A arte que resistiu ao começo da Ditadura
Como artistas visuais ajudaram a combater a ditadura militar no Brasil através de obras inteligentes e subversivas nos anos 60
Em momentos em que a democracia pede socorro, a arte tende a aparecer como alternativa para ser, pelo menos, um alívio. Na história do Brasil, enquanto politicamente entrávamos em um regime militar em 1964, após o então presidente João Goulart sofrer um golpe e ser deposto, o Neoconcretismo fazia-se presente desde o fim dos anos 50, com artistas como Hélio Oiticica e Lygia Clark liderando o movimento.
O que se viu durante os 21 anos de Ditadura Militar no Brasil, foi uma série de censuras, repressões e banimentos de obras e artistas, através do AI-5, o que influenciou profundamente o que viria a ser a arte brasileira durante o período. De temas livres e diferentes perspectivas, agora as artes visuais do nosso País passavam por um olhar duro de censura e passava a buscar alternativas inteligentes e subversivas para contar uma história de luta e resistência.
Este é um texto que resgata algumas partes importantes da arte no começo do período, nos anos 60, dando luz a alguns nomes. É importante entender que este é apenas um recorte da arte que fez o Brasil resistir à Ditadura Militar – o todo se extende por mais de dezenas de criadores, coletivos, mostras, exposições e situações artísticas que aconteceram nos 21 anos que o Brasil sofreu com a repressão empresarial militar.
Um dos primeiros grandes momentos das artes visuais durante o período foi o Opinião 65, organizado por Jean Boghici, uma mostra realizada no Rio de Janeiro, onde todo tipo de manifestação artística era permitida, porque não era só um combate aos militares, mas também à complacência do povo, como disse Carlos Vergara em um documentário sobre a mostra.
As artes da Opinião 65 continham um caráter de guerrilha, com elementos que fugiam das questões das Belas Artes. A mostra reuniu 29 artistas, brasileiros e estrangeiros, para representar o inconformismo e a resistência cultural, com nomes como Antônio Dias, Rubens Gerchman, Flávio Império, Hélio Oiticica, José Roberto Aguilar e Carlos Vergara. No Opinião 65, foi a primeira vez que a obra Parangolé, de Hélio Oiticica, foi vista.

Hélio Oiticica também merece destaque por outras obras posteriores, como a clássica Seja Marginal, Seja Herói, de 1968. Uma bandeira com Cara de Cavalo, morto a tiros pela polícia, em forma de crucificação, com os dizeres do seu nome abaixo, tornando-se símbolo central do movimento Marginália, que viria a ser forte nos anos 70.

Nos anos 60, os artistas, cansados de explorar formas geométricas, voltaram a explorar o que era ignorado socialmente: o corpo, a forma e a cidade. A política então ganhava outro contexto, representada subjetivamente em obras que gritavam resistência e traziam mais do que os olhos podiam ver. Um dos artistas que melhor representou essa Nova Figuração foi Antonio Dias, que nos anos 60 usou a arte como campo de tensão e discurso implícito. A obra Notas Sobre a Morte Imprevista trazia todo esse contexto já logo em uma das primeiras que o artistas paraibano apresentou.

Ana Maria Maiolino é uma das artistas que merecem destaque do período, e sua obra O Herói, de 1966, ganha contexto e peso histórico no período ditatorial. Apesar de ser Italiana, sua vinda ao Brasil nos anos 60 veio de encontro à um período onde o lugar da mulher era de muita luta, influenciando em sua produção artística, fazendo-a ser uma artista provocadora. Maiolino torna-se uma das figuras-chave da exposição Nova Objetividade Brasileira, ocorrida no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - MAM/RJ em Abril de 1967.

Em 1969 acontece no Rio de Janeiro, no MAM, a Pré Bienal de Paris, selecionando artistas brasileiros que iriam para a mostra na França. Neste ano, o AI-5 já estava acontecendo e censuraram a Pré Bienal, principalmente por causa de uma foto de Evandro Teixeira, que mostrava uma policial militar caindo de sua moto. Evandro é um dos principais fotojornalistas do período da Ditadura, tendo seus contatos dentro e fora dos quartéis, ajudando-o a capturar momentos que ficaram marcados na história visual do Brasil.

No mesmo ano, a Bienal de São Paulo é boicotada por parte massiva dos artistas, brasileiros e estrangeiros, se rebelando contra à ditadura. A “Bienal do Boicote”, como é conhecida, precisou encontrar artistas aos 45 do segundo tempo para preencher seus vazios. Uma das artistas presentes é Mira Schendel, com sua obra Ondas Paradas de Probabilidade, com fios de nylon representando a resistência em meio à ditadura.

No período da Ditadura, as ideias da antiarte e da arte participativa ganharam força. Como foi com o Parangolé, de Hélio Oiticica, o espectador agora também tinha a possibilidade de participar ativamente da obra, ganhando um novo âmbito, o sensorial, além do visual.
Não se engane, toda manifestação artística foi perseguida e, se possível, censurada no período da Ditadura. Porém com as artes visuais, a subjetividade imperava em um tom de ponto de vista. Muitas vezes, era preciso perguntar para o artista o sentido da obra e, inteligentemente, ele não ia vender sua ideia à censura. As artes conceituais da Ditadura não são, porém, tão populares quanto, por exemplo, a música do mesmo período, pelo simples fato do interesse das pessoas com a arte contemporânea.
Isso não quer dizer que os artistas não fossem perseguidos e não sofressem censura. Mas, por muitas vezes, os órgãos de censura nem sabiam o que significava aquela crítica. O começo da Ditadura mostrou que muitos artistas não fecharam os olhos ou foram embora da situação – muito pelo contrário, acharam na arte uma forma de resistir, de formas objetivas ou subjetivas, à toda repressão e autoritarismo que acontecia social e politicamente no Brasil.
As obras e artistas dos anos de 1960 no Brasil influenciariam os movimentos que viriam a seguir, também de resistência e de pertencimento à uma terra que era consumida pela Ditadura. O que se viu foi arte em puro estado, mesclando consciência, inteligência e muita vontade de provocar.