Guadalupe: 15 anos de cultura sneaker
Do Bom Retiro à adidas Consortium, uma trajetória contada em colaborações
Uma capivara acaba de ganhar sua própria versão de um clássico da adidas. A escolha parece curiosa para um tênis chamado Intimidation, mas é justamente o contraste entre a tranquilidade do animal e o nome da silhueta que orienta a nova colaboração da Guadalupe. Com lançamento marcado para 5 de novembro, o adidas Intimidation Low também representa um marco para o mercado brasileiro: é a primeira colaboração latino-americana da linha Consortium, plataforma criada em 2005 que já reuniu algumas das boutiques mais influentes do streetwear mundial.
A chegada da Guadalupe a esse grupo coincide com seus 15 anos de história. Fundada em 2011, no Bom Retiro, em São Paulo, a loja construiu um repertório de colaborações com algumas das principais marcas esportivas do mundo. São projetos inspirados na imigração, no Tropicalismo, na xilogravura, no folclore amazônico e em diferentes aspectos da cultura brasileira. Uma trajetória que ajuda a explicar por que a Guadalupe ocupa um lugar tão relevante na cena sneaker nacional.
Mas, para entender como uma loja brasileira chegou à adidas Consortium, precisamos voltar a um momento em que conseguir determinados tênis por aqui era muito mais complicado.

Do Bom Retiro para o mundo
No início dos anos 2010, a cultura sneaker brasileira já reunia colecionadores, comunidades, veículos especializados e um público que acompanhava de perto os lançamentos internacionais. A internet facilitava o acesso à informação, mas encontrar os mesmos produtos no Brasil era outra história. Muitos modelos chegavam em quantidades limitadas, enquanto outros simplesmente não eram distribuídos por aqui.
Foi nesse cenário que a Guadalupe abriu as portas, em 2011, no Bom Retiro. A loja se estabeleceu como um dos endereços importantes para quem buscava lançamentos especiais, mas também como um ponto de encontro para uma comunidade que crescia ao redor dos tênis. A escolha do bairro, historicamente marcado pela imigração, pelo comércio e pela indústria têxtil, acabaria influenciando diretamente a identidade dos projetos desenvolvidos pela loja nos anos seguintes.
Ao lado de outros nomes importantes, como Your ID e Maze, a Guadalupe participou da consolidação de um mercado que, durante muito tempo, teve acesso restrito às principais estratégias de distribuição das marcas internacionais. Essa atuação envolvia mais do que selecionar bons produtos. Era preciso construir relações comerciais, demonstrar a existência de demanda e negociar a chegada de lançamentos que normalmente ficavam concentrados nos Estados Unidos, na Europa e no Japão.
No começo de 2026, discutimos esse processo na ISMO, em O que uma década transformou na cultura sneaker no Brasil, a partir da chegada do Air Jordan 3 x SoleFly à Guadalupe. Na ocasião, Pedro Prado, sócio da loja, contou que o esforço para viabilizar determinados lançamentos já durava seis ou sete anos. É um exemplo de como a presença de um produto especial no mercado brasileiro também resulta de um trabalho de relacionamento que normalmente permanece invisível para o consumidor.
Enquanto construía essa posição como varejista, a Guadalupe também começou a participar da criação de produtos. Desde 2018, suas colaborações com marcas esportivas vêm explorando referências que passam pela cultura japonesa, pela imigração no Bom Retiro, pela música brasileira e pela arte popular nordestina. Reunidos em ordem cronológica, esses projetos ajudam a entender como a loja desenvolveu um repertório próprio e ampliou sua presença no mercado internacional.
Os tênis que contam essa história
2018 — FILA Mindbreaker 2.0 “Daruma”

Parte de um projeto global da FILA com 47 parceiros, o modelo foi inspirado no Daruma, símbolo japonês de perseverança. A colaboração explorou a estética esportiva dos anos 1990 a partir de uma referência cultural ligada ao universo da loja.
2020 — adidas Superstar “Imigrantes”

Criado para os 50 anos do Superstar, homenageou as comunidades imigrantes do Bom Retiro. O nome do bairro apareceu bordado em português, espanhol, hebraico e coreano, em um projeto que transformou a diversidade cultural da região em identidade visual.
2021 — Converse Chuck 70 “Bom Retiro”

O cabedal em patchwork fazia referência aos tecidos e retalhos das confecções do bairro. A colaboração levou um elemento cotidiano da região para um clássico da Converse e também foi distribuída em outros países latino-americanos.
2021 — adidas Forum Mid “Local Legacy”

Integrante de uma iniciativa da adidas ligada ao basquete e às comunidades locais, o projeto reinterpretou o Forum Mid, aproximando a herança esportiva do modelo da cultura de rua.
2021 — FILA Tennis 88 “Romeu & Julieta”

A tradicional sobremesa brasileira de queijo com goiabada inspirou a colaboração, que também brincava com a origem italiana da FILA. O modelo participou das comemorações dos dez anos da Guadalupe.
2021 — adidas Stan Smith “Boto-Cor-de-Rosa”

Inspirado na lenda amazônica do boto-cor-de-rosa, o tênis levou uma referência do folclore brasileiro para uma das silhuetas mais conhecidas da adidas.
2021 — Rider RX e RNext x Guadalupe

A jardinagem urbana orientou os modelos, relacionando natureza e cultivo das relações pessoais. A parceria também ampliou a atuação criativa da Guadalupe para além dos sneakers.
2021 — Guadalupe x Goose Island “Três Rios”

A comemoração dos dez anos também incluiu uma cerveja especial desenvolvida com a Goose Island, batizada em homenagem à Rua Três Rios, onde a loja nasceu. O projeto teve ainda uma ação com Nike Air Force 1 customizados, que não foram vendidos.
2022 — ÖUS Bets Imperial “Xilogravura”

Uma colaboração tripla entre Guadalupe, SneakersBR e ÖUS, com arte original do mestre pernambucano J. Borges. O projeto levou a linguagem da xilogravura e da cultura popular nordestina para um tênis brasileiro.
2022 — New Balance 327 “Sabará”

A jabuticabeira inspirou as cores, texturas e materiais do modelo. A referência ao ciclo da árvore também dialogava com a passagem do tempo e as comemorações de dez anos da loja.
2022 — ASICS GEL-LYTE III “Tropicália”

Com direção criativa de Pedro Andrade, a colaboração buscou referências no Tropicalismo e no álbum Acabou Chorare, dos Novos Baianos. O projeto teve distribuição internacional e conectou um clássico da ASICS a um movimento fundamental da cultura brasileira.
2022 — Rider R-Y Mule x Guadalupe

O endereço da loja voltou a aparecer como inspiração, mais uma vez também por meio de suas coordenadas geográficas, transformadas em elemento gráfico do modelo.
2024 — Oakley Teeth 1 “Cheetah”

A parceria marcou o retorno do Teeth 1, conhecido no Brasil como "Caveirão". O modelo recebeu a estampa Cheetah, anteriormente utilizada pela Oakley em óculos, recuperando uma silhueta que ocupa um lugar particular na memória sneaker brasileira.
2024 — Reebok Club C 85 “Peluquería”

As barbearias bolivianas do Bom Retiro inspiraram a colaboração, com cores ligadas à bandeira da Bolívia e referências aos catálogos de cortes de cabelo desses estabelecimentos. O projeto retomou o interesse pela história das comunidades imigrantes do bairro.
2024 — PUMA Clyde “Cidade Cinza”

Com direção criativa de Pedro Andrade, o Clyde ganhou diferentes tons de cinza, texturas inspiradas na paisagem paulistana e um mapa de São Paulo na sola translúcida. A colaboração teve distribuição global.
2024 — Rider x Guadalupe x Pinacoteca

Desenvolvido em parceria com a Pinacoteca de São Paulo, o projeto buscou referências na arquitetura da Pina Contemporânea. Uma aproximação entre design de calçados, arte e a paisagem urbana do centro paulistano.
2026 — adidas Intimidation Low “Capivara”


O novo projeto parte da capivara para reinterpretar a silhueta de basquete da adidas. O modelo combina tons de marrom, mesh, nobuck sintético e elementos do sistema Feet You Wear. Também ganhou uma versão clara, chamada “Albino”, exclusiva para amigos e parceiros, que não será comercializada.
O que significa entrar para a adidas Consortium?
A adidas Consortium foi criada em 2005 como uma plataforma de colaborações com boutiques, designers e referências criativas do streetwear internacional. Ao longo de sua história, reuniu nomes como Sneakersnstuff, Overkill e Undefeated, lojas que ajudaram a construir a cultura sneaker em seus respectivos mercados. Segundo a adidas, a Guadalupe é a primeira loja latino-americana a desenvolver um projeto dentro dessa linha.
A conquista ajuda a dimensionar uma transformação que já discutimos por aqui: a possibilidade de criadores e negócios brasileiros participarem diretamente do desenvolvimento de produtos que chegam ao mercado internacional. No caso da Guadalupe, esse caminho foi construído por meio de diferentes parcerias, envolvendo marcas, artistas e designers com repertórios próprios.
A escolha da capivara também se conecta a essa trajetória. Apesar de sua popularidade recente na internet, o animal foi escolhido, segundo Pedro Prado, pela possibilidade de apresentar um Brasil menos óbvio. A colaboração levou alguns anos para sair do papel e terá distribuição anunciada em países como Inglaterra, Grécia, Japão, Coreia do Sul, África do Sul e Alemanha, além do Brasil.
Por aqui, o adidas Intimidation Low x Guadalupe chega em 5 de novembro, por R$ 1.199,99, no site da loja e nas unidades do Bom Retiro e do Paraíso, em São Paulo.
Quinze anos depois
A história da Guadalupe acompanha algumas das transformações mais importantes da cultura sneaker brasileira nos últimos 15 anos. De um mercado com acesso bastante limitado a lançamentos internacionais, passamos a um cenário em que lojas locais também participam do desenvolvimento de produtos destinados a outros países. Esse movimento não eliminou as desigualdades de distribuição nem tornou o mercado brasileiro equivalente aos principais centros internacionais, mas ampliou as possibilidades de atuação de seus protagonistas.
O repertório da Guadalupe ajuda a entender esse processo. A loja construiu relações comerciais que abriram caminhos para lançamentos especiais, ao mesmo tempo em que desenvolveu colaborações com referências culturais próprias. E fez isso sem abandonar o Bom Retiro, que continua aparecendo como ponto de partida de projetos criados mais de uma década depois de sua fundação.
O Intimidation Low é o capítulo mais recente dessa trajetória. Sua chegada ao Consortium representa um reconhecimento internacional importante, mas são os projetos acumulados ao longo desses 15 anos que ajudam a compreender como a Guadalupe conquistou esse espaço e por que se tornou uma referência tão particular para a cultura sneaker brasileira.
