Branco, produtor português com mais de 300 filmes no currículo, recebeu o prêmio e ganhou uma retrospectiva que incluiu A Cidade dos Piratas (1983), de Raúl Ruiz, cineasta chileno que deixou o país depois do golpe de 1973.
S.S. Rajamouli, diretor indiano, apresentou uma sessão de RRR: Revolta, Rebelião, Revolução (2022), filme que reimagina a resistência ao domínio britânico e ganhou o Oscar de melhor canção. No Brasil, o filme foi direto para os streamings, mas a Mostra fez questão de exibir na telona.
O terceiro homenageado foi James Gray, o diretor que, para mim, é o mais difícil de encaixar numa leitura política direta. Conhecido por um cinema mais clássico, ele abriu a Mostra com Tigre de Papel, além de assinar a arte do cartaz dessa edição. Apesar do que digo, sobre não ser um diretor que transparece tanta voz política em seus filmes, acredito que sua participação lembra que a Mostra não vive só de filme de combate, e que o gesto de colocar o cinema na rua, independente da linguagem, é um ato de valorização das artes e da cultura.

No domingo, tivemos o fim da eleição presidencial, apesar de que na quarta-feira, Flávio Bolsonaro divulgou uma carta em que se declarava “verdadeiro presidente eleito”, contestando o pleito e a decisão democrática de uma maioria nacional. Enquanto isso, ao mesmo tempo, o Teatro Cultura Artística provavelmente estava organizando a casa para receber a cerimônia de premiação.
Fiquei pensando que a eleição se decide na urna, mas Riley dedicou boa parte da entrevista aqui citada a lembrar que o poder está em outro lugar. A Mostra deixou a sala de cinema cheia de perguntas que ficam depois da apuração: quem lembra? Quem decide? Quem trabalha? Quem foge? Quem paga? Em duas semanas de outubro de 2026, quase 400 filmes foram exibidos num festival que começou em 1977 porque alguém se recusou a ver o cinema do mundo tesourado por um Estado ditatorial. Agora o projetor da Mostra vai ficar desligado por mais um ano, mas a gente segue com conversas que ele levantou.
Ah! Alguns filmes da mostra continuam com exibição de repescagem até o dia 4 de outubro, e vale ficar de olho porque muitos deles podem ser distribuídos aqui no Brasil nos próximos meses. Fica a dica.